

Danielle Steel


TUDO PELA VIDA

http://groups.google.com/group/digitalsource






Traduo de AULYDE SOARES RODRIGUES


4 EDIAO

EDITORA RECORD

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de livros, RJ.

Steel, Danielle
S826t        Tudo pela vida / Danielle Steel ; traduo
4' ed.        Aulyde Soares Rodrigues. - Rio de Janeiro : 4' ed. -Record, 1995.
Traduo de: Mxed blessings


     1. Romance norte-americano. I. Rodrigues, Aulyde Soares. II. Ttulo.


CDD - 813
94-0886        CDU - 820(73)-3
Ttulo original norte-americano MIXED BLESSINGS
Copyright (c) 1994, 1992 by Danielle Steel 
Todos os direitos reservados, inclusive o de reproduo no todo ou em parte.


Agradecimentos especiais ao Dr. Bernard Goreenrrone. u'ELIAM


Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A. 
Rua Argentina 171 -20921-380
Rio de Janeiro, RJ - TeL 585-2000 
que se reserva a propriedade literria desta traduo

Impresso no Brasil

ISBN 85-01-04096-7

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL 

Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       Aos milagres da minha vida: 
       Beatrix, Trevor, Todd, Nick, Samantha, Victoria, Vanessa, Maxx e Zara,
       por toda a alegria e infinitas bnos que me trazem,
       e ao maior milagre de todos... meu nico amor, Popeye,
       com todo meu corao e meu amor,
       
       D. S..
       
       
       Adorado milagre
       
       
       Pequenino milagre de esperana, bno extraordinria,
       o menor dos sonhos, que imenso amor para comear
       as batidas do seu relgio, que imenso choque quando voc se vai, que estranho
       sofrimento, o rugir da dor,
       e ento,
       com sorte,
       ser abenoada novamente, ter, reter,
       dar, partilhar, ousar
       as rochas, as ondas novamente,
       nadar at
       no poder mais, gritar no escuro com um desejo maior do que o cu, murmurar
       docemente, trazer para perto, esperar que os gentis espritos ouam, longa espera,
       noite escura,
       sem ousar respirar, at que dedos pequeninos puxam sua manga, e tocam seu corao
       com ouro, nunca  tarde demais, escuro demais
       para ter um filho para acalentar, milagre da vida,
       o momento mais precioso de todos, murmrios dolorosos, chamado angustioso, 
       at finalmente
       tomar voc
       em meus braos, eternamente amada, imediatamente nossa, adorada maravilha 
       oh to querida.
       
       
       
CAPTULO  - 1 -
       

 O
 cu estava brilhante e azul e o ar quente e parado, quando Diana Goode saiu da limusine com seu pai. O vu cor de marfim suavizava os ngulos acentuados do seu 
rosto e o pesado vestido de cetim farfalhou suavemente quando o motorista a ajudou a descer e arrumou a saia ampla em volta dela. Diana sorriu feliz para o pai, 
na entrada da igreja, e depois fechou os olhos, procurando gravar cada detalhe daquele momento, o mais feliz da sua vida. Tudo estava perfeito.
            - Voc est muito bonita - disse o pai carinhosamente, antes de entrarem na Igreja Episcopal de Pasadena.
            A me fora na frente, em outro carro, com suas irms, os respectivos maridos e filhos. Diana era a tpica filha do meio, sempre se esforando para ser 
a melhor, a mais inteligente, a de maior sucesso na vida. Amava as irms com uma afeio profunda e slida, mas sempre com a sensao de precisar fazer algo mais 
do que elas. 
       No que as irms representassem um padro impossvel de ser igualado. A mais velha, Gayle, fazia o curso preparatrio de medicina, quando conheceu o marido. 
Casaram-se em junho, naquele mesmo ano, e ela logo engravidou. Agora, com vinte e nove anos, tinha trs filhas adorveis. Gayle era dois anos mais velha do que Diana 
e, embora fossem muito amigas, sempre houve uma certa rivalidade entre elas. Eram duas mulheres completamente diferentes. Gayle jamais lamentou ter deixado a medicina. 
Era feliz no casamento e o cuidado da casa, das filhas e do marido a satisfazia. 
       Era a perfeita mulher de mdico, inteligente, bem-informada e compreensiva no que dizia respeito ao trabalho e aos horrios do marido obstetra. Queriam ter 
pelo menos mais um filho, Gayle confidenciara  irm algumas semanas atrs. Jack queria muito ter um menino. A vida de Gayle concentrava-se toda no marido, nas filhas 
e na casa. Ao contrrio das duas irms mais novas, no se sentia atrada pelo mundo profissional.
           De certo modo, Diana era mais parecida com a irm mais nova, Sam. Samantha era ambiciosa, competitiva, entusiasmada pelo mundo fora de casa e, durante 
os dois primeiros anos do casamento, tentou desesperadamente conciliar o casamento e o trabalho. Mas quando nasceu seu segundo filho, treze meses depois do primeiro, 
com apenas dois anos de casada, compreendeu que no podia mais continuar. Deixou o emprego numa galeria de arte em Los Angeles e resolveu ficar em casa, para grande 
satisfao do marido. Durante muitos meses Sam se sentiu frustrada por ter deixado o emprego. Nos dois primeiros anos de casamento, o trabalho de Seamus conquistou 
reconhecimento e admirao e ele aos poucos ia se tornando um dos mais bem-sucedidos artistas jovens de Los Angeles.
       Sam comeou a trabalhar em casa como designer, free-lancer, mas at isso era quase impossvel, sem empregada e com dois filhos pequenos. Ela adorava ficar 
em casa com Seamus e as crianas, seu casamento era perfeito e o casal de filhos tambm. Todos que os conheciam os amavam. Porm, muitas vezes ela invejava a carreira 
de Diana, no mundo dos "adultos", como ela dizia.
       Para Diana, suas irms estavam com a vida decidida. Aparentemente, uma com 25 e outra com 29, tinham tudo que desejavam. Sam sentia-se feliz e  vontade no 
mundo da arte moderna e Gayle tambm estava satisfeita com sua vida como mulher de mdico. Mas Diana sempre quis muito mais do que isso. Estudou em Stanford e depois 
fez o primeiro ano da faculdade na Sorbonne de Paris. Depois de formada, voltou a Paris, onde ficou um ano. Encontrou um apartamento fabuloso na Rua de Grenelle, 
na Margem Esquerda, e durante algum tempo achou que ia ficar ali para sempre. Mas depois de um ano e meio trabalhando para o Paris Match, sentiu saudades dos Estados 
Unidos e da famlia... e, para sua surpresa, especialmente das irms. Gayle acabava de ter seu terceiro filho, Sam estava esperando o primeiro e Diana sentiu que 
queria estar com elas.
       Mas os primeiros meses nos Estados Unidos foram de tortura para ela, e Diana imaginava se havia tomado a deciso certa, perguntando a si mesma se no tinha 
desistido com muita facilidade.
       Paris era fantstica, mas Los Angeles era interessante tambm e quase imediatamente ela conseguiu um timo emprego na Today's Home, uma revista nova e com 
imensas oportunidades. O salrio era bom, o pessoal agradvel, as condies de trabalho magnficas e deram a ela um belo escritrio. Em poucos meses, estava criando 
reportagens, contratando fotgrafos, reescrevendo alguns artigos e viajando para ver casas extraordinrias e locais exticos. Ia uma vez ou outra a Paris e a Londres. 
Fez um nmero da revista no sul da Frana e outro em Gstaad. E,  claro, em Nova York, Palm Beach, Houston, Dallas, So Francisco e outras cidades americanas. Era 
o trabalho perfeito para ela, e os amigos e at mesmo as irms a invejavam. Para quem no sabia o quanto era rduo, parecia o mximo da sofisticao. Essa era tambm 
a opinio de Diana.
       Logo depois que comeou a trabalhar na revista, Diana conheceu Andy numa festa para a imprensa. Conversaram durante seis horas seguidas num pequeno restaurante 
italiano, na primeira noite, e depois disso, antes mesmo que ela tivesse tempo para respirar, Andy a convidou para morar com ele. Diana levou seis meses para resolver, 
temendo perder sua independncia. Mas era louca por ele, Andy sabia disso e retribua na mesma moeda. O relacionamento era perfeito. Pareciam realmente feitos um 
para o outro. Andy era alto, bonito e louro, ex-campeo de tnis de Yale, pertencia a uma famlia antiga e respeitada de Nova York e naquela poca estava estudando 
direito na Universidade de Los Angeles. Logo depois de formado, entrou para o departamento jurdico de uma importante rede de emissoras de TV Andy gostava do que 
fazia, e seu trabalho, bem como as pessoas que ele conhecia fascinavam Diana. Ele era conselheiro jurdico de vrios shows e a firma estava satisfeita com seu modo 
eficiente de conduzir os mais complexos contratos.
       Diana adorava ir com ele s reunies de negcios para conhecer as estrelas e conversar com outros advogados, grandes produtores e agentes. Era um ambiente 
eletrizante, mas Andy o enfrentava com calma e sensatez. Tinha uma boa cabea, mente brilhante e raramente se impressionava com o charme do mundo em que trabalhava 
Pretendia, mais tarde, abrir uma firma especializada em direito no campo de diverses e espetculos. Mas sabia que era cedo ainda e dava valor  experincia que 
estava adquirindo. Andy sabia exatamente para onde estava indo e o que queria da vida. Sua carreira estava planejada h muito tempo e, quando Diana entrou em sua 
vida, no precisou mais do que alguns dias para saber que ela era a mulher que queria para casar e para ser a me dos seus filhos. Eles riram quando descobriram 
que ambos queriam quatro filhos. Andy tinha trs irmos, dois dos quais eram gmeos idnticos e Diana imaginava se teria gmeos tambm. Falavam muito sobre os filhos 
que teriam e Diana concluiu que o descuido ocasional na vida sexual dos dois era devido ao desejo de tentar a sorte para que ela engravidasse. No ficariam aborrecidos 
se ela ficasse grvida e precisassem casar mais cedo do que planejavam. Poucos meses depois de se conhecerem falavam abertamente sobre os planos de casamento e o 
que pretendiam a longo prazo.
       Moravam juntos num apartamento pequeno, mas muito bonito em Beverly Hills. Tinham os mesmos gostos e haviam at comprado dois quadros de Seamus. Com os salrios 
dos dois, podiam ter coisas muito boas. A decorao do apartamento seguia um estilo moderno e discreto, e todo o dinheiro excedente era gasto em objetos de arte. 
Algum dia comeariam uma coleo de objetos valiosos, mas isso ainda no era possvel, e eles compravam o que podiam, deleitando-se com cada objeto adquirido.
       Mas o que realmente a encantava era o relacionamento de Andy com seus pais e com suas irms e cunhados. Jack e Seamus eram duas pessoas completamente diferentes 
e Andy gostava de ambos e freqentemente almoava com eles, quando no tinha um almoo de negcios na firma. Parecia to  vontade no mundo artstico de Seamus quanto 
no mundo cientfico de Jack e conversavam sobre as mais recentes pesquisas cientficas e sobre investimentos. Andrew Douglas era um homem adorvel e tudo no seu 
relacionamento deslumbrava Diana. Ao fim do primeiro ano foram juntos  Europa e depois de visitaremos lugares favoritos de Diana, em Paris, foram ao vale do Loire. 
       Em seguida, visitaram Nick, o irmo mais moo de Andy, que estava passando um ano na Esccia. Era uma vida perfeita e, ao voltarem, comearam sem pressa os 
preparativos para o casamento, no prximo vero. Ficaram noivos dezoito meses depois de se conhecerem, marcaram a data do casamento para oito meses depois, em junho, 
e resolveram voltar  Europa para a lua-de-mel, indo dessa vez ao sul da Frana, Itlia e Espanha. Os dois conseguiram trs semanas de frias dos seus empregos.
       Procuraram casa em Brentwood, Westwood e Santa Monica, e chegaram a pensar em Malibu, apesar de ser fora da cidade. Mas em maro encontraram a casa perfeita 
em Pacific Palisades. Uma residncia amada e muito bem cuidada por uma grande famlia, durante anos, e agora, com os filhos casados, o casal relutava ainda em vender. 
Andy e Diana apaixonaram-se pela casa.  Era grande, com cmodos espaosos, lambris nas paredes e rvores maravilhosas e um enorme jardim onde as crianas poderiam 
brincar. Tinha um magnfico quarto de dormir no segundo andar e um escritrio para cada um, bem como um belo quarto de hspedes. No terceiro andar havia quatro imensos 
quartos para crianas.
       Fecharam o negcio em maio e Andy se mudou para a casa trs semanas antes do casamento. Na vspera, quando os pais dela ofereceram um jantar no Bistr, em 
Beverly Hills, a casa estava ainda cheia de caixas e caixotes e as malas para a lua-de-mel j prontas no hall de entrada. Ela no quis passar com ele a noite anterior 
ao casamento e dormiu na casa dos pais, no seu quarto de menina. De manh, quando acordou, ficou um longo tempo deitada, olhando para o papel de parede desbotado 
rosa e azul, que conhecia to bem. Era estranho pensar que dentro de algumas horas seria outra pessoa, a esposa de algum... o que isso significava? Quem seria ento? 
Seria diferente de apenas morar com ele? Andy iria mudar? E ela? De repente, tudo pareceu quase amedrontador. Pensou nas irms, nos homens com quem tinham casado. 
       Sim, elas haviam mudado, sutilmente a princpio, depois de forma mais definida, e agora pareciam uma unidade  parte, com os maridos e os filhos. As trs 
continuavam unidas, mas de certa forma o relacionamento era um pouco diferente. Era estranho tambm pensar que, dentro de um ano, ela talvez tivesse seu primeiro 
filho. Sentiu um frio no estmago. Fazer amor com Andy era maravilhoso, mas a idia de que esse amor podia gerar fruto era mais extraordinria ainda. Ela o amava 
tanto e adorava pensar em ter filhos com ele.
            Diana levantou no dia do seu casamento sorrindo feliz, pensando em Andy e na vida que iriam partilhar. Desceu para tomar tranqilamente uma xcara de 
caf, antes que os outros acordassem. Logo sua me desceu tambm e, meia hora depois, chegaram as irms e os filhos para se vestir ali e ajudar Diana a se preparar. 
Os maridos, que se encarregariam de receber os convidados, tinham ficado em casa. As trs meninas de Gayle e a de Sam seriam as damas de honra, e o filho de Sam 
o pajem, levando os anis. Tinha s dois anos e estava uma graa com o terninho de seda branca escolhido por Diana. Ela e as irms ficaram com os olhos marejados 
de lgrimas quando o viram vestido.
            A me de Diana havia contratado uma bab para tomar conta das crianas enquanto as mes se vestiam. "Uma atitude tpica da mame", observou Gayle com 
um sorriso, erguendo uma sobrancelha. A me sempre pensava em tudo, preparava-se para qualquer contingncia e era to organizada que, j em junho, comeava a telefonar 
para saber quais eram os planos das filhas para o Dia de Ao de Graas. Fora uma verdadeira ddiva dos cus para Diana na organizao do casamento. Diana, assoberbada 
de trabalho na revista, mal teve tempo para provar o vestido, mas sabia que, sob a orientao da me, tudo sairia s mil maravilhas. As irms estavam lindas com 
os vestidos de seda cor de pssego, levando nas mos rosas da mesma cor. E as meninas belas e delicadas vestidas de branco, com faixas largas cor de pssego na cintura, 
levando nas mozinhas enluvadas os cestinhos cheios de ptalas de rosas. Quando a me e as irms saram para a igreja, Diana ficou conversando com o pai, naqueles 
ltimos momentos, cheios de ansiedade, antes da cerimnia.
       - Voc est linda, minha querida - disse ele, comum sorriso feliz. 
       O pai fora sempre muito amigo, muito bondoso e muito orgulhoso dela. Diana no tinha nenhuma queixa dos pais. Nunca houve segredos entre eles, exigncias 
absurdas, animosidades, nem mesmo durante sua adolescncia. Gayle teve mais dificuldades e seu quinho de discusses violentas com a me. Mas Gayle era a primeira 
filha e "eu os estava amansando", explicava ela. Para Diana, os pais sempre pareceram razoveis e Samantha concordava com ela, quase inteiramente, embora a princpio 
tivessem demonstrado certas dvidas quanto ao seu casamento com um artista. Mas agora gostavam de Seamus e o respeitavam. Seamus era sem dvida diferente, mas era 
impossvel no gostar dele.
       Quanto a Andrew Douglas no tiveram nunca a menor reserva. Era um homem adorvel e sabiam que Diana seria muito feliz com ele.
       - Assustada? - perguntou o pai.
       Diana deu alguns passos na sala, enquanto esperava a limusine que a levaria  igreja. Tinham ainda algum tempo e de repente ela desejou que tudo j tivesse 
terminado, que ela e Andy j estivessem em Bel Air,naquela noite, ou no avio para Paris, na manh seguinte.
       - Um pouco - respondeu ela, com um sorriso quase infantil. O cabelo arruivado e longo estava preso sob o vu, o que a fazia parecer extremamente sofisticada 
e ao mesmo tempo muito jovem. Diana estava acostumada a contar ao pai o que ela sentia, a partilhar com ele suas alegrias e seus temores. Mas no sentia nenhum temor 
importante agora, queria apenas a resposta a algumas perguntas. - Eu gostaria de saber se vai ser diferente agora... quero dizer, com o casamento... voc sabe, diferente 
de morar juntos... - Suspirou e sorriu outra vez. - Tudo parece to adulto, no acha? - Com vinte e sete anos, sentia-se muito jovem, e, s vezes, muito velha. Mas 
parecia uma boa idade para casar, especialmente com um homem a quem amava tanto.
       -  um ato de adultos - disse o pai, com um sorriso, beijando-a carinhosamente na testa. Era um homem alto, de aparncia distinta, com cabelos brancos e olhos 
azuis e intensos. Conhecia muito bem a filha e gostava da mulher que ela era agora, bem como do homem com quem iria se casar. Tinha certeza de que daria certo. No 
temia por Andrew e Diana. Se a vida fosse bondosa para eles, iriam longe, e ele desejava o melhor para os dois. - Voc est pronta para o casamento e ele  um bom 
homem. Nada vai dar errado, querida. E sempre estaremos aqui para voc... e para Andy. Quero que saibam disso.
       - Eu sei. - Com lgrimas nos olhos, Diana olhou para o lado. Estava to comovida por deixar o pai e aquela casa, embora h algum tempo j no estivesse morando 
ali. De certo modo, era mais difcil deix-lo do que a me, que era muito ativa e prtica e preocupada em evitar que as crianas pisassem no vu de Diana antes de 
sarem para a igreja. Mas agora, ali sozinha com o pai, nada mais ocupava sua mente, a no ser amor e esperana, e uma avalanche de sentimentos.
          - Vamos, menina- disse ele, finalmente, com voz autoritria, mas carinhosa. - Precisamos ir a um casamento - Com um largo sorriso, ofereceu o brao  filha 
e o chofer a ajudou a entrar na limusine, ajeitando a cauda do vestido e o vu.
       Diana sentou-se no banco de trs com o buqu de flores na mo, o vestido ocupando todo o banco, e, quando o carro partiu, sobressaltou-se com o grupo de crianas 
que acenava e apontava para ela. "Olhem!... Olhem!... Uma noiva!..." 
       Era divertido e excitante pensar que a noiva era ela. Sentindo o corao disparar dentro do peito, Diana ajustou o vu, o corpete de renda e as enormes mangas 
de cetim do vestido, um modelo muito vitoriano e extremamente formal.
       Teriam trezentos convidados na recepo no Country Club. Todos estariam presentes, os amigos dos pais da noiva, parentes distantes, seus conhecidos da revista, 
os amigos de Andy e vrios conhecidos da rede de emissoras em que trabalhava, alm de alguns astros cujos contratos ele havia feito. Seus pais e os trs irmos estariam 
tambm presentes. Nick, que j deixara a Esccia e estava trabalhando em Londres, e Greg e Alex, os gmeos, que estudavam administrao em Harvard. Andy tinha trinta 
e dois anos e sempre fora o heri dos gmeos, seis anos mais novos. Eram loucos por Diana e ela estava pensando em convid-los para passar as frias com eles, ou 
at mesmo convenc-los a mudarem para a Califrnia. Mas, ao contrrio de Andy, os trs irmos preferiam a costa leste e Greg e Alex pretendiam trabalhar em Nova 
York, Boston, ou at mesmo em Londres, como Nick.
       "No somos deslumbrados por estrelas, como Andy", disse Nick, em tom de brincadeira, no jantar da noite anterior. Mas era evidente que admiravam o sucesso 
do irmo e a mulher que ele havia escolhido. Os trs orgulhavam-se muito do irmo mais velho.
       Do lado de fora da igreja, Diana ouviu o rgo. Com um pequeno estremecimento, passou o brao sob o do pai. Ergueu os olhos de um azul eltrico, iguais aos 
dele, e, quando comearam a subir os degraus da igreja, apertou carinhosamente a mo do pai.
          - L vamos ns, papai - murmurou ela.
            - Tudo vai dar certo - assegurou ele, como havia feito na noite em que ela representara uma pea na escola pela primeira vez... e quando ela cara da 
bicicleta e quebrara o brao, aos nove anos, e ele a levara para o hospital, contando histrias engraadas, e depois a abraara amorosamente enquanto os mdicos 
tratavam da fratura.  - Voc  uma mulher maravilhosa e vai ser uma tima esposa - disse ele, quando pararam diante da porta principal, esperando o sinal dos irmos 
de Andy, encarregados do ritmo da cerimnia. 
       - Papai, eu amo voc - murmurou Diana, nervosa.
       - Eu tambm a amo, Diana - inclinou-se e a beijou de leve, por cima do vu, sentindo o perfume forte das rosas.
        Ambos sabiam que iriam lembrar para sempre aquele momento. 
       - Deus a abenoe-murmurou o pai quando as irms de Diana comearam a caminhar pelo corredor central da igreja, acompanhadas por trs amigas da noiva, tambm 
com vestidos cor de pssego e chapus de organza, seguidas por uma fila de crianas adorveis. Depois de uma longa pausa, durante a qual a msica subiu num crescendo, 
lentamente, graciosa e rgia, ela se adiantou, a jovem rainha, caminhando ao encontro do seu consorte, com o vestido de cetim branco, a cintura fina e os belos enfeites 
de renda marfim. O vu parecia envolv-la numa nvoa suave, e sob ele os convidados viam o cabelo escuro e brilhante, a pele acetinada, os olhos azuis, o sorriso 
nervoso e discreto, e ento Diana ergueu os olhos e o viu, alto e belo e louro  sua espera. A promessa de uma vida.
          Andrew olhou para ela encantado e comovido. Diana era uma viso deslizando lentamente pelo corredor da igreja, sobre o tapete branco acetinado. Ento, 
segurando o buqu com mos trmulas, ela parou diante dele.
          Andy apertou a mo dela carinhosamente e o sacerdote dirigiu-se aos convidados, lembrando por que estavam ali, da sua responsabilidade de parentes e amigos 
no sentido de dar apoio ao novo casal no cumprimento dos seus votos, na riqueza e na pobreza, na sade e na doena, at que a morte os separasse. Lembrou Andrew 
e Diana que o caminho nem sempre seria suave, que o destino nem sempre seria bondoso, mas que deviam estar sempre ali, um para o outro, fortes no seu amor mtuo 
e no amor a Deus.
       Fizeram os votos com voz alta e clara, e as mos de Diana no tremiam mais. Ela estava com Andy. No lugar que lhe pertencia. E nunca fora to feliz em toda 
sua vida. 
       Soma quando o sacerdote os declarou marido e mulher. A aliana fina refletia a luz do sol e quando Andy se inclinou para beij-la, o amor nos olhos dele era 
to repleto de ternura que at a me de Diana afinal chorou. Seu pai j havia chorado muito antes, quando a deixou no altar, ao lado do homem que ela amava. Sabia 
que nada jamais seria igual entre ele e a filha... agora ela pertencia a outra pessoa.
       Saram da igreja radiantes e orgulhosos, e sorrindo felizes entraram no carro que os levaria  recepo no clube. Depois disso, todos danaram at as seis 
horas. 
       Era como se todas as pessoas que ela conhecia estivessem ali, pensou Diana, alm das que no conhecia. No fim da tarde, havia danado com quase todos os presentes, 
e ela, Andy, suas irms e os irmos dele haviam danado o limbo numa alegria descontrada. Os dois gmeos tiveram de danar com Samantha, uma vez que havia trs 
rapazes, Douglas e s trs irms Goode, mas Sam adorou. Ela era s um ano mais nova do que os gmeos e, no fim da recepo,  j eram grandes amigos. Diana notou 
satisfeita o grande nmero de companheiros de trabalho de Andy que havia comparecido, at o presidente com a mulher, embora no tivessem demorado muito, mas no 
deixou de ser uma delicadeza e o editor-chefe do Today's Home danou vrias vezes com Diana e com sua me.
       A tarde estava linda, um dia perfeito, o comeo da vida com que ela sempre sonhara. Tudo corna s mil maravilhas. Andy entrou na sua vida no momento certo, 
tinham sido felizes durante dois anos e meio e agora parecia a hora ideal para se casarem. Sentiam-se seguros individualmente e como um casal e sabiam o que desejavam 
da vida. Queriam estar juntos, partilhar suas vidas e construir uma famlia. Tinham tanto para dar um ao outro, tanto para partilhar. Antes de sair para trocar de 
roupa, Diana olhou para Andy e pensou que talvez tudo fosse perfeito demais. Detestava a idia de tirar o vestido de noiva, de nunca mais us-lo, transformar a realidade 
em lembrana. Queria que aquele momento jamais acabasse.
       - Voc est incrvel - murmurou Andy, levando-a para a pista de dana, para mais uma valsa antes de sarem para comear a nova vida. - Eu queria que o dia 
de hoje nunca acabasse - disse Diana, fechando os olhos e pensando em como tudo fora maravilhoso.
       - No vai acabar - murmurou Andy, puxando-a mais para ele. - No vou deixar que acabe. Ser sempre assim, Diana... Temos de nos lembrar disso, quando tivermos 
alguma dificuldade...
       -  um aviso? - perguntou ela, sorrindo e olhando para ele - Vai comear a fazer as coisas duras para mim a partir de agora?
       - Muito duras - abraou-a com mais fora, e Diana riu com ele do duplo sentido da frase.
       - Voc devia ter vergonha - disse ela.
       - Eu devia ter vergonha? Quem me deixou sozinho e voltou para a casa dos pais para ser uma virgem?
       - Uma noite! Andy!
       - No foi uma noite... foi mais tempo... eu sei. - Encostou o rosto no dela e Diana tocou o pescoo dele delicadamente.
       - Foi uma noite...
       - Voc vai ter de compensar durante semanas, a comear - olhou para o relgio - daqui a mais ou menos meia hora. - A msica acabou e Andy olhou ternamente 
para ela. - Est pronta?
       Diana fez que sim com uma inclinao da cabea, com pena de deixar a festa do seu casamento, mas estava na hora, passava das seis e eles estavam cansados.
       As damas de honra a acompanharam quando ela subiu para trocar de roupa. Diana tirou lentamente o vestido de cetim e o vu. Sua me dependurou tudo em cabides 
almofadados especiais e ficou observando as filhas com um sorriso feliz. Ela as amava mais do que tudo no mundo. Trouxeram felicidade  sua vida e agora estava satisfeita 
por  v-las casadas e felizes.
       Diana vestiu o tailleur Chanel de seda marfim, escolhido por ela e pela me. Era debruado de azul-marinho, com uma bolsa combinando e grandes botes de prola. 
O chapu era creme e Diana desceu, maravilhosamente elegante, para encontrar o marido, carregando um grande buqu de rosas brancas.
       Os olhos dele brilharam quando ela voltou ao salo. Diana atirou o buqu e Andy atirou a liga dela. Sob uma chuva de arroz e ptalas de rosa, correram para 
o carro, depois de se despedirem com beijos dos pais e dos irmos. Prometeram telefonar e Diana agradeceu especialmente os seus pais pela bela festa. Ento partiram, 
numa longa limusine branca, a caminho do Hotel Bel Air para a noite de npcias, na grande sute que dava para os belos jardins do hotel.
       Andy a abraou e os dois deram um suspiro de alvio e de cansao. 
       - Ufa! Que dia! - disse ele, recostando-se no banco e olhando para ela. - Voc foi uma noiva belssima! 
       Era estranho pensar que estava tudo acabado.
       - Voc tambm estava maravilhoso. - Sorriu para ele. - A cerimnia foi linda.
       - Voc e sua me fizeram um trabalho magnfico. Todos os meus amigos da emissora disseram que estava melhor do que qualquer cenrio de filme. - A cerimnia 
e a festa foram repletas de amor, de felicidade e de amigos, mas fora tambm um show. - Suas irms estavam timas. Vocs saem mesmo do srio quando esto juntas, 
no  mesmo? - disse ele brincando e Diana fingiu ofender-se.
       - Ns! Ns samos do srio? Na minha opinio, os Douglas tambm no ficam atrs. Vocs estavam escandalosos!
       - No diga bobagens - disse Andy, fazendo pose, fingindo que olhava pela janela, e sua mulher o empurrou, quase derrubando-o.
       - Est brincando? Desculpe-me, mas est lembrado de quando vocs quatro danaram o boogaloo com minha me?
            - No, no me lembro disso. - Andy era todo inocncia e os dois riram. - Voc est bbado.
            -  possvel. - Andy a abraou e beijou. Quando finalmente ergueu a cabea, os dois estavam sem ar. - Deus... desejei fazer isso o dia todo. Mal posso 
esperar para chegar ao hotel e arrancar essa sua roupa toda.
       - Meu tailleur novo? - perguntou ela, horrorizada, e Andy riu. - E o chapu. Devo dizer que  tambm muito lindo.
       - Obrigada.
       De mos dadas, era como se estivessem comeando a se amar novamente. De certo modo, era como comear, exceto pelo fato de que eram velhos amigos e tudo que 
faziam era abenoado pelo amor que os unia.
       Quando chegaram ao hotel, o recepcionista os acompanhou no caminho que levava ao prdio principal e Andy e Diana entreolharam-se sorrindo quando viram as 
indicaes para a recepo do casamento Mason-Winwood.
       - Deve ser um grande dia- disse ele e Diana sorriu.
       Olharam para os jardins, para os cisnes e ficaram encantados com a sute que ficava no segundo andar e tinha uma ampla sala de estar, uma pequena cozinha 
e um quarto de dormir fabuloso, todo decorado com um tecido francs estampado de flores e cetim cor-de-rosa. Parecia o lugar ideal para a noite de npcias; a sala 
tinha uma lareira e Andy esperava que fizesse frio durante a noite para ter oportunidade de acender o fogo.
       -  lindo - disse Diana, quando o carregador saiu, a porta fechando-se atrs dele.
       - Voc tambm  linda. - Andy tirou o chapu dela e o jogou sobre a mesa. Ento, soltou o cabelo de Diana e o acariciou ternamente, enquanto ele caa sobre 
os ombros dela. - Voc  a mulher mais bonita que eu j vi... e  minha... para sempre, sempre e sempre... - Parecia uma criana narrando um conto de fadas, mas 
era isso que acabavam de prometer: e o noivo e a noiva viveram felizes para sempre.
       - E voc  meu - lembrou ela, mas Andy no precisava ser lembrado e no fazia nenhuma objeo.
       O elegante tailleur Chanel foi desabotoado rapidamente enquanto se beijavam, o blazer caiu no cho quando ele a deitou no sof e logo depois a roupa dele 
seguiu o mesmo caminho. Com os corpos jovens e firmes enlaados eles se descobriram pela primeira vez como marido e mulher. Toda a paixo, todas as promessas uniram-se 
naquele momento de abandono e Diana apertou o corpo contra o dele como se no quisesse nunca mais deix-lo sair dos seus braos. O xtase cresceu, o estremecimento 
de prazer percorreu seus corpos e ficaram abraados tranqilamente muito depois que tudo acabou. O sol do fim do dia estendeu os dedos longos e alaranjados no cho 
do quarto, enquanto os dois, muito unidos, pensavam na vida que iam comear.
       - Nunca fui to feliz em toda a minha vida - disse ele, suavemente. - Espero que seja feliz para sempre - murmurou ela. - Espero fazer voc feliz durante 
toda a nossa vida.
       - Espero que possamos nos fazer mutuamente felizes - acrescentou ele, levantando-se e caminhando at a janela.
       Os cisnes brancos e negros deslizavam no pequeno lago e o gramado brilhava aos ltimos raios do sol. Jovens com roupas de cores vivas apressavam-se para uma 
parte do hotel fora do alcance de sua viso, de onde vinham os acordes de msica para danar.
       - Deve ser o casamento dos Mason-Winwood - disse Diana, com um sorriso, ainda deitada, e de repente desejou que tivessem feito um filho. At ento tinham 
tomado precaues, mas agora no havia mais razo para isso. Concordaram em no mais torn-las, depois do casamento, para ver o que acontecia. Suas duas irms engravidaram 
durante a lua-de-mel e Diana estava quase certa de que o mesmo aconteceria com ela.
       Levantou-se depois de alguns minutos e ficou de p ao lado dele, na janela. Viram uma jovem vestida de noiva, com um vu curto e um pequeno buqu de flores 
na mo, correndo para o hotel, acompanhada por uma moa vestida de vermelho, provavelmente sua dama de honra. A noiva parecia ter a idade de Diana, uma "loura de 
cabeleireiro", atraente, sensual, num vestido um tanto pomposo, mas no caro. A expresso do seu rosto e a pressa com que corria, porm, comoveram os recm-casados. 
Sabiam muito bem o que ela estava sentindo e seus coraes desejaram a ela toda a felicidade...
       
* * *
       
       - Barbie, venha! - chamou Judi, a jovem de vestido vermelho, quando Barbara tropeou e quase caiu com os sapatos de cetim branco de salto alto, comprados 
na Payless naquela manh. - Cuidado, acalme-se, menina... -Judi estendeu a mo para evitar que ela casse e Barbara parou e respirou fundo, ainda fora da vista dos 
convidados. 
       Judi acenou para o padrinho do noivo e perguntou, s com um movimento dos lbios: -Est na hora?
            Ele abanou a cabea e ergueu a mo aberta: cinco minutos. Judi e Barbara eram amigas, embora no de muito tempo. Eram atrizes e tinham chegado no ano 
anterior a Los Angeles, vindas de Las Vegas, onde eram danarinas. Para economizar o pouco que ganhavam, resolveram morar juntas.
       Judi havia conseguido algum trabalho como modelo tambm e quase fora escolhida para aparecer brevemente num comercial de televiso. Barbie danara no corpo 
de baile da reencenao de Oklahoma 1, quando o musical passou pela cidade, e havia tentado inutilmente um lugar em todas as novelas de horrio diurno. Assim como 
Judi, passava o resto do tempo trabalhando como garonete. Logo que chegou a Los Angeles conseguiu para as duas um bom emprego no Hard Rock Caf. E foi no Hard Rock 
que conheceram Charlie.
       Primeiro ele saiu com Judi, mas ambos se detestaram, no tendo nada para dizer um ao outro, e ele comeou a procurar Barbie. Durante algum tempo, ele almoava 
no Hard Rock quase diariamente, at arranjar coragem para convid-la para sair. Fora mais fcil convidar Judi - ela era muito mais acessvel, muito mais descontrada 
, mas, para Charlie, Barbie era especial.
           Comearam a sair juntos e, na quarta vez, Charlie j estava completamente apaixonado e morrendo de medo de dizer isso a ela. Chegou a deixar de v-Ia 
por algum tempo, mas no conseguiu continuar. Telefonou para Judi dizendo que precisava falar com ela. Queria conselho e saber o que Barbie pensava dele.
       - Ela  louca por voc, seu bobo.
       Judi no entendia como um homem de 29 anos podia ser to ingnuo. Ela e Barbie jamais haviam conhecido algum como Charlie. No era bonito, mas era "engraadinho", 
de um modo quase infantil, e to inocente e sincero.
       - Por que voc acha que ela gosta de mim? Ela disse alguma coisa? - perguntou Charlie, desconfiado, mas ela riu outra vez.
       - Porque eu a conheo melhor do que voc. 
       Judi sabia que Barbie gostava do modo carinhoso dele, da sua generosidade e dizia que ele a havia levado a alguns lugares muito interessantes. Charlie ganhava 
bem como representante de uma fbrica de tecidos, tirava uma boa comisso, gostava de levar as moas a bons restaurantes e vivia muito bem para um homem solteiro. 
       As coisas mais agradveis da vida eram importantes para Charlie. Sua infncia em Nova Jersey fora extremamente pobre e a boa vida e o conforto significavam 
muito para ele. Trabalhava arduamente e merecia o que ganhava.
            - Ela achaque voc  um cara formidvel - disse Judi, imaginando se devia ter se esforado mais um pouco para gostar dele, mas definitivamente ele no 
era o seu tipo. Ela gostava de agitao e Charlie era por demais controlado e com os ps na terra. Era um bom homem, mas Judi preferia os mais ousados. Queria uma 
vida muito divertida, movimentada e rica, e Charlie a entediava. Mas Barbara era diferente. Judi sabia que ela vinha de uma cidade pequena. 
       Quando terminou o ginsio, Barbie havia ganhado todos os concursos da "garota mais isto ou aquilo da cidade", teve ento um desentendimento com os pais e 
fugiu para Las Vegas. H muito tempo ela pensava em ir para Nova York, mas ficava longe demais de Salt Lake e Las;Vegas era mais perto. Porm, apesar dos homens 
que conheceu e da vida dura, havia algo de decente e puro em Barbie, e por isso Charlie a amava. Ela gostava dele tambm, especialmente porque a fazia lembrar-se 
de alguns rapazes da sua cidade e porque achava repousante sua ingenuidade. Ele era bem diferente dos homens que havia conhecido em Las Vegas e em Los Angeles e 
que pareciam esperar tudo de uma mulher: dinheiro, sexo e mais alguma coisa. Charlie queria apenas estar com ela e era difcil no gostar disso. Tinha boa aparncia, 
embora no fosse nada de excepcional. Era ruivo, tinha olhos azuis e o corpo todo coberto de sardas. Havia nele algo do amiguinho de infncia, uma caracterstica 
atraente para muitas mulheres e que tambm comovia Barbie. s vezes ela pensava que Charlie podia ser a soluo de muitos problemas.
       - Por que voc no diz o que acha dela? - sugeriu Judi e ento, trs semanas depois de comearem a sair juntos, ficaram noivos. E, seis meses depois, Barbie 
encontrava-se de p, atrs de um arbusto no jardim do Bel Air Hotel, esperando pelo sinal para comear seu casamento.
       - Voc est bem? - perguntou Judi, olhando para Barbie que, nervosa, apoiava o corpo ora num p, ora no outro, como um cavalo de corrida assustado.
       - Acho que vou vomitar.
       - No se atreva! Levei duas horas para arrumar seu cabelo debaixo desse vu... Eu te mato!
       - Est bem, est bem... Cristo, Judi, sou velha demais para isto. Com trinta anos, Barbara s vezes tinha a impresso de ser mil anos mais velha do que Charlie 
e no apenas um. Mas com pouca maquiagem e com o cabelo preso, parecia mais jovem. Porm, era mais vivida e mais experiente. S Charlie via a sua doura e pureza 
sob a superfcie. S ele era capaz de alcanar uma parte da sua alma que Barbara julgava morta para sempre. Charlie a convidava para jantares preparados por ele 
no seu apartamento, davam longos passeios e ele falava em conhecer a sua famlia, mas Barbara balanava a cabea e nunca respondia s perguntas sobre seus pais. 
       No gostava de falar no assunto e dizia que jamais voltaria a Salt Lake City, mas nunca explicou por qu. Ficou furiosa quando dois missionrios mrmons apareceram 
no apartamento onde ela morava com Judi, tentando convenc-la a voltar para a igreja e para Salt Lake City. Barbara bateu a porta na cara deles, gritando que no 
queria que a procurassem nunca mais. No queria nada que a fizesse lembrar de Salt Lake City. Charlie s sabia que Barbara tinha oito irmos e uns vinte sobrinhos 
e sobrinhas, mas era evidente que alguma outra coisa, alm de tdio, tinha feito com que ela abandonasse a famlia.
       Charlie falava abertamente sobre seu passado. Quando nasceu, fora abandonado numa estao de trem, dizia sua ficha, e fora educado em vrios orfanatos estaduais 
de Nova Jersey. Esteve em vrios lares provisrios e duas vezes foi considerado para adoo, mas era uma criana nervosa, alrgica, com problemas de pele e, aos 
cinco anos, comeou a ter acessos de asma. Tudo isso foi superado pomo tempo e a asma, depois de alguns anos, estava sob controle, mas ento Charlie j  tinha muita 
idade para ser adotado. Onze anos atrs, quando completou dezoito, saiu do orfanato e tomou um nibus para Los Angeles, onde estava at agora. Trabalhou e estudou 
 noite e seu sonho era estudar administrao na universidade, o que significaria um emprego melhor para sustentar a famlia que queria construir. Para ele, conhecer 
Barbie foi como a realizao de um sonho. Tudo que desejava agora era casar, dar a ela um lar e ter muitos filhos parecidos com ela. Quando Charlie disse isso, Barbara 
riu.
       -- Seria muito melhor que se parecessem com voc!
       Barbara era bonita, tinha um belo corpo, mas nunca se importou muito com isso at conhecer Charlie. Ele era to bom, to protetor, to diferente de todos 
os homens que conhecera, mas, mesmo assim, s vezes Barbara desejava que fosse tambm um pouco mais interessante. Quando chegou a Los Angeles, ela pensava em namorar 
um ator, de preferncia famoso, e acabou com Charlie. Uma vez ou outra perguntava a si mesma se no devia esperar o prncipe dos seus sonhos ou, pelo menos, o ator 
famoso. Levou Charlie para comprar roupas, tentando fazer com que ele se interessasse por algo mais moderno, mas, no fim, concordou que no combinava com ele. Charlie 
era o tipo de homem que s fica bem com roupas simples. Seu cabelo ficava todo arrepiado quando o deixava crescer, por isso ele o usava bem curto e, quando tomava 
sol, no ficava bronzeado, mas queimado e cheio de bolhas.
       - No sou o tipo sofisticado, voc compreende... - explicou ele certa vez, quando jantavam no seu apartamento. Naquela noite tinha preparado sua especialidade: 
caneloni e ossobuco, acompanhados por uma salada verde. Charlie contou que aprendeu a fazer aquele prato num dos seus lares adotivos, o que a comoveu. 
       Em certos momentos, Barbara sentia que o amava de verdade, mas s vezes no tinha tanta certeza, o que a preocupava. Charlie seria o homem certo para ela? 
Ou era apenas generoso, bom e conveniente? Sabia que ele jamais a faria sofrer. Mas tambm jamais teriam uma vida movimentada e excitante.
       Nada em sua vida era definido, as escolhas eram sempre difceis, os preos a pagar altos demais, os riscos muito grandes... exceto com Charlie. Ele oferecia 
tudo, tudo que ela desejava anos atrs... ou que deveria desejar agora. segurana, um bom lugar para viver, um bom homem para tomar conta dela, nenhuma preocupao, 
nenhuma dor de cabea, nenhum temor de no poder pagar o aluguel, nem o pavor de que as coisas fossem de mau a pior e ela tivesse de trabalhar como corista outra 
vez. O que Barbara realmente queria era uma carneira de atriz e os agentes com quem conversara garantiam que ela tinha talento para isso. S6 precisava de uma brecha, 
uma boa oportunidade. No tinha certeza se Charlie aceitaria isso. Casando com ele, poderia continuar trabalhando? Ele faria oposio  sua carreira? Charlie dizia 
que no, mas tambm estava sempre falando em ter filhos, o que no constava dos planos dela, no com ele, no ainda, talvez nunca. Nunca disse isso a ele, mas e 
se aparecesse uma boa oportunidade? Se conseguisse um bom papel num filme importante? O que iria fazer com sua vida? Mas e se a oportunidade no chegasse... pelo 
menos no precisaria trabalhar como garonete. Alm disso, talvez estivesse vendo as coisas de um ngulo errado. s vezes era dominada por um sentimento de culpa, 
mas precisava pensar na prpria vida, uma lio aprendida h muitos anos, no seio da sua famlia. Tinha aprendido muita coisa com os pais e irmos, coisas que no 
queria ter de aprender outra vez, que no queria lembrar. 
       Era difcil no se deixar arrebatar pela constncia de Charlie, sua adorao, sua devoo, sua decncia pura e simples e, no fim, Barbie resolveu que o amava 
de verdade. Mas agora, ali parada, o medo a dominou outra vez. E se estivesse cometendo um engano terrvel? Se, dentro de dois anos, eles comeassem a se odiar ou 
se nem precisasse de tanto tempo?
       - Ento, o que eu fao? - murmurou para Judi.
       -  um pouco tarde para se preocupar com isso agora, no acha? - disse Judi, alisando a frente do vestido vermelho de renda.
       Judi tinha pernas incrivelmente longas e os seios pareciam querer explodir para fora do decote do vestido. Um mdico de Las Vegas fizera o implante e todos 
seus conhecidos acharam maravilhoso. Exceto Barbie, para quem comprar seios era idiotice, porque os seus eram fumes e grandes e verdadeiros. Mas que diabo, pensava 
Judi, vistos de longe, quem nota a diferena?
       Barbie tinha um corpo sensacional, o busto grande contrastando com a cintura to fina que Charlie com as duas mos em volta dela quase tocava as pontas dos 
dedos. No era alta mas tinha pernas bem-feitas. Era uma mulher vistosa e, mesmo vestida com um saco de estopa, seria sexy. E agora, com o vestido curto de cetim 
branco, era uma combinao estonteante de inocncia e erotismo.
           - Acha que meu vestido est muito justo? - Olhou nervosa para Judi. Tinha a impresso de estar esperando h uma eternidade. Ainda achava que deviam ter 
simplesmente ido ao cartrio, mas Charlie insistira num casamento "de verdade".
           Esse casamento significava tudo para ele, por isso Barbara concordara. Preferia passar o fim de semana em Reno, mas Charlie planejara tudo e convidara 
todos os amigos. Teriam sessenta convidados e Barbara sabia que aquele era o hotel mais luxuoso de Los Angeles - com exceo talvez do Beverly Hills Hotel, ela havia 
observado, mas Charlie dissera que este era melhor. Escolheram o menu mais barato e o plano mais simples, mas ele queria casar ali, mesmo que tivesse de gastar todas 
as suas economias. "Voc merece", dissera ele.
       - Seu vestido est timo - garantiu Judi e, para ela, Barbara estava fantstica. Assustada, mas muito bonita. - Tudo vai dar certo, garota, relaxe.
       Judi comeava a ficar intrigada com a demora. Finalmente, o amigo de Charlie, encarregado da cerimnia, apareceu e a msica comeou. Charlie havia contratado 
um contrabaixo, um violino e um piano eltrico. Tocaram a marcha nupcial e Judi olhou para o pequeno quiosque armado para a ocasio. Charlie tinha encontrado um 
pastor, em algum lugar, que no fez muitas perguntas a Barbie sobre o fato de ela ser mrmon, e finalmente ela concordou que ele oficializasse o casamento.
       Ento Mark, o padrinho de Charlie, ofereceu o brao  noiva, olhando para ela com um sorriso paternal. Tinha o dobro da idade de Charlie e o dobro do peso. 
Fora supervisor de Charlie durante dois anos e, de certo modo, era quase como um pai para ele, um homem bonito ainda, apesar do excesso de peso e de, no momento, 
o suor descer das suas tmporas, formando pequenos filetes nos dois lados do rosto.
       Antes de comear a andar, ele inclinou a cabea para ela e disse, muito srio:
       - Boa sorte, Barbara... Tudo vai dar muito certo. - Bateu de leve na mo dela e Barbara se esforou para no pensar no seu pai.
       - Obrigada, Mark.
       Mark tinha concordado em levar a noiva ao altar e em ser o padrinho do noivo. Forneceu tambm todo o champanhe para a festa porque seu irmo conhecia um atacadista 
no Napa Valley. Mark queria tudo do melhor para eles. Era divorciado e tinha duas filhas, uma casada, a outra na universidade.
       Comearam a andar e Barbara tentou no pensar no futuro, no casamento, nos anos de compromisso. E ento, de repente, l estava ele... Charlie... parecendo 
to adorvel, to inocente e to jovem, com seu cabelo ruivo, os olhos azuis e aquele sorriso. Vestia um smoking branco, um cravo branco na lapela, como um garoto 
que tinha pedido emprestada a roupa do pai para um baile de formatura. Era difcil ter medo dele, medo de unir sua vida  dele. E quando Mark apertou carinhosamente 
sua mo, Barbara compreendeu que todos os seus temores eram incrivelmente absurdos. Nada de mau iria acontecera ela, estando casada com Charlie. E teve certeza de 
estar fazendo a coisa certa.
       - Eu a amo - murmurou ele e Barbara ergueu os olhos e compreendeu que o amava tambm. Charlie estava fazendo uma coisa maravilhosa, dando a ela uma vida nova 
e bela, oferecendo-se para proteg-la para sempre. Ningum jamais fizera nada igual e, olhando para ele, Barbara teve certeza de que Charlie nunca a desapontaria. 
Ento, arrependeu-se das dvidas, dos temores, das vezes em que pensara que poderia conseguir coisa melhor. Charlie era o homem certo, um bom amigo, um bom homem, 
bom marido e ela uma tola por desejar mais. Estava com trinta anos e o prncipe encantado evidentemente tinha outros compromissos, em outro planeta. Charles Winwood 
era seu prncipe, ela no precisava mais do que isso, no queria nada alm do que ele oferecia.
       - Eu o amo, Charlie - murmurou, quando ele ps a aliana no seu dedo.
       Com os olhos marejados de lgrimas, Charlie a beijou e Barbara o abraou terna e longamente, tentando apagar todos os anos de solido e de sofrimento de sua 
vida.
       - Eu a amo tanto, Barb... - Charlie no tinha palavras para expressar seu amor.
       - Prometo que serei uma boa esposa... prometo mesmo... 
       - Eu sei que ser, doura.
       Mais tarde, brindaram com champanhe e danaram na pista improvisada sobre o gramado. O buf estava armado perto do bar, ao lado dos msicos.
       Foi uma bela festa e todos se divertiram, especialmente os noivos, que, como os convidados, beberam fartamente o champanhe de Mark. E este parecia se divertir 
muito, danando com Judi. Todos estavam alegres  felizes quando a banda comeou a tocar coisas como 'When the Saints Go Marching In' e 'Hava Nagila'.
       Depois, tocaram msica lenta outra vez, para acalmar e relaxar o ambiente. Foi a vez de 'Moon River', que Mark danou com Barbara e Charlie com Judi.
       - Voc  uma noiva muito bonita, Barb - disse Mark. O cu estava estrelado e fazia calor. Uma noite mgica. - Vocs dois tero uma vida maravilhosa - disse 
ele, com convico.  - E uma poro de belos filhos para provar isso - anunciou, no mesmo tom.
       - Como pode ter tanta certeza? - perguntou ela, com um sorriso. Mark era um bom homem e um bom amigo.
       - Porque sou muito velho e sei muitas coisas. E sei o quanto Charlie quer ter filhos.
       Barbara tambm sabia, mas j dissera a Charlie que queria esperar alguns anos, a fim de tentar sua carreira como atriz. Ele no ficou exatamente feliz com 
a idia, mas tinham resolvido conversar mais tarde. Charlie no tinha idia, mas ter filhos era uma das coisas que realmente a assustavam. Sentiu um frio na boca 
do estmago.
       - Posso interromper? - Charlie entregou Judi para Mark e abraou Barbara para sua ltima dana daquela noite.
       Os dois haviam bebido bastante, mas Barbara parecia estar vivendo um sonho, rodeada por tantas pessoas felizes.
       - Voc se divertiu? - perguntou Charlie, encostando os lbios no pescoo dela e sentindo os seios firmes contra seu peito. Cada vez que a tocava ficava quase 
louco de desejo. Ela jamais dizia no, jamais se opunha ao que ele queria, era uma boa companhia e uma mulher extremamente sexy. Danando com ela, Charlie sentia-se 
o homem mais feliz do mundo.
       - Eu me diverti muito - disse Barbara com um sorriso - E voc? 
       - O melhor casamento que j vi. - Sorriu tambm.
       Eram quase da mesma altura e, para Charlie, era como se tivesse conquistado o mundo.
       - Isso no me parece um grande elogio - disse ela, com um muxoxo fingido.
       Charlie a abraou com mais fora.
       - Voc sabe como estou feliz, Barb... pelo menos eu espero que saiba. Para mim isto  a realizao do sonho de toda uma vida.
       Era o comeo do que ele jamais tivera. O amor, o calor de um lar, de - uma famlia, tudo que sempre havia desejado desesperadamente.
       - Eu sei - murmurou ela e, quando ele a beijou, teve a impresso de que sua cabea estava rodando. S pensava em estar deitada na praia de Waikiki com ele. 
Partiriam para o Hava na manh seguinte, num grande pacote turstico. Passariam a noite de npcias no apartamento de Charlie. Tinham pensado em passar no Bel Air, 
mas era caro demais e Barbara no fazia questo. Tinha certeza de que jamais iria esquecer aquela noite, aquele momento. 
       
* * *
       
        Em Santa Barbara, sob um cu tambm cheio de estrelas, 25 amigos observavam em silncio Pilar Granam e Bradford Coleman beijando-se  luz da lua. Finalmente 
eles olharam para os amigos, felizes e espantados, como se s ento tivessem notado sua presena, e o silncio foi quebrado pelas palmas e as exclamaes de alegria. 
       Marina Goletti, a juza que realizou a cerimnia, declarou-os marido e mulher e os convidados logo os rodearam.
       - Por que vocs demoraram tanto? - perguntou com bom humor um amigo de Brad.
       - Estvamos treinando - disse Pilar, em tom de dignidade ofendida, com o belo vestido de seda estilo grego moldando o corpo longo e esbelto.
          Pilar nadava e fazia ginstica todos os dias e, na opinio de Bradford, tinha o corpo de uma adolescente. Era uma bela mulher e orgulhava-se do cabelo 
grisalho e farto que ia at os ombros. Era quase branco desde os vinte e poucos anos, vinte anos atrs.
       - Treze anos  um bocado de tempo para treinar!
       Uma advogada, Alice Jackson, que trabalhava com ela na firma de advocacia, murmurou no seu ouvido.
       - Estamos satisfeitos por voc finalmente ter resolvido casar com Brad.
       - Isso mesmo - disse outro advogado da firma, Bruce Hemmings. - Eu sei, vocs no quiseram arriscar um escndalo, agora que Brad foi nomeado juiz.
       - Acertou - disse Brad com sua voz profunda, apertando carinhosamente o ombro de Pilar. -- No quero que ela seja acusada de dormir com o juiz para conseguir 
favores especiais.
       - Como se voc fosse capaz de me fazer favores! - brincou Pilar, encostando-se nele.
       Tudo nos dois sugeria uma intimidade calma e antiga.
       Na verdade, haviam sido arquiinimigos durante trs anos, logo que Pilar s,- formou em direito e foi para Santa Barbara. Conseguiu um emprego de defensora 
pblica quando ele era promotor e parecia que todos os crimes importantes os obrigavam a se confrontarem no tribunal. Pilar odiava as idias de Brad, sua poltica, 
seu estilo, sua insistncia em lutar por um caso at vencer ou simplesmente deixar o jri exausto. Mais de uma vez tiveram discusses acaloradas nos corredores do 
tribunal. 
       Foram advertidos vrias vezes pelo juiz e Pilar quase passou uma noite na cadeia por desacato  corte, quando xingou Brad na frente do juiz. Mas Brad achou 
to divertido aquele ataque que resolveu completar a cena, convidando-a para jantar, ao fim da sesso daquele dia.
       - Voc est louco? No ouviu o que eu disse? - perguntou ela, saindo da sala, tremendo ainda de raiva pelo modo com que ele dirigia a acusao de um caso 
de estupro.
       - De qualquer modo, voc precisa comer. E seu cliente  culpado e voc sabe disso.
       Pilar sabia e no gostava do que estava fazendo. Mas algum tinha de defend-lo do melhor modo possvel e esse era o seu trabalho, quer Brad gostasse ou no.
       - No vou discutir a inocncia ou a culpa do meu cliente com voc, Dr. Coleman. No  permitido.  por isso que me convidou para jantar? Para me fazer admitir 
alguma coisa que possa usar contra mim?
       Pilar estava furiosa e no dava a mnima para o fato de ele ser um homem atraente. Brad era o Cary Grant do escritrio da promotoria. Tinha quase cinqenta 
anos e cabelos brancos, e todas as mulheres do escritrio o elogiavam e o achavam sexy. Pilar Graham no estava interessada nisso, no com ele. Para ela, tratava-se 
exclusivamente do seu trabalho.
       - Eu no me prestaria a esse papel - disse Bradford Coleman, em voz baixa - e voc sabe disso. Gostaria que voc trabalhasse no nosso escritrio e no como 
defensora pblica. Seria interessante estar do seu lado num caso. Podamos causar um prejuzo e tanto  oposio.
       Pilar no pde conter um sorriso e sentiu-se lisonjeada, mas no foi jantar com ele. Sabia que Bradford Coleman era vivo, tinha filhos e era querido por 
todos. 
       Mas tudo que via nele era um adversrio. Nunca se permitiu ver mais do que isso, at se defrontarem outra vez num caso famoso, estampado em todos os jornais. 
Era um caso de assassinato e infelizmente a imprensa se encarregara de transform-lo em sensao, da forma mais revoltante possvel. Uma jovem estava envolvida, 
acusada de matar o amante da me. Alegou que o homem tentara violent-la, mas no havia nenhuma prova disso e a me estava contra ela. Os interrogatrios foram longos 
e rduos, a ttica dos advogados brutal, e ento, no meio do julgamento, Bradford Coleman procurou Pilar e disse calma e simplesmente que, devido a novas provas, 
ele acreditava na inocncia da sua cliente. Brad pediu um recesso e tornou-se o paladino da causa da jovem. Foram sua habilidade e seu minucioso trabalho de investigao 
que libertaram a sua cliente, Pilar sempre dizia, e no a sua defesa. Ela no estava conseguindo nada at Brad mudar de lado. Foi ento que, finalmente, jantaram 
juntos. Depois de trs longos anos. Nada era fcil para eles, nem acontecia rapidamente.
       Na ocasio, os filhos de Brad, Nancy e Todd - com treze e dez anos respectivamente -, no aprovaram o relacionamento do pai com ela. Haviam perdido a me 
cinco anos antes e, desde ento, no precisaram dividir o pai com mais ningum. No pretendiam desistir dele em favor de uma mulher, nem por um minuto. No comeo 
as crianas dificultaram as coisas para eles e, embora Brad e Pilar fossem ainda apenas bons amigos, os filhos dele pressentiam que a amizade podia se transformar 
em algo mais forte. A atitude dos filhos o entristeceu demais, mas Pilar sentiu apenas por ele. Quer fosse ela ou outra pessoa, Brad precisava de algo mais na vida 
que no fosse o trabalho e os filhos. E quanto mais o conhecia, mais ela o respeitava, mais impressionada ficava com sua mente e sua alma, seu senso de justia e 
sua integridade. Brad era mais notvel ainda do que todos diziam.
       Assim, antes de se dar conta do que estava acontecendo, Pilar estava loucamente apaixonada por ele e ele por ela, e no sabiam o que fazer com as crianas.
       - Alm do problema das crianas, o que vai acontecer com o meu trabalho? No posso mais defender os casos em que voc for promotor, Brad. Seria contra a tica... 
- No seria bom para ns.
       Finalmente Brad concordara com ela e passaram a se desqualificar quando a agenda do tribunal os indicava para o mesmo caso. Depois de um ano, Pilar passou 
a trabalhar num escritrio particular e adorou. Por fim, Brad fez o mesmo e tinham, ambos uma vida muito ativa e, afinal, as crianas se acostumaram com o relacionamento 
dos dois e, aos poucos, passaram a gostar de Pilar. Foi uma guerra longa e difcil, mas quando Nancy tinha dezesseis anos e Todd treze, trs anos depois do comeo 
do romance entre os dois, Pilar Graham passou a morar com Bradford Coleman.
       Finalmente, compraram uma casa em Montecito e as crianas cresceram. Nancy foi para a faculdade e Todd para o colgio interno e os amigos desistiram de perguntar 
quando seria o casamento. Eles no achavam necessrio. Tinham os filhos dele e Pilar jamais quis ter filhos. No precisava de um papel para provar qualquer coisa, 
explicava ela. No seu corao estava casada com Brade isso era a nica coisa que importava.
       Continuaram assim por treze anos e, quando Brad fez 61 e Pilar 42, ele foi nomeado juiz da Suprema Corte de Santa Barbara. E de repente compreenderam que 
podia ser embaraoso para ele viver com uma mulher com a qual no era casado. Principalmente se a imprensa resolvesse explorar o assunto, o que provavelmente faria, 
pois j tinham surgido alguns comentrios.
       Certa manh, durante o caf, discutiram o assunto e Pilar perguntou tristemente:
       - Acha que devo me mudar daqui?
        Brad recostou-se na cadeira, segurando o New York Times e parecendo se divertir. Pilar era to bela aos 42 quanto aos 26, quando da primeira vez se defrontaram 
no tribunal.
       - No acha isso um pouco de exagero?
       - Bem, no quero criar problemas para voc. - Ela parecia muito preocupada, enquanto servia mais um pouco de caf para os dois.
       - No pode pensar em outra soluo, doutora? Eu posso. 
       - O qu? - perguntou ela, sem entender.
       - Ainda bem que no  minha advogada, Dra. Graham. Nunca lhe ocorreu que podemos nos casar? Ou, se tem ainda averso a essa idia, no sei por que o fato 
de vivermos juntos provocaria algum escndalo. Tenho certeza de que os juzes tm permisso para viver com outras pessoas. So apenas humanos.
       - No acho que seja uma boa idia para voc. - Brad tinha uma reputao to limpa, no convinha arriscar.
       - Ento, o que me diz do casamento?
       Pilar ficou em silncio por um longo tempo, olhando para o mar. 
       - No sei. Na verdade, nunca pensei nisso... ou pelo menos no penso h muito tempo. E voc?
       - No, porque voc no queria. Mas eu poderia ter pensado.
       Brad sempre quis se casar com ela, mas Pilar queria continuar livre, queria que fossem sempre duas entidades, uma ao lado da outra ou interligadas, mas no 
"devoradas uma pela outra", como costumava dizer. No comeo, os filhos dele teriam feito objeo, mas no agora. Nancy estava com 26, casada h um ano, e Todd, com 
23, trabalhava em Chicago. 
       - Seria to horrvel casar agora? - perguntou ele, com um sorriso tmido, e Pilar hesitou antes de responder.
       - Na nossa idade? - Estava realmente espantada, como se Brad tivesse sugerido uma coisa estranha, como saltar de um avio sem pra-quedas, uma coisa inimaginvel.
       - Ser que agora existe um limite deidade? Eu no sabia - brincou ele e Pilar sorriu.
       - Est bem, est bem... - Com um suspiro, ela se recostou na cadeira. - Eu no sei... o caso  que a idia me assusta. Tem sido to maravilhoso todos estes 
anos, por que mudar agora? E se estragar tudo? 
       - Voc sempre diz isso. Mas estragar por qu? Ser que voc vai mudar? Ou eu?
       - No sei - olhou para ele. - Acha que voc mudaria?
       - Mas, por que, Pilar? Eu a amo. Nada me agradaria mais do que me casar com voc e talvez esta seja a desculpa que precisvamos.
       - Mas por qu? Alm da sua nomeao,  claro. Para qu? Que diferena pode fazer para quem quer que seja? E por que  da conta de algum?
       - No .  s da nossa conta. Mas quero que seja minha mulher. - Segurou a mo dela e depois a beijou. - Eu a amo, Pilar Graham. E a amarei at a morte. Quero 
que seja minha mulher, independente da minha nomeao. O que voc acha?
       - Acho que est louco. - Sorriu e o beijou. - Muito estresse no trabalho. Alm disso, eu gosto de ser um pouco diferente. Gostei de ter o cabelo grisalho 
aos vinte e cinco anos, nunca me importei por no ter filhos, quando todas as outras tinham um no colo e outro no carrinho, gosto de trabalhar para viver e no tenho 
a menor vontade de casar.
       - Por que no? Deveria se envergonhar por viver em pecado. No tem conscincia?
       - Nenhuma. Eles me obrigaram a desistir dela quando ingressei na advocacia.
       - Sim, eu j sabia. Muito bem, pense um pouco nisso agora - sugeriu ele.
       Isso fora um pouco antes do Natal. E durante seis meses eles conversaram sobre o assunto e brigaram e finalmente ele jurou que no casaria nem que ela pedisse 
de joelhos. Ento, numa noite de maio, Pilar o surpreendeu.
       - Estive pensando - disse ela, preparando um expresso depois do jantar.
       - No qu? 
       - Em ns.
       Brad esperou um momento, preocupado. Pilar era muito independente e capaz de qualquer coisa, de tomar uma deciso maluca e achar que era a melhor.
       - Acho que devemos nos casar - calmamente deu a ele a xcara de caf, mas Brad ficou to surpreso que nem notou.
       - Acha o qu? Depois de tudo aquilo que disse no Natal... O que, em nome Deus. a fez mudar de idia?
       - Nada. Apenas resolvi que voc talvez tenha razo e esteja na hora. Pilar tinha pensado muito e era difcil admitir que, bem no fundo da sua alma, descobrira 
um desejo ardente... de pertencer a ele... ser parte dele... para sempre...
       - Por que pensou nisso agora?
       - No sei. - Ela parecia evasiva e Brad sorriu.
       - Voc  louca, sabia? Completamente louca. - Brad levantou-se da cadeira e a abraou e beijou. - Eu a amo muito, muito, quer voc case comigo ou no. Quer 
mais tempo para pensar no assunto?
       - Acho melhor voc no me dar muito tempo - continuou, com um largo sorriso - Posso mudar de idia. Acho melhor resolvermos tudo rapidamente. - Falava como 
se fosse uma coisa difcil e penosa.
       - Prometo facilitar as coisas na medida do possvel. - Brad estava feliz.
       Escolheram um dia de junho e telefonaram para Nancy e Todd, que ficaram encantados e prometeram comparecer. Pareciam sinceramente felizes por eles. Convidaram 
dez casais dos quais gostavam realmente e uns poucos amigos solteiros, advogados que trabalhavam com ela, dois que trabalhavam com ele, entre os quais Marina Goletti, 
a melhor amiga de Pilar, para realizar o casamento,  claro, e a me de Pilar. Os pais de Brad estavam mortos h muito tempo e a me de Pilar era viva. Morava e 
trabalhava em Nova York, mas prometeu no faltar ao casamento, "se vocs no mudarem de idia", disse ela com ceticismo, o que irritara Pilar.
           Mas Brad cumpriu a promessa e se encarregou de tudo, mandando sua secretria tratar dos convites. A nica coisa que Pilar teve de fazer foi sair com a 
enteada e Marina Goletti para comprar o vestido. Pilar estava to nervosa que as outras duas quase tiveram de provar os vestidos por ela. Mas por fim encontrou um 
belo Mary McFadden com pregas midas de seda marfim, que a fazia parecer uma deusa grega. No dia do casamento, ela penteou o cabelo para cima, com pequenos anis 
soltos ladeando o rosto, pequenas flores entremeando-se aos fios. Estava muito chique e quando olhou para os convidados, depois da cerimnia, parecia extremamente 
feliz.
           - Viu, no foi to difcil - murmurou Brad, os dois um pouco afastados, vendo os amigos se divertirem. Como sempre, estavam unidos por um silncio tranqilo 
e seguro. A compreenso que existia entre eles havia superado tudo naqueles treze anos: oposio e tenso, medo, solido e dio. Era um elo de amor que os unia, 
que os fazia enfrentar os ventos da vida, seguros um no outro. - Voc fez isso por mim ou pelos outros? - perguntou Brad.
           -  engraado - disse ela, pensativa. - No fim, fiz por mim mesma. - No pensara em dizer isso a ele, mas agora parecia o momento certo. - De repente, 
senti que precisava casar com voc e tive certeza.
       - Fico feliz com isso. - Brad a abraou. - Eu tambm precisava casar com voc, h muito tempo. Mas no queria pression-la.
       - Voc sempre foi to bom a esse respeito. Significa muito para mim. Acho que eu s precisava de tempo.
       Brad riu do sorriso tmido dela. Ainda bem que ela no queria filhos. Se tivessem de esperar mais treze anos para resolver, podia ser um problema muito srio.
       - Esta  a hora certa - disse ele. - Exatamente quando devia ser. Eu a amo. - Olhou para ela, intrigado. - A propsito, quem  voc? Sra. Coleman? Ou Senhorita 
Graham?
       - Eu no tinha pensado nisso. No sei se devo mudar de nome, na minha idade. Depois de quarenta e dois anos como Graham, vai ser difcil me desfazer desse 
nome de repente. - Viu um indcio de tristeza resignada nos olhos dele. - Por outro lado... talvez daqui a outros treze anos... J sei! Que tal escolher o mais famoso?
       - Coleman? - Brad estava encantado e comovido. Um grande dia para os dois.
       - Sra. Coleman - disse ela, suavemente. - Pilar Coleman.
       Ela sorriu como uma menina tmida outra vez e Brad a beijou, depois juntaram-se aos amigos que comemoravam o casamento.
       - Parabns, Pilar - disse sua me, sorrindo sobre a taa de champanhe. Elizabeth Graham ainda era bela aos sessenta e sete anos. H quarenta praticava medicina, 
especializada =neurologia, em Nova York, e Pilar era sua nica filha. O marido, um juiz do Tribunal de Recursos de Nova York, morrera num desastre de avio, no auge 
da carreira, quando Pilar estava na faculdade de direito.
       - Voc nos surpreendeu hoje - disse a me, friamente, e Pilar sorriu. Estava bastante madura para no morder a isca nem perder a calma quando a me a provocava, 
o que acontecia com muita freqncia.
       - A vida  cheia de surpresas maravilhosas. - Pilar sorriu para Brad e, por sobre o ombro dele, para Marina.
       Desde que se conheceram, logo depois de Pilar ter chegado a Santa Barbara, Marina fora uma verdadeira me para ela e significava muito para Pilar o fato de 
a amiga ter realizado seu casamento. Agora ela era colega de Brad na magistratura, mas sua amizade com Pilar era mais antiga. Trabalharam juntas no escritrio da 
defensoria pblica durante seis meses e depois Marina tornara-se juza. Mas ento j era amiga muito querida de Pilar, uma substituta para a me com quem ela jamais 
tivera uma amizade verdadeira.
       O relacionamento de Pilar com a me sempre fora tenso, e todos sabiam que Pilar quase nunca visitava os pais. Ambos viviam muito ocupados com as suas carreiras 
e Pilar fora mandada para o colgio interno aos sete anos. Ia para casa nas frias para ser "submetida a um interrogatrio cerrado", como contou a Brad, a fim de 
avaliar o que havia aprendido, sua fluncia no francs e explicar a nota de matemtica. Eram estranhos para ela, apesar dos fracos esforos do pai para remediar 
esse fato, durante as frias. Ele, porm, pouco tinha para dizer  filha, envolvido demais no seu trabalho. Desde muito cedo, a me deixara bem claro que sua carreira 
era mais importante do que o relacionamento entre as duas.
       - Eu nunca entendi porque quiseram ter um filho - comentou Pilar certa vez com Brad. - Nunca tive certeza se eu fui um engano ou uma experincia que no deu 
certo. 
       Fosse o que fosse, a verdade  que jamais fui exatamente o que eles queriam. Minha escolha pela carreira de direito foi um alvio para meu pai. Acho que foi 
a primeira vez em que percebeu que eu no representava um erro total da parte deles. Antes disso, nenhum dos dois jamais compareceu s minhas formaturas.  claro 
que minha me ficou furiosa porque no escolhi a medicina, mas, na verdade, no posso dizer que ela chegou a fazer alguma coisa para tornar essa carreira atraente 
para mim.
       Pilar tinha crescido em escolas, no em casa. Certa vez dissera, em tom de brincadeira, que era institucionalizada, como alguns dos seus clientes que haviam 
crescido nas prises. A frieza do relacionamento dos pais, a indiferena que demonstravam por ela, alm da poltica da poca, tudo isso fez com que abominasse a 
idia do casamento e mais ainda a de ter filhos. No queria que ningum levasse uma vida igual  sua e no tinha a menor noo de como criar um filho. No tinha 
nenhum exemplo vlido na prpria infncia. Na verdade, fora uma surpresa para ela o relacionamento de Brad com os filhos, to natural, aberto e desprovido de temores. 
       Eles conversavam sobre tudo e ele era sincero e emotivo com eles. Pilar no podia imaginar esse tipo de relacionamento com pessoa alguma, muito menos com 
um filho, mas aos poucos Brad a ajudou a abrir sua alma e partilhar as emoes com as pessoas que amava. Com o tempo Pilar passou a se sentir perfeitamente  vontade 
com ele e com as crianas. Mas nem assim pensou em ter filhos. E vendo a me agora, no dia do seu casamento, lembrou outra vez do fracasso dos pais em relao a 
ela.
       - Voc est muito bonita hoje, Pilar - disse a me, um tanto constrangida, como se estivesse falando com uma conhecida ou com uma estranha. Jamais permitiu 
que algum conhecesse o mistrio dos seus sentimentos, se  que tinha algum. -  uma pena que voc e Brad sejam velhos demais para ter filhos.
       Pilar olhou para ela completamente atnita. No podia acreditar no que estava ouvindo.
       - No acredito que voc tenha dito isso - falou em voz to baixa que Brad no ouviu. - Como ousa presumir alguma coisa sobre nossa vida ou nosso futuro?
       De longe, Marina viu a fria nos olhos da amiga.
       - Voc sabe tanto quanto eu que, do ponto de vista mdico, na sua idade no  aconselhvel comear a ter filhos - disse a me com frieza profissional e Pilar 
conseguiu dominar a prpria emoo.
       - Todos os dias mulheres da minha idade tm filhos - disse Pilar, censurando a si mesma por ter mordido a isca outra vez. A ltima coisa que ela queria no 
mundo era ter um filho. Mas, mesmo assim, sua me no tinha o direito de pressupor que ela no teria ou, pior ainda, que no deveria. Depois de ter feito to pouco 
por ela durante todos aqueles anos, o mnimo que podia fazer agora era respeitar sua privacidade e o seu direito de opinio e de escolha.
       - Talvez isso acontea na Califrnia, Pilar. Mas vejo essas crianas todos os dias, imperfeitas, retardadas, com a sndrome de Down, algumas com graves anomalias 
e complicaes. Acredite, voc no ia querer isso.
       - Tem razo. - Olhou nos olhos da me. - No quero. Eu nunca desejei ter filhos... graas a voc e a papai... - Com essas palavras, Pilar afastou-se, trmula, 
e foi procurar Brad que a tinha deixado conversando com a me.
       - Voc est bem? - murmurou Marina.
       Marina, com seu cabelo grisalho muito crespo e sempre parecendo despenteado, era a me que Pilar nunca teve, a amiga que sempre desejou ter. Sabia muito da 
vida e fizera algumas escolhas semelhantes s de Pilar, embora por motivos diferentes. A mais velha de onze irmos, criou dez deles depois da morte da me e jamais 
quis casar ou ter filhos. "Eu me dediquei ao trabalho", dizia ela, compreendendo perfeitamente a agonia de Pilar em relao aos pais. Nos ltimos anos, o sofrimento 
de Pilar fora amenizado, a no ser nas raras ocasies em que via a me. "A Doutora", como Pilar a chamava, s ia  Califrnia uma ou duas vezes por ano e nos intervalos 
Pilar jamais sentia sua falta. Visitava-a por obrigao e surpreendia-se sempre ao se dar conta de que nada havia mudado. s visitas continuavam a ser "interrogatrios".
       - Parece que a Doutora afez passar um mau pedao - disse Marina e Pilar sorriu.
       A presena da amiga sempre a fazia gostar um pouco mais da raa humana. Era uma dessas raras pessoas, uma grande alma que enriquece a vida de todos que a 
conhecem.
       - No, ela s queria ter certeza de que Brad e eu sabemos que estamos velhos demais para ter filhos - disse Pilar com um sorriso, mas uma grande amargura 
na voz. 
       No era a falta de filhos que a preocupava, mas a falta de calor e bondade da parte da me.
       - Quem disse isso? - perguntou a juza Goletti. - Minha me tinha cinqenta e dois anos quando teve o ltimo filho.
       - Bem, isso  sem dvida encorajador - sorriu Pilar - Prometa que no vai acontecer isso comigo, seno dou um tiro na cabea agora mesmo. 
       - No dia do seu casamento? No seja ridcula. -E ento surpreendeu Pilar com uma pergunta: - Vocs dois esto pensando em ter filhos? Marina conhecia uma 
poro de casais mais velhos do que eles que tiveram filhos h pouco tempo, mas estava curiosa e sua amizade com Pilar permitia a pergunta. A deciso de Pilar de 
se casar, depois da obstinada recusa de uma vida inteira, a surpreendeu tanto que todas suas atitudes anteriores pareciam questionveis.
       Pilar disse, rindo abertamente:
       - No precisa se preocupar com isso. A ltima coisa que desejo na vida  ter filhos. Na verdade, a idia nem consta da minha lista e no faz parte de meus 
planos. 
       - Ela queria Brad, mas estava absolutamente certa de que no queria filhos.
       - O que no faz parte dos seus planos? -perguntou Brad, aproximando-se das duas e abraando Pilar.
       - Abandonar minha carreira - respondeu Pilar, sentindo que a presena de Brad fazia desaparecer toda sua irritao com a me.
       - Quem jamais pensou que voc iria fazer isso? - Brad estava genuinamente surpreso. Pilar era uma tima advogada e dedicada  carreira. No podia imaginar 
que ela um dia deixasse a profisso.
       - Acho que ela deve juntar-se a ns na magistratura- disse Marina Goletti solenemente.
       Quando Marina se afastou para falar com alguns conhecidos, Pilar e Brad ficaram sozinhos por um momento.
       - Eu a amo, Sra. Coleman. S queria poder dizer o quanto.
       - Tem uma vida inteira para isso... e eu tambm... Eu o amo, Brad - murmurou ela.
       - Valeu a espera, cada minuto. E eu esperaria mais cinqenta anos, se fosse preciso.
       - Isso deixaria minha me realmente nervosa - riu Pilar. Seu riso era jovem e malicioso.
       - H? Sua me est preocupada porque sou velho demais para voc? - Afinal, Brad era pouco mais novo do que a me de Pilar.
       - No... Ela acha que eu estou velha demais. Ela tem medo que num ato de loucura possa resolver ter filhos retardados, que sero ento seus pacientes.
       - Quanta gentileza da parte dela! Foi isso que ela disse? - Brad ficou levemente irritado, mas no ia permitir que coisa alguma o aborrecesse naquele dia 
especial, h tanto tempo esperado.
       - Sim, na verdade foi. A boa doutora achou que era seu dever me avisar.
       - No esquea de convid-la para nosso vigsimo quinto aniversrio de casamento.
       Danaram um com o outro e com os amigos.  meia-noite saram discretamente e foram para a sute reservada no Biltmore.
       - Feliz? - perguntou ele, na limusine alugada.
       - Mais do que feliz - disse Pilar com um largo sorriso. Depois bocejou, deitou a cabea no ombro dele e apoiou os ps na banqueta. - Oh, meu Deus... - Ela 
franziu a testa e levantou a cabea rapidamente. - Esqueci de me despedir da minha me e ela viaja amanh. - Elizabeth Graham iria a uma conveno mdica em Los 
Angeles. Ficara muito satisfeita porque a data do casamento de Pilar coincidiu com a vspera da conveno.
            - Hoje voc tem permisso para esquecer.  o dia do seu casamento. Ela deveria ter vindo se despedir com um beijo e votos de felicidade - disse Brad 
e Pilar deu de ombros. Na verdade, no importava agora. Tinha levado muito tempo, mas a guerra estava terminada. - Eu me encarrego de desejar felicidades no lugar 
dela- murmurou Brad e Pilar o beijou, sentindo que vivera toda sua vida para esse momento. Brad era tudo que ela sempre quis, e mais, e por um instante arrependeu-se 
de no terem se casado antes.
            Seu passado no significava mais coisa alguma; seus pais, o fracasso deles com ela. Tudo que importava agora era Brad e a vida que iriam partilhar. E 
tudo que ocupava seus pensamentos, enquanto se dirigiam para o Biltmore, era o futuro dos dois.













CAPTULO  - 2 -
       

 U
ma semana depois do Dia de Ao de Graas, Diana estava assoberbada de trabalho para a organizao do nmero de abril da revista. Estavam preparando artigos extensos 
sobre duas casas em Newport Beach e outra em La Jolla. Ela foi de carro a San Diego para orientar os trabalhos e no fim da tarde sentia-se exausta. Tudo foi difcil; 
a dona da casa detestou tudo que eles fizeram e a editora-assistente escolhida por ela para fazer a matria no parava de se lamentar.
       - Calma - disse Diana, procurando conter a irritao, atormentada por uma terrvel dor de cabea. - Se ela perceber que voc est preocupada, vai ficar pior. 
Procure trat-la como a uma criana. Ela quer aparecer na revista e voc tem de ajud-la a conseguir isso.
       Mas, logo depois, o fotgrafo teve um acesso de desespero e ameaou abandonar tudo e, no fim do dia, todos estavam com os nervos  flor da pele, especialmente 
Diana.
       Voltou para o Valencia Hotel, entrou no quarto e deitou-se sem acender a luz. Estava cansada demais para se mover, falar ou comer. No tinha foras nem para 
telefonar para Andy. Sabia que teria de telefonar, mas resolveu primeiro tomar um banho quente e pedir uma sopa no quarto. Telefonou para o servio de quarto antes 
de preparar o banho. Quando comeou a se despir, viu o que esperava no ver. O sinal que, a cada ms, ela rezava para no aparecer, mas que sempre estava l, a despeito 
das suas oraes, das suas tentativas de calcular as datas certas para engravidar. Nada dera resultado at ento. Nada. E estavam tentando h seis meses. Comeava 
a ficar desanimador, se no para Andy, pelo menos para Diana.
       Ela fechou os olhos ao ver o sangue e estava chorando quando entrou na banheira. Por que era tudo to difcil? Por que tinha de ser assim para ela? Fora to 
fcil para suas irms!
       Depois do banho telefonou para Andy, que acabava de chegar de uma reunio no escritrio.
       - Oi, meu bem, como foram as coisas hoje? - Andy parecia cansado e Diana resolveu no dizer nada at voltar para casa, mas sua voz a traiu e Andy perguntou: 
- Aconteceu  alguma coisa?
       - No... s um dia muito longo. -Tentou parecer descuidada, mas sua voz estava triste. Era como se algum morresse a cada ms, deixando-a triste e abatida.
       - Parece mais do que isso. Problemas com a equipe? Com a dona da casa?
       - No, no, foi tudo bem. A mulher  mais do que difcil e o fotgrafo ameaou se despedir. Mas tudo isso faz parte do trabalho - Diana sorriu tristemente.
       - Ento, o que h? O que no quer me contar?
       - Nada... eu... no  nada. S que fiquei menstruada. Fico deprimida. - Seus olhos encheram-se de lgrimas. Mas Andy no parecia preocupado.
       - No  problema, querida. Significa que temos de tentar outra vez. Que diabo, so s seis meses! Muita gente leva um ou dois anos para conseguir. Procure 
se acalmar. No se preocupe e aproveite a viagem. Eu a amo, bobinha. - A tristeza de Diana todos os meses o comovia, mas tinha certeza de que no havia nada de errado. 
Alm disso, os dois estavam sempre sob tenso no trabalho, o que no ajudava. Todo mundo sabia disso. -Que tal sairmos da cidade por uns dois dias, no prximo ms, 
na poca certa? Voc faz os clculos e me avisa.
       - Eu o amo, Andrew Douglas. - Diana sorriu entre as lgrimas. Andy era to bom e to compreensivo com suas tentativas para engravidar.
       - Eu queria ter a sua calma. As vezes penso se no seria bom consultar um especialista ou pelo menos ouvir a opinio de Jack.
       - No seja ridcula. - Pela primeira vez Andy se irritou. No queria que ela discutisse sua vida sexual com o cunhado. - Pelo amor de Deus, no h nada de 
errado com nenhum de ns dois.
       - Como voc sabe?
       - Eu sei. Agora, confie em mim.
       - Esta bem, est bem.  s que... fico to preocupada... todos os meses. Qualquer indcio me deixa esperanosa... quando me sinto cansada, quando espirro 
ou quando sinto enjo. Conveno-me de que estou grvida e ento, zum... de repente, tudo acaba.
       Era difcil explicar o desapontamento, a angstia, o medo, a dor, o vazio, o desejo desesperado. Tinham vivido juntos por quase trs anos, estavam casados 
h seis meses e agora Diana queria um filho dele. At o terceiro andar da sua casa, ainda vazio, era uma acusao. Compraram a casa para ter filhos e nada tinha 
acontecido.
       - Trate de no pensar no assunto por algum tempo, querida. Vai acontecer. Quando pretende voltar para casa?
       - Amanh  noite, espero. Se essa gente no me deixar louca antes. - Suspirou. De repente, a idia de voltar a tratar com todos eles a deprimiu mais ainda. 
O golpe nas suas esperanas cada vez que ficava menstruada tirava o brilho de tudo que fazia. Cada ms sofria uma perda terrvel, sentia um vazio impossvel de descrever 
at mesmo para Andy. Parecia absurdo, mas era incrvel o quanto isso a afetava e o esforo que fazia para superar e recobrar novamente a esperana... s para ver 
tudo desfeito no ms seguinte.
       - Estarei em casa quando voc chegar. Depois de uma boa noite de sono vai se sentir melhor. - Era to simples para ele, as respostas consoladoras, o encorajamento. 
De certo modo, Diana queria que ele se preocupasse tambm. Queria que partilhasse os temores, a dor, mas talvez fosse melhor assim. - Eu a amo, Di.
       - Eu tambm o amo, meu querido. Estou com saudades. 
       - Eu tambm. Vejo voc amanh  noite.
       Depois que desligou o telefone, chegou a sopa que ela no se deu ao trabalho de tomar. Apagou as luzes e ficou deitada no escuro, pensando no filho que desejava 
tanto e na mancha vermelha que destrura seu sonho mais uma vez. Mas, ao mergulhar no sono, desejou que no ms seguinte tudo fosse diferente. 
       
* * *
       
       Pilar Graham, como continuava a se chamar profissionalmente, examinava os papis numa pasta, fazendo anotaes, quando o intercomunicador tocou.
       - Os Robinson esto aqui - informou sua secretria. 
       - Obrigada. Mande-os entrar.
       Pilar levantou-se quando a secretria abriu a porta para um casal. A mulher devia ter quase quarenta anos, cabelos escuros de comprimento mdio, e o homem 
era alto e magro, vestia-se com simplicidade e parecia um pouco mais velho. Tinham sido recomendados por outro advogado e Pilar passara a manh toda estudando o 
caso.
       - Como vo? Sou Pilar Graham.
       Depois dos apertos de mo, ela os convidou a sentar e os dois recusaram o oferecimento de ch ou caf. Pareciam nervosos e ansiosos para entrar logo no assunto.
       - Estive lendo seu caso durante toda a manh - disse Pilar, em voz baixa. Parecia sria, amadurecida e inteligente, o tipo de pessoa que inspira confiana. 
Mas eles conheciam tambm sua reputao e por isso estavam ali. Pilar tinha fama de ser uma "fera" no tribunal.
       - Acha que pode fazer alguma coisa? - Emily Robinson ergueu os olhos tristes e Pilar pde medir toda sua angstia, perguntando a si mesma se poderia ajud-la.
       - Espero poder ajudar, mas, francamente, no tenho certeza ainda. Preciso estudar mais o caso. Quero falar com alguns colegas, confidencialmente,  claro. 
Na verdade,  a primeira vez que trato de um caso de me de aluguel. As leis so um tanto vagas em certas reas e variam incrivelmente de estado para estado. Como 
sabem, no  uma situao fcil e eu simplesmente no tenho as respostas.
       Lloyd Robinson fizera um acordo com uma moa de dezessete anos, que morava nas montanhas, perto de Riverside, para ter um filho dele. A jovem j tivera dois 
filhos ilegtimos e demonstrou a maior boa vontade para ter mais um. Robinson a conheceu atravs da escola onde havia trabalhado. A inseminao artificial foi feita 
por um mdico local. Robin s pagou a ela cinco mil dlares, o suficiente para se mudar para Riverside, no ano seguinte, morar decentemente e entrar para a universidade, 
que,segundo ela,era tudo que desejava. Sem aquele dinheiro, nunca poderia fazer isso e ficaria para sempre nas montanhas. Foi uma bobagem, os dois compreendiam agora 
- ela era muito jovem, instvel, e os pais fizeram um barulho dos diabos junto s autoridades locais quando descobriram. 
       Lloyd enfrentou um processo criminal que foi logo anulado. Mas a corte no concordou com sua escolha da me. Durante algum tempo houve a vaga possibilidade 
de acusao de estupro, mas Lloyd provou a inexistncia de contato sexual. De qualquer modo, no fim, Michelle, a jovem, se recusou terminantemente entregar a criana. 
Quando o beb nasceu, ela estava casada com um rapaz do local que tambm no queria se desfazer da criana. E agora Michelle estava grvida do marido. O beb de 
Lloyd Robinson tinha um ano e a justia no permitia sequer que ele o visitasse. Foi explicado que, como "doador", ele no tinha nenhum direito sobre a criana. 
Concluram que ele exercera m influncia sobre a menor e haviam expedido um mandado liminar proibindo qualquer ao subseqente da parte dele. Os Robinson estavam 
desconsolados. Agiam como se tivesse sido roubada deles uma criana que conheciam e amavam. Era uma menina e eles a chamavam de Jeanne Marie, os nomes das mes dos 
dois, embora Michelle tivesse escolhido um nome completamente diferente. Olhando para eles, Pilar teve a impresso de que os Robinson viviam num mundo de sonhos.
       - No teria sido mais fcil adotar uma criana, mesmo que fosse uma adoo particular?
       - Talvez - disse Emily, tristemente -, mas queramos um filho dele. Sou eu que no posso ter filhos, Dra. Graham. - Parecia estar confessando um crime terrvel. 
Pilar sentiu pena dela e, embora admitindo que achava o caso fascinante e estranho, o que a impressionava era aquele desejo compulsivo de ter um filho. - Somos velhos 
demais para adotar legalmente - explicou Emily. - Estou com quarenta e um e Lloyd tem quase cinqenta. Tentamos durante anos, nossa renda no era suficiente. Lloyd 
sofreu um acidente e ficou sem trabalhar por um longo tempo. Agora estamos bem. Vendemos o carro e ns dois trabalhamos durante dois anos para conseguir o dinheiro 
que demos a Michelle. O resto gastamos quase todo com advogados. No temos muito mais agora - disse ela com franqueza, mas Pilar no pareceu se importar. O caso 
a intrigava. A corte tinha um relatrio da assistncia social e, embora eles fossem sem dvida diferentes, pareciam decentes e no tinham vcios, de acordo com as 
pessoas que os conheciam. Apenas no podiam ter filhos e estavam desesperados por um beb. O desespero leva as pessoas a fazerem as coisas mais estranhas, pensou 
Pilar.
       - Concordariam com permisso para visitas? - perguntou ela, com calma.
       Emily suspirou.
       - Concordaramos, se no fosse possvel conseguir nada mais. Mas no  justo. Michelle deu dois filhos seus quando era pouco mais de uma menina e agora vai 
ter outro do marido. Vai ter um outro filho, por que insiste em ficar como o filho de Lloyd? - argumentou ela, com voz chorosa, mas todos sabiam que era mais do 
que isso.
       -  filho dela tambm - disse Pilar suavemente.
       - Acha que tudo que podemos conseguir  o direito de visita? - perguntou Lloyd e Pilar hesitou antes de responder.
       -  possvel. Dada aposio atual da corte, isso pode ser um passo  frente. E com o tempo, se Michelle no tratar a criana como deve ou se houver algum 
problema com seu marido, ento talvez consigam a custdia, mas no posso prometer e isso pode levar muito tempo, anos, talvez. - Pilar era sempre franca com os clientes.
       - O ltimo advogado que consultamos disse que podia nos devolver Jeanne Marie em seis meses - disse Emily com um tom de censura na voz e Pilar conteve-se 
para no lembrar que no se tratava de "devolver", uma vez que a menina jamais estivera com eles.
       - Acho que ele no foi honesto em dizer isso, Sra. Robinson. Aparentemente era o que eles achavam tambm, do contrrio no estariam ali.
       Eles entreolharam-se com desespero. A angstia e a solido nos seus rostos eram de cortar o corao.
       Alguns amigos de Pilar e Brad chegaram a ir a Honduras, Coria e Romnia para adotar crianas, mas nenhum foi to imprudente quanto os Robinson e nem parecia 
to infeliz quanto eles. Os Robinson tinham arriscado e perdido, e sabiam disso.
       Pilar conversou com eles por mais algum tempo, dizendo que estava disposta a aceitar o caso. Podia pesquisar antecedentes em todo o estado e os informaria 
sobre o que descobrisse. Mas os Robinson pediram a ela para esperar um telefonema deles. Queriam pensar primeiro. Quando saram do escritrio, Pilar sabia que no 
os veria mais. Eles procuravam algum que lhes prometesse a lua e eia no podia fazer isso. Sozinha, no escritrio, pensou por algum tempo nos Robinson, que pareciam 
perdidos, desesperados, sedentos pela companhia da filha desconhecida. Nunca tinham visto a menina; mesmo assim, para eles, ela era Jeanne Marie, uma criana que 
pensavam conhecer e amar. Era estranho e Pilar no podia ajud-los. O caso a intrigava e ainda pensava nele quando Alice Jackson apareceu na porta com um largo sorriso 
e depois um ar de interrogao.
       - Humm, doutora... parece um caso difcil. No a vejo assim desde que trabalhava no escritrio da defensoria pblica e tinha de defender um acusado de assassinato. 
- Quem foi que ele matou?
       - Ningum - Pilar sorriu, lembrando o tempo em que as duas eram defensoras pblicas. Seu outro scio, Bruce Hemmings, tambm tinha trabalhado como defensor 
pblico. Ele e Alice estavam casados h alguns anos e tinham dois filhos. Alice era uma boa amiga,embora no to ntima quanto Marina. Mas era um prazer trabalhar 
com ela. - No  um caso de assassinato - esclareceu Pilar,,pensativa, convidando-a a sentar-se. - Mas  to estranho. - Explicou o caso em poucas palavras e Alice 
abanou a cabea.
       - Nem tente criar uma nova lei para isso. Posso garantir que o mximo que vai conseguir  o direito de visita. No est lembrada? Ted Murphy teve um caso 
como esse no ano passado: a me de aluguel recusou-se a entregara criana no ltimo minuto. Foi parar na Suprema Corte do Estado e o pai s conseguiu custdia conjunta 
tcnica: a me obteve a custdia fsica e ele, o direito a visitas.
       - Sim, eu lembro, mas este casal  to... - No queria dizer a palavra, mas a verdade era que os Robinson eram patticos.
       - No nico caso em que o juiz no decidiu a favor da me de aluguel, esta havia sido fecundada com um vulo doado pela me adotiva em potencial.No lembro 
onde aconteceu, mas posso procurar para voc - ofereceu-se ela. - O juiz decidiu que no havia parentesco de sangue com a me de aluguel, j que o esperma e o vulo 
foram doados pelos pais adotivos. E ela entregou a criana a eles. Mas as circunstncias do seu caso so diferentes e foi uma grande bobagem fazer o acordo com uma 
menor.
       - Eu sei. Mas s vezes as pessoas fazem as maiores loucuras para ter um filho.
       - Eu que o diga. - Alice sentou-se. - Durante dois anos tomei hormnios e pensei que iria morrer. Passava to mal, era como se estivesse fazendo quimioterapia 
e no tomando hormnios para ter um filho. - Com um sorriso e um ar jovial, deu de ombros. - Mas consegui dois filhos adorveis e por isso acho que valeu a pena.
       E os Robinson no tinham coisa alguma. Um beb que fingiam se chamar Jeanne Marie, que nunca tinham visto e talvez nunca pudessem ver.
       - Por que algumas pessoas chegam a esse ponto, Ali? D o que pensar. Eu sei, seus filhos so maravilhosos... mas teria sido to horrvel assim no ter nenhum?
       - Seria - respondeu ela, em voz baixa. - Para mim... e para Bruce. Queramos uma famlia. - Ps a perna sobre o brao da cadeira e olhou para a amiga - Nem 
todos tm a sua coragem - continuou. Alice sempre tinha admirado Pilar e suas convices.
       - No sou corajosa... Como pode dizer uma coisa dessas?
       - Sim, voc . Sabia que no queria filhos e construiu sua vida de acordo. A maioria das pessoas, com medo de no estar fazendo a "coisa certa", teria os 
filhos e os odiaria pelo resto da vida. No imagina quantas mes eu conheo nas reunies dos escoteiros, nas aulas de carat, na escola, que no gostam dos filhos 
e jamais deveriam ter concebido.
       - Meus pais eram assim. Acho que por isso eu sempre tive tanta certeza. No queria que um filho meu passasse o que passei. Sempre me senti uma estranha, uma 
intrusa, uma imposio na vida de duas pessoas que tinham coisas mais importantes para fazer do que conversar com uma menina ou talvez at mesmo am-la. - O tema 
era pesado, mas Pilar j havia falado sobre ele com Alice. No era uma revelao, mas a entristecia do mesmo modo. Era doloroso pensar que ela havia se privado deliberadamente 
de filhos, que, para Alice, eram uma das poucas coisas importantes na vida.
       - Voc nunca teria sido igual a eles, Pilar. Talvez agora que est casada com Brad deva repensar suas opes.
       - Oh, por favor... na minha idade? - Pilar chegava a achar engraado. Por que todo mundo estava to ansioso para saber se ela e Brad pretendiam ter filhos?
       - O mundo dos hormnios pode ser seu tambm - sorriu Alice.
       Levantou-se da cadeira e olhou para Pilar. Eram boas amigas e sabiam que sempre seriam. 
       - Na verdade, com a sua sorte, provavelmente vai engravidar na primeira tentativa. E no venha com essa bobagem de idade. Voc tem s 42 anos. Isso no  
nada demais, vov Coleman.
       - Obrigada. Mas acho que vou me poupar mais essa dor de cabea. Pobre Brad... Iria ficar atnito... e eu tambm. - Levantou-se da cadeira com um sorriso e 
consultou o relgio. Ia almoar com a enteada e se no se apressasse chegaria atrasada.
       - Quer que eu faa alguma pesquisa sobre aquele caso? - Alice estava sempre disposta a fazer pesquisas. - Tenho tempo esta tarde e amanh de manh.
       - Obrigada, mas acho que no vale a pena. Eles no vo voltar. No tenho certeza nem mesmo se vo tentar o direito de visita. Acredito que queiram tudo ou 
nada. Posso estar enganada, mas vo encontrar algum que cobre menos e que prometa a lua, e que vai acabar oferecendo o direito de visita, se tiverem sorte.
       - Tudo bem. Se eles telefonarem, me avise. - Eu aviso... e muito obrigada.
       Trocaram um sorriso e Alice voltou para seu escritrio no outro lado do corredor. Ela era menos ocupada do que Pilar, menos veemente, menos disposta a enfrentar 
um litgio. Gostava de casos interessantes que envolviam pontos incomuns da lei. Se fosse mdica teria se dedicado  pesquisa. E agora trabalhava s trs dias por 
semana. Nos outros dois ficava em casa, com os filhos, mas Pilar no se sentia sobrecarregada. Tinham estilos diferentes e Bruce se encarregava de mais do que a 
sua parte no trabalho. Ele gostava das aes civis, os casos das grandes empresas que iam a julgamento. Preferia tratar com instituies. 
       Os trs formavam uma boa equipe; nos casos mais difceis trabalhavam juntos e, quando era necessrio, contratavam assistentes. Exatamente como Pilar sempre 
desejou praticar sua profisso. Sentia-se capaz, independente e livre para escolher os casos que queria defender e gostava de Alice e Bruce. Gostava dos scios de 
Brad tambm. 
       Tinham um crculo de amizades muito interessante, embora s vezes ela reclamasse que s conhecessem advogados e juzes. Mas a verdade era que ela gostava 
disso.
       Pilar no podia imaginar uma vida sem trabalho. Dirigindo o carro para o centro, onde ia se encontrar com Nancy, pensava, como sempre, como a enteada podia 
viver assim, sem fazer nada. Nancy deixou de trabalhar quando casou, h um ano, e Pilar no aprovava. Brad, porm, fazia questo de no interferir na vida dos filhos 
e ela procurava fazer o mesmo e no contradiz-lo nessa rea. Mas nem sempre era fcil. Pilar tinha opinies prprias. Na lista das coisas em que acreditava, o trabalho 
ocupava lugar de destaque. O mesmo aparentemente no acontecia com Nancy.
       Pilar chegou ao Paradise com dez minutos de atraso e Nancy estava  sua espera com um vestido de malha escuro, botas e um casaco vermelho, o cabelo longo 
escovado para trs e preso com uma fita de veludo vermelho. Como sempre, muito bonita.
       - Ol, meu bem. Voc est tima!
       Pilar sentou-se, abriu o cardpio, fez o pedido e voltou toda ateno para Nancy, com a vaga impresso de que alguma coisa a preocupava. Entretanto, no queria 
ser indiscreta e resolveu esperar que Nancy dissesse o que era, durante o almoo. Mas no estava preparada para o que Nancy revelou quando foi servida a sobremesa 
que ela escolhera, uma torta de chocolate com creme e molho de chocolate, que impressionou Pilar. Nancy sem dvida estava com boa sade e comendo muito bem e, no 
entanto, magra como sempre.
       - Preciso contar uma coisa - disse Nancy com um largo sorriso, comendo avidamente a torta.
       - Eu tambm. Se continuar a comer sobremesas como essa, no Natal vai estar pesando cento e cinqenta quilos - observou, horrorizada e divertida. Nancy s 
vezes parecia uma criana. E foi com um sorriso de criana que olhou para Pilar e levou  boca outro pedao de torta.
       - De qualquer modo vou engordar - disse, comum olhar malicioso para Pilar que tomava caf.
       - Vai mesmo? Por qu? Muitos bombons e televiso? Embora seu pai viva dizendo que no devo me intrometer, continuo a achar que voc deveria arranjar um emprego. 
Faa alguma coisa... nem que seja caridade... Saia de casa... Mantenha-se ocupada.
       - Vou ter um filho - interrompeu Nancy com um sorriso vitorioso. Era como se tivesse resolvido um grande mistrio ou um segredo que s ela conhecia.
       - Vai? - Pilar nem tinha pensado nisso. Nancy parecia to jovem, ainda despreparada para ser me. Porm, na verdade, estava com 26 anos, a idade com que Pilar 
conhecera Bradford, dezesseis anos atrs, quase uma vida. -Est grvida? 
       - Por que parecia incrvel para ela?, pensou Pilar, mais tarde. Mas o fato era que parecia. Mais do que isso, parecia absurdo. E impossvel de imaginar.
       - O beb deve nascer em junho. Queramos ter certeza de que estava tudo bem antes de contar. Estou de trs meses.
       - Nossa! - Pilar recostou-se na cadeira. - Nem sei o que dizer. - Bebs no faziam parte da sua vida e at aquela manh nunca pensava neles. - Est feliz, 
meu bem? Ou assustada? Ou zangada? O que a gente sente? Como  estar grvida? Pilar nem podia imaginar e nunca quis saber. Nunca compreendera aquela necessidade 
de ter filhos. Na verdade o que sentia era necessidade de no os ter.
       - Estou muito feliz e Thomas tem sido fantstico.
       Thomas tinha 28 anos e trabalhava na IBM. Era um bom emprego e ele provavelmente seria um bom pai, mas para Pilar e Brad sempre pareceram muito jovens. De 
certo modo, at mesmo Todd parecia mais maduro do que os dois.
       -  maravilhoso. S que no comeo eu enjoei, mas agora estou bem. - E Nancy terminou a torta de chocolate sob o olhar fascinado de Pilar.
       - Quer outro pedao de torta? - brincou Pilar e Nancy fez um gesto afirmativo.
       -  claro.
       - Nancy Coleman, no se atreva. Quando tiver o beb vai pesar cem quilos.
       - Mal posso esperar - disse Nancy, rindo.
       Pilar apanhou a conta e depois inclinou-se para beijar a enteada.
       - timo para voc, meu bem. Estou feliz por vocs dois. Seu pai vai ficar impressionado. Vai ser seu primeiro neto.
       - Eu sei. Pensei em visitar vocs no fim da semana para contar a ele. No diga nada antes disso, est bem?
       - Claro que no. No vou estragar a surpresa.
       Parecia estranho que a menina que antes tanto a havia hostilizado a procurasse agora para contar seus segredos mais ntimos. Havia uma espcie de simetria 
ou talvez de ironia no fato. Sem dvida tinham completado um crculo.
       Separaram-se na frente do restaurante e Pilar voltou para o escritrio com um largo sorriso. Todos queriam saber se ela e Brad iriam ter filhos e afinal iam 
ter um neto. 
       Depois de algum tempo,o trabalho a fez esquecer Nancy.
       Foi um dia longo e cansativo e um alvio quando Brad a apanhou no escritrio e props que fossem jantar fora. Deixou o carro na garagem e deu graas a Deus 
por no precisar fazer o jantar. Foram a um restaurante sossegado, o Louie's, e Brad estava de timo humor.
       - Como foi o seu dia? - Pilar perguntou comum sorriso cansado, recostando-se na cadeira e comeando a se livrar da tenso. Para ela fora um dia diferente, 
com muito trabalho, exigncias interminveis da parte dos clientes, alguns momentos estranhos, com novas sensaes. No saa da sua cabea a gravidez de Nancy e 
a perspectiva de ela ser me.
       - Hoje terminei o caso mais longo da histria recente do direito e estou quase danando de alvio. - Era um caso que se arrastara por dois meses, tedioso 
e s vezes incrivelmente montono.
       - O que aconteceu?
       - O jri inocentou o acusado e acho que fizeram a coisa certa.
       - Ele deve estar feliz. - Pilar lembrou-se dos seus clientes quando ela era defensora pblica.
       - Eu tambm estou - sorriu Brad, aliviado. - Nada de dever de casa. E voc? Parece que teve um longo dia.
       - Foi. Longo e estranho. De manh atendi um casal com um caso de adoo e me de aluguel. O marido fez a bobagem de pagar uma menor para ter seu filho e no 
fim ela recusou-se a entregar o beb. O Estado moveu um processo criminal contra ele por ela ser menor, depois retirou, mas no permitem nem que ele veja a criana. 
Um casal estranho, com um desespero triste estampado nos olhos, uma afeio absurda pela criana que nunca viram mas que chamam de Jeanne Marie. Foi extremamente 
triste e deprimente. Pensei neles o dia inteiro e na verdade no acredito que algum possa fazer alguma coisa. Talvez daqui a algum tempo consigam o direito de visita, 
mas no muito mais do que isso, a no ser que a me no trate a criana adequadamente. Eu no sei...  difcil imaginar o que esto sentindo. Esto desesperados 
para ficar com a criana. Durante anos fizeram tudo o que foi possvel para ter um filho, depois passaram para as agncias de adoo e finalmente isto...  uma pena 
que ele tenha escolhido uma moa menor de idade.
       - Provavelmente ele teria problemas de qualquer modo. Voc sabe como so essas coisas. Veja o caso do beb M e posso citar uma dezena de outros iguais. No 
acredito que a me de aluguel seja a melhor soluo. 
       - Para algumas pessoas talvez seja.
       - Por qu? Por que no adotar simplesmente? - Brad gostava de conversar com ela, explorando idias e discutindo casos. Eram sempre muito discretos, mas, quando 
falavam sobre um caso, lembrava-se de quando eram adversrios no tribunal. E que tima adversria ela era. s vezes at sentia saudades.
       - Algumas pessoas no podem adotar. So muito pobres, muito velhas ou qualquer coisa assim. E no  fcil encontrar bebs para adoo. Alm disso, para esse 
casal, parece que o fato importante  ser filho dele. A mulher disse quase se desculpando que  ela quem no pode ter filhos. - Fora uma sensao to estranha, uma 
cena to pattica. Tudo naquela mulher falava de sofrimento e fracasso.
       - Acha que eles vo voltar?
       - No, acho que no. Eu disse o que pensava do caso e tenho certeza de que no gostaram. Na verdade, eu poderia fazer muito pouco. Achei que seria cruel dar 
falsas esperanas.
       - Isso mesmo, seja direta, como um soco na cara. - Brad riu e Pilar contestou. Mas ele gostava da honestidade dela.
       - Tive de ser franca com eles - explicou Pilar, sabendo que no precisava justificar-se. Brad a conhecia muito bem. - Eles queriam tanto aquela criana. As 
vezes  difcil compreender.
       Era difcil compreender muita coisa, at mesmo o prazer evidente de Nancy com a perspectiva de ter um filho. Pilar percebia isso, mas no achava que fosse 
capaz de sentir-se do mesmo modo. Olhando para Nancy, sentira-se como uma estranha olhando atravs de uma janela iluminada. Gostou do que via no outro lado, mas 
no tinha a menor idia de como chegar l, nem mesmo sabia se tinha direito a isso. Todos os sentimentos de prazer com o fato de ter um filho eram desconhecidos 
para ela.
       - Por que est to pensativa? - Brad segurou a mo dela sobre a mesa e Pilar sorriu.
       - No sei... Talvez esteja ficando velha e filsofa... s vezes penso que estou mudando e isso me assusta um pouco.
       - Deve ser o choque do casamento - brincou ele. - Eu tambm mudei. Sinto-me cinqenta anos mais jovem. - Brad acabava de completar 62 anos e era ainda invejado 
por todos os outros juzes. - Por que acha que est mudando? - perguntou.
       - No sei. - No podia falar sobre o beb de Nancy. - Hoje almocei com uma amiga. Ela est grvida e to entusiasmada que parecia ela mesma uma criana.
       - Primeiro filho? - Ela fez um gesto afirmativo. -  mesmo excitante, mas os filhos sempre so, seja ele o primeiro ou o dcimo. Sempre parece haver lugar 
para mais um. E mesmo quando a descoberta no provoca grande entusiasmo, quando ele chega  sempre um prazer. Quem  a amiga?
       - Ah, uma moa que trabalhou para ns, no escritrio. Acho que foi porque eu me encontrei com ela logo depois de falar com o casal da me de aluguel. Os trs 
me pareceram to convencidos, to ansiosos para ter um filho... Como sabem que desejam um beb tanto assim? Como sabem que vo gostar do filho quando ele crescer, 
que vo ser amigos dele? Meu Deus, Brad,  um compromisso para toda a vida, sem uma pausa para descanso. Como  que as pessoas conseguem?
       -  uma coisa natural, eu acho. No se pode fazer muitas perguntas. Talvez seja mais fcil para voc que conseguiu escapar. - Durante todos aqueles anos, 
nem uma vez Pilar demonstrou interesse em ter filhos e Brad no se importava, pois j tinha dois. Tinham suas carreiras, suas vidas, os filhos dele, que agora raramente 
viam. Tinham interesses, atividades, amigos, iam a Los Angeles, Nova York e  Europa, quando tinham tempo. Seria mais difcil se tivessem um filho; no impossvel, 
porm mais complicado. Entretanto Brad sabia que Pilar no tinha nenhuma inteno de ter filhos.
       - Como sabe que eu consegui escapar? - perguntou ela.
       - O que est querendo dizer, Pilar? - retrucou ele, surpreso. Por um breve instante viu nos olhos dela uma vaga tristeza, a expresso de algum desejo insatisfeito. 
Mas durou menos de um segundo. Brad concluiu que devia ser cansao.
       - Estou dizendo que no compreendo. No compreendo o que eles sentem e por que... por que eu nunca senti.
       - Talvez sinta algum dia - disse ele com delicadeza, mas dessa vez ela riu.
       - Sim. Quando tiver cinqenta anos. Acho que j  tarde demais para isso. - Lembrou do aviso da me no dia do seu casamento.
       - No se voc quiser de verdade. Agora, comigo, o caso  diferente. Vai ter de pedir como presente no ch de beb uma cadeira de rodas e um aparelho auditivo 
para mim.
       -  pouco provvel, meu amor.
       Mas um filho era tambm pouco provvel. Pilar no queria um filho, apenas ficara surpresa quando soube que Nancy estava grvida. Pela primeira vez na vida 
teve uma vaga sensao de vazio, o mais ligeiro questionamento, e depois lembrou de tudo que tinha e disse a si mesma que estava louca. 
       
       
       
       



CAPTULO  - 3 -
       

 N
atal na casa dos Goode era sempre uma comemorao movimentada e intensa. Gayle e Jack compareciam todos os anos com as trs filhas porque os pais dele j tinham 
morrido. Sam e Seamus iam quase todos os anos porque a famlia dele morava na Irlanda e nem sempre tinham tempo para ir at l. Ele sentia-se feliz ficando em casa 
e passando o dia de Natal na casa dos sogros. E as trs irms sempre se divertiam muito. Nesse ano tinham tambm Diana e Andy. Quando as trs estavam arrumando a 
mesa, Gayle cutucou Diana com aquele olhar que Diana detestava. O olhar de quando Diana tirava uma nota baixa, ou queimava os biscoitos que devia levar  reunio 
das escoteiras. Era um olhar que dizia: Voc fracassou... voc no conseguiu, no  mesmo? Era como um segredo entre as duas e Diana fingiu no compreender e continuou 
a dobrar os guardanapos.
       - Ento? - perguntou Gayle, pondo os pratos na mesa. - Deixe disso... - Sabia que a irm tinha entendido perfeitamente. Mas quando Gayle insistiu, Sam comeou 
a ficar preocupada. No queria uma briga no dia de Natal. - Voc j est grvida? - perguntou Gayle. Era a nota baixa outra vez.Diana tinha falhado e sua mo tremia 
quando ps na mesa o ltimo guardanapo de renda. A mesa estava arrumada com os pratos que sua me usava sempre no Natal e um enorme arranjo de tulipas vermelhas 
no centro.
       - No, no estou grvida. Ainda no tivemos tempo. -  claro, no s estamos fazendo amor nas datas certas h seis meses, mas Diana no ia admitir isso para 
a irm. - Temos estado muito ocupados.
       - Com o qu? Sua carreira? - Gayle falou como se o trabalho de Diana fosse uma coisa de que ela devesse se envergonhar. Na sua opinio, as mulheres "de verdade" 
ficavam em casa tomando conta dos filhos. - Desse jeito no vai encher aquela casa enorme. Acho melhor comear, menina. O tempo est passando.
        mesmo?, pensou Diana. O tempo de quem? Por que estavam com tanta pressa e por que tinham de ficar perguntando? Ela temera essa situao e chegou a sugerir 
a Andy que esse ano poderiam passar o Natal com os pais dele, mas Andy no podia se afastar por muito tempo do trabalho agora. E tambm no poderiam deixar de vir, 
estando em Los Angeles. Os pais dela certamente no compreenderiam.
       - No  to importante assim - disse Sam, como sempre, procurando acalmar os nimos. - Vocs tm muito tempo. So jovens. Provavelmente vai engravidar no 
prximo ano.
       - Quem est grvida? No outra vez! - exclamou Seamus, passando por elas, a caminho da cozinha. - Meninas, vocs engravidam cada vez que um homem olha para 
vocs! - Revirou os olhos e estremeceu. Elas riram. J na cozinha, Seamus ps a cabea na porta e perguntou: - A recm-casada est grvida?
       Diana balanou a cabea e desejou no estar ali. Aquelas perguntas eram como uma lmina no seu corao e pela primeira vez na vida ela odiou a famlia inteira, 
especialmente as irms.
       - No, no estou Seamus. Eu sinto muito.
       - Ora, tente outra vez, minha querida... tente... e tente... e tente... Vai ser divertido! Sorte do Andy! -Ele desapareceu outra vez e Sam e Gayle riram, 
mas no Diana. Sem uma palavra, ela foi para a cozinha ajudar a me.
       S depois do jantar o assunto voltou  baila, mas dessa vez quem fez as perguntas foi Diana. Ela e Jack estavam sozinhos na saleta enquanto os outros brincavam 
de mmica na sala de estar. Diana tinha conversado um longo tempo com o pai, na frente da lareira, e quando ele subiu para o quarto Jack tomou o lugar dele.
       - Est tudo bem com voc? - perguntou ele, acendendo o cachimbo. Jack a tinha observado durante o jantar e achou que Diana no parecia muito feliz.
       - Estou bem. - Olhou para ele por um momento e resolveu perguntar. - No diga nada para Gayle, mas eu queria... ser que posso conversar com voc... Qual 
 o tempo normal que se pode demorar para ficar grvida?
       Jack no pde evitar um sorriso.
       - Duas semanas... cinco segundos... dois anos... depende da pessoa, Diana. Voc est casada h seis meses e vocs dois tm uma vida agitada e estressante. 
Acho que no precisa nem pensar nisso pelo menos durante um ano. Alguns dizem que dois anos sem usar qualquer mtodo contraceptivo e sem gravidez significa que existe 
algum problema, outros acham que se deve fazer um exame depois de um ano. A maioria dos casais, em condies ideais, leva cerca de um ano para conseguir. Se voc 
fosse mais velha poderia comear a se preocupar depois de seis meses. Mas, na sua idade, eu esperaria um ano, talvez mais, antes de pensar no assunto.
       Diana agradeceu, aliviada, e nesse momento Andy entrou na sala e sentou-se ao lado dela. Os trs conversaram durante um longo tempo sobre economia mundial, 
os problemas no Oriente Mdio, o trabalho de cada um, o ano que iria comear. E pela primeira vez nos ltimos meses Diana sentiu-se aliviada e feliz. Talvez houvesse 
esperana, afinal, pensou quando saram, depois de agradecer  me e a Jack. Ela o abraou com fora e Jack, compreendendo, sorriu bondosamente.
       - Cuide-se bem - disse ele.
       Os outros passariam a noite na casa dos pais para que as crianas pudessem passar o dia de Natal com os avs. Mas Diana desejava desesperadamente ir para 
casa com Andy.
       - Voc est bem, querida? - perguntou Andy, no carro, na estrada deserta.
       - Estou tima - sorriu ela.
       E, pela primeira vez em muitos meses, estava realmente muito bem. Aconchegou-se a ele e seguiram para casa num silncio tranqilo. Depois do dia alegre e 
longo, deitaram-se e conversaram mansamente sobre os sonhos para o futuro. Diana estava feliz e calma e quando fizeram amor, pela primeira vez, em muitos meses, 
no se preocupou em engravidar. De qualquer modo, no estava no seu perodo frtil. Era um alvio fazer amor simplesmente porque queriam, sem pensar na data, ou 
no tempo, nos sonhos ou no que pretendiam fazer. 
       
* * *
       
       - Oh, Deus, eu a amo tanto... - murmurou Charlie no ouvido de Barbie e fizeram amor outra vez, com as pequenas lmpadas da rvore de Natal piscando para eles.
       - O que h com voc? - brincou ela. - rvores de Natal o deixam excitado ou o qu? - Era a terceira vez que faziam amor naquela noite e Charlie parecia incapaz 
de tirar as mos do corpo dela. E Barbie sempre andava pela casa completamente nua, provocando-o com seu corpo magnfico.
       - Estou completamente louco por voc - murmurou ele, os dois deitados no sof.
       Charlie deu a ela como presente de Natal um cordo de ouro com uma ametista. Sabia que Barbara iria gostar porque era a pedra do seu signo. Ganhou dela um 
suter e uma gravata, uma garrafa de champanhe francs e uma almofada, especial para suas longas viagens dirias de carro, para o trabalho na cidade. Charlie gostou 
dos presentes, mas Barbara gostou muito mais do seu. Ele havia comprado tambm para ela uma saia, de couro e um suter negro muito sexy.
       - Que tal um pouco de champanhe? - apoiada num cotovelo, Barbara olhou para ele, satisfeita e cansada.
       - Nada disso - Charlie a puxou para si. - Estou guardando para, outra ocasio.
       - Que ocasio? - perguntou Barbara, desapontada. Ela adorava champanhe e por isso tinha comprado aquela garrafa.
       - Uma ocasio importante.
       - Como o que, por exemplo? A julgar pelo modo que voc est agindo esta noite, pensei que o Natal era uma ocasio muito importante. Ele riu e balanou a cabea.
       - No. Quero dizer importante. Assim como quando voc ganhar o prmio da Academia ou conseguir um bom papel num filme de Steven Spielberg... ou um seriado 
todo seu... ou talvez nosso dcimo aniversrio de casamento... ou - ele saboreou a ltima hiptese - quando tivermos um filho.
       Barbara sentou-se no sof e disse, aborrecida:
       - Ainda bem que no estou prendendo a respirao  espera dessas coisas. Acho que o mais provvel  que voc jamais tenha oportunidade de abrir essa garrafa 
de champanhe.
       -  claro que terei.
       - ? Quando? Espero que no esteja guardando para quando tivermos um filho - disse, irritada por ele ter falado nisso. No queria ser pressionada.
       - Por que no, Barb? - Ele queria tanto ter filhos, ter uma famlia e Barbara no compreendia
       - Porque eu no quero ter filhos. Acredite, cresci no meio de crianas e elas so uma chateao. D para perceber que voc nunca viu uma. - Agora que estavam 
casados, ela achava mais fcil falar francamente no assunto.
       - Sim, eu j vi crianas. E fui uma tambm. - Falou em tom de brincadeira, mas Barbara no achou graa. Bebs no a divertiam.
       - Alm disso, talvez nem seja possvel para ns - disse ela, esperando esfriar o entusiasmo dele por algum tempo.
       - Por que no? - Charlie ficou chocado. Era a primeira vez que Barbara falava nisso. - Alguma coisa errada? Por que no me contou? 
       - Eu no sei se h alguma coisa errada, mas nunca fui to descuidada com controle de natalidade quanto agora. Voc est sempre me pegando de surpresa, sem 
me dar tempo para me cuidar... e, depois de um ano e meio, ainda no engravidei.
       Charlie pensou em perguntar se ela j havia ficado grvida alguma vez, mas no queria saber e no perguntou.
       - Isso no quer dizer nada. Provavelmente no estamos fazendo no tempo certo. No se pode fazer essas coisas sem nenhum planejamento e esperar uma gravidez, 
voc sabe.
       Mas havia acontecido trs vezes antes de ela sair de Salt Lake City e duas vezes em Vegas. Barbara nunca teve muita sorte. Exceto com Charlie e mais de uma 
vez ela imaginou se no haveria alguma coisa errada. Podia ser a combinao dos dois ou ele e, considerando a sua prpria histria, a ltima hiptese era a mais 
provvel, o que no a aborrecia nem um pouco.
       Mas, olhando para o marido, compreendeu que no deveria ter dito nada, pelo menos no na vspera do Natal. Charlie parecia extremamente preocupado.
       - Voc j engravidou algum? - perguntou ela, servindo dois copos de vinho e entregando um para ele. Barbara estava nua e s de olhar para ela Charlie teve 
uma ereo. Suas reaes eram sem dvida saudveis e normais.
       - No que eu saiba - disse ele, pensativo, tomando um gole de vinho.
       - Isso no quer dizer nada - consolou Barbara, arrependida por ter tocado no assunto. No era justo, na vspera de Natal. - As mulheres nem sempre contam.
       - No mesmo? - Charlie tomou outro copo de vinho e mais outro; depois disso ficou amoroso outra vez, mas tinha bebido muito e Barbara o levou para a cama, 
deitando-se ao lado dele.
       - Eu a amo - disse Charlie, abraando-a, sentindo os seios firmes contra seu peito, como gostava. Barbara era to sensual, to maravilhosa e sempre disposta 
para o amor. Era a mulher perfeita e ele a amava.
       - Eu tambm o amo - afagou o cabelo dele como quem acaricia uma criana.
       Charlie adormeceu nos braos dela e Barbara pensou por que ter filhos era to importante para ele. Sabia da sua vida no orfanato e ela tambm tivera seus 
problemas, mas a ltima coisa que queria na vida era outra famlia ou o aborrecimento de um filho. "Durma bem", murmurou, beijando-o, mas Charlie j dormia profundamente, 
sonhando com a manh do Dia de Natal. 
       
       
       
       
       
       
CAPTULO  - 4 -
       

 E
m maio Pilar convidou Nancy para almoar em sua casa. Brad estava jogando golfe e o marido de Nancy viajava a negcios. Era uma oportunidade para passarem algum 
tempo juntas.
       Pilar fez o almoo, enquanto Nancy tomava sol na varanda. Ela estava enorme, a criana deveria nascer dentro de quatro semanas. Nancy abriu um olho quando 
viu Pilar com uma bandeja na mo. Apesar do seu tamanho, a jovem levantou de um salto para ajud-la. Estava com short branco prprio para gravidez e uma imensa camisa 
cor-de-rosa, e at a semana anterior tinha jogado tnis com o marido.
       - Desculpe Pilar, me d aqui... deixe que eu ajudo. - Tirou a bandeja das mos de Pilar e a depositou sobre a mesa de vidro. O almoo era uma salada verde 
e macarro.
       - Nossa! Parece delicioso. - H oito meses Nancy comia com um apetite monstruoso, mas no engordara demais e continuava muito bonita. Pilar havia comentado 
com Brad que ela parecia mais bonita do que antes de engravidar. Havia mais suavidade no rosto anguloso, uma paz nos olhos e uma espcie de aura que intrigavam Pilar. 
J a notara em outras mulheres, mas no tinha idia de como as fazia sentir. Olhava para Nancy intrigada e assustada tambm. Mas o que mais a perturbava eram os 
prprios sentimentos. De repente parecia que tinha mudado. E tudo a respeito de Nancy a fascinava. Nancy estava mais cordata, menos agressiva, "mais suave", como 
dizia Thomas.
       De certo modo, tinha crescido e se tornado adulta nos ltimos oito meses e no parecia mais aquela criana mimada.
       Pilar sorriu para ela. Nancy parecia estar escondendo uma enorme bola de futebol sob a camisa e mal podia estender os braos para apanhar as coisas na mesa.
       - O que voc sente? - perguntou, curiosa. Era tudo to estranho para ela. J vira algumas amigas suas grvidas, mas nenhuma muito ntima e Pilar jamais se 
interessara em saber. A maioria das suas amigas pertencia  gerao que havia optado por uma carreira e no por filhos. E as que cederam ao chamado da natureza fizeram-no 
muito tarde e, depois disso, distanciaram-se do crculo de amizades de Pilar. -  estranho ou maravilhoso? - perguntou, procurando o segredo nos olhos de Nancy.
       - Eu no sei. - Nancy sorriu. - Acho que estanho, s vezes. Mas a gente se acostuma. Na verdade eu chego a esquecer. s vezes  como se eu sempre tivesse 
sido assim.
       H semanas no consigo amarrar meus tnis. Tommy amarra para mim. Mas acho que o mais estranho  saber que tenho uma pessoa completa aqui dentro, que vai 
sair e viver conosco durante os prximos vinte anos. Algum que vai depender e esperar alguma coisa da gente pelo resto da sua vida. Eu nem posso comear a imaginar 
o que isso significa.
       - Nem eu - disse Pilar, pensativa, mas de certo modo sabia, pois Nancy e Todd tinham esperado alguma coisa da parte dela nos ltimos quatorze anos. Mas, afinal, 
fora sempre uma opo. No eram seus filhos e, se tivesse se separado de Brad, no precisaria v-los outra vez, embora tivesse certeza de que no ia querer isso. 
Mas no precisava, no eram seus. Esse beb seria uma parte de Nancy para sempre. Parte dela e parte de Tom e ainda assim uma pessoa independente. Seria importante 
para eles pelo resto da vida. Essa idia sempre apavorara Pilar e agora, de repente, a achava comovente.
       - Acho que  maravilhoso.  uma vida completamente nova, um novo mundo, um relacionamento com algum que  parte de vocs, que pode ter um milho de coisas 
em comum com vocs ou coisa nenhuma.  fascinante, no acha?
       Pilar estava completamente fascinada, embora achasse tambm que era uma responsabilidade assustadora e que no estaria disposta a passar pelo processo de 
um parto. Essa parte no a atraa de modo algum e, olhando para a enteada, no a invejava, pensando no que teria de passar. Pilar vira um parto filmado certa vez 
e a nica coisa que pensou foi que felizmente jamais teria de enfrentar aquilo. Tinha certeza, absoluta de que jamais teria um filho.
       -  engraado - disse Nancy, recostando-se na cadeira e olhando para o Oceano Pacfico - de um modo geral eu no penso no relacionamento que terei com meu 
filho, nem se ele vai se parecer ou no conosco; penso apenas na doura de um beb, to pequeno, to dependente de ns... e Tommy est to entusiasmado. - Ela tambm 
estava. Era a coisa mais extraordinria que j havia acontecido em sua vida. Estava preocupada tambm com o parto, mas seus pensamentos focalizavam principalmente 
o beb. Olhou para a madrasta e fez a pergunta que h muito tempo queria fazer, mas nunca tivera coragem: - Como  que voc e papai... quero dizer... como  que 
vocs nunca tiveram filhos? - Assim que acabou de falar, arrependeu-se. E se Pilar no pudesse ter filhos?
       Mas Pilar sorriu e deu de ombros.
       - Eu nunca quis. Minha infncia foi muito estranha e eu nunca desejei fazer algum passar por tudo aquilo. E ns tnhamos vocs. Mas eu nunca quis ter filhos 
quando era jovem. Acho que  uma falha na minha estrutura psicolgica. Eu olhava para as minhas conhecidas que casaram logo depois do ginsio, presas a dois ou trs 
filhos, levando uma vida que detestavam. Todas pareciam encurraladas. No faziam coisa alguma. Para mim sempre pareceu uma questo de escolha e as coisas que eu 
queria da vida no incluam filhos. Depois que entrei para a universidade nunca mais pensei no assunto. Tinha a minha carreira; ento conheci seu pai e nunca me 
arrependi. As mulheres que tiveram filhos h vinte anos agora esto em casa; os filhos j foram embora h muito tempo e elas se perguntam para onde foi sua vida. 
Estou feliz por isso no ter acontecido comigo. Eu teria odiado cada minuto, odiado a mim mesma e ao homem que houvesse me condenado a isso.
       - Mas no precisa ser assim - disse Nancy. Nos ltimos meses ela havia adquirido uma nova maturidade e uma viso mais ampla da vida. Seu mundo, como seu corpo, 
tinha crescido aos poucos.- Tenho amigas que fazem as duas coisas, que tm carreiras e filhos. Muitas. Na verdade, algumas so mdicas, advogadas, psiclogas, escritoras. 
No tem de ser uma escolha, se voc no quiser que seja.
       - Sua gerao tem muitas vantagens sobre a minha. Para ns, a maior parte das vezes era uma escolha. Voc conseguia um grande emprego, a grande oportunidade, 
subia at o topo ou ia para o subrbio e tinha filhos. Era simples. Agora as pessoas parecem capazes de combinar as coisas, mas quase sempre isso depende da ajuda 
dos maridos, da sua flexibilidade e do quanto as mulheres desejam fazer alguma coisa. Para ter uma famlia e uma carreira, voc tem de se privar de muitas coisas. 
Talvez tenha sido bom para mim nunca precisar fazer a escolha. Acho que seu pai teria sido maravilhoso se tivssemos tido filhos. Ele foi fantstico com vocs dois. 
Mas acho que eu nunca senti essa necessidade. Nunca senti esse desejo, essa angstia que s um filho pode resolver. J ouvi mulheres falando sobre isso como se fosse 
uma doena, mas graas a Deus, nunca senti nada parecido. - No entanto, enquanto falava, Pilar sentiu outra vez aquela sensao estranha. Como o comeo distante 
de uma dor de dentes.
       - Nunca se arrependeu, Pilar? No acha que pode sentir falta algum dia, que vai olhar para trs e desejar ter tido filhos? No  tarde demais, voc sabe... 
Conheo duas mulheres mais velhas do que voc que tiveram o primeiro filho h pouco tempo.
       -  mesmo? Quem? Sara est na Bblia. Quem  a outra?
       Pilar riu e Nancy insistiu em dizer que ela no era to velha. Mas alguma coisa lhe dizia que sim e que era tarde demais. A escolha fora feita h muito tempo 
e Pilar no estava descontente. Tinha de admitir que, depois que Nancy engravidara, pensara uma ou duas vezes no assunto, mas atribuiu o fato aos frmitos da velhice, 
os ltimos tique-taques do relgio biolgico. No se deixaria arrebatar pela idia, por mais tocante que parecesse, por mais que a barriga de Nancy a fascinasse. 
Era apenas efeito da idade e no significava que queria ter um filho. Pensava nisso enquanto tirava a mesa.
       - No, no acredito que v me arrepender mais tarde.  claro que seria bom ter algum com quem conversar quando estiver sentada na cadeira de balano, na 
varanda, daqui a trinta anos, mas tenho vocs dois e acho que  timo. No me arrependo de nada na minha vida. Fiz exatamente o que queria fazer, do modo que planejei 
e quando quis. No se pode pedir mais do que isso. - Ou pode?... O problema eram aqueles ecos vagos. Sempre teve certeza do que era melhor para ela e ainda tinha 
ou no?
       - Eu no a vejo exatamente numa cadeira de balano daqui a trinta anos. No vejo nem meu pai fazendo isso. - Brad teria 92 anos. - Talvez seja melhor voc 
pensar outra vez no assunto. - Para Nancy, era to maravilhoso ter um filho que, na sua opinio, todo mundo deveria tentar.
       - Estou muito velha para pensar nisso agora - disse Pilar com firmeza, como para convencer a si mesma. - Estou com 43 anos. O papel de av ser mais adequado 
para mim, quando seu beb chegar. - Mas sobressaltou-se com a tristeza que sentiu dizendo tais palavras. De certo modo, havia suprimido a parte central. Fora jovem 
e agora estava velha. Nunca teve filhos e agora ia ser av. Era como se tivesse perdido o melhor da festa.
       - No sei por que voc se acha to velha. Uma pessoa de 43 anos no  mais considerada velha. Muitas mulheres tm filhos nessa idade - insistiu Nancy.
       -  verdade. Mas muitas no tm. Sou uma destas ltimas. Pelo menos,  uma coisa mais familiar para mim. - Entrou para fazer caf. Conversaram um pouco mais 
durante a tarde e depois Nancy foi embora. Precisava fazer algumas compras e ia jantar com amigos. Nancy parecia realmente satisfeita com a gravidez e, enquanto 
falavam, Pilar olhava fascinada para o modo como ela passava a mo na barriga, como se estivesse falando com o beb. Uma ou duas vezes viu a camisa cor-de-rosa dar 
um salto e Nancy rir, dizendo que o beb era muito ativo. 
       Depois que Nancy saiu, Pilar lavou os pratos do almoo e sentou-se  sua mesa de trabalho, olhando para fora, pela janela. Tinha trabalho para fazer em casa, 
mas no conseguia se concentrar. S pensava na conversa com Nancy... as perguntas... ser que no ia se arrepender algum dia?... sentir por no ter tido filhos, 
quando ficasse velha?... e se Bradford morresse, que Deus no permitisse, e ela no tivesse nada dele, a no ser lembranas e os filhos de outra mulher? Mas tudo 
isso era ridculo. No se tem filhos simplesmente para ter algum, para ter um pedao do marido quando ele morre. Mas porque as pessoas tm filhos? E porque ela 
jamais quis ter e agora a deciso se transformava numa pergunta atormentadora? Porque agora? Por que, depois de tantos anos? Seria inveja de Nancy, um desejo de 
ser jovem,  alguma idia louca que a assaltava um pouco antes da menopausa? Seria o comeo do fim ou o comeo do comeo? Ou seria mesmo alguma coisa? Pilar no tinha 
as respostas. Finalmente, depois de uma longa batalha, Pilar afastou os papis e telefonou para Marina. Sentia-se uma idiota, mas precisava falar com algum. Estava 
muito agitada depois do almoo com Nancy.
       - Al? - Marina atendeu com sua voz formal e Pilar sorriu.
       - Sou eu. Onde voc estava? Levou um tempo enorme para atender. -Por um minuto pensava que Marina no estava em casa e era com alvio que ouvia sua voz.
       - Desculpe, eu estava no jardim, podando as roseiras. - Estaria interessada num passeio na praia?
       Marina hesitou, mas s por um momento. A verdade era que gostava de cuidar do jardim, mas sabia que Pilar s a convidava para andar na praia quando tinha 
algum problema.
       - Alguma coisa errada?
       - No. Eu no sei. Acho que estou mudando a disposio dos mveis na minha cabea. So ainda as mesmas peas, mas estou mudando-as de lugar. - Era uma explicao 
estranha para o que sentia, mas Pilar ainda no encontrara as palavras certas.
       - Tudo bem, contanto que haja sempre um lugar para eu me sentar - sorriu Marina, tirando as luvas de jardinagem. - Quer que eu passe por a?
       - Eu adoraria - suspirou Pilar.
       Marina estava sempre acessvel para ela, carinhosa e amvel. Seus irmos e irms ainda telefonavam no meio da noite para contar seus problemas e era fcil 
entender por qu. Ela era inteligente e incrivelmente amorosa. Oferecia a Pilar tudo que seus pais nunca lhe deram, mesmo que isso s vezes significasse apenas ouvir 
ou ajudar a tomar uma deciso. Geralmente Pilar conversava com Brad, mas uma vez ou outra aparecia alguma coisa que s uma mulher podia compreender, embora desta 
vez tivesse certeza de que Marina iria dizer que ela estava louca.
       Em menos de meia hora estavam no carro, Marina dirigindo devagar e olhando de vez em quando para a amiga. Pilar parecia bem, mas evidentemente estava preocupada.
       - Ento, do que se trata? - perguntou Marina, quando parou o carro. - Vamos falar de negcios, lazer ou a falta dos dois? Saram do carro e Pilar sorriu, 
balanando a cabea. - Voc e Brad brigaram?
       - No  nada disso - Pilar apressou-se em negar. Na verdade nunca estiveram to bem o casamento foi a melhor coisa que podiam ter feito e mais do que nunca 
Pilar desejou que tivessem tomado essa deciso antes. - Na verdade - respirou fundo quando comearam a caminhar pela areia -, por estranho que parea,  Nancy.
       - Outra vez? Depois de todos esses anos? - Marina estava surpresa. - Pensei que ela estivesse se comportando nesses ltimos dez anos. Estou desapontada.
       Mas Pilar riu e balanou a cabea outra vez.
       - Tambm no  nada disso. Ela est tima. Vai ter o filho dentro de poucas semanas e no pensa em outra coisa.
       - Voc tambm no pensaria se tivesse uma melancia dentro da barriga... Quando vai ficar livre dela pode ser uma questo totalmente absorvente. Para mim pelo 
menos. Detesto carregar qualquer coisa com mais de um quilo.
       - Ora, cale a boca - disse Pilar, rindo. - No me faa rir, Mina. Era assim que os sobrinhos de Marina a chamavam e Pilar tambm, em momentos especiais. - 
O mais incrvel  que nem tenho certeza do que quero dizer... ou de ser capaz de explicar por que estou me sentindo assim... No tenho nem certeza do que estou sentindo, 
se  real ou uma iluso.
       - Meu Deus, parece grave! - Marina falou em tom de brincadeira, mas percebeu que Pilar estava profundamente perturbada e confusa. Sabia tambm que ela ia 
acabar dizendo o que queria dizer. Marina no tinha pressa, podia esperar que ela encontrasse as palavras certas.
       Pilar olhou para ela, embaraada, procurando o melhor meio de descrever suas emoes desordenadas.
       - Nem sei como comear... Acho que foi h cinco meses, quando Nancy me contou que estava grvida... ou talvez depois disso... eu no sei... Acontece que no 
sei coisa alguma... s que fico pensando se no cometi um erro... talvez um erro enorme... - Parecia realmente perturbada e Marina ficou surpresa.
       - Refere-se ao casamento?
       - No,  claro que no. - Pilar abanou a cabea. - Refiro-me ao fato de ter sido to obstinada na deciso de nunca ter filhos. E se eu estava errada? Se vier 
a me arrepender algum dia? Se todos estiverem certos e eu seja apenas uma mulher neurtica por causa do modo como fui tratada por meus pais... E se, afinal, eu pudesse 
ter sido uma boa me? - Olhou angustiada para Marina.
       Marina apontou para uma duna de areia, sentaram e ela passou o brao pelos ombros de Pilar.
       - Tenho certeza de que teria sido uma boa me se quisesse. Mas o fato de ser boa em alguma coisa, ou potencialmente boa no justifica o fato de fazer essa 
coisa, a no ser que a deseje. Tenho certeza de que voc seria uma boa bombeira tambm, mas esse no era um passo necessrio para voc. Deve lembrar que, embora 
muita gente faa isso, no  obrigatrio ter filhos. O fato de no os ter no faz de voc uma pessoa m, estranha ou perigosa. Algumas pessoas simplesmente no querem 
ter filhos. E esto certas.  timo, quando a pessoa no quer.
       - Voc nunca imaginou se tinha feito a coisa certa? Nunca se arrependeu de no ter tido filhos? - Pilar precisava saber, estava navegando por mares desconhecidos, 
por onde Marina j havia navegado.
       -  claro que sim - disse Marina com franqueza. - Uma ou duas vezes. Sempre que uma das minhas irms, dos meus irmos, sobrinhas ou sobrinhos pem um beb 
nos meus braos, sinto um aperto no corao e penso: "Droga, quero uma coisinha destas!"... Mas, para mim, esse desejo desaparece em dez minutos. Eu passei vinte 
anos limpando narizes, trocando fraldas, limpando vmito, lavando cinco ou seis braadas de roupas por dia, apanhando crianas na escola, levando-as ao parque, ajeitando-as 
na cama,  noite, ajudando-as a fazer as camas. Cristo, s entrei para a universidade aos trinta anos! Mas pelo menos consegui e amo todos eles, exceto um ou dois 
talvez, mas a verdade  que os amo tambm... Tive momentos maravilhosos com eles, momentos incrivelmente preciosos. Mas no queria passar por tudo aquilo outra vez. 
Eu queria um tempo para mim, para estudar, para trabalhar, para meus amigos, para conhecer homens. Se o homem certo tivesse aparecido, eu estaria casada. Na verdade, 
apareceram dois, mas eu sempre tinha uma boa razo para no me prender naquele momento. Acho que, na verdade, eu me sentia feliz solteira. Eu amava meu trabalho, 
amava as crianas. Mas agora estou feliz por no ter tido filhos.  claro que seria timo ter uma filha ou um filho para cuidar de mim quando eu ficar velha, mas 
e da? Tenho voc e dez irms e irmos e os filhos deles. - Marina no podia ter sido mais franca e Pilar sentiu-se grata a ela. 
       - E se isso no for suficiente algum dia? Seno for a mesma coisa? -Amigos e irmos no eram a mesma coisa que filhos. Ou seriam? - Ento, o erro foi meu. 
Mas no estou me queixando, por enquanto. Marina estava com 65 anos e em plena atividade. Gostava do seu trabalho de juza e tinha mais amigos do que qualquer outra 
pessoa que Pilar conhecia. Sempre que tinha tempo tomava um avio para visitar sobrinhas, sobrinhos, irms, irmos e amigos. Era uma mulher feliz e realizada. E 
Pilar tambm se sentia assim, at pouco tempo atrs.
       - E voc? - Marina olhou para ela, intrigada com a expresso confusa e infeliz da amiga. - O que a est atormentando, Pilar? Por que todas essas perguntas 
sobre filhos? Voc est grvida? Est querendo perguntar o que eu acho do aborto?
       - No. - Pilar abanou a cabea, tristemente - Acho que estou perguntando o que voc acha de eu ter um filho. E no, no estou grvida. - Nem tinha certeza 
se gostaria ou no de estar. Mas, de repente, pela primeira vez na sua vida, duvidava do caminho que tinha escolhido.
       - Acho que seria timo, se  o que voc quer. O que Brad acha? 
       - No sei. Acho que provavelmente vai dizer que estou doida e talvez tenha razo. Eu sempre tive tanta certeza de que no queria filhos. Especialmente porque 
no queria ser igual  minha me.
       - Voc jamais poderia ser igual a ela. Espero que a esta altura j esteja certa pelo menos disso. Vocs so duas pessoas completamente diferentes. - Graas 
a Deus.
       - Ou talvez eu deva dizer que uma de vocs  uma pessoa e a outra, um ser um tanto estranho. - Marina jamais compreendeu as situaes descritas por Pilar. 
Tudo que podia fazer era concordar com ela em que seus pais jamais deveriam ter tido filhos. - Foi s por isso que no teve um filho? O medo de ser igual aos seus 
pais?
       - Em parte, mas no foi s isso. Eu simplesmente nunca tive essa necessidade. Mas tambm nunca senti necessidade de me casar e agora me arrependo de no ter 
casado antes.
       - Esse tipo de arrependimento  perda de tempo. Trate de aproveitar o presente; no estrague tudo olhando para trs.
       - Eu no olho. Mas no sei o que est acontecendo comigo...  como se, de repente, estivesse comeando a mudar.
       - Isso no  mau. Pior seria se voc fosse inflexvel e imutvel. Talvez seja a melhor coisa que pode acontecer a voc, Pilar. Talvez voc deva ter um filho.
       - Mas e se eu no gostar? Se for s inveja de Nancy, ou algum tipo de loucura? E se minha me tiver razo e o beb nascer com trs cabeas por causa da minha 
idade? - Havia muitas perguntas para as quais nem mesmo Marina tinha respostas.
       - E se houver vida humana em Vnus? Voc no pode saber tudo, Pilar. Tudo que pode fazer  seguir seu corao e sua cabea do melhor modo possvel. Se acha 
que quer um filho agora, pense seriamente no assunto e no se preocupe tanto com o resultado. Pelo amor de Deus, se todo mundo se preocupasse dessa forma, ningum 
teria filhos.
       - Mas e voc? Se voc no se sente infeliz por no ter tido filhos, talvez o mesmo acontea comigo.
       - Isso  ridculo e voc sabe. Somos duas pessoas diferentes. Nossas experincias de vida no so nada semelhantes. H sessenta anos que a minha vida  cheia 
de crianas e voc s teve os filhos de Brad, que j eram bem crescidinhos quando voc os conheceu. Alm disso, est casada e eu nunca me casei. Estou perfeitamente 
satisfeita com isso tambm. Estou livre para conviver com os mais variados tipos de pessoas, do modo que eu quiser, e isso me convm. Voc est feliz casada com 
Brad e talvez algum dia se arrependa de no ter tido filhos.
       Pilar ficou em silncio por um longo tempo, olhando para a areia e depois ergueu os olhos para Marina, confortada com as suas palavras, mas ainda sem respostas 
s suas perguntas.
       - Mina, o que voc faria se fosse eu?
       - Para comear, procuraria relaxar. Isso iria lhe fazer muito bem. Depois, iria para casa e conversaria com Brad, mas sem esperar que ele tivesse todas as 
respostas. Ningum jamais ter, nem mesmo voc. At certo ponto, temos de arriscar alguma coisa na nossa vida. Devemos nos proteger do melhor modo possvel, porm 
mais cedo ou mais tarde temos de saltar da prancha Espero que voc no mergulhe de barriga no esquecimento.
       - Tem um modo todo especial de usar as palavras, Meritssima - Muito obrigada. - Marina sorriu. 
       - E, se  que minha opinio vale alguma coisa, se eu fosse voc, teria um filho. Para o diabo com toda essa besteira de ser velha demais. Acho que  isso 
o que voc realmente deseja e est com medo de admitir.
       - Talvez voc tenha razo. - Marina quase sempre estava certa. Mas Pilar no imaginava o que Brad iria dizer. Pela primeira vez na vida, porm, tinha sentido 
uma dor, um vazio que nunca experimentara antes e que comeava a faz-la muito infeliz.
       Voltaram a passos lentos para o carro e pouco falaram na volta. Era uma das coisas que Pilar gostava na sua amizade com Marina. No precisava fazer nenhum 
esforo quando estava com ela e dava muito valor s suas palavras. S precisava de tempo para pensar.
       - Fique calma, menina. No fim vai descobrir o que quer. Oua seu corao. Ele sabe o que voc deseja realmente. No h o que errar.
       - Muito obrigada - Abraou Marina e acenou quando o carro partiu. Era incrvel como ela estava sempre presente quando precisava dela. Pilar caminhou para 
casa sorrindo.
       Brad j havia chegado. Estava guardando os tacos de golfe, queimado de sol, tranqilo e feliz.
       - Onde voc esteve? Pensei que Nancy vinha visit-la hoje. - Abraou-a e lhe deu um beijo, enquanto caminhavam para a varanda. - Ela veio. Almoou comigo. 
Fui andar um pouco na praia com Marina depois que Nancy saiu.
       - Oh-oh - Brad a conhecia muito bem. - Isso significa problemas. 
       - O que quer dizer? - perguntou Pilar, com uma risada.
       Brad a fez sentar no seu colo e, pela primeira vez nas ltimas horas, ela sentiu-se feliz. Era louca por ele e no havia dvida de que Brad a adorava 
       - Voc s vai passear na praia quando precisa resolver algum problema. Da ltima vez queria decidir se aceitava ou no um novo scio; antes disso, foi para 
resolver se desistia ou no de um caso que parecia envolver fraude e, antes ainda, acho que foi para decidir se casava ou no comigo. Esse foi um bom passeio. - 
Pilar riu e sabia que ele estava certo. -Ento, sobre o que foi o passeio de hoje? Nancy a aborreceu? - Seria uma surpresa porque h muitos anos as duas se davam 
muito bem. - Ou aconteceu alguma coisa no escritrio? - Pilar acabava de ganhar uma importante ao civil em Los Angeles e Brad estava orgulhoso, mas sabia o quanto 
o trabalho da mulher era estressante e quantas decises difceis ela precisava tomar diariamente. Procurava ajud-la, mas s vezes nem mesmo ele podia. Pilar devia 
decidir sozinha.
       - No, nada disso, tudo est timo. E Nancy foi um amor hoje. - E lhe trouxera muita dor. Abrira uma parte do corao de Pilar que nem mesmo ela sabia existir. 
No ltimo ano havia suspeitado uma ou duas vezes, mas dizia a si mesma que no era nada importante. Agora j no tinha tanta certeza e no sabia o que dizer a Brad. 
Ele pensaria que ela estava louca. Mas talvez Marina tivesse razo. Precisava contar a ele. - No sei... coisa de mulher. Eu queria esclarecer algumas coisas e fui 
andar na praia com Marina. Como sempre, ela me ajudou muito.
       - O que foi que ela disse? - perguntou ele, ainda querendo ajudar. Brad respeitava muito Marina, mas Pilar era sua mulher e ele queria tomar parte nos seus 
problemas.
       - Eu me sinto to idiota - disse ela, vagamente.
       Com surpresa Brad viu lgrimas nos olhos dela. Pilar raramente chorava. Raramente perdia o controle. Compreendeu que ela estava profundamente perturbada.
       - Parece um assunto difcil demais para uma tarde de sbado. Quer voltar  praia comigo? - brincou ele, mas deixando claro que estava  sua disposio.
       - Talvez. - Ela sorriu e enxugou a lgrima no canto do olho. Brad a abraou.
       - O que a preocupa, meu bem? Gostaria que me contasse - Brad sabia que era importante, se ela chegara a procurar Marina.
       - No vai acreditar, se eu lhe disser. Vai pensar que sou uma idiota. 
       - Conte assim mesmo. Ouo uma poro de coisas loucas todos os dias. J estou acostumado e tenho ombros fortes.
       Pilar aconchegou-se a ele, com as longas pernas sobre as do marido, os rostos muito juntos.
       - Eu no sei... acho que o fato de ver Nancy hoje despertou em mim uma coisa que eu nem sabia que existia... uma coisa na qual pensei uma ou duas vezes neste 
ano... na qual jamais tinha pensado antes ou me preocupado com ela, que nunca pensei precisar. Mas Nancy me perguntou se eu nunca iria me arrepender de no ter tido 
filhos. - Pilar comeou a chorar e Brad olhou para ela atnito. Aquilo o apanhou de surpresa e ele mal podia acreditar no que estava ouvindo. - Eu sempre tive tanta 
certeza de que no queria filhos. Mas no estou certa agora. De repente comecei a pensar: E se ela tiver razo e eu me arrepender algum dia? Se vier a sofrer esse 
remorso quando ficar velha? E se... - Era difcil falar, mas ela continuou: - E se acontecer alguma coisa com voc e... eu jamais tiver um filho seu? - Pilar estava 
chorando e Brad s balanava a cabea, perplexo. Esperava tudo, menos isso. Nunca esperou ouvir Pilar dizer que queria um filho.
       - Fala srio? Est mesmo preocupada com isso? - Brad no podia acreditar.
       - Acho que sim. O pior  isso. E se eu de repente resolver que quero ter filhos? - Pilar estava quase em pnico e Brad a custo conteve um sorriso. - Vai ter 
de chamar os bombeiros para me ressuscitar. Pilar, est mesmo falando srio? Est pensando em ter filhos, agora? - Depois de todos aqueles anos? H mais de vinte 
anos que Brad nem pensava nisso, e Pilar era sempre to firme nas coisas que queria. - Voc acha que estou muito velha? - perguntou ela, tristemente, e ele riu.
       - No, no est. Mas eu estou. Tenho 62 anos. Dentro de poucas semanas vou ser av. Pense como vou parecer ridculo. - A idia simplesmente o deixava atnito.
       - No, no vai. Muitos homens na sua idade comeam uma segunda famlia, alguns mais velhos do que voc.
       - Estou envelhecendo a cada minuto - disse Brad, mas, olhando para ela, percebeu que Pilar atravessava uma crise de grandes propores. - Pilar, h quanto 
tempo est pensando nisso?
       - No sei ao certo - respondeu ela, com franqueza. - Acho que passou por minha cabea pela primeira vez logo depois que nos casamos. Achei que era uma aberrao 
e ento apareceu aquele casal com o caso da me de aluguel. Comecei a pensar como eles me pareciam estranhos, desesperados por uma criana que nem conheciam. Mas 
o pior de tudo era que uma parte de mim compreendia perfeitamente o que estavam sentindo. No sei, talvez eu esteja s ficando velha e um pouco esquisita. Acho que 
fiquei chocada quando soube que Nancy estava grvida. Ela sempre me pareceu uma criana e agora est to contente e to segura.  como se finalmente tivesse encontrado 
o significado da prpria vida. E se eu me enganei realmente durante todos esses anos? Se ser uma boa advogada, uma pessoa decente, boa esposa e boa madrasta no 
for suficiente? E se o importante realmente  ter um filho meu?
       - Oh, minha nossa! - Brad suspirou longa e profundamente. Pilar estava descontrolada e ele no podia lhe dizer que estava errada. Mas era um pouco tarde para 
comearem a pensar em ter filhos. - Gostaria que voc tivesse pensado nisso um pouco antes.
       Com o corao nas mos, ela perguntou: - Se eu resolvesse que no posso viver sem ter um filho, voc concordaria? - Custou-lhe muito fazer aquela pergunta, 
mas ela precisava saber. Precisava saber a posio dele e se havia possibilidade de uma escolha pelo menos. Se ele dissesse que no, teria de viver com isso. Pilar 
o amava mais do que poderia amar qualquer filho, mas mesmo assim comeava a quase ter certeza de que queria um filho dele.
       - Eu no sei - respondeu ele, francamente - H muito tempo no penso nisso. Precisaria de algum tempo para pensar.
       Pilar sorriu, aliviada porque ele no dissera no. Havia uma chance e os dois precisavam pensar muito na responsabilidade, no trabalho, nas mudanas que isso 
traria  sua vida. Mas Pilar quase comeava a achar que tudo valeria  pena.
       - Acho bom comear logo a pensar - disse ela, com um largo sorriso, e Brad parecia pesaroso quando a abraou com fora.
       - Por qu?
       - Estou ficando mais velha a cada minuto.
       - Voc...  um monstro! - disse ele, beijando-a na boca, longa e ternamente, despertando o desejo nos dois, ali sentados no sol, na varanda. - Eu sabia que 
se casasse com voc alguma coisa terrvel iria acontecer. - Pilar riu. - Eu s queria ter sabido disto h treze anos. Eu a teria obrigado a se casar comigo e voc 
poderia ter uma dzia de filhos.
       - Vejamos - disse ela, sentada no colo dele. - Se comearmos agora... Estou com 43... talvez a gente consiga produzir uns seis ou sete... 
       - Nem sonhando... ser um milagre se eu sobreviver ao primeiro... Mas quero que compreenda que no concordei ainda. Preciso pensar no assunto.
       Com uma falsa docilidade, Pilar levantou-se e segurou a mo dele. - Tenho uma grande idia sobre o que voc pode fazer enquanto pensa no assunto, Brad... 
Venha... Brad riu e ela o levou para o quarto. Mas ele era uma presa fcil, sempre fora, assim como Pilar para ele. E o corao dela parecia mais leve quando ele 
a beijou novamente.
       
       
       
       
       




CAPTULO  - 5 -
       

 D
iana sentou-se assim que o ginecologista terminou de recolher o material para o exame de papanicolaou peridico e o check-up anual.
- Tudo me parece timo - disse ele, com um sorriso.
       O mdico era jovem e fora recomendado h dois anos por Jack como um timo ginecologista.
       - Alguma queixa? Caroos, dores estranhas, sangramento fora do perodo normal? - perguntou ele e Diana balanou a cabea, tristemente. Na semana anterior 
tinha ficado menstruada outra vez.
       - Minha nica queixa  que h onze meses estamos tentando uma gravidez e at agora nada aconteceu.
       - Talvez estejam tentando demais - disse ele, repetindo as palavras de suas irms. Todos diziam uma poro de bobagens, como "no pense no assunto", "esto 
tentando demais", "procure esquecer", "deixe de se preocupar", mas ningum sabia a dor e o desapontamento que experimentava a cada ms, quando descobria que no 
tinham conseguido. Diana estava com 28 anos, casada h quase um ano, amava o marido, gostava do trabalho que fazia e agora queria um filho.
       - Um ano no  muito tempo - disse o mdico.
       - Parece muito para mim. - Diana sorriu com tristeza.
       - E o seu marido? Tambm est preocupado? - Talvez o marido soubesse alguma coisa que Diana no sabia. s vezes os homens no gostavam de admitir que haviam 
tido problemas no passado, ou doenas venreas graves, cujo conhecimento poderia ajudar na soluo do problema.
       - Ele vive dizendo que no devo me preocupar, que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.
       - Talvez esteja certo. - O Dr. Jones sorriu. - O que ele faz? - Queria saber se trabalhava com produtos qumicos ou txicos que podiam afetar seu organismo.
       -  advogado de uma rede de emissoras de TV - disse Diana. - E voc trabalha numa revista, certo? - Diana fez um gesto afirmativo. - Duas profisses muito 
estressantes.
       Isso pode ser uma parte do problema. Mas deve compreender que onze meses no  um tempo anormalmente longo. A maioria das mulheres fica grvida depois de 
um ano, outras demoram mais. Que tal umas frias? Pode ser que estejam precisando.
       Diana sorriu.
       - Daqui a uma semana vamos para a Europa. Calculamos o tempo certo. Talvez isso resolva. - Ela sorriu, esperanosa.
       O mdico, percebendo a ansiedade nos olhos dela, resolveu dar mais ateno.
       - Vamos fazer uma coisa. Se voc no estiver grvida quando voltar, podemos comear a fazer alguns exames. Eu mesmo posso fazer ou envi-la a um especialista, 
que voc preferir. Costumo recomendar um muito bom.  sensato e conservador, mas tambm muito preciso e extremamente minucioso. O nome dele  Alexander Johnston. 
Tenho certeza de que seu cunhado o conhece.  um pouco mais velho do que ns, mas conhece a fundo sua especialidade e no vai recomendar nenhuma providncia desnecessria.
       - Eu gostaria muito - disse Diana, sentindo renascer a esperana. Talvez conseguissem na Europa; caso contrrio, poderiam fazer alguma coisa. Tinham a quem 
consultar.
       Agradeceu o apoio do mdico e voltou para o trabalho. Naquela noite contou tudo a Andy e disse que perguntaria a Jack o que ele achava do Dr. Johnston. Mas 
a reao irritada de Andy a surpreendeu. Ele estava assoberbado de trabalho e tivera um dia agitado no escritrio. Alm disso, comeava a ficar farto daquela histria 
de fazer amor com data certa, no momento certo, e depois a histeria de Diana cada vez que ficava menstruada. Eram ambos jovens, saudveis, vinham de famlias grandes 
e era bvio para ele que acabaria por acontecer e que teriam muitos filhos. Mas atorment-lo e se queixar o tempo todo no ajudavam em nada.
       - Pelo amor de Deus, Di, me d uma folga. No precisamos de um maldito especialista, apenas de um tempo para nos livrar da tenso. Pare de forar a barra!
       - Desculpe... - Com os olhos cheios de lgrimas, Diana virou o rosto. Andy no entendia sua preocupao, seu medo de que houvesse alguma coisa errada.- Eu 
s pensei... pensei que um especialista poderia ajudar... - Saiu da sala chorando e logo depois Andy a procurou.
       - Ora, vamos, meu bem... desculpe. Estou to cansado, to estressado. Nesta ltima semana tive um monte de problemas. Vamos ter um filho, no se preocupe.
       Mas a insistncia de Diana comeava a irrit-lo. s vezes era como se fosse seu nico objetivo na vida, ou talvez estivesse competindo com as irms.
       - O mdico disse que talvez umas frias... - Diana olhou para ele timidamente com medo de aborrec-lo e, com um suspiro, Andy a abraou.
       - O mdico tem razo. Precisamos de umas frias. Agora prometa que no vai pensar nisso por algum tempo. Aposto que ele disse tambm que at agora no aconteceu 
nada anormal.
       Diana sorriu e balanou a cabea afirmativamente. - Sim, disse.
       - Tudo bem, ento - disse Andy com voz firme e a beijou. Quando foram para a cama naquela noite, Diana parecia mais calma. Talvez todos tivessem razo. Talvez 
fosse tolice se preocupar.
       Quando se inclinou para o beijo de boa-noite, Andy j estava dormindo e roncando baixinho. Diana ficou olhando para ele por um longo tempo. Era estranho como 
aquele desejo intenso de ter um filho s vezes a fazia sentir-se to sozinha. Era como se ningum compreendesse como era forte seu desejo, o quanto ela precisava 
de um filho, nem mesmo Andy.
       A viagem  Europa foi perfeita. Foram a Paris, ao sul da Frana e depois tomaram um avio para Londres, para visitar o irmo de Andy. E, pelos clculos de 
Diana, se estivesse grvida tinha acontecido no Hotel de Paris, em Monte Carlo. O cu estava azul, o hotel era divino e Andy disse que no podia imaginar um lugar 
melhor para fazer um filho.
       Foi agradvel ver Nick em Londres e o resto da viagem foi tranqilo e divertido, justamente do que precisavam. S quando saram de Los Angeles e redescobriram 
o prazer de estarem juntos e tranqilos, perceberam realmente o quanto estavam tensos e exaustos antes da viagem. Foram a restaurantes, visitaram museus e igrejas, 
tomaram sol na praia, chegaram a passar um fim de semana pescando na Esccia com Nick e a namorada. Quando voltaram para Los Angeles, em junho, pareciam outras pessoas.
       Andy saiu para trabalhar com um sorriso e Diana tirou mais um dia para desfazer as malas, descansar da viagem e ir ao cabeleireiro. De qualquer modo, era 
sexta-feira e, se a revista tinha sobrevivido sem sua presena durante todo aquele tempo, poderia passar sem ela at segunda-feira. No se sentia nem um pouco ansiosa 
em voltar  agitao do trabalho e tentou convencer Andy a ficarem casa com ela, mas, embora com muita pena, ele precisava voltar ao trabalho. Mal podiam esperar 
o fim de semana.
       Andy jogou tnis no sbado de manh com Bill Bennington e falou sobre a viagem. Tinham estudado direito juntos na Universidade de Los Angeles e Andy conseguira 
um emprego para ele na sua firma. Eram bons amigos e Andy achava repousante conversar com ele.
       - Como vai Nick? - perguntou Bill, quando pararam para tomar um refrigerante depois do jogo.
       - Muito bem. Est namorando uma moa muito engraadinha. Passamos o fim de semana pescando com eles, na Esccia. - Bill tinha um irmo mais moo, da idade 
dos gmeos. Ele e Andy tinham muita coisa em comum. - Ns gostamos muito dela. - A namorada de Nick era inglesa, bonitinha e interessante, e Diana achou que ele 
estava mais entusiasmado do que queria admitir para Andy.
       - Eu tambm estou saindo com uma moa muito interessante - confessou Bill, com certa timidez.
       - Est querendo me contar alguma coisa, Bennington? - Andy olhou para ele. - Ou  mais um caso como os outros? - Bill estava sempre saindo com mulheres bonitas. 
Gostava de modelos e de 'starlets'. Ele tambm era homem bonito, mas parecia mais interessado na variedade do que em qualquer coisa sria.
       - No sei ainda. Mas ela  fantstica. Quero que a conhea. - O que ela faz? Ou a pergunta  redundante? - Andy sorriu.
       - Voc no vai acreditar.  advogada de uma concorrente nossa. Acaba de se formar.  uma garota diferente, de verdade.
       - Oh, oh. - Andy no resistiu  brincadeira. Mas estava satisfeito. Bill Bennington era um dos seus melhores amigos. - Est parecendo coisa sria.
       - Nunca se sabe. - Bennington sorriu misteriosamente e os dois caminharam para o estacionamento do clube.
       Costumavam se encontrar todos os sbados, quando no tinham outros planos, e duas noites por semana, quando o trabalho no os prendia no escritrio. Bill 
notara a tenso de Andy antes da viagem e ficou satisfeito por ver que ele estava mais calmo.
       - Como vaia minha editora favorita? Ainda trabalhando como uma escrava?
       - At antes da viagem. Na verdade, ontem ela ficou em casa, o que  um bom sinal. Acho que voltou mais calma e com uma perspectiva diferente de algumas coisas. 
Estava tensa demais quando partimos.
       - Voc tambm. Vocs me deixavam nervoso. Eu no sabia se era algum problema no trabalho ou outra coisa, mas no pareciam felizes antes das frias.
       - Eu no sei... - Andy no estava certo se devia falar da preocupao de Diana. - Acho que eu estava cansado. Diana andava muito nervosa e creio que me contagiou.
       - Nada srio, espero.
       - No... na verdade, no... ela est ansiosa demais para ter um filho, mas eu acho que  uma preocupao prematura.
       - Vocs esto casados h menos de um ano, certo? H quanto tempo exatamente? - Bill estava surpreso por eles pensarem em ter filhos to cedo.
       - Hoje faz um ano. - Andy sorriu. - Parece incrvel, no parece? - Nossa, eu nem acredito. Bem, no comecem a ter filhos agora. Voc no poder mais jogar 
tnis comigo. Vai ter de correr para casa para ajudar a trocar as fraldas.
       - Bem, no  uma perspectiva tentadora... talvez eu a convena a esperar mais um ano.
       - Faa isso. E ento, talvez dentro de uns dois anos, ns dois estejamos empurrando balanos juntos.
       - Que idia! - Andy olhou para o amigo. Estavam parados ao lado do Porsche prateado de Bill. - Nem d para imaginar, no acha? Ainda me lembro do meu pai 
carregando os gmeos, um em cada ombro. De certo modo, no me sinto preparado ainda para ser pai. Mas Diana sim. Est realmente ansiosa. - Andy no queria admitir 
que estavam tentando arduamente h um ano, sem resultado.
       - Bem, no tenha muita pressa, garoto. Filhos so para sempre. 
       - Direi isso a Diana.
       Despediram-se e Andy voltou para casa, pensando, enquanto dirigia, se esse namoro de Bill iria durar mais do que os outros. Encontrou Diana trabalhando no 
jardim, muito feliz. Ergueu os olhos para o marido e sorriu vendo-o se aproximar, belo e elegante no short de tnis. Andy inclinou-se e a beijou.
       - Feliz aniversrio, Sra. Douglas! - Tirou do bolso do short uma caixa da Tiffany's e a entregou a ela.
       - Voc me estraga com tanto mimo. - Diana sentou-se sobre os calcanhares, desembrulhando e abrindo a caixa. Ali dentro estava um belo anel de ouro com uma 
safira, muito bonito e discreto, e Diana sabia que ia us-lo para sempre.
       - Eu adorei! - disse ela, agradecendo com um beijo.
       - Fico feliz com isso. Acho que as primeiras bodas so de plstico, papel ou argila, uma dessas coisas... Fiquei imaginando se voc no se importaria se eu 
me adiantasse alguns anos com o presente.
       - Desta vez eu perdo... mas no prximo ano quero a coisa certa, algo de alumnio ou cobre. - Diana sorriu, queimada de sol, parecendo perfeitamente tranqila.
       - Meu bem, voc me convenceu!
       Entraram em casa e Diana entregou a ele o belo conjunto de malas de couro. Era exatamente o que Andy queria. Eram generosos um com o outro durante todo o 
tempo.
       Ele gostava de comprar pequenos presentes e s vezes flores. Diana fazia o mesmo. Os dois ganhavam bem e podiam fazer pequenas extravagncias.
       Naquela noite, Andy fizera uma reserva no 1'Orangerie. Era um lugar caro mas ia fazer com que se lembrassem da Europa, onde haviam estado em restaurantes 
maravilhosos.
       Era justo gastar um pouco no seu primeiro aniversrio de casamento.
       Diana estava com um vestido novo de seda branca, decotado, comprado em Londres para aquela ocasio.
       - No sei por que, mas achei que devia me vestir de branco outra vez - disse ela, em tom de brincadeira.
       - Espero que no signifique que ainda acha que  virgem. 
       -  meio difcil - sorriu ela.
       Saram cedo para passar na abertura de mais uma exposio de Seamus, na Galeria Adamson-Duvannes. Diana havia prometido  irm que passariam por l antes 
do jantar.
       Entraram no carro, belos e bronzeados de sol, e Andy a beijou.
       - Voc est maravilhosa! - disse ele e Diana sorriu. 
       - Voc tambm.
       Diana tinha ainda aquela aura de felicidade tranqila adquirida na viagem e Andy imaginou se ela no estaria grvida. Estava usando o anel e Andy disse, com 
um sorriso, que podiam fazer outra viagem para ter a oportunidade de usar o conjunto de malas. Fora um timo dia e tinham passado a tarde na cama, fazendo amor. 
At aquele momento tudo estava perfeito e, a caminho da Adamson-Duvannes, Andy falou sobre a nova namorada de Bill.
       - Uma advogada? - espantou-se Diana e depois sorriu. - Bem, no vai durar mais de dez minutos.
       - No tenho tanta certeza. - Andy balanou a cabea. - Bill parece bastante cado por ela.
       - Bill sempre fica assim at aparecer a prxima. Seu poder de concentrao  igual ao do meu sobrinho de trs anos.
       - Ora, Di, seja justa. Bill  um cara formidvel.
       Rindo, Diana o fez admitir que havia alguma verdade no que acabava de dizer.
       - Eu nunca disse que ele no era, s que no consegue dar ateno a alguma coisa ou a algum por mais de cinco minutos.
       - Desta vez pode ser diferente - disse Andy, estacionando numa vaga no San Vicente Boulevard, um pouco alm da galeria. Ajudou Diana a descer e entraram na 
galeria, onde Seamus conversava com um oriental vestido de preto, bem ao lado da porta.
       - Meu Deus... vejam s, uma estrela do cinema, recm-chegada da Europa! -Depois desse elogio, Seamus apresentou os dois a um famoso artista japons. - Estvamos 
comentando o impacto potencial da arte numa cultura comatosa e decadente. Nossas concluses no so exatamente encorajadoras - disse Seamus, com sua expresso habitual 
de malcia e ironia. Seamus gostava de brincar com as pessoas, com as palavras, com tintas, com idias, com qualquer coisa em que pudesse aplicar a mente ou pr 
as mos. - Voc viu Sam? - perguntou a Diana, levando Andy para o bar e apontando para um grupo de mulheres na frente de uma tela enorme. Samantha conversava tranquilamente, 
parecendo no notar os dois filhos que, agarrados nas suas pernas, trocavam tapas e empurres.
       - Oi - disse Diana, aproximando-se dela.
       - Oi, mas que beleza! - Samantha sempre achou Diana a mais bonita, a mais capaz... talvez a mais inteligente das trs. Na opinio de Sam, Diana tinha tudo, 
embora se tivesse dito isso a ela, certamente Diana no concordaria. Estava disposta a trocar tudo e mais alguma coisa pelos filhos da irm. - Voc est fabulosa. 
Como foi a viagem?
       - Bastante divertida. Passamos uns dias maravilhosos.
       Sam apresentou a irm s amigas e quando ficaram sozinhas ela perguntou, em voz baixa:
       - Ento, voc engravidou na viagem? - Parecia ansiosa e preocupada, mas por um momento Diana a detestou por fazer essa pergunta. - Ser que vocs no pensam 
em outra coisa? No tm nunca outro assunto? Cada vez que me encontro com Gayle ela me pergunta isso. - o pior era que ela tambm no pensava em outra coisa. Era 
como se, na sua famlia, para ser reconhecida, a mulher precisasse estar grvida ou ter filhos. Bem, Diana tinha feito tudo que podia, mas at aquele momento no 
obtivera resultado.
       - Desculpe. H algum tempo no nos vemos e pensei que...
       - Sim, eu sei... - disse Diana, deprimida. As irms tinham boa inteno, mas sempre a irritavam. s perguntas eram como uma acusao constante. Ento, no 
estava tentando? O que havia de errado com eles? Seriam anormais? Diana pensava freqentemente nisso e no tinha respostas para ela mesma, para as irms ou para 
os pais.
       - Suponho que isso significa "no" - disse Sam, em voz baixa, e Diana olhou furiosa para ela.
       - Significa que estou pedindo para me dar uma folga, Sam, e significa tambm que ainda no sei. Est satisfeita? Quer que eu telefone para voc assim que 
ficar menstruada, ou prefere um fax? Ou talvez um cartaz em Sunset Boulevard, para que mame possa telefonar para as amigas e dizer que at agora a pobre Diana no 
tem nenhuma novidade?
       - Estava quase chorando e Sam teve pena dela. Foi to fcil para todos eles, mas no estava sendo assim para Andy e Diana.
       - No fique zangada, Di. S queremos saber o que acontece com voc, nada mais. Ns a amamos.
       - Obrigada. No est acontecendo nada. D para entender? - Pelo menos, no que ela soubesse. Mas estava irritada ainda quando Andy e Seamus juntaram-se a 
elas, Seamus com o filho menor no ombro.
       - Seus novos quadros so maravilhosos - disse Andy, com entusiasmo, notando imediatamente a tenso no rosto de Diana.
       Saram logo depois e seguiram para o restaurante em silncio.
       - Alguma coisa errada? - perguntou Andy. Diana estava outra vez tensa e tristonha. - Sua irm a aborreceu?
       - O mesmo de sempre - disse Diana com voz fria. - Perguntou se estou grvida.
       Andy olhou rapidamente para ela.
       - Diga a Sam para tratar da prpria vida. - Ele a beijou e Diana sorriu.
       Andy era to carinhoso e ela sabia que era tolice se aborrecer por to pouco.
       - Eu detesto quando elas perguntam. Porque no esperam para ver? - Provavelmente porque a amam e querem o melhor para voc. Alm disso, talvez voc esteja 
mesmo. Eu no sei, mas aquela vez em Monte Carlo me pareceu incrvel. O que voc acha?
       Diana sorriu, e inclinando-se para o lado, beijou o pescoo dele. - Eu acho que voc  incrvel. Feliz aniversrio, Sr. Douglas.
       Era difcil acreditar que estavam casados h um ano. Diana adorava ser mulher dele e fora um ano bastante movimentado para os dois. S tinha pena de no ter 
ficado grvida. Mas havia outras coisas importantes em suas vidas: o trabalho, os amigos, as suas famlias. Ter um filho no era a nica coisa que lhes importava. 
Mas sem dvida era importante, especialmente para Diana.
       - Voc acha que  bobagem minha querer tanto... um filho? - perguntou ela.
       - No. S no quero que se torne uma idia fixa. Acho que isso no ajuda.
       - Mas  quase inevitvel. s vezes eu penso que toda a minha vida gira em torno do meu ciclo menstrual.
       - No deixe que isso acontea. Procure esquecer tanto quanto possvel. Estou sempre dizendo isso. - Andy entregou o carro para o manobrista do restaurante. 
- Mas voc parece que no escuta. - Ele a beijou outra vez, abraando-a por algum tempo. - No esquea quem  realmente importante... voc... e eu... O resto vai 
se encaixando no tempo certo.        i
       - Eu gostaria de ser to despreocupada quanto voc - disse Diana.
       Andy era to calmo e sensato.
       - Aposto que se conseguir se livrar um pouco da tenso, vai ficar grvida assim... - Andy estalou os dedos.
       - Vou tentar.
       Quando entraram no restaurante, vrias pessoas admiraram o belo casal. Sentaram-se a uma mesa num canto e conversaram tranqilamente, enquanto Andy pedia 
o vinho e os dois estudavam o cardpio. Diana sentia-se melhor e, quando Andy pediu o jantar, estavam os dois de bom humor.
       Pediram caviar com ovos mexidos servido em cascas de ovos, com cebolinha, seguidos de lagosta e champanhe e s depois da sobremesa Diana se levantou para 
retocar a maquiagem. Estava muito bonita com o vestido ingls e seu cabelo brilhava. Depois de se pentear e retocar o batom, ela foi ao banheiro e l estava a mancha 
vermelha dizendo que todo o amor que fizeram em Monte Carlo fora intil. Diana ficou imvel por um momento e tudo pareceu girar  sua volta. Acalmou-se com esforo, 
mas enquanto lavava as mos sentia-se dolorosamente triste e vazia. No queria que Andy soubesse, mas ele viu nos olhos dela. Conhecia as datas e sabia que naquele 
fim de semana confirmariam se sua misso na Europa fora bem-sucedida. A resposta estava no rosto de Diana.
       - Surpresa desagradvel? - perguntou ele, cautelosamente. Andy a conhecia muito bem e isso a comoveu, mas estava deprimida demais para se importar com os 
sentimentos dele. Era difcil para ele tambm e aos poucos Diana estava fazendo com que Andy se sentisse um fracasso.
       - Sim, surpresa desagradvel - respondeu ela, desviando os olhos. Para Diana, a viagem toda fora um desperdcio. Naquele momento, toda sua vida parecia sem 
sentido.
       - No quer dizer nada, meu bem. Podemos tentar outra vez. - E outra... e mais outra... e outra... e sempre para nada. Por qu? Para que continuar tentando? 
Quem disse que era tolice se preocupar?
       - Eu quero consultar o especialista - disse Diana tristemente, enquanto o garom servia o caf. Pelo menos para ela, a noite estava estragada. Seu nico objetivo 
na vida era aquele filho. Nada mais impor tava realmente, nem seu trabalho, seus amigos, s vezes, nem mesmo o marido. Apesar de dizer que o filho no era o objetivo 
principal da sua existncia, ambos sabiam que era.
       - Por que no conversamos a esse respeito em outra ocasio? - sugeriu Andy, calmamente. - No h pressa. No estamos desesperados. Faz s um ano. Muita gente 
acha que se deve consultar o especialista depois de dois anos. - Andy procurava acalm-la, vendo que Diana estava quase chorando e extremamente nervosa.
       - No quero esperar tanto - disse ela, com voz tensa, sentindo clicas e odiando o que elas significavam. Detestava tudo relacionado com seu ciclo.
       - timo. Ento podemos esperar uns dois meses. No precisamos sair correndo e voc deve se informar sobre o mdico antes de consult-lo. 
       - J verifiquei. Jack disse que  um dos melhores da Amrica. 
       - Ah, muito bem. Ento est contando seus problemas ao Jack outra vez. O que foi que disse a ele? Que eu no consigo uma ereo, que tive caxumba quando criana 
ou apenas que no est funcionando? - Andy estava zangado com o exagero de tudo aquilo que o punha na berlinda e o fazia sentir-se culpado. Para no falar do que 
ela estava fazendo ao seu aniversrio de casamento.
       - Eu s disse a ele que estou preocupada e que meu ginecologista me indicou esse mdico. Ele no perguntou nada. No se ofenda por to pouco. - Diana tentou 
apaziguar as coisas, mas Andy estava zangado e desapontado. E secretamente sentia que tinha falhado com ela.
       - Como  que no vou me ofender, pelo amor de Deus? Uma vez por ms voc parece que vai morrer e olha para mim com esses olhos tristes, como dizendo que a 
culpa  minha e por que diabo no consigo dar um tiro certeiro. Bem, para dizer a verdade, eu no sei por qu. Talvez seja minha culpa, talvez no seja, talvez no 
seja droga nenhuma, apenas voc nos enlouquecendo. Mas, se acha que ajuda, v ao especialista, faa o que tem de fazer e, se for preciso, vou com voc.
       - O que quer dizer, se for preciso? - indagou Diana com mgoa. A noite estava definitivamente arruinada. - O problema no  s meu. Est acontecendo com ns 
dois.
       - Sim, est, graas a voc. Mas, quer saber de uma coisa? Talvez no haja problema nenhum. Voc est criando essa coisa toda por causa da sua idia fixa e 
histrica de ter um filho. E sabe o que mais? No dou a mnima para o fato de suas irms terem engravidado no altar. Conosco foi diferente, e que importncia tem 
isso? Por que voc no esquece por um tempo e vamos ver se podemos viver como dois seres humanos normais?
       Diana estava chorando quando saram do restaurante e no trocaram uma palavra at chegar em casa. Ela ficou um longo tempo trancada no banheiro, soluando 
pelo beb que no tinha concebido e pelo aniversrio estragado. E se Andy tivesse razo? Se ela estivesse sendo neurtica? Ser que estava enganada? Ser que tudo 
no passava de uma competio com Gayle e Samantha? Ou o problema existia? E por que, por mais que se esforasse nunca conseguia ser to boa quanto elas? Andy estava 
acordado, esperando, quando Diana apareceu finalmente com uma camisola cor-de-rosa comprada por ele em Paris.
       - Desculpe - disse ele, quando ela se aproximou da cama. - Acho que fiquei desapontado tambm. Eu no devia ter dito tudo aquilo. - Andy a abraou carinhosamente 
e viu que ela havia chorado. - No tem importncia, meu bem. No importa se nunca tivermos filhos.  voc que eu amo. Voc que  importante para mim.
       Diana queria dizer que sentia o mesmo, mas a verdade era que uma parte dela no partilhava daquele sentimento. Ela o amava, mas queria o filho e sabia que, 
enquanto no conseguisse, sempre faltaria alguma coisa no seu casamento.
       - Eu a amo, Di - murmurou ele, abraando-a.
       - Eu tambm o amo... mas sinto que falhei com voc.
       - Bobagem - disse ele, com um sorriso. - Voc no falhou com ningum. E provavelmente vai acabar tendo gmeos e suas irms vo ficar verdes de inveja.
       - Eu o amo. - Diana estava sorrindo outra vez e tinha o corao mais leve. Lamentava ter arruinado aquela noite.
       - Feliz aniversrio, minha querida. 
       - Feliz aniversrio - murmurou ela.
       Andy apagou a luz e a segurou nos braos durante um longo tempo, pensando no futuro dos dois e imaginando o que iria acontecer se nunca tivessem um filho. 
       
* * *
       
       Bradford e Pilar passaram em casa seu primeiro aniversrio de casamento. Haviam planejado ir ao E1 Encanto, mas o telefonou quando estavam saindo, avisando 
que Nancy estava em trabalho de parto. Falaram com ela por alguns minutos e Pilar disse que estariam em casa  espera das notcias. Brad, porm, ficou desapontado.
       - Por que voc disse isso? Pode demorar horas. O beb pode s chegar amanh.
       - Ora, meu querido. Podemos ir amanh.  o nosso primeiro neto e devemos ficar aqui, para o caso de precisarem de ns.
       - Uma coisa que nenhuma mulher precisa quando tem o primeiro filho  a presena do pai.
       - Ainda assim, acho que devemos ficar aqui. E se acontecer alguma coisa?
       - Tudo bem, tudo bem... vamos ficar em casa. - Brad soltou o n da gravata e olhou para Pilar, grato a ela por ter sido sempre to atenciosa com seus filhos. 
Eles tinham muita sorte por terem Pilar e felizmente agora reconheciam isso.
       Pilar preparou o jantar e comeram macarro, acompanhado por vinho,  luz da lua, na varanda.
       - Na verdade - disse Brad com um sorriso -, talvez isto seja melhor do que E1 Encanto. Pelo menos  mais romntico. Eu j lhe disse hoje o quanto a amo?
       Brad estava muito bonito e parecia mais jovem; Pilar estava linda, o vestido azul combinando com a cor dos seus olhos.
       - No nas duas ltimas horas. Eu comeava a ficar preocupada. Depois que ela tirou a mesa, ficaram sentados na varanda e Brad contou como ficou nervoso quando 
Nancy nasceu. Ele tinha 35 anos, o que no era muito jovem para ser pai pela primeira vez, naquele tempo, mas ficou apavorado e sentia-se como uma criana, andando 
na sala de espera do hospital, esperando para ver o filho. Disse que quando Todd nasceu j era veterano e, cheio de orgulho, distribuiu charutos para a cidade inteira. 
       Confessou que havia comprado alguns charutos e que ia fazer a mesma coisa quando nascesse o filho de Nancy.
       Pilar estava feliz por eles e esperava que tudo corresse bem. O telefone os surpreendeu s dez e meia. Estavam ainda na varanda e Pilar correu para atender. 
Era Tommy, e depois Nancy, felizes e encantados. Era um menino e pesava um pouco mais de quatro quilos.
       - E tudo no levou mais de trs horas e meia, do comeo ao fim - anunciou Tommy, com orgulho, como se Nancy acabasse de realizar uma proeza jamais vista no 
mundo.
       - Com quem ele parece? Comigo, eu espero - brincou Pilar e todos riram.
       - Na verdade - disse Nancy, imensamente satisfeita -, ele  igualzinho ao papai.
       - Graas a Deus - gabou-se Brad, na extenso do quarto. - Deve ser um garoto muito bonito.
       - Ele  - acrescentou Tommy, orgulhoso.
       Brad perguntou se tudo estava bem e disseram que fora tudo perfeito. Nancy no tomara nenhum anestsico, o parto fora normal e Tommy assistira a tudo, ajudando-a. 
       Quando desligaram, Brad voltou para a varanda, com um sorriso de orgulho. Tinha um neto.
       - As coisas mudaram - murmurou ele. - Se tivessem me pedido para assistir ao parto dos meus filhos, eu teria desmaiado.
       - Eu tambm - socou Pilar. - Essa parte nunca me atraiu muito. Mas eles esto to felizes! Como crianas, excitados, orgulhosos e satisfeitos. -Seus olhos 
se encheram de lgrimas. Era uma sensao que ela no conhecia e que provavelmente nunca iria conhecer. Olhou para ele e sorriu. -Engraado. Voc no parece av.
       - Boa notcia. Aceita um charuto?
       - Acho que eu passo. - Mas Pilar sabia o que desejava naquele momento, ali sentada, olhando para o mar escuro.
       - No que est pensando? - Brad viu nos olhos dela uma solido intensa que nunca vira antes. Mas ali estava agora. Sentimentos to profundos que nem para ele 
Pilar ousava trazer  superfcie.
       - No estava pensando em nada - mentiu.
       - No  verdade. Estava pensando em alguma coisa muito importante. Eu nunca a vi assim, Pilar. Diga no que estava pensando... - Sim, tinha visto umas duas 
vezes.
       Quando concordara em se casar com ele e uma ou duas vezes, antes. Segurou as mos dela. - Pilar... o que ? - Espantou-se quando viu que ela estava chorando. 
Brad queria abra-la, proteg-la daquelas lgrimas, daquele olhar to sofrido, da mgoa que a dominava.
       - Eu estava s pensando... Bobagem minha... Eles so jovens, e merecem tudo isto... Estava s pensando como fui tola. - Ele mal conseguia ouvir a sua voz 
na penumbra. - Estava s pensando no quanto eu adoraria ter um filho seu...
       Pilar se calou e ele no disse nada por um longo tempo, apenas ficou ali segurando as mos e olhando-a.
       - Voc fala srio, no ? - perguntou com suavidade. Ele desejava de todo corao que ela tivesse chegado a essa concluso mais cedo, para o bem dos dois, 
mas no era possvel ignorar a angstia nos olhos dela, nem o tom da sua voz.
       - Sim,  exatamente o que eu sinto - disse Pilar e Brad lembrou-se de quando ela aceitou casar-se com ele, depois de afirmar durante tantos anos que preferia 
continuar solteira. E agora, depois de todo aquele tempo, depois de estar absolutamente convencida de que no queria filhos, agora, quase ao apagar das luzes... 
Pilar queria ter um filho seu.
       Brad a abraou e a aconchegou contra seu peito. Detestava saber que nas profundezas da sua alma Pilar se sentia completamente vazia.
       - No me agrada a idia de voc no ter o que deseja... especialmente quando  algo importante... - disse ele, com uma certa tristeza. - Mas, na verdade, 
estou velho demais para ter filhos outra vez. Posso nem chegar a v-los crescidos - completou, muito srio, e Pilar sorriu. Ela compreendia. No queria obrig-lo 
a coisa alguma.
       - Preciso de voc aqui at eu crescer e isso pode demorar muito ainda - disse ela, enxugando as lgrimas.
       - Talvez tenha razo - riu ele, recostando-se na cadeira e passando a mo levemente no rosto molhado de lgrimas da mulher. - Ento, o que vamos fazer com 
esse beb? - perguntou, com um sorriso nos olhos. - Qual beb? O de Nancy?
       - No. O nosso. O seu. O meu... nosso... o que voc parece desejar tanto.
       - Vamos fazer alguma coisa? - Pilar olhou para ele, atnita. No queria dizer o que sentia para que Brad no tivesse a impresso de estar sendo obrigado, 
mas ele insistiu e ela acabou contando.
       - Voc quer mesmo tanto assim? - perguntou Brad e Pilar fez que sim com a cabea, os olhos cheios de amor. - Pois, ento, vamos tentar. Na minha idade, no 
posso prometer nada. Ao que sei, o equipamento j nem funciona mais, pelo menos no que se refere a fazer bebs. Mas podemos tentar... Vai ser divertido... Brad riu 
com malcia e Pilar o abraou. Estava surpresa coma reao dele, mas no tanto quanto havia surpreendido a si mesma e a ele. Se algum tivesse dito que algum dia 
ela iria querer um filho, Pilar teria achado muita graa. E agora ela queria tanto que estava chorando.
       - Tem certeza? - Olhou ternamente para o marido. - Voc no precisa fazer isso por mim.
       - Sim, preciso... H muito tempo eu quis ter filhos com voc. Mas voc gosta de me fazer esperar, no  mesmo?
       - Muito obrigada por ter esperado - murmurou ela, desejando que no fosse tarde demais para nenhum deles. Essa era uma possibilidade e no podiam saber com 
antecedncia. Precisavam tentar e ver o que acontecia. 
       
* * *
       
       Charlie comprou champanhe e um belo anel para Barbie como presente de aniversrio de casamento. Ele no sabia por que, mas achava que ela no tinha lembrado. 
Charlie no disse nada, para fazer surpresa. Seu plano era preparar o jantar, com muito champanhe, e depois dar o anel, que era em forma de corao com um pequeno 
rubi no centro, comprado na Zale's. Barbara gostava de jias, roupas e coisas bonitas, e Charlie gostava de surpreend-la com pequenos presentes. Barbara era to 
bonita e ele a amava tanto e, na sua opinio, ela merecia plenamente todo seu carinho. Ela dissera que tinha um teste para um comercial de detergente naquela manh 
e que  tarde iria fazer compras com Judi e sua nova companheira de quarto. Pretendiam ir ao Broadway Plaza e Barbara prometeu estar em casa para o jantar. Charlie 
no insistira para no estragara surpresa. s seis e meia, porm, ele comeou a entrar em pnico. Quando ela saa com Judi e as outras amigas, s vezes bebiam um 
pouco demais e esqueciam a hora. Esperava que ela voltasse muito mais cedo. O teste devia ter sido cansativo e estressante; tratava-se de um comercial de mbito 
nacional e ela queria muito ser atriz.
       Durante todo o ano Barbie havia conseguido apenas uma meia dzia de papis sem importncia, exceto um deles, onde cantou e danou vestida de uva passa. Mas 
a grande oportunidade para a carreira em Hollywood estava ainda para aparecer. Barbara trabalhava como modelo free-lance sempre que podia, especialmente modelando 
mais, e Charlie ficava muito orgulhoso. No se importava que ela trabalhasse no teatro ou como modelo, mas no queria que ela voltasse a ser garonete, nem que 
trabalhasse numa loja, como Judi, que h seis meses trabalhava no departamento de cosmticos da Neiman-Marcus e insistia sempre com Barbara para fazer o mesmo. Charlie, 
no entanto, no queria isso para ela. Os dois viviam bem com as comisses de Charlie. Uma vez ou outra o dinheiro ficava curto, ento ele cozinhava macarro com 
queijo e ficavam em casa assistindo  TV. Logo ele recebia outra comisso e chegava em casa com uma braada de flores para a mulher. A bondade de Charlie s vezes 
fazia Barbara sentir-se culpada. Ela tentava explicar isso para Judi. No parecia direito ficarem casa, fazendo as unhas, telefonando para seu agente, almoando 
na cidade com a amiga, quando sabia que Charlie trabalhava arduamente para sustent-la. Mas Judi achava que estava tudo certo, que Barbara tinha muita sorte e ela 
acabava concordando. 
       Depois de trabalhar durante tantos anos como corista, garonete e at como frentista num posto de gasolina certa vez em Vegas, entre um emprego e outro, agora 
era uma verdadeira dondoca. E Barbara era boa para ele, ou pelo menos tentava ser, mas ainda no tinha se acostumado com a idia de estar casada. Era estranho ter 
de dizer aonde ia e o que tinha feito, estar presa a um homem, ficar em casa o tempo todo em vez de ir a festas. s vezes sentia falta dos velhos tempos, especialmente 
quando saia com Judi e as amigas e elas contavam o que tinham feito ou iriam fazer. Mas ento voltava para casa e para a bondade e a ternura de Charlie e era impossvel 
no am-lo. Barbara s queria que ele fosse mais interessante, que tivessem uma vida mais movimentada. Charlie, porm, era firme como uma rocha e ela sabia que podia 
contar com ele, sabia que ele sempre estaria ao seu lado quando precisasse dele. s vezes isso a assustava, era como se jamais pudesse fugir dele. Mas, ento, perguntava 
a si mesma por que iria querer fazer isso.
       s sete horas o jantar estava pronto e a mesa arrumada; Charlie tomou um banho de chuveiro, vestiu o terno azul e tirou o presente da gaveta onde o tinha 
escondido. O champanhe estava na geladeira. s sete e meia, estava tudo em ordem. Ele ligou a TV e s oito horas o assado comeou a queimar nas pontas. s nove horas, 
Charlie estava em pnico. Tinha acontecido alguma coisa. Talvez um acidente, pensou ele. Judi dirigia pessimamente e estava sempre batendo com o carro. Telefonou 
para a casa dela, no havia ningum. Telefonou outra vez s nove e meia. A secretria eletrnica estava ligada e ele deixou outro recado. Mas, s dez horas, quando 
telefonou novamente, Judi atendeu e ficou surpresa ao ouvira voz dele.
       - Onde est Barb? - perguntou Charlie logo que ela atendeu. - Ela est bem?
       - Est tima, Charlie. Foi para casa h alguns minutos. Deve estar chegando. O que est acontecendo? - perguntou Judi, aborrecida. Charlie parecia extremamente 
preocupado.
       - Como Barbara veio para casa? - Por que Judi no a levara de carro?
       - Tomou um txi. Talvez demore um pouco, mas vai chegar, Charlie. Fique frio. Voc a est prendendo com rdea muito curta ultimamente, no acha?
       -  nosso aniversrio de casamento - disse ele, tristemente.
       - Oh! - Um longo silncio seguiu-se e depois ela disse: - Eu sinto muito.
       Tinham sado juntas, tomaram alguns drinques e, como Charlie havia imaginado, esqueceram da hora at quase nove e meia.
       - Obrigado. - Charlie desligou o telefone e depois o forno. Por que Barbara tinha sado outra vez com Judi e as amigas? Porque na noite do seu aniversrio? 
E porque ele no a lembrara da data? Porque queria fazer uma surpresa com o champanhe e o jantar. Teria sido mais fcil dizer a ela o que pretendia fazer. Sabia 
que Barbara era desligada, que gostava de passear e visitar amigas. Foi uma grande bobagem fazer surpresa.
       s 10:45, estava assistindo ao jornal na TV e ouviu a chave na fechadura. Saltou da cadeira quando ela entrou na sala. Barbara usava um vestido preto muito 
justo, saltos altos e estava incrivelmente sexy.
       - Onde voc esteve? - perguntou ele, ansioso. - Eu disse para voc. Fui fazer compras com Judi.
       - Isso foi onze horas atrs. Por que no me telefonou? Eu podia apanh-la na cidade.
       - Eu no quis dar trabalho, meu bem.- Barbara beijou-o levemente no rosto e ento viu a mesa. Ficou surpresa e depois sentiu-se culpada. - O que  isto? O 
que foi que voc fez?
       -  o nosso aniversrio - disse ele, em voz baixa. - Fiz o jantar para voc. Acho que foi uma bobagem querer fazer surpresa.
       - Oh, Charlie... - Os olhos de Barbara encheram-se de lgrimas. Ela sentiu-se como a ltima das mulheres, especialmente quando ele serviu o champanhe e levou 
para a mesa o assado e o pudim Yorkshire.
       - Passou um pouco do ponto - riu ele timidamente e Barbara o beijou com um sorriso.
       - Voc  o mximo - disse ela com sinceridade. - Quero que me desculpe, meu bem. Eu esqueci completamente. Uma grande tolice.
       - Tudo bem. Vai lembrar no prximo ano. Combinamos um encontro e vamos jantar num restaurante. Um lugar chique de verdade, como o Chasen's.
       - Este jantar me parece muito especial - disse ela. A comida estava quase toda queimada, mas o champanhe pareceu-lhe delicioso. Barbara j havia tomado alguns 
drinques, mais alguns mais no iriam fazer mal. Um pouco depois estavam fazendo amor no sof, o vestido dela e o terno de Charlie amontoados no cho, e ele esqueceu 
completamente o jantar queimado.
       - Uau! - murmurou ele, feliz, quando finalmente conseguiram respirar. - Uau... uau! Uau!
       Barbara riu e, quando resolveram ir para o quarto, eram trs horas da manh. No dia seguinte, acordaram ao meio-dia, Barbara com uma terrvel dor de cabea. 
Quase no podia enxergar quando Charlie abriu as persianas e ento ele lembrou que no tinha dado a ela o presente comprado na Zale's. Barbara apanhou o embrulho, 
queixando-se de dor de cabea.
       - No sei porque gosto tanto de champanhe. No dia seguinte parece que tenho britadeiras na cabea.
       -  por causa das bolhas. Pelo menos foi o que me disseram. Charlie nunca bebia demais, mas Barbara s vezes se excedia. No sabia se controlar quando se 
tratava de champanhe.
       - O que  isto? - Desembrulhou o presente bem devagar, deitada na cama, em toda a glria da sua nudez.
       Barbara tinha um corpo notvel e Charlie no conseguia desviar os olhos nem manter as mos longe dele por muito tempo.
       - Um presente de aniversrio de casamento, mas se demorar muito para abrir vou ter de interromper. - Era quase doloroso olhar para ela, impossvel no desej-la.
       Naquele ano, fazer amor com Barbara tinha se tornado um vcio incontrolvel.
       Finalmente ela abriu a caixa, viu o anel e, com uma exclamao de alegria, disse que era uma beleza. Charlie fazia tanto por ela. Ningum jamais fizera nada 
igual em toda sua vida. Mesmo assim, por causa do seu passado, s vezes era difcil ser completamente sincera com ele. Mas em momentos como aquele, Barbara se arrependia.
       - Eu sinto muito o que aconteceu ontem  noite - disse ela com voz sensual, rolando para o lado dele.
       Charlie esqueceu tudo, exceto aquelas pernas, aquele corpo, aqueles seios incrveis que o encantavam.
       Ficaram na cama at as duas da tarde, tomaram um banho de chuveiro juntos e fizeram amor outra vez. Charlie estava em grande forma e de timo humor.
       - Na verdade, apesar do comeo um tanto lento, eu diria que este foi um grande aniversrio - observou ele, com um largo sorriso, quando se vestiam para jantar 
e ir ao cinema com um casal amigo.
       - Eu tambm acho - disse ela, olhando para o anel com um largo sorriso. Depois o beijou. Percebeu ento que Charlie parecia um pouco hesitante, com aquela 
cara de quando queria perguntar alguma coisa a ela, mas tinha medo de aborrec-la. - O que h? ... Ora, pode deixar... eu sei... a pergunta errada.
       Charlie riu, surpreso por ver que ela o conhecia muito bem.
       - O que o est preocupando? Est com cara de quem quer me perguntar alguma coisa.
       Enquanto falava, Barbara vestiu uma saia curta e justa de couro preto, calou sapatos de salto alto e apanhou uma suter no armrio. O cabelo louro estava 
preso no alto da cabea e ela parecia uma Olivia Newton-John um pouco mais cheia, mais sensual. Charlie era um homem de boa aparncia, mas ficava ofuscado ao lado 
de Barbie.
       - Por que acha que quero fazer uma pergunta? - s vezes era embaraoso para ele revelar seus pensamentos.
       - Ora, vamos logo com isso - disse Barbara
       No havia nenhuma timidez na pose dela com a suter justa delineando os seios perfeitos. Charlie tinha pensado em fazer a pergunta na noite anterior, depois 
do champanhe e do anel, talvez antes de fazerem amor, ou at mesmo depois. Mas as coisas no aconteceram na ordem prevista. Fizeram amor a noite toda e nem se importaram 
com o jantar.
       - Ora, vamos, do que se trata? - perguntou ela, impaciente, e Charlie comeou a ficar nervoso. No queria fazer a pergunta na hora errada, no queria que 
ela ficasse zangada. Barbara sabia que era alguma coisa sobre a qual no queria falar, mas que significava muito para ele. Charlie tinha de perguntar.
       - No sei se  o momento certo - hesitou ele, com medo de estragar tudo.
       - Minha me sempre dizia: "No atire um p de sapato apenas". Ento, qual  o caso, Charlie?
       Ele sentou-se na cama, procurando as palavras certas. Era muito importante para ele, no queria que Barbara se irritasse. Sabia o que ela pensava sobre o 
assunto.
       Mas tinha grande significado para ele e achava que deviam pelo menos conversar a respeito.
       - No sei bem como vou dizer... ou explicar o quanto significa para mim, Barb... mas... eu quero um filho.
       - O qu? - Barbara olhou para ele como um gato furioso, com a suter preta de l angor. Com uma expresso de extremo desagrado, disse: - Voc sabe que eu 
no quero filhos, Charlie. No agora. Puxa vida, eu quase consegui um comercial esta semana. Se ficar grvida, vou jogar toda a minha carreira pela janela e posso 
acabar vendendo batons no Neiman-Marcus, como Judi.
       Charlie no disse que "toda a carreira" dela resumia-se em papis insignificantes, diversos testes para comerciais e a ltima fila das coristas de Oklahoma!, 
para no mencionar aquele ano desagradvel em Las Vegas. Seu nico sucesso fora desfilar modelando biqunis.
       - Eu sei - disse ele, compreensivo. - Mas voc podia deixar sua carreira em compasso de espera. No estou dizendo que tem de ser agora. Mas quero que saiba 
o quanto  importante para mim. Eu quero uma famlia, Barb, quero filhos. Quero dar a algum o que eu nunca tive, me, pai, um lar, uma vida. Podemos realmente representar 
muito na vida dos nossos filhos. Eu quero fazer isso. Estamos casados h um ano e achei que devia falar no assunto.
       - Pois se voc quer brincar com crianas, entre para o Corpo da Paz. Eu no estou preparada para isso. Tenho quase 32 anos e, se no correr atrs do que eu 
quero agora, mais tarde pode no estar mais ao meu alcance.
       - Eu estou com trinta anos, Barbie. Trinta. E quero uma famlia. A splica nos olhos dele deixou Barbara nervosa.
       - Uma famlia? - perguntou ela, erguendo uma sobrancelha, encostada na parede, extremamente sexy com a saia justa de couro preto. - Isso significa quantos 
filhos? Dez? J pertenci a uma delas.  horrvel. Acredite, eu sei. - Mais do que podia contar, mais do que ele poderia imaginar.
       - Mas no tem de ser assim. Talvez sua famlia fosse horrvel. Mas a nossa no vai ser, meu bem. - Charlie estava com os olhos cheios de lgrimas. - Preciso 
disso na minha vida... nada estar completo enquanto eu no conseguir. No podemos pelo menos tentar agora?
       J haviam conversado a respeito antes do casamento, mas nunca procurando uma deciso imediata. Charlie nunca negou que queria filhos e Barbie no teve coragem 
de dizer que no queria, apenas dissera: "mais tarde". Porm, "mais tarde" estava chegando cedo demais para ela.
       Barbara olhou com tristeza para fora, atravs da janela. Certas lembranas ela no queria partilhar com ele, mas no queria fazer parte de uma famlia outra 
vez, nem encher sua vida de filhos. Sabia que jamais quis isso. Tentara dizer logo que se conheceram, mas Charlie no quis ouvir e at agora no acreditava que ela 
no quisesse filhos.
       - Por que agora? Estamos casados s h um ano. Est timo assim, por que estragar tudo?
       - No vai estragar nada, Barbie, s pode melhorar. Por favor, Barb... pense no assunto.
       Barbara odiou a splica na voz dele. Charlie a estava pressionando e isso no era justo. Especialmente nesse assunto de filhos.
       - Talvez a gente nem consiga - ela tentou desencoraj-lo. - s vezes fico pensando se no h alguma coisa errada conosco. A maior parte das vezes no usamos 
nenhum preservativo. Nunca fui to descuidada quanto agora, Charlie, e nada acontece. - Ela sorriu. - Talvez seja nosso destino no ter filhos. - Barbara o beijou, 
procurando excit-lo, o que nunca era difcil. - Eu serei o seu beb, Charlie.
       - No  a mesma coisa. - Ele sorriu, dominado. - Embora seja muito agradvel... muito mesmo.
       Enquanto a beijava, Charlie imaginou se podia fazer com que Barbara fosse mais descuidada ainda. Talvez na poca certa. Podia ser melhor do que tentar convenc-la 
e ele sabia que, se tivessem um filho, ela iria gostar. Resolveu prestar mais ateno ao ciclo menstrual da mulher. No tempo certo compraria uma garrafa de champanhe 
e - Bingo! - teriam um filho. Acabaram de se vestir e saram, Charlie animado com a nova idia, Barbara feliz, certa de que ele esqueceria essa histria de famlia, 
pelo menos por algum tempo. Ela jamais dissera que no queria ter filhos, mas tambm nunca tinha dito que sim. De uma coisa, porm, tinha certeza no importava o 
quanto Charlie desejasse ter filhos, ela jamais os teria.
        
       
       
       
       
CAPTULO  - 6 -
       

 N
o feriado de Quatro de Julho, Nancy e Tommy levaram o filho para visitar Pilar e Brad. Era incrvel notar o quanto todos tinham mudado. Nancy e Tommy pareciam extremamente 
amadurecidos e responsveis e Brad no se cansava de brincar com o neto. Era difcil imaginar como tinham vivido sem ele at ento. Pilar adorava carregar o beb 
e era maravilhoso pensar que talvez algum dia tivesse o seu tambm. Uma sensao incrvel.
       Adam era gorducho e redondo, adorava dormir no colo de quem quer que fosse, tinha olhos azuis enormes e era uma delcia t-lo nos braos. 
       - Voc fica muito bem com ele no colo - disse Brad suavemente, quando os dois caminhavam juntos, ela carregando Adam. - Talvez ele tenha um novo tio ou tia 
muito em breve - brincou ele, e Pilar sorriu.
       Tinham trabalhado para isso durante toda a semana seguinte ao aniversrio de casamento e estavam curiosos para saber o resultado naquele fim de semana. Naquela 
noite, porm, antes de se deitar, Pilar descobriu que no estava grvida. Saiu do banheiro arrasada e perplexa. Ela sempre conseguia o que queria na primeira tentativa.
       - Meu bem, o que aconteceu? - Brad pensou que ela estivesse doente. Pilar sentou na cama, ao lado dele, com os olhos cheios de lgrimas.
       - No estou grvida.
       - Ora, pelo amor de Deus! - Brad sorriu carinhosamente. - Pensei que tivesse acontecido alguma coisa horrvel.
       - E no acha isso horrvel? - Pilar estava atnita. Raramente no obtinha sucesso em alguma empreitada. Mas Brad sabia das coisas.
       - Depois de quatorze anos? S porque tentou uma vez, no significa que vai conseguir imediatamente o que quer. Talvez precise se esforar um pouco mais. - 
Brad a beijou e Pilar sorriu, ainda tristonha. - Pense s em como vai ser divertido continuar tentando.
       - E seno der certo? - perguntou ela, assustada. No era to fcil quanto parecia.
       Brad olhou atentamente para ela, imaginando como Pilar encararia o fracasso.
       - Se no der certo, Pilar, ento teremos de viver com isso. Mas tentaremos o possvel. No se pode fazer mais nada.
       - Na minha idade, talvez fosse mais prudente consultar um especialista antes - argumentou ela, preocupada.
       - Na sua idade, muitas mulheres tm filhos sem especialistas ou esforos hericos. Voc no pode controlar o mundo todo. S porque trs semanas atrs resolveu 
ter um filho, no quer dizer que pode fazer com que acontea de um dia para o outro. D tempo ao tempo. Acalme-se... - Ele a abraou e depois de algum tempo Pilar 
se acalmou e conversaram tranqilamente sobre o beb que pretendiam ter. Se tivessem.
       Brad achava que era cedo demais para pensar num especialista, mas, quando Pilar insistiu, concordou em ir com ela se fosse realmente necessrio.
       - Mas, por enquanto, no - disse ele, apagando a luz. - Acho que o que precisamos - terminou, aproximando-se dela sob as cobertas -  de um pouco mais de 
treino. 
       
* * *
       
       Para Diana o piquenique de Quatro de Julho dos Goode foi um pesadelo. H dois dias tinha descoberto mais uma vez que no estava grvida e suas irms a atormentaram 
impiedosamente,perguntando o que estava acontecendo e se ela achava que Andy tinha algum problema.
       -  claro que no - defendeu-o Diana, com a sensao de estar sendo massacrada a ponto de nem poder respirar.-  s uma questo de tempo.
       - No precisamos de tempo nenhum e voc  nossa irm - observou Gayle. - Talvez a contagem de espermatozides dele seja baixa - disse ela, aliviada por estar 
pondo a culpa nele. J havia comentado o caso com o marido.
       - Porque voc no pergunta a ele? - retrucou Diana, agressiva, e Gayle ficou ofendida.
       - Eu s estava tentando ajudar. Talvez voc deva convenc-lo a consultar um mdico.
       Diana no disse que tinha hora marcada no especialista no dia seguinte. Como Andy dizia, no era da conta delas.
       Mas foi Sam quem quase a deixou sem fala com um ltimo e inesperado golpe. Foi durante o almoo e Diana pensou que ia vomitar quando ouviu a notcia.
       - Muito bem, minha gente... - comeou ela, olhando a seguir timidamente para o marido, que sorriu. - Conto para eles?
       - Nada disso - riu ele. - S daqui a seis meses. Deixe que adivinhem at l. - Todos gostavam do seu sotaque irlands e dos seus modos descontrados. Era 
muito querido na famlia desde que casara com Samantha.
       - Ora, vamos com isso - objetou Gayle. - Conte.
       - Tudo bem - continuou Sam com um sorriso feliz. - Estou grvida.  provvel que o beb nasa no dia dos namorados.
       - Que maravilha! - exclamou sua me e o pai sorriu satisfeito. Ele estava conversando com Andy e interrompeu-se para dar os parabns  filha e ao genro. Seria 
seu sexto neto; trs da filha mais velha, trs da mais nova e nenhum de Diana.
       - Isso  maravilhoso - disse Diana, beijando Sam, que num murmrio desfechou o golpe de misericrdia.
       - Pensei que voc ia me passar a frente, mas vejo que no.
       Pela primeira vez na vida Diana teve vontade de esbofetear a irm. Vendo Samantha rir e se gabar, vendo todos em volta dela dando-lhe os parabns e fazendo 
piadas, Diana a odiou. O pior de tudo, porm, era que afinal quem iria ter um beb era Samantha e no Diana.
       Diana e Andy no trocaram uma palavra at chegar em casa. Ao entrarem, ele explodiu.
       - Escute, que diabo, no  minha culpa, no descarregue em mim! - Sabia exatamente o que estava acontecendo com ela desde o momento em que Samantha anunciara 
sua gravidez. E os olhos de Diana pareciam repletos de acusaes silenciosas.
       - Como  que voc sabe? Talvez a culpa seja sua! - Assim que acabou de falar, Diana se arrependeu. Sentou-se no sof, os olhos cheios de desespero. Ele parecia 
abalado.
       - Oua, eu sinto muito... No sei o que estou dizendo. Mas elas me deixam to furiosa. Sei que no tm essa inteno, mas s dizem as coisas erradas e Sam 
me deixou arrasada quando disse que est grvida.
       - Eu sei, meu bem. - Andy sentou-se ao lado dela. - Eu sei. Estamos fazendo todo o possvel. - Sabia que Diana iria consultar o especialista no dia seguinte. 
- Provavelmente ele vai dizer que est tudo bem. Procure se acalmar. - Diana odiava essa palavra mais do que tudo no mundo.
       - Eu sei...  claro. - Levantou-se e foi para o chuveiro. Mas s pensava nas irms. Estou grvida... Talvez a contagem de espermatozides dele seja baixa... 
Pensei que voc ia me passar a frente, mas vejo que no... Estou grvida... Estou grvida... contagem baixa de espermatozides... Diana chorou no chuveiro durante 
meia hora e depois foi para a cama sem dizer uma palavra a Andy.
       O dia seguinte amanheceu ensolarado e brilhante. Era quase uma afronta da natureza ao seu profundo estado de depresso. Diana no foi trabalhar nesse dia. 
Ultimamente o trabalho parecia exaustivo - a presso, os prazos inadiveis, a poltica, as pessoas. Antes era divertido, mas at isso parecia amargo e irritante 
sem um beb.
       Sua nica amiga mais chegada na revista notara a falta de entusiasmo de Diana pelo trabalho. Eloise Stein era editora da seo de culinria e, na semana anterior, 
na hora do almoo, enquanto experimentavam algumas receitas que ela havia trazido recentemente da Frana, perguntara:
       - Alguma coisa a preocupa ultimamente? - Eloise era uma mulher inteligente, bonita e muito observadora, formada em Yale, com ps-graduao em Harvard. Era 
de Los Angeles e finalmente tinha "voltado ao lar", como dizia. Aos 28 anos, morava num apartamento ao lado da casa dos pais, em Bel Air. As vantagens que a vida 
lhe oferecia no a tinham estragado e Eloise era tima companhia e uma boa amiga. Diana e Andy haviam tentado aproxim-la de Bennington, mas ele ficara apavorado. 
Eloise era uma mulher muito amadurecida, muito capaz, embora Bill desse como desculpa o fato de ela ser muito magra e muito alta. Parecia uma modelo.
       - No, eu estou bem - respondeu Diana brevemente, elogiando a comida que estavam experimentando. Entre outras coisas havia rillettes e uma receita de dobradinha 
que fez Diana lembrar-se de quando morava em Paris. -  difcil acreditar que voc coma como todo mundo - disse Diana. Eloise era muito magra, tinha grandes olhos 
azuis e cabelos lisos, longos e louros.
       - Quando estava na faculdade eu era anorxica - explicou Eloise. - Ou pelo menos tentava ser. Acho que na verdade eu gostava demais de comer para continuar 
com a anorexia e minha av, que mora na Flrida, estava sempre me mandando biscoitos deliciosos. - Mas no era fcil fazer Eloise desistir de alguma coisa, e isso 
era parte do seu sucesso na revista. - Voc no respondeu  minha pergunta.
       - Sobre o qu? - O olhar de Diana parecia vago, mas ela sabia exatamente do que se tratava. Gostava de Eloise, mas hesitava em contar seus problemas a quem 
quer que fosse. A nica pessoa com quem conversava a respeito era Andy.
       - Sei que alguma coisa a preocupa. No quero ser indiscreta, mas voc comea a ter aquele ar de quem vai bater numa parede, sempre garantindo que est bem.
       - Pareo to mal assim? - perguntou Diana horrorizada e depois riu.
       - No, eu exagerei, mas d para notar. Devo tratar da minha vida ou voc quer uma amiga?
       - Na verdade... no... eu... - Ia dizer que estava bem e de repente comeou a chorar. Balanando a cabea, com as lgrimas escorrendo pelo rosto, Diana comeou 
a soluar incontrolavelmente. Com o brao sobre os ombros dela, Eloise ia dando os lenos de papel. S depois de um longo tempo Diana parou de chorar.
       - Desculpe, Eloise... eu no queria... - Ergueu o rosto, como nariz vermelho e os olhos ainda marejados de lgrimas, sentindo-se melhor. Era um alvio desabafar 
com algum. - No seio que aconteceu.
       - Sim, voc sabe. Precisava desesperadamente disso. - Eloise a abraou rapidamente e depois serviu uma xcara de caf forte.
       - Acho que tem razo. - Diana respirou fundo. - Estou com problemas... em casa, se posso dizer assim. Nada muito grave, apenas algumas coisas s quais preciso 
me ajustar.
       - Com seu marido? - perguntou Eloise. Ela gostava de Diana e de Andy. Era uma pena saber que estavam com problemas. Pareciam to felizes na ltima vez que 
tinham jantado juntos.
       - No, na verdade no posso culpar Andy. Acho que  mais minha culpa. Eu o estou pressionando muito. H mais de um ano tentamos ter um filho e ainda no conseguimos. 
Eu sei que pode parecer idiotice, mas para mim  como se houvesse uma morte na famlia a cada ms, um desastre terrvel que terei de enfrentar novamente e que me 
apavora. Todos os meses eu espero que acontea e todos os meses fico com o corao partido. No  uma bobagem? - Comeou a chorar outra vez e assoou o nariz no leno 
de papel.
       - No  bobagem - retrucou Eloise. - Eu jamais quis ter filhos, mas  muito normal. Alm disso, para pessoas como ns, habituadas a controlar as coisas,  
mais assustador quando elas no acontecem como queremos. Voc sabe, a diablica palavra "controle" provavelmente tem uma parte importante no seu desapontamento. 
A perda total do poder, a impossibilidade de influenciar diretamente o fato de ter ou no um filho.
       - Talvez. Porm,  mais do que isso...  difcil explicar...  um vazio terrvel... um anseio, um desejo dominador. s vezes tenho vontade de morrer. No 
posso falar com ningum, nem com Andy. Sinto que morro por dentro e tudo fica congelado como se eu estivesse presa numa concha.  o mais intenso sentimento de solido 
que se pode imaginar. Nem sei como posso descrever.
       - Parece horrvel - disse Eloise. Era exatamente o que estava acontecendo no escritrio. Diana afastava-se de todos, no permitindo que ningum chegasse muito 
perto dela. Sem dvida isso tinha de afetar seu casamento. - J consultou um especialista? - Eloise queria sugerir tambm um psicanalista, mas no teve coragem. 
Estava comovida por Diana ter confiado nela. Era uma honra.
       - Tenho uma hora marcada na prxima semana. O nome dele  Alexander Johnston. - Pareceu tolice dizer o nome do mdico, mas j que estava confiando em Eloise, 
no tinha nada demais. Surpreendeu-se quando a amiga sorriu, servindo outra xcara de caf. - J ouviu falar nele?
       - Algumas vezes. Ele  scio do meu pai, que  endocrinologista de reproduo. Se as coisas ficarem difceis, talvez eles a empurrem para ele, ou se voc 
fizer fertilizao 'in vitro', ento meu pai ser o encarregado. Ele j no aceita muitos pacientes, s os que so recomendados por Alex, ou um ou outro colega. 
Voc est em boas mos com Alex Johnston. 
       - Diana olhou para ela, pensando em como o mundo era pequeno, mesmo naquele campo to especializado da medicina. - Quer que eu diga a ele que a conheo? - 
perguntou Eloise, cautelosamente.
       - No, prefiro que no diga nada.  melhor ficar s entre ns. Mas estou feliz em saber que escolhi a clnica certa.
       - A melhor. Eles vo resolver seu caso. As estatsticas so impressionantes ultimamente. Eu cresci ouvindo falar disso. Acho que nunca acreditei que bastava 
"fazer aquilo" para ficar grvida. Sempre pensei que meu pai precisava estar presente para ajudar.
       Era uma idia diferente e Diana riu.
       Finalmente, quando estavam na sobremesa, comendo deliciosas tortinhas de ma com creme fresco, Eloise perguntou por que Diana no tirava alguns dias de folga. 
Seria mais fcil para ela e para Andy, mas Diana disse que no podia e por fim admitiu que no queria.
       - No posso simplesmente abandonar meu trabalho. Alm disso, o que eu iria fazer? Minhas irms deixaram de trabalhar e agora esto em casa com os filhos. 
Mas, voc sabe, no acredito que eu possa ficar em casa, pelo menos no agora. Se eu tivesse um filho, talvez fosse mais fcil. Mas agora o trabalho me ocupa enquanto 
eu conto os dias e tiro minha temperatura todas as manhs.
       - Acho que eu no suportaria isso - disse Eloise.
       - Eu quero demais ter um filho. Creio que nessa situao a gente faz uma poro de coisas.
       Lembrando das descries do pai sobre os processos usados, Eloise sabia disso melhor do que Diana.
       Agora no carro, a caminho do Edifcio Wilshire Carthay, Diana pensava em Moise, imaginando se teria oportunidade de conhecer o pai dela. Parecia incrvel 
que tivesse escolhido justamente o scio do pai da sua companheira de trabalho. Todas as pessoas com quem falara tinham garantido que Alex Johnston era o melhor, 
mas mesmo assim, subindo no elevador, Diana sentia-se extremamente nervosa e assustada.
       A sala de espera era silenciosa e elegante, decorada com cores suaves, quadros valiosos de arte moderna e uma enorme palmeira a um canto. Depois de esperar 
alguns minutos, Diana entrou no consultrio. Passou por um corredor longo, com mais quadros nas paredes e clarabias no teto, e entrou numa sala revestida com lambris 
de madeira clara; no cho havia um bonito tapete e, num canto, a bela escultura de uma mulher carregando o filho. S de olhar para a esttua ela sentiu um aperto 
no corao.
       Agradeceu  enfermeira e sentou-se, tentando manter-se calma, pensando em Andy. Morria de medo do que poderiam fazer com ela ou do que poderiam descobrir, 
mas todos seus temores desapareceram quando conheceu o mdico. Era um homem alto, cabelos cor de areia, mos longas e elegantes e inteligentes olhos azuis. De certo 
modo, ele a fazia lembrar-se de seu pai.
       - Como vai? - perguntou ele, estendendo-lhe a mo. - Sou Alex Johnston.  um prazer conhec-la. - Parecia sincero. Conversou com Diana durante alguns minutos, 
perguntando o que ela fazia, de onde era, h quanto tempo estava casada. Em seguida, apanhou uma caneta e uma ficha que estavam sobre a mesa e disse: - Vamos fazer 
algumas anotaes e pr mos  obra. O que a traz aqui, Sra. Douglas?
       - Eu... ns... estamos tentando ter um filho h pouco mais de um ano, treze meses, para ser exata, e at agora no conseguimos. - Disse tambm que, antes 
do casamento, s vezes eram descuidados e ela no engravidara.
       - J teve alguma gravidez? Algum filho, vivo ou nasceu morto?... Abortos?
       - Nunca - disse Diana, solenemente. O Dr. Johnston inspirava respeito e confiana e Diana sentiu que ele iria resolver seu problema. - Alguma vez antes foi 
"descuidada"? - perguntou, olhando atentamente para ela.
       - No, sempre fui muito cuidadosa. 
       - Quais os mtodos que usou?
       As perguntas continuaram. O mdico queria saber especialmente se Diana havia usado o DIU e ela disse que sim, quando estava na universidade. Perguntou se 
tinha tomado plula e por quanto tempo. Se teve alguma doena venrea - ela nunca as tivera , cistos, tumores, dores, hemorragias, acidentes, infeces graves de 
qualquer tipo, cirurgias ou se havia na famlia casos de cncer, diabetes ou outras doenas. Ele queria saber tudo. No fim da longa lista de tudo que Diana jamais 
tivera, ele garantiu que um ano no era um tempo muito longo, embora compreendesse que parecia longo para ela e para o marido. Mas no havia motivo para pnico. 
Acrescentou que, na idade deles, podia tranqilamente recomendar que tentassem mais seis meses, ou at mesmo um ano, antes de qualquer investigao, embora pessoalmente 
preferisse fazer alguns testes ao fim de um ano sem resultado.
       - O que acha de fazermos alguns exames agora? Coisa simples, apenas preliminares, para termos certeza de que voc no tem nenhuma pequena infeco que possa 
estar prejudicando o equilbrio do organismo. Ele sorriu quando Diana disse que preferia fazer os exames agora ao invs de esperar mais um tempo. Estava certa de 
que no suportaria mais seis meses de esperana e desespero. Queria saber por que no engravidava. Tinha de haver uma explicao simples e ela preferia saber agora 
para tomar as providncias necessrias o mais cedo possvel. Explicou tudo isso ao Dr. Johnston.
       - H tambm a possibilidade - ele sorriu - de no precisar tomar nenhuma providncia. Podemos descobrir que sua sade  perfeita e que s precisa ser paciente. 
Ou, se houver alguma dvida, podemos examinar seu marido.
       Diana e Andy tinham combinado que ela faria os exames primeiro e, se o mdico achasse necessrio, examinaria Andy.
       - Espero que no encontre nada - disse ela e o Dr. Johnston concordou, acrescentando que por enquanto a nica coisa que o preocupava era o fato de ela ter 
usado o DIU.
       Ele a levou a uma sala no outro lado do corredor onde Diana trocou de roupa para o exame. Seria apenas um exame plvico comum, explicou o Dr. Johnston. Os 
outros testes seriam efetuados dali a aproximadamente duas semanas, perto do tempo da ovulao. Analisariam o muco cervical para ver se era "convidativo" ou "hostil" 
ao esperma. No segundo caso, fariam outros testes, como o de reao cruzada. Na poca da ovulao, porm, fariam um ultra-som para ver como o folculo estava amadurecendo 
antes da ovulao e um teste ps-coital, que consistia apenas em um exame microscpico do seu muco e do esperma de Andy para medir o nmero e a mobilidade de espermatozides.
       Nesse dia, entretanto, realizariam apenas um exame plvico para verificar a existncia de tumores, cistos, infeco ou deformidades e depois colheriam sangue 
para um teste de HIV, infeces de baixo grau e para checar a imunidade  rubola. Ele queria tambm um hemograma completo e ia colher material cervical para cultura, 
a fim de verificar a existncia de outras infeces. s vezes a chave do problema era uma simples infeco. Sem dvida era um plano minucioso, embora nesse dia s 
fossem fazer os exames mais simples; mas pelo menos estavam fazendo alguma coisa para descobrir o que acontecia no seu organismo. Sorriu lembrando a histria que 
Andy havia contado na noite anterior. Quando era pequeno, certa vez seu nariz ficara completamente tampado e ele mal podia respirar. A me o levou a um especialista 
para examinar-lhe as adenides e as amgdalas.
       - Adivinhe o que era! - Desafiou ele solenemente, os dois na cama, abraados.
       - Eu no sei... uma sinusite?
       - Muito mais simples. Uvas passas. Eu enfiei uma poro delas no nariz, as uvas se acomodaram no calor do meu nariz, comearam a inchar e eu fiquei com medo 
de contar para minha me. Portanto, quando for ao mdico amanh, meu bem... no se esquea de dizer a ele para procurar alguma uva passa.
       Diana sorriu outra vez, enquanto o mdico a examinava, pensando no quanto ela amava Andy.
       Mas o Dr. Johnston no encontrou passas, nem deformidades, tumores, cistos ou sinais de infeco. Para alvio de Diana, tudo estava perfeitamente normal.
       Logo depois do tcnico do laboratrio coletar uma amostra de sangue para anlise, ela se vestiu. O Dr. Johnston pediu que ela voltasse dentro de dez dias 
para os testes. Disse-lhe que iria determinar exatamente quando deviam fazer amor naquele ms, no perodo frtil, e queria que ela usasse o kit de ovulao na semana 
seguinte para verificar o aparecimento de hormnio luteinizante na urina, que deveria ocorrer imediatamente antes da ovulao. Parecia complicado, mas na verdade 
no era. Apenas uma coisa nova para ela. E ele queria que Diana continuasse medindo a prpria temperatura, como havia feito nos ltimos seis meses, o que tanto irritava 
Andy, que dizia que era como viver com uma hipocondraca, com um termmetro na boca todas as manhs. Mas, como sempre, acabara concordando, j que ela acreditava 
que aquilo iria ajud-los.
       O mdico sugeriu tambm que ela e Andy deviam diminuir o ritmo  de vida, tirar alguns dias de folga, fazer as coisas de que gostavam,  mesmo que isso significasse 
o sacrifcio de projetos de trabalho ou da companhia de amigos.
       - O estresse pode ser um fator importante na infertilidade. Procurem se libertar das tenses tanto quanto possvel. Passem mais tempo ao ar livre, comam e 
durmam bem.
       Era mais fcil falar do que fazer, no mundo moderno, ele sabia, mas tambm achava que valia a pena dar esses conselhos. Repetiu que provavelmente no havia 
nada de errado com nenhum dos dois e que s precisavam de mais tempo para que tudo acontecesse normalmente. Mas garantiu que, se houvesse algum problema, eles descobririam. 
Diana saiu do consultrio pensando em outra coisa que ele dissera. Que cerca de cinqenta por cento dos casos de infertilidade tratados por eles tinham bebs saudveis, 
mas que outros casais, saudveis, sem nada de anormal, jamais tinham filhos. Era uma coisa que ela teria de enfrentar, se fosse o caso, mas Diana no sabia como. 
S o fato de ter consultado o mdico, conversado sobre as possibilidades, os testes, era uma prova do quanto ela queria um filho. Diana faria qualquer coisa para 
ver seu sonho realizado.
       No percurso de volta para casa, sentia-se exausta e por um momento pensou em ir at o escritrio, mas lembrou o conselho do mdico e resolveu fazer compras. 
Entrou no Sak's com uma deliciosa sensao de culpa. Telefonou para Andy, mas ele havia sado para almoar. Finalmente foi para casa e resolveu fazer um jantar caprichado.
       Andy telefonou s trs horas e percebeu a descontrao na voz dela. Pelo menos no tinham encontrado nada de errado em Diana. Afinal, talvez fosse culpa dele. 
Nos ltimos dois meses havia comeado a pensar nisso.
       - Ento? - perguntou em tom carinhoso e provocante. - Eles encontraram?
       - Encontraram o qu?
       - As passas. Voc no disse a ele para procurar?
       - Ora, seu bobo... - Diana contou as perguntas do mdico, os exames que tinham feito e os testes a serem realizados, nenhum deles realmente horrvel. Ela 
estava com medo de algum tratamento desagradvel, mas por enquanto tudo parecia muito simples.
       - Ento, vai voltar dentro de duas semanas?
       - Dez dias e nesse nterim continuo a tirar a temperatura todas as manhs e comeo a verificar a urina com o kit na prxima semana.
       - Para mim parece complicado - disse Andy, imaginando o que o futuro reservava para eles, especialmente para ele. Talvez os testes para homens fossem mais 
complicados.
       Ainda achava que tudo aquilo era desnecessrio e um pouco assustador. Mas estava resolvido a continuar, por Diana.- A propsito - continuou ele, depois de 
Diana explicar tudo e descrever o Dr. Johnston nos mnimos detalhes, at os sapatos que ele calava e os diplomas na parede do consultrio -, tem mais uma coisa 
que voc no vai acreditar.
       - Voc foi aumentado - arriscou Diana,esperanosa. Andy trabalhava como um escravo para a firma.
       - No, mas vou ser, segundo fontes muito prximas da cpula.  outra coisa, muito boa tambm. Adivinhe.
       - O seu chefe foi preso por atentado ao pudor na lanchonete - disse ela, fechando os olhos e pensando de forma criativa.
       - Muito interessante... queria saber de onde tirou essa idia... No, eu conto, pois sei que voc nunca vai adivinhar e tenho uma reunio em dois minutos. 
Bill Bennington vai se casar com a namorada advogada no Dia do Trabalho, na casa de vero dos pais dela no lago Tahoe. D para acreditar? Eu quase me engasguei com 
o sanduche que estava comendo quando ele me contou. Pensei que estava brincando. Voc acredita?
       - Se quer saber, sim, acredito. De um modo meio estranho, acho que Bill est pronto para casar.
       - Espero que sim. De qualquer modo,  melhor que esteja. O casamento vai ser dentro de sete semanas. Vo passar a lua-de-mel pescando no Alasca.
       - Que horror! Acho melhor voc falar com ele.
       - O melhor agora  eu correr para a reunio. Vejo voc mais tarde, meu bem. Devo estar em casa l pelas sete.
       E como sempre acontecia, Andy cumpriu a promessa e encontrou um magnfico jantar  sua espera. Diana escolheu uma das receitas francesas de Eloise e fez algumas 
modificaes por conta prpria. Preparou um pernil de carneiro com um pouco de molho de alho, vagens e cogumelos silvestres. Para sobremesa, um delicioso sufl de 
abric.
       - Nossa! O que eu fiz para merecer tudo isto? - perguntou Andy, quando Diana serviu o caf.
       H muito tempo ela no se sentia to bem e dava para perceber.
       - S achei que seria interessante preparar um bom jantar, uma vez que tive um dia de dondoca.
       - Acho que voc devia ficar em casa mais vezes.
       Diana gostava de cozinhar e cuidar da casa, mas gostava do seu trabalho tambm. Ao contrrio das irms, enfrentou um pequeno conflito pessoal quando se casou 
e talvez enfrentasse novamente, se tivesse um filho. Mas no precisava pensar nisso agora. Tudo que tinha a fazer era "relaxar e diminuir o ritmo", segundo o mdico. 
Quando contou isso a Andy, ele gostou da idia e imediatamente sugeriu passarem o fim de semana em Santa Barbara.
       - Eu adoraria.
       Andy tinha combinado sair com Bill e a noiva naquela semana. De repente, a vida parecia mais divertida, sem dvida porque Diana tinha certeza de que o Dr. 
Johnston descobriria um meio de ajud-los a ter um filho.
       Passaram momentos agradveis e adoraram a noiva de Bill, Denise Smith. Andy, porm, ficou surpreso quando Diana recusou, com desculpas vagas, o convite para 
jantarem na casa dela na semana seguinte. Mais tarde ela explicou que estaria ovulando naquela semana, tinha de ir ao consultrio do Dr. Johnston para novos testes 
e os dois precisavam fazer amor em dias certos. No queria acrescentara isso a tenso de uma vida social muito movimentada.
       - Talvez seja um repouso, no uma tenso - discordou Andy, mas Diana preferiu marcar o jantar para a outra semana. Andy no ficou satisfeito, mas Diana estava 
ocupada, tentando ter um filho.
       Ela continuou a tirar a temperatura religiosamente todas as manhs, antes de se levantar da cama, e a usar o kit como o mdico havia explicado. O papel ficou 
azul, como o Dr. Johnston previra, e naquela tarde ela foi ao consultrio para colher uma amostra do muco cervical. Ele disse que tudo parecia em ordem, "muito amistoso 
e agradvel", foi a expresso usada por ele, e Diana riu nervosamente. Ele sugeriu que fizessem amor na manh seguinte e logo depois Diana deveria ir ao consultrio 
para o teste ps-coital que demonstraria o comportamento do esperma de Andy.
       No fim da tarde Diana voltou ao trabalho e tomou caf com Eloise.  noite, relatou a Andy a visita ao mdico e lhe disse que precisavam fazer amor na manh 
seguinte.
       - Que castigo pesado! - queixou-se ele, em tom de brincadeira, mas a verdade  que no foi fcil. Andy tivera indigesto na noite anterior e no se sentia 
bem quando acordou. Parecia que estava com um comeo de gripe e disse que achava que "as coisas no iriam funcionar como deviam".
       - Mas voc precisa - disse Diana, tensa, tentando ajud-lo. - Hoje  o dia da minha ovulao e tenho de fazer o teste ps-coital logo depois. Tirei a temperatura 
e est comeando a baixar o que significa que provavelmente vou ovular hoje... Andy... voc precisa. - Olhou acusadoramente para ele e Andy teve vontade de mand-la 
para o inferno, mas no mandou.
       - Formidvel. Obrigado pela importante mensagem do meu patrocinador.
       Andy virou para o lado, masturbou-se por algum tempo, at dar vida aos instrumentos necessrios, depois fez amor com a mulher, mas sem a menor sugesto de 
romance. No foi sequer agradvel. Ento, sem uma palavra, Andy levantou e foi para o chuveiro. No era nada interessante desse modo, com dia e hora marcada e at 
na posio pr-determinada.
       Os dois tomaram o desjejum tensos e silenciosos.
       - Desculpe-me - disse Diana, suavemente.
       - No se desculpe - retrucou Andy, por trs do jornal aberto. - S que no estou me sentindo muito bem esta manh. Esquea. - Ele detestava fazer amor com 
ela daquele modo e estava apreensivo com os testes e com o que poderiam descobrir.
       Mas o teste ps-coital demonstrou que seu esperma era normal. Os espermatozides nadavam satisfeitos, eram em grande nmero, tinham muita mobilidade, tudo 
excelente, segundo o mdico.
       O Dr. Johnston queria tambm fazer um ultra-som para esclarecer alguns pontos importantes da avaliao geral. Precisava saber a espessura das paredes do tero, 
o tamanho do folculo e se seu organismo respondia adequadamente  prpria produo de hormnios. Garantiu que o exame no seria desagradvel e realmente no foi.
       Para alvio de Diana, ele disse que at ento tudo parecia perfeitamente normal.
       Dois dias depois, ela voltou  clnica e foi verificado que o folculo havia rompido, libertando o vulo, outro passo no caminho da concepo. Bill e Denise 
os convidaram para jantar outra vez no dia seguinte, mas Diana, exausta por causa da tenso das trs visitas  clnica, para os testes, disse que no tinha disposio 
para sair e sugeriu que Andy fosse sem ela. Tudo que desejava era ir para a cama, rezando para que finalmente estivesse grvida. Nada mais tinha importncia agora 
para ela.
       Nem o trabalho, a famlia ou os amigos. Pelo menos agora podia conversar com Eloise. Mais do que nunca, sua vida estava voltada para um nico objetivo. s 
vezes Diana tinha a impresso de que estava perdendo Andy de vista. Na segunda-feira voltou  clnica onde colheram sangue para examinar os nveis de progesterona 
na fase semiltea, sete dias aps a ovulao. A temperatura subira imediatamente aps o aparecimento do hormnio luteinizante na urina, o que era normal, e indicava 
que ela havia ovulado. Agora s podiam esperar e ver se tinha engravidado.
       Foram dez dias interminveis para Diana, que no conseguia pensar em outra coisa. Porm, ao mesmo tempo, achava que era tolice pensar que nesse ms ia ser 
diferente. No receitaram nenhum medicamento, apenas estavam colhendo informaes. Mesmo assim, Diana estava esperanosa; comeou a sentir nuseas dois dias antes 
da data da sua menstruao e as esperanas cresceram quando verificou, na manh do dia provvel, que no estava menstruada.
       Telefonou do escritrio para o Dr. Johnston e ele a mandou esperar mais um ou dois dias; seu corpo no era uma mquina e as variaes eram comuns. Naquela 
noite Diana descobriu que estava menstruada e soluou durante um longo tempo na cama. Imaginava agora que outros testes iriam fazer. A coisa toda tornava-se cada 
vez mais deprimente.
       No dia seguinte, quando ela telefonou, o mdico sugeriu que Andy marcasse uma consulta com ele. At ento, todos seus testes pareciam normais.
       - timo. O que significa isso? - perguntou Andy,irritado. - Que ele pensa que a culpa  minha?
       - Que importncia tem isso, desde que verifiquem que tudo est normal? No quero saber de quem  a culpa, talvez no haja nada de errado. Talvez todos estejam 
certos e s precisaremos demais tempo. No fique to tenso.
       Mas Andy ficou mais furioso ainda quando telefonou para marcar a hora e pediram que levasse uma amostra de smen recente. Alm disso, aconselharam a no ter 
relaes sexuais trs dias antes de colher a amostra.
       - Isso  formidvel - reclamou ele, naquela noite. - O que eles querem que eu faa? Que me masturbe no escritrio e v correndo para a clnica? Minhas secretrias 
vo adorar.
       - Voc pensa que eu gostei de correr para o mdico trs vezes para o exame de ultra-som? Pare de fazer com que parea pior do que . - Mas a verdade  que 
a situao era pssima e ambos sabiam disso.
       - Est bem, est bem.
       Andy no tocou mais no assunto, mas a tenso era grande entre eles. Na manh seguinte, quando chegou  clinica para fazer os testes, foi com uma atitude claramente 
hostil que entrou no consultrio. No,nunca tivera gonorria, sfilis, clamidase, herpes ou as outras doenas mencionadas pelo mdico. Jamais tivera infeces, 
tumores, problemas com ereo, impotncia ou qualquer doena grave.
       O Dr. Johnston percebeu a hostilidade, mas estava acostumado. Era desagradvel para qualquer pessoa e, afinal de contas, ele estava desafiando a masculinidade 
de Andy.
       Explicou que tiraria uma amostra de sangue para verificar os nveis de hormnio e fariam a anlise e cultura do smen que Andy havia levado. Poderiam fazer 
uma contagem de espermatozides, bem como um perfil hormonal completo, e era possvel que ele tivesse de voltar para retirar mais sangue porque o nvel do hormnio 
masculino  muito varivel, dependendo da hora do dia ou do estado de sade do homem no momento.
       Depois da retirada do sangue, o mdico examinou os testculos para verificar se havia veias varicosas que poderiam interferir na fertilidade e constituir 
um srio problema. E como tinha acontecido com Diana, no fim do exame, Andy estava exausto. No por ser um processo extremamente desagradvel, mas por causa da tenso 
emocional.
       Os resultados dos testes foram todos normais e Andy ficou aliviado. Sua contagem de espermatozides estava acima de duzentos milhes, o que, segundo o mdico, 
era extremamente saudvel, e a concentrao era de oitenta milhes por milmetro. Todos os testes de hormnio tambm estavam normais.
       - E agora? - perguntou Andy, quando o Dr. Johnston telefonou para informar os resultados. Decerto modo, estava feliz por saber que no havia nada de errado 
com ele, mas agora comeava a se preocupar com Diana.
       - Isso significa que ns dois estamos bem e que  s uma questo de tempo? - Se fosse esse o caso, valia a pena toda aquela tenso, s para saber esse resultado. 
Mas Johnston no tinha inteno de libert-los ainda. 
       -  provvel. Mas eu gostaria de fazer mais alguns exames em Diana. Estou preocupado com o fato de ela ter usado o DIU alguns anos atrs e quero fazer um 
histerossalpingogmma este ms, antes da ovulao. Trata-se de uma radiografia com contraste do trato reprodutor superior. Parecia uma coisa simples, mas Andy ficou 
desconfiado.
       -  doloroso?
       - s vezes - disse ele, com franqueza -, mas no sempre.  desconfortvel.
       Andy detestava a palavra "desconfortvel", quando usada por mdicos porque em geral queria dizer que no dava para se contorcer de dor, mas quase.
       - Podemos dar a ela alguns analgsicos no hospital. Diana ter de tomar doxiciclina alguns dias antes, para descartar a possibilidade de uma infeco, e prosseguir 
com o medicamento depois. Nem todos os mdicos receitam antibiticos para esse exame, mas eu prefiro evitar qualquer surpresa desagradvel. Em muitos casos, o exame 
desentope as trompas e num prazo de seis meses a mulher engravida.
       - Sim, parece que vale a pena tentar - disse Andy, cauteloso.
       - Eu acho que sim - concordou o Dr. Johnston. - Vou telefonar para ela.
       Mas Diana hesitou. Ouvira histrias desagradveis sobre esse exame. As mulheres diziam que era doloroso e uma delas teve uma assustadora reao alrgica ao 
corante. Perguntou a Eloise o que ela sabia a respeito, e no era muito. Parecia evidente que, por melhor que fosse, o exame no era nenhum piquenique. Mas oferecia 
uma informao importante.
       Um corante era injetado e os mdicos acompanhavam num monitor seu trnsito pelas trompas. Poderiam detectar deformidades do tero, tumores que poderiam ter 
escapado ao scan e entupimento das trompas, que o Dr. Johnston achava que poderia ser o seu problema. Disse a Diana que se o histerossalpingograma fosse normal, 
no precisariam fazer mais nenhum exame. Ela poderia quase ter certeza de que mais cedo ou mais tarde engravidaria e os dois deixariam de se preocupar com seus rgos 
reprodutores.Entretanto, se o HSG revelasse alguma anomalia, poderiam fazer uma laparoscopia mais tarde, naquele ms, para a resposta final. Ele no gostava de torturar 
os pacientes durante meses com testes desnecessrios ou respostas vagas. Uma vez que sua ovulao era normal e seu muco e o esperma de Andy eram tambm normais e 
compatveis, a nica coisa que ele queria ver agora era o estado das trompas.
       - O que voc acha? - perguntou Dr.Johnston a Diana, ao telefone. - Quer fazer o HSG este ms e acabar com todas as dvidas, ou prefere tentar outra vez?  
claro que podemos esperar.- Mas na verdade ele no recomendava a espera. No era a favor de desapontamentos contnuos quando havia ainda um problema no resolvido 
ou quando no existiam mais esperanas.
       - Vou pensar - disse ela, nervosa. - Telefono amanh. 
       - timo.
       Diana tinha a impresso de que nunca mais iria se livrar do Dr. Johnston. Naquele ms, ela e Andy quase no tinham estado com os amigos, ela no conseguia 
se concentrar no trabalho, no queria ver a famlia. At Andy deixou de telefonar para os irmos. Tudo que faziam era tirar a temperatura, fazer grficos, exames 
e consultas mdicas. O Dr. Johnston avisara que seria assim, sugerindo tambm a ajuda de um analista. Mas no tinham tempo nem para isso, muito ocupados no trabalho 
e com os testes e tentando se apoiar mutuamente no que parecia estar se transformando numa crise constante.
       - O que voc acha, meu bem? - Andy perguntou, naquela noite. - Quer fazer o tal bingograma, ou seja l como eles chamam?
       Diana sorriu. Ainda queria saber por que no conseguia engravidar. Mas o exame a assustava.
       - Voc vai comigo? - perguntou, ansiosa, e ele fez um gesto afirmativo.
       -  claro, se eles permitirem.
       - O Dr. Johnston disse que permite. Ele quer que seja na sexta-feira. - Est timo para mim. No tenho nenhuma reunio importante disse Andy.
       - Ento porque no fazemos de uma vez?
       Andy no respondeu e foi fazer caf para os dois. Quando voltou, Diana olhou tristemente para ele. Estava resolvida. Valia a pena, s pela informao que 
teriam.
       - Tudo bem, eu vou fazer.
       - Voc  corajosa, Di. - Andy no sabia se, no lugar dela, teria coragem. At ento, seus exames tinham sido muito simples.
       Na sexta-feira encontraram-se com o Dr. Johnston no hospital e ele lhes explicou o que seria feito numa pequena sala de exame; em seguida, deu dois comprimidos 
de analgsico para Diana. Uma enfermeira aplicou uma soluo de iodo na rea, outra administrou atropina e glucagon para relaxar os msculos e logo depois o corante 
foi cuidadosamente injetado.
       Diana via a imagem na tela, embora no significasse nada para ela. Quinze minutos depois estava terminado. Os joelhos dela tremiam e sentia clicas, mas deu 
graas por ter acabado. Andy achou que Diana foi incrivelmente corajosa. Quase desejou poder fazer o exame por ela. E mais de uma vez perguntou a si mesmo se valia 
a pena. Comeava a duvidar. Por que, em nome de Deus, precisavam de um filho?
       - Voc est bem? - perguntou, preocupado, quando Diana sentou-se na mesa de exames e fez uma careta de dor. Tudo que ela queria saber agora era o que o Dr.Johnston 
tinha encontrado.
       Ele conversava com dois tcnicos enquanto estudava cuidadosamente uma das radiografias com o radiologista. Sua ateno concentrava-se numa rea sem corante.
       - O que est acontecendo? - perguntou Andy, em voz baixa.
       - Bem, temos uma coisa interessante aqui - disse Johnston. - Vamos examinar. Conversaremos mais tarde.
       Andy e a enfermeira ajudaram Diana a se arrumar, enquanto o Dr. Johnston e o outro mdico examinavam vrias vezes a tela. Finalmente Diana sentou-se numa 
cadeira, completamente vestida. Estava um pouco plida, mas muito calma.
       - Como est se sentindo? - perguntou o Dr. Johnston e ela deu de ombros.
       - Como se tivesse sido atropelada por um trator - respondeu francamente e Andy a abraou.
       - Acho que valeu a pena - disse o Dr. Johnston. - Ao que parece, encontramos o culpado. Sua trompa direita est bloqueada, Diana, e a esquerda no est muito 
clara.
       Eu gostaria de marcar uma laparoscopia para a prxima semana. Talvez essa seja a resposta.
       - E se estiverem bloqueadas? - Diana estava apavorada. - Podem abri-las?
       - Talvez. Ainda no sei. Vou saber mais depois da laparoscopia. 
       - Droga! - desabafou ela, olhando para os mdicos e depois para Andy. No estava preparada para ms notcias. E saber que havia um problema no trazia o alvio 
que tinha imaginado.
       Marcaram a laparoscopia para a semana seguinte. O exame consistia em um procedimento cirrgico onde seria feita uma pequena inciso ao lado do umbigo, na 
qual seria inserido o telescpio que lhes permitiria ver as trompas, o tero e qualquer obstruo que existisse. Dessa vez ele prometeu que no doeria nada. Usariam 
a anestesia geral.
       - E ento? Depois? - perguntou ela, querendo saber tudo com antecedncia.
       - Vamos saber qual  o problema, Diana. Mas o HSG demonstrou que valeu a pena minha insistncia quase agressiva.
       Diana no sabia se devia ser grata a ele ou odi-lo, mas agradeceram e saram do hospital meia hora depois. Porm, em lugar do alvio por ter enfrentado um 
teste difcil, Diana preocupava-se agora com a cirurgia da semana seguinte. Era demais pensar no assunto naquele momento. Quando entrou em casa o telefone estava 
tocando e ela o atendeu automaticamente, sentindo-se como se tivesse vivido dez mil anos naqueles dias. Era sua irm, Sam, a ltima pessoa com quem Diana queria 
falar naquele instante.
       - Oi, Sam. Sim, tudo bem, e voc, como est?
       - Gorda - queixou-se a irm. Samantha ficava enorme quando estava grvida e estava agora com trs meses e meio. - Sua voz est horrvel. Algum problema?
       - Estou resfriada. Acho melhor desligar.
       - Tudo bem, cuide-se. Telefono daqui a alguns dias.
       No faa isso, murmurou Diana, desligando... no telefone outra vez... nunca... no me diga o quanto j engordou... no me fale sobre seus filhos ou sobre 
o beb...
       - Quem era? - perguntou Andy, entrando. 
       - Sam - disse ela, com voz inexpressiva.
       - Oh. - Ele compreendeu imediatamente.- Voc no devia falar com ela. No atenda ao telefone. Eu digo que voc no est.
       Mas naquela noite Greg, o irmo de Andy, telefonou e perguntou quando eles teriam um beb.
       - Quando voc crescer - brincou Andy, mas a observao foi dolorosa at para ele. Aquilo teria matado Diana.
       - No conte com isso - disse o irmo. 
       - Foi o que pensei.
       Greg queria visit-los no feriado do Dia do Trabalho e Andy achou que no convinha. No sabiam como Diana se sentiria depois da laparoscopia e o feriado estava 
perto. Talvez ela estivesse deprimida demais... ou sendo submetida a uma cirurgia... ou at mesmo grvida. Era impossvel fazer planos ou levar uma vida normal. 
s vezes Andy se perguntava como as pessoas suportavam essas coisas e at mesmo como podiam pagar. Os testes j realizados foram extremamente caros. E a laparoscopia 
seria mais dispendiosa ainda.
       Greg disse que compreendia e resolveu deixar a visita para outra ocasio. Andy disse apenas que estava sobrecarregado demais de trabalho para ter hspedes 
naquele momento, o que no parecia muito amistoso. Mas era melhor do que contar como estava a vida dos dois.
       - Isto tudo est fazendo da nossa vida uma droga, no ? - perguntou Diana, pesarosa, quando jantavam na cozinha naquela noite. A casa agora parecia grande 
demais para eles. No usavam nem a metade dos cmodos; tinham um andar inteiro com quartos que talvez jamais viessem a usar.
       - No podemos deixar que isso acontea, meu bem - disse Andy, bravamente. - E o mdico tem razo; at o fim de agosto saberemos tudo que h para saber e poderemos 
comear a fazer nossos planos. Se houver alguma coisa errada, sem dvida eles podero corrigir em pouco tempo. 
       - E seno for possvel?
       - Temos de viver com isso, no temos? H muitas possibilidades. -Ultimamente Andy andava lendo muito sobre fertilizao 'in vitro'. 
       - No posso deixar que voc simplesmente "tenha de viver com isso" - disse Diana, com lgrimas nos olhos. - Prefiro pedir o divrcio para voc se casar com 
uma mulher que possa ter filhos.
       - No diga bobagens. - Sabendo como ela se sentia, aquelas palavras o magoaram profundamente. - Podemos adotar, em ltimo caso.
       - Por qu? Voc no precisa disso. Voc no  o problema. Eu  que sou.
       - Talvez nenhum de ns seja o problema. Talvez o mdico esteja enganado. Talvez o tal bloqueio seja alguma coisa que voc comeu no almoo. Certo? Por que 
no espera at termos uma resposta? - Andy ergueu a voz e depois balanou a cabea. Diana tinha razo. A vida deles estava uma droga. E a tenso era evidente em 
ambos.
       -  isso - disse ela, com tristeza. - Talvez sejam passas. Mas Andy no sorriu. No podia.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

CAPTULO  - 7 -
       

 O
s dias arrastaram-se naquela semana e ento, de repente, era sexta-feira, o dia da laparoscopia. Diana estava em jejum completo desde a noite anterior e Andy a levou 
para o hospital de manh bem cedo.
       Assim que ela chegou aplicaram-lhe uma injeo e a levaram na maca, j sonolenta, acenando para Andy. Quando a trouxeram de volta, ao meio-dia, estava ainda 
sob o efeito da anestesia. Mas Alex Johnston j dera a Andy as ms notcias. Quando Diana acordou, Andy no disse nada e naquela tarde o Dr. Johnston apareceu no 
quarto.
       - E ento? - perguntou Diana, nervosa, sentando-se na cama assim que ele entrou no quarto.
       Alex Johnston hesitou por uma frao de segundo. Olhou para Andy, sentou-se e olhou para ela. Diana viu nos olhos dele que as notcias no eram boas.
       - Nada de bom, no ?
       - No, nada de bom - disse o mdico.- As duas trompas esto severamente lesadas; uma parece bloqueada por completo e a outra muito danificada.H diversas 
aderncias nos dois ovrios. No h possibilidade de o vulo passar pelas trompas. No temos boas notcias hoje, Diana.
       Ela olhou para ele, incrdula. No podia ser to grave. Ou seria? 
       - Pode corrigir isso? - perguntou, com voz rouca.
       Johnston abanou a cabea.
       - No podemos fazer nada. Talvez uma das trompas possa ser recuperada, mas voc tem aderncias graves nos ovrios e nos intestinos. O dano  to extenso que 
no vejo possibilidade de correo. No  completamente impossvel que um vulo consiga passar, mas  extremamente improvvel. Coisas mais estranhas j aconteceram. 
Mas eu diria que sua chance de engravidar  de uma em dez mil. E as aderncias so to grandes que qualquer tentativa de retirar o vulo pode prejudicar a cavidade 
intestinal. Isso descarta a possibilidade de fertilizao 'in vitro'. Acho que, se quisermos fazer alguma coisa, devemos tentar o transplante de vulo, usando o 
vulo de outra mulher fertilizado pelo esperma de Andy e colocando-o no seu tero, mas sem nenhuma garantia de sucesso. Ao que parece, todo seu sistema reprodutor 
foi traumatizado por uma infeco grave, provavelmente devido ao uso do DIU, uma "infeco silenciosa", como chamamos, sem sintomas, sem nenhum sinal. Eu acho que 
se voc engravidar ser por um acaso da sorte, e no temos visto muitos casos desses na histria da medicina. No podemos fazer muita coisa, a no ser usar o vulo 
de uma doadora ou recorrer  adoo.
       As lgrimas desciam silenciosas pelo rosto de Diana e Andy estava chorando tambm. Ele a abraou, mas nada podia aliviar a dor que ela sentia ou modificar 
a verdade do que haviam descoberto. Tudo que Andy podia fazer era desejar que as coisas fossem diferentes.
       - Como isso foi acontecer comigo? Porque eu nunca percebi? Por que no senti? - Uma parte do seu corpo estava morta e ela s agora sabia. Era cruel demais.
       - As infeces silenciosas so assim - explicou o Dr. Johnston. -Geralmente so provocadas pelo DIU. Infelizmente no  um acontecimento incomum. Nenhuma 
dor, nenhum sinal, nenhum corrimento, nem febre, mas  algo to violento que destri as trompas e, como no seu caso, at os ovrios com as aderncias. No imagina 
quantas mulheres jovens vemos com esse problema. No  justo, mas voc tem outras opes. - Ele queria dar-lhe alguma esperana, mas estava apenas levando-a ao desespero. 
O sonho de ter um filho havia chegado ao fim.
       - No quero o vulo de outra mulher. Prefiro no ter filhos. 
       - Diz isso agora, mas talvez pense nisso mais tarde.
       - No vou pensar, nem quero adotar - gritou ela. - Eu quero um filho meu! Por que suas irms concebiam com tanta facilidade? Por que era possvel para todo 
mundo, menos para ela? E por que tinha usado aquele maldito DIU? Diana queria castigar algum, mas no havia ningum para culpar, nenhum modo de aliviar a dor que 
sentia. Andy a abraou e depois de algum tempo o mdico saiu do quarto. No podia fazer mais nada agora.
       - Eu sinto muito, meu bem. Eu sinto tanto - repetia Andy. Logo depois voltaram para casa, Diana com a barriga dolorida e o ventre no apenas vazio, mas estril.
       - Eu no acredito - disse ela, quando entraram em casa. Olhou em volta com horror. Agora odiava aquela casa. - Quero vender esta casa - declarou, entrando 
no quarto.
       - Aqueles quartos no segundo andar so como uma acusao. Eles gritam: "Voc  estril! Jamais ter um filho!" - Diana queria morrer ao lembrar as palavras 
do mdico.
       - Por que no pensamos nas opes? - perguntou Andy, calmamente. Estava tentando no irrit-la mais ainda, mas fora um dia terrvel para os dois e agora tinham 
de pensar no que fariam com o resto de suas vidas. Nada tinha sado de acordo com seus planos e a perspectiva de mud-los radicalmente no era fcil ou agradvel. 
- Aquele negcio com um vulo doado deve ser fantstico.
       - No  fantstico! - gritou ela. Diana parecia uma pessoa completamente desconhecida para Andy.- No tem nada de fantstico nesse processo nojento. Fantstico 
 ter um filho e eu no posso! Voc no ouviu o que ele disse?
       Diana soluava histericamente e Andy no sabia o que fazer para acalm-la. Era triste para ele tambm, mas pior para ela, porque a falha fora encontrada no 
seu corpo.
       - Porque no deixamos para falar sobre isso mais tarde? - sugeriu ele, abrindo as cobertas da cama para ela se deitar. Sabia que Diana estava sentindo dores.
       - Nunca mais quero falar nesse assunto. E se quiser pedir o divrcio, est bem para mim - disse ela, deitando na cama sem parar de soluar, completamente 
arrasada.
       Andy sorriu tristemente. Diana estava pssima, mas tinha todo o direito de sentir-se assim e ele a amava mais do que nunca.
       - No quero o divrcio, Di. Eu a amo. Por que no tenta dormir um pouco? Amanh ns dois estaremos com a cabea mais clara.
       - Que diferena vai fazer? - gemeu ela, tristemente. - No existe mais o amanh. Nem a semana que vem, nem testes, nem temperaturas. No existe mais nada.
       Os mdicos haviam tirado todas as suas esperanas e com ela o desapontamento constante. Talvez isso fosse bom, pensou Andy, fechando as cortinas e saindo 
do quarto, na esperana de que ela dormisse. Mas Diana chorou durante todo o fim de semana. Na segunda-feira foi trabalhar como se acabasse de perder algum muito 
querido. A nica coisa sensata que fez foi recusar atender aos telefonemas das irms. Parecia um zumbi e Andy nada podia fazer para consol-la. Eloise tentou lev-la 
para almoar, mas Diana recusou. No queria ver ningum, falar com ningum, nem com o marido.
       Antes do feriado do Dia do Trabalho Andy tentou convenc-la a ir ao casamento de Bill e Denise, no lago Tahoe, mas ela recusou-se terminantemente. Depois 
de uma semana de discusso, Andy foi sozinho. Aparentemente, Diana no se importou e ele no se divertiu muito, mas era bom se afastar daquela fria e da dor constante 
e surda dos seus problemas. Era uma agonia e Andy no conseguia convenc-la de que a vida no tinha acabado para eles.
       - Voc no morreu e eu tambm no, nem estamos com uma doena terminal. A nica diferena  que agora sabemos que no vamos ter filhos. Mas no vou desistir 
do meu casamento por causa disso.  claro que quero filhos. E talvez algum dia a gente adote um. Mas, neste momento, somos apenas voc e eu. E vamos nos destruir 
mutuamente se no reagirmos. - Andy estava resolvido a devolver suas vidas  normalidade, mas Diana nem sabia mais o que era viver normalmente. Estava sempre discutindo 
com ele, ficava furiosa com qualquer coisa e s vezes passava dias inteiros sem falar. S parecia normal quando saa para o trabalho, mas assim que chegava em casa 
era como se estivesse enlouquecida e Andy se perguntava se ela estaria tentando destruir seu casamento. Diana no tinha mais certeza de nada, do marido, dos amigos, 
dela mesma, do trabalho e muito menos do futuro. 
       
* * *
       
       No sbado do feriado do Dia do Trabalho, Mark, o velho amigo de Charlie, convidou-o para jantar. Sua namorada estava fora da cidade, visitando os pais e no 
dia anterior ele soube, no trabalho, que Charlie tambm passaria o fim de semana sozinho. 
       Foram jogar boliche, depois tomaram algumas cervejas e viram o jogo de beisebol na televiso do bar favorito de Charlie. Uma. Para os dois, como h muito 
tempo no tinham. Os dois trabalhavam muito e nos fins de semana Charlie fazia o que Barbara queria e sempre significava compras ou visitas a amigos. E ela detestava 
era jogar boliche.
       - Quais so as novidades? - perguntou Mark, quando finalizaram o circuito das bases. Ele gostava de estar com Charlie sinceramente e preocupava-se com o bem-estar 
do amigo. Tinha s duas filhas e via Charlie como seu filho. - Onde est Barbie? Em Salt visitando os pais? - Mark sabia que ela era de Salt Lake City, e preferia 
morrer a visitar a famlia. 
       Charlie jamais revelava segredos da mulher. - Vegas com uma amiga - respondeu Charlie, com um sorriso. Gostava muito de Mark. Eram amigos e bons companheiros.
       - Ta brincando? - perguntou Mark, admirado. - Deixou que ela fosse sozinha?
       - Ela foi com Judi. - Charlie achou graa na preocupao. 
       - Judi vai desaparecer com algum cara e o que acontecer com Barbie?
       - Ela est bem crescidinha. Pode se defender sozinha. Se tiver problemas ela me telefona. - disse Charlie infeliz com a inconveniente lembrana.
       A certeza de que tudo estava bem e Barbie ficara muito bem, era a vida intensa e movimentada de Las Vegas. H quase dois anos ela no ia a Las Vegas e agora 
a sua vida naquela cidade j havia desaparecido.
       - Porque voc no foi com ela? - perguntou Mark
       - No  lugar para mim. - Charlie deu de ombros. 
       - Ahh. Detesto aquele movimento, o barulho, aquela loucura. No gosto de jogar e posso me embebedar aqui em casa, se quiser. - O que raramente acontecia. 
- O que vou fazer em Las Vegas? Barbie vai se divertir muito mais com as amigas do que se estivesse me arrastando atrs delas, enquanto elas riem, fofocam e falam 
sobre os namorados e maquiagem.
       - Ela ainda no se libertou de tudo isso, no  mesmo? - perguntou Mark, preocupado, e Charlie sorriu, comovido como interesse do amigo. 
       - Do qu? Namorados e maquiagem? - brincou Charlie. Ele confiava plenamente em Barbie. - Ela est tima. Gosta do sabor do deslumbramento uma vez ou outra 
porque a faz sentir-se como se fosse uma atriz. No conseguiu muito trabalho este ano e nossa vida  muito calma. - Charlie gostava de tranqilidade, mas sabia que 
Barbie sentia falta da vida que levava antes, embora estivesse sempre dizendo que tivera muita sorte de escapar dela casando-se com Charlie.
       - Qual o problema de levar uma vida calma? - resmungou Mark e Charlie riu.
       - Voc parece meu pai... se eu tivesse tido um pai. - Era bom saber que Mark se preocupava. A no ser Barbie,  claro, ningum jamais se importava com ele.
       - Voc no devia ter deixado Barbie ir a Las Vegas. Mulheres casadas no fazem esse tipo de programa. Devem ficar em casa com os maridos. Voc no sabe de 
nada. Nunca teve me. Mas, se minha mulher fizesse isso, eu me divorciaria imediatamente.
       - Voc se divorciou, Mark - disse Charlie e Mark sorriu meio embaraado.
       - Foi diferente. Eu me divorciei porque ela estava tendo um caso. - Com o melhor amigo de Mark, na ocasio, Charlie sabia. A mulher dele, depois do divrcio, 
sara de Nova Jersey e fora morar com as duas filhas em Los Angeles. Por isso ele se mudara para a Califrnia. Para estar perto das filhas.
       - No se preocupe tanto. Estamos muito bem. Ela precisa se divertir um pouco, isso  tudo. Eu compreendo.
       - Voc  bom demais. Vou dizer uma coisa! - Sacudiu o dedo em riste, quando a pizza chegou. - Eu era assim e aprendi... agora sou duro! -Tentou uma expresso 
feroz, mas ambos sabiam que ele era facilmente levado pelas mulheres. Fazia tudo que elas queriam, desde que no sassem com outros homens. Isso ele no admitia. 
Mas estava sendo sincero. Jamais deixaria uma das suas namoradas passar um fim de semana sozinha em Las Vegas.
       - Ento, quais so as suas novidades? - perguntou Charlie, enquanto comiam a enorme pizza de pepperoni. - Como vo Marjorie e Helen? - Eram as filhas de Mark, 
uma casada e a outra estudando ainda, ambas o orgulho da vida dele. Mark era louco por elas e quem no as achava sensacionais no merecia nem um segundo sua vida, 
especialmente as mulheres.
       - Esto timas. Eu j contei que Marjorie est esperando um beb para maro? Eu mal posso acreditar... meu primeiro neto. Eles j sabem que  um menino. As 
coisas mudaram muito desde o meu tempo. - Ento ele franziu a testa, imaginando quando Charlie iria dar o primeiro passo naquela direo. Talvez fosse exatamente 
o que Barbie precisava para no passar mais fins de semana em Las Vegas. - E vocs? Nenhum beb a caminho? J est na hora, voc no acha? Esto casados h... quanto 
tempo? Quatorze, quinze meses? A mocinha se aquietaria num instante.
       -  disso que ela tem medo - disse Charlie, com tristeza. O problema, porm, no era o que Barbie queria, mas o que no estava acontecendo. Segundo os livros 
que Charlie havia lido sobre o assunto, e ultimamente no eram poucos, estavam fazendo amor no tempo certo para conceber um filho. Mas, quatro meses depois de intensa 
ateno ao seu plano, nada tinha acontecido. Charlie comeava a ficar preocupado.
       - Ela no quer filhos?
       -  o que ela diz agora - respondeu Charles, tentando fazer Mark entender que no se abalava com isso. - Mas vai mudar de idia. Ningum pode resistir a um 
beb. Ela tem medo que uma gravidez atrapalhe sua carreira, que no possa agarrar a grande oportunidade quando aparecer.
       - Talvez nunca aparea. No podem sacrificar os filhos por uma coisa incerta - disse Mark, com firmeza. Ele no gostava muito de Barbara. Achava que ela era 
mimada e caprichosa e no aprovara o casamento. - Trate de engravid-la, no importa o que ela pense - disse ele, recostando-se na cadeira, satisfeito, e Charlie 
suspirou.
       - As coisas nunca so to simples. - Ela est tomando plula?
       - No. Pelo menos acho que no. - Nem tinha pensado nisso, mas no acreditava que Barbara fizesse alguma coisas s escondidas. Ela apenas no queria filhos 
agora e usava o diafragma s quando no tinha preguia de levantar-se da cama, o que, felizmente para Charlie, no acontecia com freqncia. Os dois eram extremamente 
descuidados nesse sentido, por isso Charlie comeava a se preocupar com a falta de resultados. Alguns meses atrs Barbara havia observado que era estranho ela no 
ter engravidado ainda. - Eu no sei - Charlie olhou para o amigo, embaraado -, mas at agora nada aconteceu.
       Charlie parecia desanimado. Mark sabia o quanto ele queria ter filhos e achava que isso lhe faria muito bem, alm de manter Barbie em casa,  claro.
       - Talvez vocs no estejam fazendo a coisa no tempo certo. No  em qualquer poca que acontece, voc sabe.  uma verdadeira cincia. Pergunte ao seu mdico.
       Na verdade, Mark tambm no sabia muito a respeito. Sua primeira filha fora concebida no banco traseiro do carro, quando Mark tinha dezenove anos e ainda 
no era casado com a me dela, e a segunda, dez meses aps a primeira. Depois disso, a mulher dele ligara as trompas e a namorada atual tomava plula. Mas ele sabia 
que havia dias propcios e outros no e talvez Charlie no soubesse disso.
       - Estamos seguindo a tabela, de acordo com uns livros que estou lendo.
       - Ento, talvez vocs s precisem relaxar - disse ele, em tom conspiratrio. - So jovens e saudveis e vai acontecer mais cedo ou mais tarde.
       - Talvez. - Mas o fato de no ter acontecido ainda comeava a deprimi-lo.
       - Voc acha que pode haver algum problema? 
       - Eu no sei.
       A preocupao nos olhos de Charlie comoveu Mark e ele pediu mais duas cervejas. Era uma noite agradvel e tranqila para os dois.
       - Voc teve caxumba quando criana ou alguma doena venrea quando ainda andava por a?
       - No - Charlie sorriu. - Nada disso. Mark franziu a testa, preocupado.
       - Sabe, minha irm e o marido tiveram um trabalho enorme para ter filhos. Estavam casados h sete anos e nada. Eles moram em San Diego e ele consultou um 
grande mdico de l mesmo. Minha irm teve de tomar comprimidos ou injees de hormnios e no sei bem o que fizeram com meu cunhado, s sei que ele teve de usar 
cubos de gelo dentro da cueca por algum tempo. Parece formidvel, no acha?
       Mas tiveram trs filhos, assim, um atrs do outro. Dois meninos e uma menina. Vou pedir o nome do mdico na prxima vez que falar com ela.  um cara importante 
em Beverly Hills, cobrou uma fortuna, mas valeu  pena. As crianas so maravilhosas.
       Os dois estavam rindo, imaginando os cubos de gelo na cueca do cunhado de Mark, quando a cerveja chegou. As vezes a vida podia ser boa, assim na companhia 
de um amigo, numa noite tranqila. Charlie gostava de estar com Barbie, mas no podia conversar com ela sobre as coisas que o interessavam e tudo que a interessava 
era to diferente. Ele e Mark tinham muito em comum e Charlie dava grande valor quela amizade.
       - Quer saber de uma coisa? No sei se estou morrendo de vontade de pr cubos de gelo na cueca.
       - Ora, se der resultado, que diabo... no  mesmo?
       -  uma pena eu no ser casado com voc - brincou Charlie. - Gosto do modo como fala sobre filhos. - Sorriu para o amigo.
       - So as melhores coisas da vida. Vou conseguir o nome daquele mdico para voc - insistiu, resolvido a ajudar de qualquer modo.
       - Eu nem tenho certeza se h algum problema. Talvez seja apenas uma questo de tempo. Eu s comecei a tentar seriamente a partir de junho. Dizem que um casal 
normal pode levar um ano para conseguir.
       - Eu gostaria de ter tido essa sorte, pelo menos uma vez. - Mark revirou os olhos e eles riram. - De qualquer modo, no faz nenhum mal verificar. Ento o 
cara diz que voc est em perfeita forma, voc se sente o prprio garanho, vai para casa, atira Barbie no cho e - Bingo! - ela fica grvida.  s isso que o mdico 
faz... uma injeo de moral nas tropas, certo?
       - Voc  um cara doido... - Charlie estava realmente comovido com o interesse de Mark.
       - Eu, doido? Fui eu quem deixou a mulher ir sozinha para Las Vegas? Acho que o doido  voc.
       - Sim, talvez - Charlie sorriu, pensando que h muito tempo no se sentia to bem. Os Mets estavam ganhando o jogo e eles terminaram as cervejas. Eram dez 
horas quando Mark o levou de carro para casa e Charlie subiu devagar para o apartamento, imaginando se devia consultar um mdico. Parecia um pouco de exagero ir 
ao especialista com to pouco tempo, mas, por outro lado, podia ser tranqilizador. Mas era um tanto estranho, considerando o fato de que Barbie no sabia dos esforos 
que ele estava fazendo para terem um filho. Ela no tinha nem idia. Na verdade, o marido nem passava por sua cabea naquela noite, enquanto se divertia com as amigas 
e encontrava alguns rapazes que h anos no via, em Las Vegas. 
       
* * *
       
        No feriado do Dia do Trabalho, Pilar descobriu pela terceira vez que no estava grvida. Ficou deprimida, mas ao mesmo tempo encarou o fato filosoficamente. 
Ela e Brad tinham combinado que, se no desse certo dessa vez, ela iria consultar um mdico. J havia feito algumas perguntas discretas e Marina disse que ouvira 
falar de uma especialista em reproduo, em Beverly Hills, que, se fosse to boa quanto sua amiga dissera, merecia uma visita. Los Angeles ficava a duas horas de 
carro de  Beverly Hills e todos os mdicos a quem Pilar telefonou disseram que a mdica em questo era fantstica.
       Na segunda-feira Pilar telefonou e marcou uma consulta para a semana seguinte. Normalmente teria de esperar meses, mas, graas  interveno da amiga de Marina, 
a mdica concordou em v-la logo. Brad assentiu em ir com ela. Ele no gostou muito da idia de Marina ter recomendado uma mdica, mas Pilar o convenceu de que se 
sentiria muito mais  vontade. - O que eles vo fazer comigo? - perguntou ele, nervoso,dirigindo o carro para Beverly Hills. Tinha determinado um recesso no caso 
que estava julgando, uma coisa que raramente fazia.
       - Acho que eles provavelmente vo cortar seu pnis, examin-lo e costur-lo outra vez. Nada complicado. S comearo as coisas importantes na prxima vez.
       - Voc ajuda muito - resmungou, e Pilar riu, feliz com a presena dele. Ela estava nervosa tambm, sem saber o que podia esperar. Mas assim que conheceram 
a Dra. Helen Wand, uma mulher pequena com olhos azuis muito vivos e cabelo grisalho, sentiram que estavam no lugar certo. Ela era inteligente e calma, com toda a 
ateno voltada para o que eles queriam e muito clara nas informaes que lhes dava. A princpio Brad a achou um pouco fria e por demais profissional, mas  medida 
que conversavam ela foi ficando mais comunicativa e demonstrou ter um fino senso de humor. Praticava a medicina como Pilar praticava o direito, com compaixo e inteligncia, 
mas tambm com grande eficincia e preciso profissional. Alm disso, estudara medicina em Harvard, o que era uma recomendao, e tinha cinqenta e poucos anos, 
o que tambm os agradou. Pilar de modo algum queria um mdico jovem e ansioso para fazer novas experincias. Queria uma pessoa sria e calma, que escolhesse processos 
mais tradicionais, sem deixar de fazer o melhor possvel por eles.
       Depois da conversa informal, ela comeou a fazer as fichas dos dois com perguntas sobre sade e problemas mdicos no passado e no presente. Brad ficou satisfeito 
ao ver que Pilar estava completamente  vontade, especialmente quando contou o aborto que fizera aos dezenove anos. Pilar no gostava de falar no assunto, mas certa 
noite, bem tarde, depois de muito vinho, ela contou para Brad, dizendo que at agora se sentia culpada. Tinha razo para no querer o filho, acabava de entrar na 
universidade, no podia de modo algum sustentar uma criana e o pai, seu primeiro caso de amor, recusou qualquer ajuda. Seus pais a teriam deserdado ou feito coisa 
pior,pelo menos foi o que ela pensou. E ela estava apavorada o bastante para fazer um aborto ilegal no Harlem espanhol. Agora, mais de uma vez ela pensara se o fato 
de no engravidar podia ser atribudo em parte quele aborto. Mas a Dra. Ward garantiu que aquela probabilidade no existia.
       - A maioria das mulheres que fez vrios abortos mais tarde tm filhos saudveis e no temos nenhuma prova de que essas mulheres tm mais dificuldade para 
engravidar. Se voc tivesse tido uma infeco grave depois, o caso seria diferente, mas pelo que me contou parece que tudo correu bem.
       Tudo isso deixou Pilar mais confiante.
       Falaram sobre os filhos de Brad e o que os dois haviam feito para evitar filhos nos ltimos quatorze anos. Em seguida, a Dra. Ward examinou Pilar e no encontrou 
qualquer problema. Como todos os especialistas, ela dava muita ateno  presena ou  histria de infeces.
       - Vocs resolveram me consultar por algum motivo especial? Nada nas histrias dos dois sugere qualquer tipo de complicao e trs meses  um tempo muito curto 
para comearem a se preocupar - disse ela, com um sorriso caloroso.
       - Isso quando se tem dezesseis anos, Dra. Ward. Eu tenho 43. No acho que tenha muito tempo para tentar.
       - Tem razo. Podemos verificar algumas coisas, como seu FSH e os nveis de progesterona, que podem afetar sua capacidade de conceber, e a tiride e prolatina, 
pelo mesmo motivo. A progesterona precisa alcanar um determinado nvel para permitir a fecundao. Pode verificar sua temperatura todas as manhs e fazer um grfico 
da temperatura basal do corpo. Podemos dar a voc um estimulante hormonal  base de clomifeno, para ver se ajuda. Clomifeno nem sempre  eficaz em mulheres com mais 
de quarenta anos, mas podemos tentar se quiser.  um hormnio que faz seu organismo produzir nveis muito altos de progesterona para ajudar a engravidar.
       - Vai fazer nascer plos no meu rosto? - perguntou Pilar e a mdica riu.
       - No que eu saiba. Mas pode deix-la um pouco tensa, com uma sensao de estresse durante os cinco dias em que deve tomar o hormnio, e at alguns dias depois. 
Algumas pessoas tm pequenos problemas com a viso, leves dores de cabea, nuseas, oscilaes do humor, mas geralmente nada muito importante.
       - Acho que eu gostaria de tentar - disse Pilar, confiante. - Que tal alguma coisa mais forte? Injees de hormnio?
       - No vejo motivo para isso ainda. No devemos interferir exageradamente com a natureza.
       A Dra. Ward no queria tomar nenhuma medida drstica com uma mulher sem nenhum problema evidente. Ela estava quase certa de que, se pudesse, Pilar recorreria 
aos mtodos mais ousados, como a fertilizao 'in vitro', que consiste em provocar a produo de vulos por meio de hormnios, retirar alguns vulos dos ovrios, 
fertiliz-los numa placa de Petri com o esperma do marido, coloc-los no tero e esperar que a gravidez fosse bem-sucedida. Quando o vulo e o esperma so saudveis 
a fertilizao  quase certa, mas no se pode garantir o prosseguimento da gravidez. Na idade de Pilar, porm, no era conveniente a fertilizao 'in vitro'. A maioria 
das clnicas recusava-se a empregar o mtodo em mulheres acima dos quarenta anos. Alm disso, no se tratava de um processo fcil. Exigia altas doses de hormnios, 
retirada cuidadosa dos vulos por mos experientes e o ndice de sucesso era de apenas dez a vinte por cento. Mas para os poucos felizardos, era uma ddiva de Deus.
       A Dra. Ward fez um exame de sangue simples, receitou clomifeno a Pilar e pediu-lhe para medir a temperatura todas as manhs, explicando como deveria fazer 
o grfico da temperatura basal e dando a ela um kit para detectar o aparecimento do hormnio luteinizante antes da ovulao. - Parece que estou entrando para o corpo 
de fuzileiros navais - disse Pilar, quando saram do consultrio com o kit e as instrues de quando fazer amor, quando no fazer e com que freqncia.
       - Espero que no. Gostei dela. O que voc achou? - Brad estava impressionado com o raciocnio inteligente e a posio conservadora da mdica. A Dra. Ward 
no se deixou levar pelo fato de Pilar ser uma mulher instruda e bem-informada sobre as opes mais sofisticadas da especialidade, recusando o uso de mtodos mais 
radicais no momento.
       - Eu tambm gostei.
       Mas Pilar estava desapontada. A Dra. Ward no tinha nenhum truque escondido na manga. Parecia a favor de procedimentos conservadores, mas, afinal, era isso 
que eles queriam. De qualquer modo, suas opes eram limitadas devido  idade de Pilar. Era velha demais para fertilizao 'in vitro', mesmo que esta fosse necessria, 
e talvez at mesmo para o clomifeno. A Dra. Ward havia sugerido inseminao intra-uterina. Se no conseguissem nenhum resultado com o clomifeno, seria a melhor opo. 
       - Parece complicado demais para uma coisa que deveria ser simples - disse Brad, surpreso ainda com os testes, os medicamentos e a mecnica do tratamento da 
esterilidade.
       - Nada  simples na minha idade - lamentou-se Pilar. - At a minha maquiagem  mais trabalhosa do que antes. - Sorriu e Brad a beijou.
       - Tem certeza de que quer fazer tudo isso? Esse remdio no me parece muito agradvel. Voc j tem bastante presso no seu trabalho sem precisar tomar comprimidos 
para ficar mais estressada.
       - Sim, eu pensei nisso. Mas quero para ns as melhores chances possveis. Vou tentar. - Agora que tinha resolvido, estava disposta a qualquer coisa para ter 
um filho.
       - Tudo bem, voc manda - concordou Brad, carinhosamente.
       - No, no mando. Mas eu o amo muito.
       Beijaram-se e voltaram para Santa Barbara, depois de jantar no Bistr, em Los Angeles. Foi uma noite agradvel, uma mudana repousante nos seus hbitos. Quando 
chegaram em casa, Pilar guardou seus novos tesouros no banheiro - o kit para medir o hormnio, o termmetro, o grfico. Tinham mandado aviar a receita do medicamento 
a caminho de casa. Ela s comearia a tom-lo dentro de trs semanas, e s se no ficasse grvida durante esse ciclo. Por enquanto, deveria comear a tirar a temperatura 
e usar o kit na manh seguinte e na semana que viria, tentaria engravidar.
       - Parece um arsenal de esperana, no acha? - Pilar sorriu para Brad enquanto escovavam os dentes, apontando para a parafernlia no armrio, do banheiro.
       - Est tudo bem, se  o que precisamos fazer. Ningum disse que seria fcil ou simples. O que importa  o resultado final. - Brad a beijou. - E se o resultado 
decretar que devemos ficar sozinhos, se nada funcionar, est bem para mim e quero que voc saiba disso. Quero que pense nisso, Pilar, e esteja preparada para aceitar. 
Ser maravilhoso se der certo, mas se no der ainda temos um ao outro e uma vida repleta de pessoas que amamos e que se preocupam conosco. No precisamos ter esse 
filho.
       - No, mas eu gostaria de t-lo - disse ela com uma certa tristeza e Brad a abraou.
       - Eu tambm quero. Mas no vou arriscar o que j tenho. E no quero que voc se arrisque.
       Brad sabia que o processo podia se tornar obsessivo a ponto de destruir o casamento e isso era a ltima coisa que ele queria, depois de esperar tanto tempo 
para se casar com ela. O que eles possuam era precioso demais.
       Na manh seguinte, sentada  sua mesa de trabalho, com os olhos perdidos no espao, Pilar lembrava as palavras de Brad.  Assim que acordou naquela manh ela 
tirou a temperatura e marcou no grfico. Fez o teste do hormnio um pouco antes de sair para o trabalho. Foi um pouco mais demorado porque tinha de manejar o recipiente 
com a urina e vrios outros vidros de produtos qumicos. Mas o teste mostrou que no estava ainda na poca da sua ovulao. Brad tinha razo. Parecia mesmo complicado 
para uma coisa que deveria ser simples.
       - Porque essa cara triste? - perguntou Alice Jackson, entrando no escritrio de Pilar.
       - Oh... nada... s pensando. - Pilar recostou-se na cadeira, procurando esquecer o que a preocupava, mas no era fcil. Ultimamente parecia que s pensava 
em engravidar.
       - No parecem pensamentos alegres. - Alice carregava uma poro de pastas. Fazia uma pesquisa importante para o marido.
       -  um pensamento alegre, mas no muito fcil - disse Pilar. Como vai o seu caso?
       - Graas a Deus, estamos quase prontos para o julgamento. Eu no agentaria mais seis meses.
       Mas as duas sabiam que Alice agentaria se fosse preciso. Ela gostava de trabalhar com Bruce e fazer pesquisas para ele. Pilar no conseguia se imaginar trabalhando 
com Brad, por mais que respeitasse seus conselhos. Tinham estilos muito diferentes e definidos, opinies muito fortes. Eram timos como marido e mulher, mas provavelmente 
no seriam grande coisa como colegas de trabalho. Pilar era muito mais emotiva do que Brad e gostava de casos difceis, quase impossveis, de preferncia em defesa 
dos desprivilegiados. Tinha muito ainda da defensora pblica. Brad, por seu lado, jamais deixou de ser um promotor ou pelo menos era o que Pilar dizia quando discutiam 
assuntos de direito. Essas discusses eram sempre amigveis.
       O telefone interrompeu sua conversa com Alice. A telefonista avisou que era sua me.
       - Oh, meu Deus! - Pilar hesitou. Alice saiu do escritrio, levando suas pastas. - Tudo bem, eu atendo - disse ela, apertando o boto aceso no telefone.
       Era meio-dia em Nova York e Pilar sabia que a me j havia trabalhado cinco horas no hospital e, depois de um almoo rpido, voltaria para mais cinco ou seis 
horas de atendimento aos pacientes. Era uma mulher incansvel que, apesar da idade, mantinha um ritmo acelerado. Brad sempre dizia que isso era um bom sinal e Pilar, 
menos caridosa, respondia que a me era ambiciosa demais para diminuir o ritmo. No tinha nada a ver com bons sinais.
       - Oi, mame - cumprimentou ela. Tentando adivinhar o motivo do telefonema. Geralmente ela esperava que Pilar telefonasse, mesmo que fosse a cada dois meses. 
Pilar pensou que podia ser outra conveno em Los Angeles. - Como vai?
       - Muito bem. Temos uma onda de calor hoje aqui em Nova York. Est incrivelmente quente. Ainda bem que o nosso ar-condicionado no foi desligado ainda. Como 
vo voc e Brad?
       - Atolados no trabalho, como sempre. - E tentando ter um filho. Pilar sorriu, imaginando a cara da me se dissesse isso. - Sempre muito ocupados. Brad est 
quase terminando um caso muito longo e metade da Califrnia parece ter estado no meu escritrio esta manh.
       - Na sua idade, voc deveria estar se preparando para a magistratura. No precisa continuar a defender essa ral liberal da Califrnia. 
       - Obrigada, mame. - Era uma conversa tpica. Perguntas, censuras, acusaes veladas, desaprovao evidente. 
       - Voc sabe que seu pai foi nomeado juiz quando era mais novo do que voc  agora. Com a sua idade foi designado para o Tribunal de Recursos. - Uma grande 
honra.
       - Sim, eu sei. Mas gosto do que estou fazendo. E no tenho certeza se nossa famlia est preparada para ter dois juzes. Alm disso, a maior parte dos meus 
clientes no pertence  ral liberal - disse Pilar, aborrecida por estar se defendendo. Sua me sempre provocava essa reao.
       - Ao que sei, continua a defender o mesmo tipo de gente que atendia quando era defensora pblica.
       - No, felizmente meus clientes tm mais dinheiro. E voc? Trabalhando muito?
       - Muito. Recentemente compareci a dois julgamentos como testemunha de casos de leses neurolgicas. Foi muito interessante e ganhamos os dois casos,  claro. 
- A humildade no era um dos pontos fortes de Elizabeth Graham, mas pelo menos ela era previsvel, o que facilitava o relacionamento.
       -  claro - disse Pilar, vagamente. - Desculpe... mas preciso voltar ao trabalho. Telefono dentro de alguns dias... Cuide-se.
       Estava se despedindo com a eterna sensao de derrota que sempre a assaltava quando falava com a me. Ela jamais vencia, a me jamais aprovava, Pilar jamais 
conseguia o que queria. Mas a idiotice disso tudo estava no fato de ela saber que jamais conseguiria, aprendera isso h muito tempo com a anlise. Sua me era quem 
era, no iria mudar. Pilar era quem deveria mudar suas expectativas. E, em grande parte, tinha conseguido, mas havia ainda momentos em que, como agora, ela esperava 
que a me fosse diferente. Elizabeth jamais seria a me compreensiva, carinhosa e amorosa que Pilar tanto desejava. E com o pai a histria fora a mesma. Mas agora 
tinha Brad para lhe dar todo o apoio, todo o amor e toda a bondade que desejara por tanto tempo sem conseguir e, quando precisava da iluso de ter uma me, tinha 
Marina. Nenhum dos dois a haviam desapontado at agora.
       Telefonou para Marina naquela tarde, durante um recesso do tribunal, para agradecer a indicao da Dra. Ward e ela ficou satisfeita por Pilar ter gostado 
da mdica.
       - O que ela disse? Alguma esperana?
       - Sim. Pelo menos no disse o mesmo que minha me, que sou velha demais e vou ter um filho deformado. Ela disse que pode demorar algum tempo e exigir algum 
esforo.
       - Tenho certeza de que Brad ter prazer em colaborar - disse Marina, contrastando completamente com o comentrio que obteria de sua me.
       - Foi o que ele deu a entender - riu Pilar. - A doutora me deu uns comprimidos, mas podem ou no ajudar. Ela disse que posso ter esperana, mas no sou nenhum 
brotinho.
       - Quem ? Lembre-se da minha me... o ltimo filho aos 52 anos...
       - Pare com isso. Voc me assusta. Prometa que para mim vai ser pelo menos antes dos cinqenta.
       - No vou prometer coisa alguma - Marina riu. - E se o bom Deus quiser que voc engravide aos noventa anos, vai engravidar. Leia o "Enquirer", pelo amor de 
Deus!
       - Voc no ajuda muito. No estamos falando de um show de coisas fora do comum, juza Goletti, mas da minha vida... ou ser que no? Minha me telefonou hoje, 
isso  sempre divertido.
       - Quais as migalhas de pensamento positivo ela partilhou com voc hoje?
       - Nada demais. Uma onda de calor em Nova York e me lembrou que meu pai foi designado para o Tribunal de Recursos quando tinha a minha idade.
       - Oh, voc, triste fracasso. Eu no tinha idia... Foi muita bondade dela falar nisso.
       - Foi o que pensei. A propsito, ela acha que eu devo me candidatar ao seu lugar.
       - Eu tambm acho. Mas isso  outra conversa e agora preciso voltar e ser uma juza. Esta tarde estamos julgando um caso que eu gostaria de nem ouvir falar. 
Um homem dirigindo bbado matou uma mulher grvida de trinta anos e seus trs filhos. O carro foi destrudo e ele saiu ileso. Felizmente, temos um jri para dar 
a deciso.
       - Pelo jeito vai ser bem severa - disse Pilar. Era um prazer conversar com Marina, ser sua amiga. Marina nunca a desapontava.
       - Tem de ser. Cuide-se. Falo com voc depois. Talvez um almoo, se voc no estiver muito ocupada.
       - Eu telefono.
       - Obrigada. At logo. - Desligaram e voltaram ao trabalho.
       No tiveram tempo para almoar juntas naquela semana, nem na seguinte. Estavam muito ocupadas. Ento Brad sugeriu alguns dias num hotel muito romntico que 
ele conhecia, no vale de Carmel. Para ele, aquela era a "semana azul", quando ia aumentar a quantidade dos hormnios luteinizantes e Pilar deveria ovular dentro 
de um ou dois dias. Seria mais agradvel passar dois dias num hotel calmo e bonito do que ficar em casa enfrentando as crises no seu tribunal e no escritrio de 
Pilar.
       Depois de uma semana de trabalho intenso, chegaram exaustos ao hotel. Mas era repousante estarem s os dois naquele ambiente luxuoso, poder conversar sem 
serem interrompidos por telefones ou uma avalanche de dossis e memorandos. Foi com prazer que passearam por Carmel, visitando as lojas de antiguidades. Brad comprou 
para ela um quadro pequeno e muito bonito que mostrava me e filho na praia, ao pr-do-sol, com um toque impressionista, e Pilar adorou. Sabia que, se engravidasse 
naqueles dias, aquele quadro teria sempre um significado especial para os dois.
       Voltaram para Santa Barbara felizes e repousados, convencidos de que dessa vez haviam conseguido. Pilar disse que tinha quase certeza. At ficar menstruada 
outra vez no ms seguinte e ter de comear a tomar o clomifeno, que teve exatamente o efeito descrito pela Dra. Ward. Pilar ficou tensa como uma mola esticada. Parecia 
sempre pronta a saltar a tudo que Brad dizia e tinha vontade de estrangulara secretria pelo menos seis vezes por dia. Precisava se controlar para no perder a pacincia 
com os clientes e quase se descontrolou numa argumentao com o juiz no tribunal. O esforo para se manter calma era um trabalho rduo. Alm disso, estava sempre 
exausta devido ao medicamento.
       -  muito divertido, no  mesmo? - disse ela a Brad. - Voc deve estar adorando isso tudo. - H duas semanas ela o vinha tratando horrivelmente e mal podia 
suportar o prprio gnio, muito menos entender como Brad a suportava. Era muito pior do que tinha imaginado, mas valia  pena se o resultado fosse um beb.
       - Valer a pena se ajudar - garantiu ele. Mas o problema foi que no adiantou. Fazia agora cinco meses que estavam tentando e marcaram uma hora com a Dra. 
Ward para a inseminao artificial, no ms seguinte, uma semana antes do Dia de Ao de Graas.
       Os trs conversaram longamente sobre o assunto antes de tomarem a deciso e a Dra. Ward garantiu que acreditava que teriam sucesso. Ela queria dobrar a dose 
de clomifeno naquele ms - o que no foi uma notcia muito agradvel para Pilar -, fazer um ultra-som um pouco antes da ovulao, para verificar o desenvolvimento 
do folculo, aplicar uma injeo de outro hormnio, a gonadotrofina connica humana - HCG -, na noite anterior ao dia da ovulao, e realizar uma inseminao intra-uterina, 
injetando o esperma diretamente no tero, facilitando seu encontro com o vulo.
       Pilar no se entusiasmou com a idia de tomar os medicamentos. J estava insuportavelmente tensa com aquela dose, mas Helen Ward garantiu que valia a pena 
tentar e eles fizeram uma reserva no Bel Air para os dois dias que acreditavam ser a data certa, baseados no que podiam esperar dos medicamentos e do que indicava 
o grfico da temperatura. A Dra. Ward disse que no deviam fazer amor nos trs dias anteriores para no enfraquecer a contagem de espermatozides de Brad.
       - Sinto-me como um cavalo de corrida em treinamento - brincou Brad, a caminho de Los Angeles. Pilar estava se sentindo humana outra vez. Tomara a ltima dose 
de clomifeno cinco dias atrs e os efeitos colaterais comeavam a desaparecer. Um simples dia sem ter a impresso de que a cabea iria estourar, um dia em que no 
brigara com Brad nem uma vez, de repente, passara a ser uma coisa importante.
       Foram diretamente para o consultrio da clnica onde foi feito um ultra-som transvaginal para examinar os ovrios. Tudo parecia normal. A Dra. Ward aplicou 
imediatamente a injeo de HCG e disse para voltarem no dia seguinte, ao meio-dia, o que lhes dava uma tarde e uma noite livres para o que quisessem, menos fazer 
amor. Pilar e Brad ficaram surpresos com a prpria ansiedade.
       - Talvez amanh eu esteja grvida - murmurou ela.
       Naquela tarde, Brad comprou, na David Orgeli, no Rodeo Drive, um pequeno broche antigo de brilhante em forma de corao e depois fizeram compras na Fred Hayman. 
Foi uma tarde extravagante, mas os dois estavam eufricos e temiam entrar de repente num estado de depresso. 
       Tomaram alguns drinques no Beverly Hills Hotel, jantaram no Spago, voltaram para o Bel Air e passearam calmamente nos jardins, olhando os cisnes, antes de 
irem para a cama. E ambos ficaram acordados por um longo tempo, pensando no dia seguinte.
       Saram do hotel de manh, nervosos, e Pilar tremia quando entraram no elevador do prdio de Helen Ward.
       - No  uma idiotice? - murmurou ela para Brad. - Sinto-me como uma garotinha prestes a perder a virgindade.
       Ele sorriu. Estava nervoso tambm. No gostava da idia de produzir smen no consultrio da mdica. A Dra. Ward garantiu que ele poderia demorar o tempo que 
quisesse e sugeriu que Pilar ajudasse. Mas era tudo extremamente embaraoso. Surpreenderam-se, porm, com a facilidade de todo o processo. Foram conduzidos ao que 
parecia um quarto de hotel, onde havia uma cama, um aparelho de televiso com teipes erticos, uma pilha de revistas para excitar os "hspedes" e uma variedade de 
aparelhos erticos e vibradores para facilitar a tarefa. E, sobre a mesa, um pequeno frasco para colher o esperma. Ningum disse quando deviam sair do quarto e, 
antes de deix-los, a enfermeira perguntou se queriam caf, ch ou refrigerantes. Ento, Pilar comeou a rir. Brad estava to srio e to bem-vestido e de repente 
a coisa toda parecia ridiculamente engraada.
       -  como ir a um motel - disse ela, rindo, e Brad comeou a rir tambm.
       - Como  que voc sabe?
       - J li a respeito nas revistas. - Pilar riu outra vez e Brad a fez deitar-se ao seu lado na cama.
       - Como foi que eu a deixei me meter nisto? - perguntou ele.
       - No tenho certeza. Quando vnhamos para c, eu estava pensando nisso e quer saber de uma coisa? - Olhou muito sria para ele. - Se no quiser fazer, est 
tudo bem para mim. Voc tem sido maravilhoso e talvez eu esteja indo longe demais... Eu no pretendia... No quero jamais fazer com que se sinta constrangido. - 
Pilar sentia-se culpada. A idade dela no era culpa de Brad. Seu esperma era normal. O corpo dela  que estava cansado. E se tivesse deixado que ele pensasse em 
ter filhos antes, no precisariam passar por tudo aquilo.
       - Voc quer um filho, Pilar? - perguntou ele, gentilmente, e ela fez um gesto afirmativo. - Muito bem, pois ento pare de se preocupar e vamos nos divertir.
       Brad levantou-se da cama e ps um filme porn no vdeo. Pilar ficou embaraada, mas tambm achou graa e, depois de ajudar Brad a tirar a roupa, despiu-se 
tambm. Comeou a acarici-lo enquanto ele olhava para a tela e Brad imediatamente teve uma ereo. Pilar ficou tambm excitada e quase teve pena do desperdcio. 
Brad estava ardendo de desejo de penetr-la e Pilar segurou o frasco o mais perto possvel do prprio corpo enquanto o excitava, acariciava e beijava, at conseguirem 
o que queriam. Foi diferente para os dois, mas no de todo desagradvel. Tomaram um rpido banho de chuveiro, vestiram-se, chamaram a enfermeira e entregaram-lhe 
o frasco. Ela pediu que Pilar a acompanhasse.
       - Posso ir tambm? - perguntou Brad, hesitante. At ento tinham partilhado todas as fases do processo e ele queria estar presente, especialmente se havia 
a possibilidade de ser desagradvel para ela.
       A enfermeira assentiu. Pilar tirou a roupa outra vez, vestiu a camisola e deitou-se muito nervosa na mesa para a inseminao. A Dra. Ward transferiu o esperma 
do frasco para uma ampola, introduziu um pequeno tubo no tero de Pilar e o esperma cuidadosamente injetado atravs dele. No demorou mais de alguns minutos. O tubo 
foi removido e a Dra. Ward mandou Pilar ficar deitada durante meia hora. A mdica deixou-os sozinhos e eles conversaram calmamente. Brad disse, brincando, que imaginara 
que eles usariam uma seringa para injetar tempero em assados.
       - Eu me sinto mesmo como um peru de festa aqui deitada - disse ela.
       O processo todo foi muito simples, mas exaustivo. Era emocionalmente extenuante tentar com tanto afinco conseguir o que queriam.
       - Aposto que isto vai dar certo - disse Brad, esperanoso, e depois riu, lembrando o filme que tinham visto no quarto. -Precisamos comprar alguns - brincou 
ele.
       Pilar estava enfrentando tudo com esprito esportivo e Brad tambm. Mas no era fcil. Nem sempre, porm, as coisas boas so fceis.
       - Ento est tudo certo - disse a Dra. Ward, lembrando que todos os testes de hormnio estavam normais e os nveis de progesterona muito altos, desde que 
Pilar comeara a tomar o clomifeno. Mas advertiu-os tambm de que poderia ser necessrio repetir todo o processo de seis a dez vezes para a inseminao "pegar". 
- Vocs vo me ver muitas vezes, mais do que aos seus amigos e  sua famlia. - E os Coleman replicaram que estava tudo bem.
       A mdica desejou um feliz Dia de Ao de Graas e pediu a Pilar para mant-la informada. Queria que ela telefonasse dentro de duas semanas para dizer se tinha 
ou no ficado menstruada.
       - No se preocupe - sorriu Pilar. - Vai ter notcias minhas de qualquer modo. - Especialmente se ficasse grvida. E se no ficasse, eles voltariam para a 
inseminao artificial mais uma vez... mais outra... e mais outra... at "pegar" ou at eles desistirem, o que acontecesse primeiro. Pilar preferia a primeira opo.
       Ela tentara falar com a Dra. Ward sobre o mtodo GIF - a transferncia interfalopiana do gameta -, um processo parecido com a fertilizao 'in vitro', mas 
com melhores resultados em mulheres acima dos quarenta anos. Mas a Dra. Ward no quis nem discutir o assunto.
       - Vamos dar uma chance  inseminao intra-uterina primeiro, est bem? - retrucou ela, com firmeza. Disse que era prematuro pensar em medidas to drsticas. 
Ela estava confiante na inseminao. Com o clomifeno, os nveis de progesterona estavam muito altos e certamente a ajudariam a engravidar.
       A viagem de volta foi longa e tranqila e Pilar e Brad sentiam-se mais unidos do que nunca. Tiveram uma semana calma antes do dia de Ao de Graas. Pilar 
tentou no se exceder no trabalho. Nancy, Tommy e Adam passaram o feriado com eles e Todd foi esquiar em Denver com a namorada. Mas prometeu vir para o Natal. 
       O pequeno Adam estava com cinco meses, balbuciando e murmurando, com dois dentes bem no centro do maxilar inferior. Brad era louco por ele. Pilar o segurou 
por muito tempo no colo e, como sempre, Nancy observou que Pilar tinha muito jeito com crianas, o que a surpreendia, uma vez que jamais tivera filhos.
       - Instinto, eu acho - disse Pilar
       No disseram nada sobre seus planos, seus esforos para ter um filho. Era importante demais, um segredo que devia ficar entre os dois. Pilar mal podia prestar 
ateno s comemoraes do dia de Ao de Graa, ansiosa para saber se estava grvida. Naquela noite, depois que Nancy e Tommy se foram, os dois conversaram outra 
vez sobre suas esperanas.
       - Veremos - disse Brad, mas havia notado nos olhos dela algo diferente que o fazia lembrar-se de alguma coisa. Uma expresso meio sonolenta. Porm, no havia 
nenhum outro sintoma, nenhum sinal de mudana e Brad se convenceu de que ele, como Pilar, estava apenas ansioso para que ela ficasse grvida. 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO  - 8 -
       

 O
 Dia de Ao de Graas foi um pesadelo para Diana e Andy. H trs meses a vida deles era um inferno e s vezes Andy pensava que no iria suportar por mais tempo. 
Ele no conseguia mais falar com Diana, no suportava a amargura, sua autopiedade e dio. Ela odiava a tudo e a todos e estava sempre furiosa. Furiosa com a vida, 
com o destino que lhe fora to cruel. Mas Andy no podia fazer coisa alguma. O destino fora cruel com ele tambm, a partir do momento em que resolveu que ficaria 
com ela. Mas em certos momentos ele se perguntava se poderiam continuar assim por muito tempo.
       As coisas pioraram em outubro, quando Bill e Denise anunciaram que estavam esperando um beb. Tinha acontecido literalmente na noite do casamento. Diana, 
chocada com a ironia do destino, disse que nunca mais queria v-los, o que dificultava ainda mais a vida para Andy.
       Ela evitava falar com Eloise sobre qualquer assunto que no se referisse ao trabalho. E nunca mais mencionou o Dr. Johnston. Eloise, compreendendo que alguma 
coisa terrvel tinha acontecido, tambm nunca mais falou nele nem no pai.
       Diana recusava-se a ver os amigos e depois de algum tempo estes deixaram de procur-los. No Dia de Ao de Graas eles estavam completamente isolados de amigos 
e conhecidos e a vida jamais pareceu to terrvel para Andy.
       Para piorar as coisas, Diana concordou em passar o feriado com os Goode, em Pasadena. Andy tentou inutilmente fazer Diana desistir. A famlia de Diana eram 
as nicas pessoas com quem tinham estado nos ltimos meses e eram as pessoas erradas.
       - Pelo amor de Deus! - disse Andy. - Por que concordou em ir?
       -  a minha famlia! O que queria que eu fizesse? Dizer que no quero mais v-los s porque sou estril?
       - Uma coisa no tem nada a ver com a outra. O caso  que vai ser difcil para voc. Suas irms ficam querendo saber quando vamos ter um filho e Sam j est 
com seis meses de gravidez. Precisa se torturar desse modo? - Ou aos dois, para ser mais exato, mas ele no disse.
       - Ela ainda  minha irm.
       Andy no a compreendia mais e tinha a impresso de que jamais voltaria a compreender. Diana parecia sentir necessidade de se punir por tudo que tinha acontecido. 
O mais terrvel, porm, era que no tinha culpa alguma. Anos atrs escolhera o mtodo errado para evitar filhos e ningum podia fazer nada a respeito. Era apenas 
falta de sorte. Mas isso no significava que precisava se tomar uma pessoa rancorosa e amargurada.
       - Acho que no devemos ir. - Andy lutou at o ltimo momento para fazer Diana desistir, mas no conseguiu. E assim que chegaram na casa dos Goode ela percebeu 
o erro que havia cometido. Gayle estava mal-humorada, com um terrvel resfriado, e os filhos tinham se comportado mal o dia inteiro; brigou com a me quando esta 
sugeriu um pouco mais de disciplina e parecia aborrecida com Jack por no a ter apoiado na discusso. Por isso Gayle descarregou em Diana, assim que ela chegou, 
e Andy desejou mais do que nunca no estar ali. Ia ser uma noite miservel.
       - Muito obrigada por chegar cedo para ajudar - disse Gayle com ironia, apanhando o casaco da irm. - Passou a tarde fazendo as unhas ou s dormindo?
       - Ora, pelo amor de Deus, por que est to irritada? - replicou Diana.
       Nesse momento Samantha entrou na sala e Andy quase gemeu alto. Ele no a via desde o Quatro de Julho e Samantha parecia a caricatura de uma mulher grvida. 
Olhou para Diana e viu o choque e o desespero no seu rosto.
       - Gayle est zangada porque a mame disse que os filhos dela so muito levados. Ela tem razo. E os meus tambm so. Ento, como vai voc? - perguntou a Diana, 
descansando a mo na barriga enorme.
       - Muito bem - respondeu Diana friamente. - E d para ver como voc est.
       -  isso. Gorda. Seamus diz que eu pareo um Buda.
       Com um sorriso forado, Diana saiu da sala e foi falar com a me, na cozinha. Ela estava com tima aparncia e ficou feliz ao ver a filha. Estava organizando 
tudo e todos com grande entusiasmo e prazer. Estivera to ocupada nos ltimos meses que nem notou o afastamento de Diana. Pensou apenas que a filha estava com muito 
trabalho na revista, mas agora no gostou do que viu nos olhos dela e notou que Diana estava mais magra.
       - Estou feliz por vocs terem vindo - disse ela, satisfeita com a presena das filhas e dos netos. Sempre gostava de ver todos reunidos, mesmo tendo se queixado 
dos filhos de Gayle. - Voc est bem? - perguntou.
       - Estou tima. - Diana amava a me, mas no tinha coragem de contar a ela sobre a laparoscopia, nem descrever o inferno pelo qual estava passando. Talvez 
contasse algum dia, mas ainda no estava preparada. No podia dizer a ningum que era estril. Era uma confisso de fracasso.
       - Voc trabalha demais - censurou a me, querendo se convencer de que o que via no rosto da filha era excesso de trabalho. Inclinou-se para verificar o peru 
enorme e cheiroso que estava no forno.
       - Ao contrrio das irms - disse o pai, entrando na cozinha.
       - Elas tm muito trabalho com os filhos - defendeu a me.
       Os dois amavam as trs filhas, mas ele gostava de fazer comentrios desse tipo. Sempre teve uma pequena preferncia por Diana e tambm notou o quanto ela 
parecia infeliz.
       - Como vai sua revista? - perguntou ele, como se ela fosse adorar, e Diana sorriu.
       - Muito bem. Nossa circulao est cada vez maior.
       -  uma publicao muito bonita. Vi uma no ms passado. - Ele sempre dava valor a tudo que Diana fazia, o que a levava a se perguntar por que s vezes sentia-se 
to mal. Mas agora tinha uma boa razo. Havia falhado na coisa que era mais importante para eles. Ter filhos.
       - Obrigada, papai.
       Nesse momento seus cunhados entraram na cozinha, perguntando quando iria sair o jantar.
       - Pacincia, rapazes - pediu a me, com um sorriso, empurrando todos para fora, menos Diana. - Voc est mesmo bem, querida? - Via tanta tristeza, tanto desnimo 
nos olhos da filha que imaginou se tudo estaria bem com Andy. Diana fora sempre brilhante e conscienciosa nos seus deveres. -Algum problema?
       - No, mame - mentiu ela, virando o rosto para que a me no visse as lgrimas nos seus olhos. - Estou tima.
       Ento, para seu alvio, as crianas irromperam na cozinha e Diana as levou de volta s suas mes, sob o olhar observador de Andy. Desde o fim da tarde havia 
nos olhos de Diana uma expresso estranha. Era como se ela estivesse morrendo por dentro e procurando algum em quem descarregar sua mgoa. Parecia prestes a explodir 
de dor, mas Andy sabia que ningum podia ajud-la.
       Diana sentou  mesa entre os dois cunhados e Andy, de frente para ela, entre as duas irms, e ento o pai disse a orao de graas. Gayle conversava animadamente 
com Andy, como sempre, sobre diversos assuntos. As reunies de pais e professores na escola, o pouco que os mdicos ganhavam ultimamente e referncias veladas sobre 
o fato de Diana e Andy no terem filhos. Andy ouvia gentilmente, tentando conversar um pouco com Sam, que s falava sobre os filhos e o que estava para chegar.
       Comeou ento o relatrio sobre a vizinhana, quem estava se casando, quem tinha morrido e quem estava esperando beb. E nomeio do jantar Diana perguntou, 
irritada:
       - Ser que vocs s falam em gravidez e parto? Estou farta de ouvir descries de nascimentos e hemorragias, quanto tempo durou o trabalho de parto, quantos 
filhos j tm e quantos vo ter em breve. Cristo,  um milagre que no precisemos comentar seus exames ginecolgicos.
       O pai olhou preocupado para ela e depois para a mulher. Alguma coisa estava muito errada com Diana.
       - Por que est dizendo isso? - perguntou Sam, recostando-se na cadeira, com uma das mos nas costas e a outra no ventre enorme. - Meu Deus... este beb no 
pra de me chutar...
       - Que droga! - exclamou Diana, levantando-se e empurrando a cadeira. - No me importa a mnima se seu maldito beb lhe partir todos os dentes com seus chutes. 
Ser que no pode parar de falar nele por um minuto?
       Sam olhou espantada para ela, comeou a chorar e saiu da mesa. Diana, j com o casaco nos ombros, olhou para os pais.
       - Desculpe, mame... papai... No agento mais. Acho que eu no devia ter vindo.
       Mas Gayle j se encontrava no hall, com aquela expresso de fria que Diana no via desde que queimara o aparelho eltrico para enrolar os
       cabelos da irm mais velha quando estavam no ginsio.
       - Como se atreve a se comportar desse modo na casa dos seus pais e falar desse modo conosco? Quem diabo voc pensa que ?
       - Gayle, por favor... no faa isso. Eu sinto muito. Diana est nervosa. No devamos ter vindo. - Inutilmente Andy tentava acalmar os nimos.
       Seamus saiu da sala para consolar Samantha, que chorava no banheiro. Os pais estavam perturbados, vendo as filhas brigando como "armaceiros", como dizia a 
me, e todas as crianas, agitadas, comeavam a sair da mesa.
       Mas Gayle no desistiria facilmente. Estava furiosa e o cime de tantos anos finalmente encontrava uma vlvula de escape.
       - Que diabo ela faz na vida que a preocupa tanto? Seu trabalho? Sua carreira? A toda-poderosa, inteligente demais e importante demais para ter filhos e viver 
como ns vivemos. No, ela  a grande mulher de carreira, formada em Stanford. Muito bem, querem saber de uma coisa? Eu no me importo com essa merda. O que diz 
a isso, Senhora Executiva?
       - Adeus, j estou de sada - disse Diana para os pais, amarrando o cinto do casaco, com um olhar suplicante para Andy. No confiava em si mesma para responder 
s palavras da irm. Sabia que se descontrolaria completamente se dissesse alguma coisa e no queria fazer isso. - Mame, eu sinto muito. - A expresso no rosto 
do pai partiu seu corao. Era como se ela o tivesse trado.
       - Pois deve sentir mesmo - disse Gayle. Sam saiu do banheiro e entrou no hall. - Veja o que voc fez ao nosso Dia de Ao de Graas - acusou Gayle, com razo, 
mas sem saber que haviam provocado tudo aquilo.
       - Eu no deveria ter vindo - disse Diana, em voz baixa, a mo na porta e Andy atrs dela.
       - E por que no? Deveria era ter ficado de boca fechada - continuou Gayle e ento, de repente, Diana explodiu. Saltou para a frente, ps as mos no pescoo 
da irm e apertou.
       - Se no calar a boca agora mesmo, eu mato voc, est ouvindo? Voc no sabe nada de mim, nem da minha vida, nem por que eu tenho ou no tenho, ou talvez 
nunca tenha filhos. Est compreendendo, sua cadela burra e insensvel... eu no tenho filhos porque sou estril, sua retardada... Est bastante claro agora? Deu 
para entender? Eu no posso ter filhos. Minhas entranhas viraram um monte de merda anos atrs por causa de um DIU e eu nem desconfiava. Est claro agora, Gayle? 
Ou quer falar sobre meu trabalho, que no me interessa mais? Ou sobre uma casa grande demais para duas pessoas que jamais tero filhos? Ou quem sabe prefere falar 
sobre o beb dos Murphy ou os gmeos dos McWilhiams? Ou podemos ficar sentados vendo Sam esfregar a barriga. Boa noite para todos! - Viu o choque estampado em todos 
os rostos e, com o canto dos olhos, percebeu que Samantha e sua me estavam chorando. Mas Gayle ficou ali parada, com a boca aberta. Diana abriu a porta e correu 
para o carro. Com um olhar de desculpas para todos, Andy a seguiu.
       Deixaram uma cena e tanto para trs e Diana insistiu em dizer que pouco se importava com isso. Andy achou que talvez aquela exploso fosse boa para ela. Diana 
precisava gritar e esbravejar com algum e quem melhor do que sua famlia? Embora ele tivesse de admitir que ela transformou o Dia de Ao de Graas de todos num 
inferno.
       Desviando os olhos da estrada por um momento, Andy viu que Diana no estava mais chorando.
       - Que tal parar para um bom sanduche de peru? - perguntou ele, com um sorriso.
       Diana riu. Apesar de tudo, pensou Andy, ela no havia perdido o senso de humor.
       - Voc acha que estou ficando louca? - Diana tinha vivido um pesadelo e talvez o fim estivesse chegando.
       - No, mas acho que precisa se livrar dessa obsesso. Que tal ns dois consultarmos um analista? Pode ser que ajude. - Andy havia pensado em consultar um 
analista s para ter com quem conversar. No podia mais falar com Diana e detestava a idia de contar aos amigos o que estava acontecendo. Tentara conversar com 
Bill, mas com Denise grvida era embaraoso falar da esterilidade de Diana. Seus irmos eram jovens demais. E a seu modo, exatamente como Diana, Andy sentia-se isolado, 
deprimido e fracassado. 
       - Eu estive pensando tambm numas frias.
       - Eu no preciso de frias - disse ela imediatamente, e Andy riu.
       - Certo. Tudo bem. O que acha de voltarmos para Pasadena agora e discutir o assunto. Ou prefere esperar o Natal para o segundo round? Tenho certeza de que 
suas irms ficaro felizes em continuar a luta. No sei o que voc pretende fazer, mas eu garanto que no vou passar o Natal em Pasadena este ano.
       Diana teve de admitir que ela tambm no queria.
       - No sei se posso faltar ao trabalho por alguns dias. - Andava to desinteressada ultimamente que sem dvida devia alguma coisa ao pessoal da revista.
       - Ento tente. Uma semana j seria bom para ns. Podemos ir ao Mauna Kea, no Hava. Metade da firma vai estar l, mas quase todos vo para o Mauna Lani. Estou 
falando srio, Di.
       Diana olhou para ele. Sim, Andy estava to amargurado e infeliz quanto ela.
       - No acredito que possamos agentar por mais tempo - continuou ele - a no ser que recarreguemos nossas baterias, nossos motores ou o que seja. No sei mais 
como enfrentar a situao, nem como tratar voc, nem o que voc est sentindo. S sei que estamos correndo perigo.
       Diana sabia tambm, mas no seu sofrimento nem pensara em se aproximar de Andy. Estava perdida na sua agonia e no podia fazer nada para ajud-lo. No tinha 
nem certeza se queria passar alguns dias de frias com ele, mas achou boa a sugesto de procurarem um analista.
       - Tudo bem, vou tentar alguns dias de folga - disse ela, sem entusiasmo. Sabia que Andy estava certo. Ento, quando o carro parou na frente da casa, ela disse 
com voz tristonha: - Andy, se voc quer desistir... eu compreendo. Voc tem direito a muito mais do que eu posso dar.
       - No. - Os olhos dele encheram-se de lgrimas. - Eu tenho direito quilo que voc me prometeu... na alegria e na tristeza, na sade e na doena... at que 
a morte nos separe. No dissemos nada a respeito de desistir se voc no pudesse ter filhos. Tudo bem,  uma coisa terrvel. Admito que me magoa tambm. Mas eu casei 
com voc... eu a amo. Se no podemos ter filhos,  assim que vai ser. Podemos talvez adotar um, mais tarde, ou pensarem outra coisa qualquer. Talvez inventem um 
novo laser maravilhoso que possa mudar tudo, talvez no, mas no estou contando com isso, Di... - Segurou as mos dela. - Eu s quero a minha mulher de volta.
       - Eu o amo - disse Diana suavemente. Fora um perodo terrvel para os dois, o pior da vida dela, e ainda no estava acabado. Ela ainda choraria por muito 
tempo e talvez nunca mais fosse a mesma. - Eu no sei mais quem sou... o que isto significa... o que isto vai fazer comigo... - Sentia-se ainda como um fracasso.
       - No momento, faz de voc uma mulher que no pode ter filhos, uma mulher muito amada pelo marido, uma mulher a quem aconteceu uma coisa terrvel sem que ela 
sequer suspeitasse...  isso que voc : a mesma pessoa que sempre foi. Nada mudou. A no ser um pedacinho do nosso futuro.
       - Como pode dizer "um pedacinho"? - Diana olhou para ele zangada, mas Andy apertou a mo dela, trazendo-a de volta  realidade.
       - Pare com isso, Di.  "um pedacinho", sim. E se tivssemos um filho e ele morresse? Seria terrvel, mas nossas vidas no acabariam por isso. Continuaramos 
vivendo, no haveria outro jeito.
       - E se no consegussemos? - perguntou ela, tristemente.
       - No temos escolha,temos? Arruinar duas vidas, destruir um bom casamento? Isso faz sentido? Di, no quero perder voc. J perdemos muito... por favor... 
por favor... me ajude a salvar o nosso casamento.
       - Tudo bem... vou tentar... - disse ela, sombriamente, mas nem sabia mais por onde comear, como ser a pessoa que era antes. Nem seu trabalho na revista ia 
bem e Diana sabia disso.
       - Tudo que tem a fazer  tentar, Di. Dia a dia, passo a passo, centmetro por centmetro... e talvez um dia a gente chegue l.
       Andy a beijou suavemente nos lbios, mas sem esperar nada mais. No faziam amor desde o Dia do Trabalho e Andy no tinha mais coragem de procur-la. Diana 
dissera que no tinha mais sentido os dois fazerem amor. Nada mais importava, sua vida estava acabada. Mas nessa noite ele viu uma centelha de esperana, uma vaga 
sombra do que ela fora antes de o Dr. Johnston lhe dizer que no poderia ter filhos.
       Andy a beijou outra vez e a ajudou a descer do carro. Entraram em casa de braos dados. Era o mais prximo que chegavam um do outro em 3 meses e Andy teve 
vontade de chorar de alvio. Talvez houvesse esperana para eles... talvez conseguissem. Andy quase chegara a perder toda esperana. Mas agora, parecia que aquele 
Dia de Ao de Graas no fora to horrvel. Com um sorriso, ajudou Diana a tirar o casaco e ela riu, lembrando-se da cara de Gayle, admitindo que tinha feito uma 
coisa horrvel, mas que uma parte dela achara divertida.
       - Acho que foi bom para Gayle - sorriu ele. Os dois entraram na cozinha. - Por que no telefona para sua me e diz que est bem, enquanto fao um sanduche 
de bologna. Algo bem festivo.
       - Eu o amo, Andy - disse ela e ele a beijou outra vez. Em seguida, Diana ligou para a casa dos pais. O pai atendeu e Diana ouviu a gritaria das crianas.
       - Papai, sou eu... Eu sinto muito...
       - Estou muito preocupado com voc - disse ele. - Sinto demais no ter sabido o que voc estava sofrendo. - Ele sabia muito bem que aquela cena fora o ponto 
culminante da sua angstia e lamentava por ela, sentindo-se como se tivesse falhado no seu papel de pai.
       - Acho que agora estou bem. Creio que aquele desabafo foi bom para mim. Mas eu sinto muito ter estragado seu Dia de Ao de Graas.
       - No estragou nada. - Ele fez um sinal para a mulher, indicando que era Diana. - Voc inventou um novo assunto para todos. Na verdade, foi muito interessante 
- brincou ele e a me de Diana olhou com tristeza para o marido. Pelo menos Diana telefonara. Ela sabia que alguma coisa estava errada, mas Diana nunca lhes dissera 
uma s palavra. - Quero que me telefone se precisar de mim... ou de sua me, de agora em diante. Promete?
       - Prometo - disse ela, sentindo-se como uma garotinha outra vez, olhando para o marido no outro lado da cozinha, sem palet, com as mangas da camisa arregaadas, 
muito ocupado com os sanduches. E pela primeira vez, em muito tempo, Andy parecia feliz.
       - Estamos aqui  sua disposio, minha filha, sempre que precisar.
       Os olhos de Diana encheram-se de lgrimas e os de sua me tambm.
       - Sei disso, papai. Obrigada. Diga  mame e s meninas que eu sinto muito, est bem, papai?
       - Sim, eu digo. Agora cuide-se bem. - Seus olhos estavam marejados de lgrimas. Ele a amava tanto e detestava v-la sofrendo.
       - Pode deixar, papai. Voc tambm se cuide... Eu o amo... - Diana desligou, lembrando-se de repente do dia do seu casamento. Ela e o pai sempre foram amigos 
e ainda eram, embora ela no houvesse falado nada a ele. Mas sabia que poderia ter confiado nele, se quisesse. E o que ele acabava de dizer era verdade. Ela sabia 
que podia contar sempre com eles.
       - Pronta para um sanduche de salame, pastrami e bologna com po de centeio? - perguntou Andy, cerimoniosamente, com um pano de prato dobrado sobre o brao, 
segurando um prato cheio de sanduches.
       De repente era como se estivessem comemorando alguma coisa, o que era estranho. Mas de certo modo, era verdade. Tinham se encontrado de novo e isso era importante. 
Quase tarde demais, mas acabavam de agarrar-se ao topo do penhasco, depois de quase cair. Feliz Dia de Ao de Graas. 
       
* * *
       
        Charlie preparou um peru perfeito para Barbie. E dessa vez ela estava ao seu lado. No foi a lugar nenhum, no chegou em casa tarde da noite. Sentia-se culpada 
ainda pelo aniversrio de casamento. Mas Charlie notou tambm, quando se sentaram  mesa, naquela noite, que faltava alguma coisa no relacionamento dos dois. Estava 
com essa impresso h algum tempo, talvez desde a viagem de Barbie a Las Vegas no feriado do Dia do Trabalho, ou talvez antes. Barbara voltou vida por movimento 
e agitao, falando dos shows que tinham visto, dos amigos que encontraram, e insistindo com Charlie que sassem para danar. Mas ele estava quase sempre muito cansado. 
E no danava muito bem. Entretanto, notou que Barbie agora vivia se queixando das coisas que ele no fazia para ela, dizendo que ele era "quadrado demais", at 
no modo de vestir, o que no era justo, uma vez que Charlie nunca comprava roupas para ele mesmo, s para a mulher. Talvez Mark tivesse razo, pensava Charlie. No 
fora prudente deixar que ela fosse a Las Vegas.
       Depois daquela viagem, Barbie comeou a sair constantemente com as amigas. Ia ao cinema, jantava com elas e uma vez ou outra telefonava dizendo que estava 
muito cansada para voltar e que, portanto, dormiria na casa de Judi. Embora isso o desagradasse, Charlie no reclamava. Comentara o fato com Mark e este, mais uma 
vez, o aconselhara a manter Barbie com rdea curta se no quisesse se arrepender mais tarde.
       Charlie continuava convencido de que se tivessem um filho tudo se resolveria. Barbie iria mudar, ficaria mais sossegada. No iria querer mais aquela agitao 
constante, talvez at desistisse de ser atriz. Desde junho Charlie no falava mais em ter filhos, mas continuava atento aos ciclos de Barbie. E nada acontecia. Uma 
ou duas vezes por ms ele comprava champanhe e tinha o cuidado de fazer amor com ela nas datas certas. Quando Barbara bebia um pouco demais, nem pensava em tomar 
qualquer precauo. Porm, a despeito dos seus melhores esforos, chegando a fazer amor duas vezes numa noite por garantia, Barbara no engravidava. Depois da sua 
conversa com Mark, perguntou a ela se estava tomando plula, e, surpresa, Barbara perguntou se ele queria que ela tomasse. Charlie disse que tinha lido alguma coisa 
sobre o perigo da plula para as mulheres que fumam e que ficara preocupado. Mas Barbara no engravidava.
       Mark j dera a ele o nome do especialista e Charlie marcara uma hora na segunda-feira, depois do feriado de Ao de Graas. Estava muito preocupado. O fato 
de Barbara ter dito que se surpreendia por nada ter acontecido ainda, sem que nenhum dos dois tomasse qualquer precauo, o atormentava e Charlie resolveu verificar.
       - O peru est maravilhoso - disse ela e Charlie ficou satisfeito. Ele preparara o recheio e o molho, as ervilhas-de-cheiro com cebola, a batata-doce com marshmallow. 
Para sobremesa, Charlie comprara tortas de frutas e de ma, que ele serviu quente com sorvete de baunilha.
       - Voc deveria dirigir um restaurante - elogiou Barbara e com um largo sorriso Charlie serviu o caf e acendeu o cigarro para ela. Mas Barbara parecia estar 
a quilmetros dali.
       - No que est pensando? - perguntou Charlie, tristonho. Barbie s vezes era to bonita, mas ultimamente parecia distante e distrada. Era como se estivesse 
aos poucos se afastando dele e Charlie no sabia o que fazer para impedir.
       - Nada importante... no jantar que estava delicioso... - Sorriu atravs da fumaa do cigarro. - Voc  sempre to bom para mim, Charlie. - Mas isso parecia 
no ser o bastante, Charlie pressentia.
       - Eu tento ser. Voc  tudo para mim, Barb.
       Barbara detestava quando ele dizia essas coisas. Era uma carga to pesada para ela. No queria ser tudo para ele, nem para ningum. Era uma responsabilidade 
para a qual no estava preparada e agora, mais do que nunca, tinha certeza disso.- S quero que voc seja feliz - disse Charlie e Barbara se perguntou se algum dia 
poderia corresponder s expectativas dele
       - Eu sou feliz - disse ela, em voz baixa.
       -  mesmo? s vezes no tenho certeza. Sou um cara muito sem graa.
       - No, no . - Ela corou. - s vezes eu quero coisas demais - sorriu com tristeza - e me comporto como uma louca. No ligue para isso.
       - O que voc quer, Barbara?
       Charlie sabia o quanto ela queria ser uma atriz de sucesso e que no queria filhos. Mas, fora isso, Barbara nunca falava dos seus sonhos, nem sobre o que 
desejava para os dois. Contentava-se em viver de um dia para o outro, satisfazendo seus desejos mais imediatos. No parecia pensar muito no futuro.
       - s vezes nem eu mesma sei o que quero. Talvez seja esse o problema. Quero minha carreira de atriz... quero amigos... quero liberdade... quero movimento...
       - E eu? - perguntou ele com tristeza na voz. Barbara no o tinha mencionado.
       -  claro que quero voc. Somos casados, no somos?
       - Somos? - perguntou Charlie e Barbara no disse nada, apenas balanou afirmativamente a cabea.
       -  claro que somos. No seja bobo.
       - O que o casamento significa para voc, Barb? No se encaixa em nenhuma das coisas que voc mencionou.
       - Por que no? - Mas ela tambm percebia. S que no estava preparada para encarar o fato e tinha certeza de que Charlie tambm no estava.
       - Eu no sei, mas penso que liberdade e uma vida movimentada no so sinnimos de casamento, embora talvez possam ser quando a pessoa quer realmente. Acho 
que se pode conseguir uma se deseja de verdade.
       Barbara apagou o cigarro e acendeu outro. Charlie queria perguntar se ela era feliz com ele, mas no teve coragem. Tinha medo da resposta. Olhando para ela, 
pensava que se tivessem um filho tudo seria diferente. Um filho era exatamente o que precisavam para consolidara sua unio.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO  - 9 -
       

 M
ark deu a Charlie um dia de folga e ele foi de carro para Los Angeles na segunda-feira depois do Dia de Ao de Graas. No disse nada a Barbara, que naquele dia 
tinha um teste para um comercial de mai e nem viu quando ele saiu com seu melhor terno, visivelmente nervoso. Ela estava arrumando o cabelo e fazendo as unhas com 
o rdio a todo volume, no banheiro. Charlie avisou que estava saindo, mas ela no respondeu.
       Dirigindo o carro, Charlie pensava no quanto temia perd-la. Barbara no dissera nada, mas ultimamente parecia mais ausente, mais preocupada com ela mesma 
do que nunca. Barbara no agia assim por maldade, Charlie tinha certeza, mas no era fcil para ele. Ela esquecia os encontros que combinavam, deixava os artigos 
de maquiagem pela casa toda e o quarto deles parecia um campo de batalha, com sutis e meias-calas por todo o lado, roupas empilhadas nos cantos. Barbara era uma 
mulher maravilhosa e Charlie era louco por ela, mas, como Mark dizia, ele a tinha mimado demais. No esperava que ela fizesse coisa alguma por ele ou para ele, jamais 
pediu nem um centavo do que ganhava nos comerciais e sabia que Barbara gastava tudo em roupas, quando saa com Judi. A nica coisa que ele realmente queria dela 
Barbara relutava em dar, e o plano para apanh-la de surpresa no tinha dado certo. Agora ele queria saber por que e consertar o que fosse preciso. Uma vez consertado, 
Charlie sorriu, estacionando o carro no Wilshire Boulevard, tome cuidado, Barbie!
       A sala de espera do Dr. Peter Pattengil o surpreendeu. Era cheia de gravuras claras e alegres, plantas com flores e cores vivas. Parecia um lugar para ser 
feliz e no para falar em voz baixa. Charlie falou com a enfermeira. No tinha idia do que iriam fazer, se teria de usar as famosas cuecas com gelo. Sorriu enquanto 
folheava distraidamente uma revista. No conseguia se concentrar. Finalmente chegou a sua vez e ele entrou no consultrio do Dr. Pattengill.
       O mdico estava sentado  mesa e levantou-se com um largo sorriso. Era um homem de altura mediana, ombros largos, cabelos e olhos castanhos escuros, com uma 
expresso bondosa e inteligente. Devia ter quarenta e poucos anos. Usava uma gravata de cores vivas e um palet de tweed e, antes que o mdico abrisse a boca, Charlie 
teve certeza de que gostaria dele.
       - Sou Peter Pattengill, Sr. Winwood.
       Charlie pediu que ele o chamasse pelo primeiro nome e Pattengill o convidou a sentar-se, perguntando se queria uma xcara da caf. Mas Charlie estava nervoso 
demais para tomar qualquer coisa e recusou. Parecia aterrorizado e jovem, jovem demais para ser paciente do Dr. Pattengill, um urologista especializado em deficincias 
do aparelho reprodutor.
       - Em que posso ajud-lo?
       - No sei ao certo - sorriu Charlie, hesitante. - No sei bem o que o senhor faz... s ouvi falar das cuecas com gelo... - Ele corou e o mdico sorriu.
       - So muito teis, mas devo admitir que, a princpio, nossos pacientes consideram-nas uma bobagem. Servem para baixar a temperatura testicular, o que favorece 
a fertilidade. - Enquanto falava, apanhou a caneta e uma ficha que estavam sobre a mesa. - Vamos comear com sua histria, Sr. Winwood?... Charlie.
       Perguntou sobre doenas graves ou crnicas, doenas venreas, caxumba, e Charlie abanou a cabea negativamente a todas as perguntas.
       - Voc e sua mulher esto tentando ter um filho? - perguntou, a fim de saber por que Charlie estava ali. O jovem era to tmido que ainda nem explicara seu 
problema.
       - Sim... bem, eu estou.
       Com um largo sorriso, Peter recostou-se na cadeira e olhou para Charlie.
       - Acho que devemos ter uma conversa sria a esse respeito - brincou ele. - Esta  uma atividade que deve ser executada por duas pessoas. No estamos falando 
de um esporte individual.
       Charlie riu e explicou a situao.
       - Ela na verdade no quer ter filhos. Eu  que quero.
       - Compreendo. E ela est usando algum mtodo preventivo? - Peter Pattengill parou de escrever por um momento.
       - No quando eu a fao beber o bastante. - Charlie compreendeu que aquela era uma confisso terrvel. Mas aqui ele podia ser franco. Tinha de ser franco com 
o mdico.
       - Um projeto e tanto.
       - Sim, . E eu sei que parece horrvel, mas... tenho certeza de que se ela tiver um filho as coisas vo melhorar.
       - Talvez voc devesse falar com ela. Com a cooperao dela, as coisas podem ficar mais fceis.
       - Bem, tem sido bem fcil at agora... S que ela no engravida.
       - Voc tambm bebe? - O mdico olhou desconfiado para ele. Afinal, havia a possibilidade de aquele jovem ser meio louco. Mas Charlie balanou a cabea solenemente, 
como um garotinho.
       - No, eu no bebo. E sei que  uma coisa horrvel fazer isso com ela, mas acredito mesmo que Barbara vai ficar feliz se tiver um filho. Entretanto, at agora 
nada aconteceu e eu queria ter certeza de que estou bem... Sabe... talvez verificar a contagem dos meus espermatozides. - Charlie no tinha idia de como isso era 
feito.
       O mdico sorriu da ingenuidade dele. Havia outras providncias alm dessa, mas comeava a perceber o quadro.
       - H quanto tempo esto casados?
       - Dezessete meses. Mas eu no estava prestando muita ateno s coisas, quero dizer, ao ciclo dela... at mais ou menos cinco meses atrs, e tudo continuar 
como antes.
       - Compreendo. - O mdico fez uma anotao na ficha e olhou outra vez para Charlie. - No  muito tempo. Geralmente demora um ano ou at dois. Talvez sua preocupao 
seja desnecessria. Alm disso, a gravidez no  fcil quando s um dos parceiros est interessado. Na verdade, eu raramente vejo somente o marido ou a mulher, sempre 
examino os dois. Com um s, obtenho apenas metade da informao necessria. O problema pode ser da sua mulher, se  que h um problema.
       - Eu pensei que, se me examinasse e tudo estivesse normal, talvez dentro de alguns meses eu a convena a consult-lo tambm. - Charlie no tinha idia de 
como iria conseguir isso, mas este era o primeiro passo e certamente aliviaria sua preocupao. - Ela disse que acha estranho que nada ainda tenha acontecido, uma 
vez que somos to descuidados. Disse isso uma vez e eu fiquei preocupado.
       - Sua mulher j engravidou antes, Sr. Winwood?
       - No, acho que no - respondeu Charlie com voz firme.
       - Muito bem, vamos comear.
       O mdico levantou-se da cadeira e Charlie fez o mesmo. Uma enfermeira o conduziu  sala de exames com quadros abstratos de cores vivas nas paredes e uma clarabia. 
Entregou-lhe um pequeno frasco e apontou para uma pilha de revistas, entre as quais, Hustler, Playboy e vrias outras das quais Charlie nunca ouvira falar.
       - Precisamos de um pouco do seu smen, Sr. Winwood - disse ela. - No se apresse e toque a campainha quando estiver pronto.
       Charlie olhou atnito para a enfermeira e ela saiu, fechando a porta atrs de si. Ele no sabia como comear. Sabia o que tinha de fazer, mas no estava acreditando. 
Eles faziam tudo com tanta naturalidade. Aqui est o frasco, comece a trabalhar. Mas afinal ele estava ali para obter respostas s suas dvidas.
       Suspirou, sentou-se, abriu a cala e apanhou uma das revistas, sentindo-se como o maior idiota do mundo. S depois de algum tempo Charlie tocou a campainha. 
Tinha esperado mais do que o necessrio, mas queria se acalmar primeiro. A enfermeira apareceu e apanhou o frasco discretamente, sem nenhum comentrio. Logo chegou 
o Dr. Pattengill que o examinou para verificar se havia sinal de varicocele - veias varicosas nos testculos -, uma causa freqente da esterilidade. 
       A seguir, um tcnico recolheu uma amostra do seu sangue. Iriam medir os nveis dos hormnios e fazer uma cultura com o esperma. Dentro de poucos dias teriam 
as respostas. O mdico o tranqilizou bastante. Garantiu que no tinha encontrado nada anormal e que esperava que Charlie estivesse preocupado sem motivo. Apenas 
excesso de ansiedade e falta de pacincia.
       Para Pattengill, Charlie parecia bastante saudvel e ele esperava que no houvesse problemas. Mandou a enfermeira marcar outra consulta na semana seguinte, 
quando Charlie deveria levar um outro frasco com smen recm-colhido. Foi com alvio que Charlie saiu do consultrio para o ar fresco. Gostou do Dr. Pattengill, 
mas s o fato de estar ali, falando naquele assunto, o deixava nervoso.
       No gostou de ter de coletar o smen naquela sala e pensou que seria bem melhor fazer isso em casa. A enfermeira deu a ele o pequeno frasco para a coleta. 
Porm, o simples fato de ter procurado o mdico e a perspectiva do que talvez fizessem com ele eram suficientes para deix-lo nervoso. Quando chegou em casa, telefonou 
para Mark e agradeceu a indicao.
       - Como foi? Voc est bem?
       - Por enquanto, tudo bem. O mdico  muito simptico.
       - Ento, ele deu a voc um atestado de boa sade? - perguntou Mark, preocupado. Charlie parecia em boa forma, mas quem podia ter certeza com essas coisas? 
Seu cunhado tambm parecia timo.
       - Ainda no. S depois dos resultados dos testes, na semana que vem.
       - Ainda no recebeu as cuecas com gelo? - brincou Mark e Charlie, deitado no sof, tirou os sapatos e riu. Estava exausto.
       - Talvez na prxima semana.
       - Espero que no. Voc no tem nada, garoto. Acredite em mim. Sei disso. Vejo voc amanh - disse, desejando estar certo.
       - Obrigado Mark... por tudo. 
       - Sem problema.
       Mark voltou ao trabalho, torcendo para que tudo estivesse bem com Charlie. Ele era um cara legal e merecia ter tudo que desejava. 
       
* * *
       
        - Muito bem, o que diz a? - perguntou Brad, ansioso, enquanto Pilar fazia o teste, semelhante queles que fizera para verificar a produo de hormnio todos 
os meses na poca da ovulao.
       - No sei ainda. No deu tempo. - Pilar olhava para o relgio e Brad estava parado na porta do banheiro. - V embora. Est me deixando nervosa.
       - No vou alugar nenhum. - Ele sorriu. - Quero saber se o injetor de tempero funcionou.
       - Voc  terrvel. - Mas ela estava morta de curiosidade tambm. Mal podia esperar... mais sessenta segundos... cinqenta e cinco... quarenta... o teste estava 
quase no fim e nada havia mudado, e ento ela viu a cor azul forte, significando que suas esperanas tinham se realizado... o milagre tinha acontecido... Olhou para 
Brad com lgrimas nos olhos. Estava grvida. - Oh, meu Deus! - murmurou ela, olhando para ele, subitamente preocupada. - E se o resultado for falso? Acho que isso 
s vezes acontece.
       - No . - Sorrindo, Brad a abraou. Ele nunca imaginara que suas vidas fossem mudar desse modo. E nunca esperou amar tanto uma mulher... e um futuro filho. 
- Eu a amo, Pilar... eu a amo tanto - disse ele, fechando os olhos, e Pilar ergueu para ele o rosto banhado em lgrimas.
       - Eu nem acredito. Nunca pensei que fosse dar certo. Todos aqueles comprimidos e exames... e aquele quarto ridculo com os videoteipes e as revistas... Nossa!
       - Acho que no precisa contar tudo isso ao beb quando ele crescer. Pode pular essa parte e dizer que foi numa linda noite de lua e que estvamos muito apaixonados. 
Acho que pode esquecer tambm a parte do injetor de tempero.
       - E, acho que voc tem razo.
       Pilar sorriu e eles caminharam para o quarto. De repente, Brad a desejou quase incontrolavelmente, como para fazer aquele filho mais seu do que j era.
       Ele a fez deitar-se ao seu lado e a beijou longa e ternamente, acariciando os seios j um pouco crescidos. Brad havia notado isso alguns dias atrs e suspeitara 
que ela devia estar grvida.
       Ficaram deitados durante um longo tempo e Pilar tambm o desejou desesperadamente. E depois, sentiu remorso.
       - Ser que isso  ruim para o beb? - perguntou, sentindo-se culpada, mas tambm satisfeita.
       - No, no  - assegurou-lhe Brad com voz profunda e sensual, sentindo a mo dela no peito e depois na parte do seu corpo que dava a ela tanto prazer. - A 
gravidez  uma coisa perfeitamente normal.
       - Ha! - riu ela. - Se  to normal, por que no  fcil?
       - s vezes as coisas boas no so fceis. No foi fcil para mim conquistar voc - disse ele, beijando-a outra vez.
       Um pouco depois sentaram-se na varanda, vestidos com shorts e camisetas. Era um belo dia de dezembro e o beb deveria nascer em agosto.
       - Espere s at Nancy saber - riu Pilar, servindo-se de outra poro de ovos mexidos. De repente, estava faminta, - No acha que ela vai ficar boquiaberta?
       Brad riu com ela. Era o dia mais feliz de suas vidas.
       - Eu diria que sim. Durante toda a vida ela ouviu voc dizer que no queria filhos. Vai ter de explicar muita coisa, minha querida. - Para no mencionar o 
que a me de Pilar iria dizer. Mas ela estava acostumada com isso. A pessoa para quem ela realmente queria contar era Marina. Sabia que a amiga ficaria feliz e lhe 
daria o maior apoio. - Vamos contar para os meninos no Natal - disse Pilar, com um sorriso luminoso.
       Brad pensou em sugerir que esperassem mais algum tempo, at terem certeza de que tudo estava bem, mas no quis assust-la. No dia seguinte, a mdica a examinou 
e disse que tudo estava normal. Ela podia trabalhar, jogar tnis, fazer amor, nada em excesso, porm, e aconselhou muito repouso alm de uma dieta saudvel. Mas 
Pilar levava uma vida saudvel e disse que pretendia trabalhar at o ltimo minuto. Ento, tiraria alguns meses de frias e depois voltaria ao escritrio. No podia 
imaginar viver sem seu trabalho, nem ficar em casa, a no ser por um curto espao de tempo no comeo. Estava tudo planejado. Pretendia cuidar do beb at voltar 
ao trabalho, quando ento procuraria uma boa bab.
       O exame de amniocentese seria marcado para maro ou abril para determinar se a criana era geneticamente saudvel. A finalidade era verificar a existncia 
de problemas como espinha bfida e sndrome de Down. Podia tambm saber o sexo da criana, se quisesse, e Pilar queria. Nas suas compras de Natal, ela incluiu pequenas 
coisas para o beb. Encomendou um carrinho ingls, no Saks, de esmalte branco e capota azul-marinho.
       - Voc est mesmo se preparando, no ? - observou Brad.
       No seu entusiasmo, Pilar nem sabia como conseguiria esperar at agosto, Contou a novidade  secretria e aos scios do escritrio, no almoo de Natal, e eles 
quase caram de suas cadeiras. Pilar riu, feliz, diante do espanto deles.
       - Foi uma surpresa, no foi?
       - Voc est brincando, no  mesmo?
       Ningum podia acreditar. Pilar fora sempre uma defensora da causa feminista, uma das primeiras a apoiar a legalizao do aborto na Califrnia. O que tinha 
acontecido com ela? Seria a chegada da meia-idade? A crise da meia-idade?
       - No, acho que foi o casamento - confessou ela. - Eu no sei... Comecei a pensar como seria triste se nunca tivssemos um filho.
       - Teve sorte de no ser tarde demais - disse a secretaria. Aos 41 anos ela perdera o marido e, dois anos mais tarde, quando se casou com "o homem da sua vida", 
haviam desejado desesperadamente um beb. Nenhum dos dois tinha filhos dos primeiros casamentos. Tentaram tudo, mas sem resultado. E o marido era decididamente contra 
a adoo.
       Alice e Bruce ficaram muito satisfeitos por Pilar e Marina, quando soubera da novidade, sentira-se radiante.
       - Eu tive muita sorte - disse Pilar, suavemente. - Na verdade, no pensei que conseguiria, mesmo depois de termos resolvido.  um milagre fantstico. Quando 
se  jovem, parece uma coisa comum: a gente transa e fica grvida. E quando se tem quinze anos e faz a coisa no banco traseiro de um carro, o resultado  mais do 
que certo. Depois dessa idade, nada mais  garantido. Fazemos exames, fazemos amor nos dias certos, e na melhor das hipteses temos oito a dez por cento de chance 
de engravidar.  sempre uma sorte para quem consegue. - Pilar sorriu. Ela conseguira. E estava deslumbrada. Contou a todos que pretendia trabalhar at o ltimo momento. 
Pilar Coleman tinha tudo o que queria. 
       
* * *
       
       Ao contrrio de Charlie Winwood que, sentado no consultrio do Dr. Pattengill, olhava incrdulo para o mdico. Acabava de saber que a contagem de seus espermatozides 
estava abaixo de quatro milhes. Por uma frao de segundo, Charlie pensou que isso era timo, at o Dr. Pattengill explicar o que significava.
       - Para ser considerada normal, a contagem deve ser de no mnimo quarenta milhes, Charlie - disse o mdico, procurando abrandar o golpe. - Quatro milhes 
est muito abaixo do normal. A concentrao de espermatozides era de menos de um milho por milmetro, cinco por cento do normal. E menos de dois por cento tinham 
mobilidade, o que tambm era quase insignificante, quando o normal eram cinqenta por cento.
       - Pode fazer alguma coisa para levantar esses nmeros? - perguntou Charlie com um sorriso.
       - Talvez com hormnios, mas talvez voc esteja muito abaixo dos limites normais. No tenho certeza de poder elevar os nveis de espermatozides o suficiente, 
mas quero verificar outra vez antes de fazer qualquer coisa. - Entregou o pequeno frasco a Charlie. - Faremos outro exame agora e um na prxima semana. Enquanto 
esperamos o resultado, eu gostaria de fazer outros testes. Um deles  o exame do nvel do acar para medira frutose. Com esse volume baixo de espermatozides, pode-se 
tratar de um bloqueio do canal, o que nos dar uma pista importante.
       - E se estiver bloqueado? - perguntou Charlie, como rosto sardento muito plido. No esperara aquilo. Ento Barb tinha razo. Por isso ela no havia engravidado. 
Sua contagem de espermatozides era baixa demais.
       - Se houver um bloqueio, h vrias possibilidades. Podemos fazer uma bipsia nos testculos ou um vasograma. Mas isso ser mais tarde e duvido que seja necessrio. 
Quero fazer o teste do corante laranja para saber porque seus espermatozides no se movem normalmente. E o teste do hamster. Ele sorriu. - Provavelmente j ouviu 
falar dele. Todo mundo que tem um amigo com problema de fertilidade ouviu falar nesse teste.
       - No, nunca ouvi. - O que iriam fazer com ele, agora?
       - O que fazemos  impregnar um vulo do hamster com seu espermatozide. Na verdade, trata-se de uma avaliao do poder de penetrao do espermatozide. Se 
o vulo do hamster for penetrado, a capacidade fertilizante do seu espermatozide pode ser normal. Caso contrrio, pode haver algum problema mais grave.
       - Eu nunca tive um hamster, nem quando era garoto - disse Charlie, com tristeza, e o mdico sorriu.
       - Saberemos muito mais na semana que vem.
       No entanto, a semana antes do Natal foi a pior da vida de Charlie. Ele voltou ao Dr. Pattengill e recebeu a sentena de morte do seu casamento. A segunda 
contagem de espermatozides foi pior do que a primeira e a terceira, trgica. Numa delas o nmero de espermatozides era quase zero, a mobilidade fraca e no foi 
detectado nenhum bloqueio responsvel pelo pequeno volume de smen. At o teste do hamster foi um desastre. O vulo do animal no fora penetrado, o que no surpreendeu 
o Dr. Pattengill, dados os resultados dos outros exames. No havia nada, a fazer. Se os nveis de hormnios fossem mais altos, poderiam tentar o clomifeno, mas estava 
muito abaixo do normal e, sem bloqueio, no se justificava nenhum tipo de cirurgia.
       - Ter de pensar em planos alternativos para a sua famlia concluiu o mdico. - Com essa contagem de espermatozides  completamente impossvel voc engravidar 
uma mulher. Eu sinto muito.
       - No existe nenhuma chance? - perguntou Charlie, com voz rouca e trmula, na sala que de repente parecia no ter ar, e pela primeira vez em muitos anos sentiu 
o comeo de um acesso de asma.
       - No, nenhuma.
       Era uma sentena de morte para Charlie e ele se arrependeu de ter procurado o mdico. Mas talvez fosse melhor saber do que continuar com uma esperana v.
       - Nada que eu possa fazer, doutor? Nenhum remdio, nenhum tratamento?
       - Eu gostaria que houvesse, Charlie. Voc est muito perto do que chamamos de contagem de espermatozides zero. Vocs no podem fazer um beb. Mas podem adotar. 
Se sua mulher concordar, podem usar o esperma de um doador para uma inseminao artificial e ento partilhar do processo de gestao e depois do parto. Isso d certo 
para algumas pessoas. Ou podem se acomodar com a idia de nunca ter filhos. Alguns casais vivem muito felizes, "livres de filhos", como dizem. Um tem mais tempo 
um para o outro, ficam mais unidos, o estresse  menor sob vrios aspectos. Mesmo filhos biolgicos podem representar uma grande presso no casamento. Voc e sua 
mulher devem estudar as opes. Podemos indicar terapeutas para ajud-los a encontrar a melhor soluo.
       Formidvel, pensou Charlie, olhando para fora, pela janela. Oi, Barb, bem, hoje descobri que sou estril, no precisa mais se preocupar com uma gravidez... 
O que temos hoje para o jantar? Charlie sabia que Barbara jamais concordaria com uma adoo, muito menos com a inseminao artificial. A idia de sugerir isso a 
ela quase o fazia rir... se no estivesse com tanta vontade de chorar.
       - Eu no sei o que dizer. - Charlie olhou para o mdico.
       - No precisa dizer nada.  muita coisa para absorver de uma s vez. Sei o quanto  doloroso para voc. Uma notcia terrvel. Parece uma sentena de morte, 
mas no .
       - Como sabe? - perguntou Charlie, tenso, com os olhos cheios de lgrimas. -  diferente do seu lado da mesa.
       - Tem razo e eu geralmente no conto isto aos meus pacientes, Charlie, mas tenho o mesmo problema. Na verdade, o meu  mais grave, no que isso faa alguma 
diferena. Minha contagem de espermatozides  zero, um caso clssico de azoospermia. Eu e minha mulher adotamos quatro crianas. Sei como est se sentindo, mas 
existem outras solues. Voc no vai engravidar sua mulher neste ms, nem em qualquer outro, mas isso no significa que no podem ter uma famlia, se quiserem. 
Como eu j disse, porm, a resposta certa para vocs pode ser at mesmo no ter filhos. Vocs tm de descobrir o que  melhor.
       Afinal Peter Pattengill no era exatamente o mdico milagroso prometido pelo cunhado de Mark. No havia milagres para Charlie. No havia coisa alguma. Nunca 
houve. Nem pais, nem famlia, quando era pequeno, e agora nem filhos; e s vezes duvidava at mesmo de ter Barbie. Ela parecia to distante dele, to independente. 
Ultimamente Charlie quase no a via, ela estava sempre saindo para testes ou com as amigas e ele sempre trabalhando. Agora o que iria dizer a ela? Que era estril? 
timo... e o que voc acha de inseminao artificial com esperma de um doador, meu bem? Ela ia adorar. Charlie ainda no estava acreditando. Ficou meia hora sentado 
no carro antes de ligar o motor e, quando voltou para casa, as decoraes do Natal que via no caminho pareciam-lhe um insulto. Lembrou-se de quando era pequeno e 
estava no orfanato estadual e via as casas no outro lado da rua com rvores de Natal, renas iluminadas no jardim, e mes, pais e filhos. Sempre desejou ser um deles 
e agora no podia nem ter um filho seu. Era uma piada cruel. A vida toda isso fora tudo que Charlie desejou.
       Barbara no estava em casa quando ele chegou, mas dessa vez tinha deixado um bilhete dizendo que ia a um curso de teatro e no voltaria antes da meia-noite. 
Era melhor assim. Charlie no se sentia capaz de olhar para ela, muito menos de contar a terrvel novidade. Serviu-se de uma boa dose de scotch e foi para a cama 
e, quando Barbara chegou, Charlie estava embriagado e inconsciente.
       
       
       
       
       
       
       
     


CAPTULO  - 10 -
       
       
 N
o Natal Pilar telefonou para a me e s com muito esforo resistiu  tentao de contar sobre sua gravidez. Sabia que, em parte, gostaria de contar s para provar 
que a me estava errada e que ela no era velha demais para ter filhos. Mas no disse nada. Telefonou para Marina tambm, que estava em Toronto, passando o Natal 
com uma das suas muitas irms.
       Mais tarde, ela e Brad abriram os presentes com Todd, Nancy, Tommy e o pequeno Adam. Pilar fora muito generosa com todos, especialmente com Adam. Havia um 
enorme urso de pelcia, um pequeno balano e roupas encantadoras compradas numa butique de Los Angeles, alm de um maravilhoso cavalinho de balano encomendado em 
Nova York. E ainda belos presentes para todos os adultos. Ficou feliz por ver Todd, bonito como sempre, falando sobre seu trabalho e sua namorada em Chicago. E sentiu-se 
mais do que nunca perto de Nancy. Tinham tanto em comum agora.
       Depois de uma refeio perfeita, com champanhe e um bolo de Natal, Brad sorriu para ela e Pilar fez um gesto afirmativo.
       - Vou contar uma coisa que vai ser surpresa para todos, mas a vida  mesmo cheia de surpresas maravilhosas. - Olhou para Adam na sua cadeirinha e sorriu. 
Ele estava com o terninho de veludo vermelho comprado por Pilar um pouco antes do Natal.
       - Voc tambm vai ser juza! - arriscou Todd, feliz pelos dois. Que famlia impressionante! - saudou ele.
       - Vo comprar uma casa! - tentou adivinhar Nancy, esperando que o pai a deixasse morar naquela se no a vendessem.
       - Melhor - sorriu Pilar. - E muito mais importante. No, no vou ser juza. Um juiz  o bastante nesta famlia. Deixo os assuntos importantes para seu pai. 
- Sorriu carinhosamente para Brad e ento lanou a bomba com voz suave e cheia de orgulho. - Vamos ter um filho.
       Depois de um silncio total, ouviram o riso alto e nervoso de Nancy. Ela no acreditara.
       - No  verdade.
       - Sim, .
       - Mas voc  to velha - disse Nancy rudemente.
       Observando a filha, Brad lembrou-se da garotinha mimada que tentava impedir que ele sasse com Pilar.
       - Voc disse que muitas amigas suas, mais velhas do que eu, estavam tendo seus primeiros filhos - lembrou Pilar. - Disse que eu deveria pensar antes que fosse 
tarde demais.
       Nancy no gostou de Pilar estar repetindo suas palavras.
       - Mas nunca pensei... Eu s... Voc e papai no acham que esto muito velhos para terem um filho agora? - perguntou.
       O irmo e o marido a observavam em silncio.
       - No, no achamos - respondeu o pai, calmamente. - E ao que parece a natureza tambm no acha.
       Brad estava feliz com a expectativa daquele filho e no deixaria que ela estragasse tudo. Nancy tinha sua prpria vida, o marido, o filho e nenhum direito 
de estragar o prazer de Pilar com seu cime.
       - Tenho certeza de que  uma surpresa para todos, mas estamos muito felizes e esperamos que vocs tambm fiquem. E acho maravilhoso o pequeno Adam ganhar 
um novo tio. - Brad riu e Todd ergueu um brinde aos dois.
       - Bem, papai, vocs sempre foram cheios de surpresas. Mas estou feliz pelos dois, se  isso mesmo que desejam - disse ele. - Acho que vocs so muito corajosos. 
       Eu nem quero pensar em ter filhos, principalmente se forem iguais a ns dois. - Olhou para a irm. - Mas boa sorte! - Fez o brinde e bebeu, acompanhado por 
Tommy. S Nancy estava aborrecida e at a hora de ir embora no parecia ter se recuperado da surpresa. Falou asperamente com Tommy quando ele tirou Adam da cadeira, 
beijou o pai com lgrimas nos olhos e nem agradeceu a Pilar pelos presentes.
       - Acho que ela no cresceu tanto quanto eu pensava - disse Pilar, quando eles saram. - Est furiosa comigo.
       - Nancy  uma menina mimada e nossa vida e o que fazermos no so da conta dela.
       Brad jamais permitira que os filhos interferissem na sua vida e ele no interferia na deles. Eram adultos, assim como ele e Pilar. E Brad no iria se importar 
com a opinio dos filhos. Queria que Pilar tivesse aquele beb. Sabia o quanto significava para ela. Pilar tinha todo o direito de ter filhos e, se resolveu isso 
um pouco tarde, era assunto dela e de ningum mais.
       - Talvez Nancy ache que estou competindo com ela - ponderou Pilar, enquanto tiravam a mesa e amontoavam os pratos na pia para a faxineira lavar no dia seguinte.
       - Pode ser. Mas j  hora de ela aprender que o mundo no gira em torno dela. Tommy e Todd vo convenc-la de que est errada.
       Todd estava passando alguns dias na casa da irm.
       - Todd foi maravilhoso e para ele tambm deve ter sido um choque.
       - Provavelmente, mas pelo menos ele j est bastante amadurecido para saber que isso no vai mudar nada na sua vida. Com o tempo, Nancy vai compreender tambm 
que o fato de termos um filho no diminui minha afeio por eles. Mas at l, ela ir infernizar a sua vida, se voc deixar. Em seguida, acrescentou com ar severo: 
- No quero que ela a aborrea agora. Estou sendo claro?
       Pilar sorriu para ele.
       - Sim, Meritssimo.
       - timo. E no quero saber daquela pequena fera enquanto ela no recobrar o juzo.
       - Tudo vai ficar bem, Brad. - Foi uma grande surpresa para ela. 
       - Acho bom ela se acalmar, seno vai ter problemas comigo. Quinze anos atrs Nancy a atormentou o bastante para uma vida inteira. No tem mais permisso para 
isso agora e, se for preciso, eu a farei lembrar-se disso. Mas espero no precisar.
       - Vou telefonar na semana que vem, convid-la para almoar e ver se consigo acalmar sua zanga.
       -  ela quem deve telefonar - resmungou Brad.
       E Nancy os surpreendeu ao telefonar naquela mesma noite para pedir desculpas, o marido e o irmo a convenceram de que no tinha o direito de aprovar ou desaprovar 
o que Brad e Pilar faziam e que ela havia se comportado muito mal. Chorando, Nancy pediu desculpas e Pilar chorou tambm.
       - A culpa  toda sua, voc sabe - disse Pilar. - Se Adam no fosse to fofinho, talvez eu no tivesse pensado nisso. - Mas ela e Brad sabiam que havia muito 
mais na sua deciso.
       - Eu sinto muito... E voc foi um doce quando eu contei que estava esperando Adam.
       - No pense mais nisso, - Pilar sortiu entre as lgrimas. - Voc me deve uma queijada, - Era a nica coisa que desejava naquele momento.
       Na manh seguinte, Pilar e Brad encontraram a torta numa caixa cor-de-rosa, nos degraus da entrada. Com uma bela rosa em cima. Pilar chorou outra vez e Brad 
ficou satisfeito por ver que Nancy tinha recuperado o juzo.
       - Agora tudo que voc tem a fazer  descansar e ter esse beb. Oito meses, at agosto, pareciam uma eternidade. 
       
* * *
       
        Diana e Andy tiveram um Natal tranqilo no Hava, e era exatamente disso que precisavam, deitados ao sol em Mauna Kea. Era a primeira vez que ficavam sozinhos 
desde o comeo da agonia, com exceo do desastroso fim de semana em La Jolla, no comeo de setembro. E os dois compreenderam, assustados, como haviam chegado perto 
de destruir seu casamento. Pareciam no ter mais nada em comum, nada para dizer, nada para partilhar, nada para esperar. Era como se tivessem caminhado dentro d'gua 
durante meses, e na verdade estavam quase se afogando na vspera do Dia de Ao de Graas, quando por um momento divisaram uma centelha de esperana.
       S depois de dois dias comearam a falar sobre outra coisa que no fosse o tempo e as refeies. Mas era o lugar perfeito para eles. No tinha televiso nos 
quartos, nenhum lugar para ir, nada para ver. Ficavam apenas deitados na praia e aos poucos comearam a refazer o que quase haviam perdido.
       O Dia de Natal, depois de um jantar tranqilo no salo do hotel, chegaram na praia de mos dadas ao pr-do-sol.
       - Sinto-me como se tivesse estado na lua este ano - disse Diana. Depois de um ano e meio de casamento, no tinha mais certeza do que queria nem de para onde 
estavam indo.
       - Eu tambm me senti assim - confessou Andy, os dois sentados, olhando o mar. Um pouco mais tarde as raias enormes apareceram na praia  procura de alimento. 
- Mas o caso  que... conseguimos... no nos deixamos vencer.. ainda estamos aqui, conversando, de mos dadas. Isso significa muito... Ns sobrevivemos.
       - Mas a que preo? - disse ela, com tristeza. - Abrira mo de seus sonhos. O que esperava agora do futuro? Tudo que ela desejou foi ter filhos... e tambm 
quis ter Andy. E ele ainda estava l, mas tinham perdido seus filhos. Era difcil viver assim, mas, por outro lado Andy tinha razo. A perda dos sonhos no os tinha 
destrudo. 
       - Talvez, a longo prazo, isso nos torne mais fortes - disse ele. Ainda a amava, s precisava encontr-la. H meses Diana fugia dele, e dela mesma. Vivia dentro 
de uma concha, saa para o trabalho cada dia mais cedo, voltava cada dia mais tarde e ia direto para a cama. No queria falar com ele nem com qualquer outra pessoa, 
raramente telefonava para os pais, nunca para as irms ou para as amigas. De repente, todos eram estranhos para ela. Fazia questo de viajar sempre que havia oportunidade 
no escritrio. Uma ou duas vezes Andy se oferecera para se encontrar com ela no final de uma viagem, mas Diana no queria se divertir e no queria estar com ele. 
Dizia sempre que ia estar muito ocupada.
       - A questo principal - disse ele, hesitante, imaginando se no seria cedo demais para isso -  saber para onde vamos agora. Voc quer continuar casada comigo? 
O sofrimento ter sido grande demais para voltarmos ao que havia de bom no nosso casamento? Eu simplesmente no sei mais o que voc quer - declarou ele, achando 
extremamente trgico o fato de estar perguntando se ela queria o divrcio, ali sentados, vendo o magnfico pr-do-sol do Hava.
       Diana estava com um vestido branco de algodo, a pele bronzeada e o cabelo negro esvoaando tentadoramente na brisa suave. No entanto, por mais bela que a 
achasse, Andy sabia que ela no o queria mais.
       - O que voc quer? - perguntou Diana. - Eu fico s pensando que no tenho o direito de prend-lo. Voc merece muito mais do que eu posso dar. - Estava disposta 
a desistir de Andy pelo bem dele. Viveria sozinha, dedicando-se  sua carreira. Sabia que jamais casaria outra vez, ou pelo menos era o que pensava. Estava com 28 
anos e pronta para desistir de tudo, se era o que ele queria. Mas no era esse o caso.
       - Voc sabe que isso  bobagem.
       - Eu no sei mais nada. S sei o que no . No sei mais o que  direito, o que devo fazer, nem mesmo o que eu quero. - Chegara a pensar em deixar o emprego 
e ir morar na Europa.
       - Voc me ama? - perguntou Andy, chegando mais perto dela, olhando aqueles olhos to tristes agora, to vazios, to sofridos. Tudo dentro dela estava dolorido, 
queimado, arrancado da alma e s vezes Andy tinha a impresso de que s restavam cinzas.
       - Sim, eu o amo - murmurou ela. - Eu o amo demais... sempre amarei... mas isso no significa que tenho o direito de ficar com voc... No posso lhe dar nada, 
Andy... a no ser eu mesma e no resta muita coisa.
       - Sim, h muito ainda. Voc apenas se enterrou no trabalho, na dor, na angstia... Se me deixar, posso ajud-la a voltar para a superfcie. - Andy havia comeado 
as sesses de anlise h algumas semanas e sentia-se mais forte neste sentido. - Depois, temos um ao outro, o que  mais do que muita gente tem. Somos duas pessoas 
que se amam, que tm muito a partilhar entre si, com o mundo e os amigos. O mundo todo no gira em torno de crianas, voc sabe. E mesmo que tivssemos filhos, mais 
cedo ou mais tarde eles nos deixariam. Ou talvez nos odiassem ou morressem num acidente ou num incndio. No h nenhuma garantia na vida. Nem mesmo os filhos so 
para sempre.
       O problema para ela era que eles estavam por toda parte, nas ruas, nos supermercados, s vezes at no elevador do prdio do seu escritrio, pequenas criaturinhas 
com olhos grandes e coraes abertos, segurando a mo da me ou choramingando e sendo abraadas e consoladas.
       - E depois, o que acontece? - perguntou Diana. Tudo parecia ser de um modo que Diana jamais poderia fazer, para qualquer lado que olhasse via mulheres grvidas, 
cheias de esperanas e promessas que Diana jamais conheceria, jamais sentiria, no corao ou no corpo. No era fcil desistir de tudo isso e no era justo obrigar 
Andy a desistir tambm. - Acho que no  justo voc nunca ter filhos porque eu no posso ter. Por que fazer isso?
       - Porque eu a amo. E tambm no precisamos passar a vida toda sem filhos. Podemos passar se quisermos. Mas existem outras opes.
       - No tenho certeza de estar preparada para isso.
       - Nem eu. E no precisamos decidir nada agora. Tudo que precisamos  pensar em ns mesmos e fazer alguma coisa antes que seja tarde demais, meu bem... eu 
no quero perder voc...
       - Eu tambm no quero perd-lo - disse ela, virando o rosto para que ele no visse suas lgrimas. Ela via algumas crianas brincando na praia, ao longe, e 
a dor era insuportvel.
       - Eu quero voc de volta... nos meu sonhos... na minha vida... nos meus dias... no meu corao... nos meus braos... na minha cama... no meu futuro. Meu Deus, 
como senti a sua falta - disse Andy, abraando-a, sentindo o calor do corpo dela junto ao seu, desejando-a ardentemente. - Meu amor... eu preciso de voc...
       - Eu tambm preciso de voc - disse Diana, chorando. Precisava muito dele. No conseguiria viver sem ele, no poderia desistir de todos os seus sonhos e, 
no entanto, de algum modo, na nvoa daquele horror ela o tinha perdido.
       - Vamos tentar... por favor, vamos tentar... - Seus olhos encontraram os dela e Diana sorriu para ele. - Nem sempre vai ser fcil e talvez em certos momentos 
eu no possa compreender. E no serei sempre firme... mas tentarei. E se eu no conseguir, por favor, me diga. - Tudo que ele queria era Diana de volta.
       Caminharam lentamente para o hotel, de mos dadas, e pela primeira vez em muitos meses fizeram amor e foi muito, muito melhor do que eles podiam se lembrar. 
       
* * *
       
        O Natal de Charlie e Barbara foi estranho. Depois que passou, essa foi a nica palavra que Charlie encontrou para descrever aquele dia. Singular. Estranho. 
Talvez at mesmo surpreendente. Ele preparou o jantar de Natal, como sempre, e ela foi  casa de Judi, de manh, para dar o presente da amiga. E pela primeira vez 
Charlie ficou feliz por estar sozinho. Estava com outra ressaca terrvel. Andava bebendo demais, tentando inutilmente absorver o que o Dr. Pattengill lhe dissera. 
Nunca engravidaria sua mulher. Nunca. A contagem de seus espermatozides era quase zero. Pensava tambm no que o mdico tinha contado sobre ele mesmo, mas isso no 
ajudava. Charlie no estava interessado em quantos filhos os Pattengill haviam adotado. Queria um filho seu, com Barb. Agora. E sabia que no era possvel. Sua mente 
sabia. O corao no queria acreditar.
       Barbara voltou s quatro horas, animada e cheia de vida. Era evidente que tomara alguns drinques e comeou a provoc-lo, enquanto ele regava o peru no forno, 
mas Charlie no estava com vontade de brincar. Barbara adorou a jaqueta de pele de raposa que ele comprou para ela. Foi para o quarto e tirou toda a roupa, menos 
a calcinha de renda preta e os sapatos de saltos altos, vestiu a jaqueta curta de pele e voltou para a sala, rindo alegre. Estava to engraadinha, to bonitinha, 
e tudo para nada.
       - Voc  uma boba, sabia? - sorriu Charlie, fazendo-a sentar-se no sof ao seu lado e beijando-a. - E eu te amo.
       - Eu tambm te amo - disse ela, com ar misterioso e quase solene.
       No jantar, Charlie serviu o champanhe favorito de Barbara. O peru estava perfeito e, ao fim do jantar, ele sentia-se melhor. Sabia que tinha de se acostumar 
com a idia. Barbara sentou-se no colo dele. Estava agora com um robe de cetim cor-de-rosa, presente de aniversrio de Charlie, e muito tentadora.
       - Feliz Natal, Barb. - Beijou o pescoo dela e Barbara inclinou a cabea para trs; em seguida, afastou-se um pouco e olhou carinhosamente para ele. Charlie 
notou alguma coisa diferente nos olhos dela. - Barbara o que eu conto...
       - Primeiro eu - adiantou-se ela, afastando-se dele outra vez. - Acho que voc vai gostar.
       Charlie recostou-se na cadeira, achando graa no olhar malicioso dela. A beijou.
       - Tenho uma coisa para contar - murmurou ela.
       - Eu tambm - disse ele, com a voz rouca 
       - Vamos para o quarto.
       - Acho bom ser muito especial. Se no for, eu rasgo esse robe e para o diabo com o quarto. - S o fato de estar com ela j o deixava mais animado.
       Depois de uma longa pausa, ela sorriu hesitante e, ento, disse:
       - Estou grvida.
       Charlie olhou para ela, atnito, e a princpio no soube o que dizer. Depois ficou muito plido.
       - Fala srio?
       -  claro que sim. Acha que eu brincaria com uma coisa dessas?
       Considerando o que o Dr. Pattengill dissera, era bem possvel.
       - Tem certeza? - Ser que o mdico estava enganado? Ou poderiam ter trocado seus exames com o de outro homem? - Por que pensa que est grvida?
       - Pelo amor de Deus! - exclamou ela, aborrecida, saindo do colo dele e acendendo um cigarro na chama da vela sobre a mesa. - Eu pensei que voc ia ficar feliz. 
O que  isto? A Inquisio espanhola? Sim, claro que tenho certeza. Fui ao mdico anteontem.
       - Oh, meu bem. - Charlie fechou os olhos para que ela no visse suas lgrimas. - Desculpe...  que... no posso explicar... 
       Charlie a abraou e chorou, sem saber por que, sem saber se caa de joelhos e agradecia a Deus ou se a amaldioava. Barbara teria feito alguma coisa que no 
devia? O filho era de outro homem? Mas, sem contar a ela o que ele sabia, no podia perguntar.
       Charlie passou o resto da noite estranhamente calado e Barbara deu alguns telefonemas enquanto ele lavava os pratos do jantar. Ela no conseguira a reao 
que esperava e no podia compreender por qu. Ento, finalmente foram para a cama e Charlie a abraou, rezando para que o Dr. Pattengill estivesse enganado. Mas, 
antes de abrir o corao para ela e para o filho que ela dizia ser seu, precisava falar com o mdico.
       S depois de trs longos dias Charlie conseguiu voltar ao consultrio do Dr. Pattengill. E nesse tempo quase no vira Barbie. Ela saa com as amigas, ia fazer 
compras e disse at que tinha um teste no dia seguinte ao Natal. Dessa vez Charlie no fez perguntas. No disse nada. Primeiro queria falar com o Dr. Pattengill. 
Mas quando finalmente sentou-se diante da mesa do mdico, este apenas balanou a cabea com firmeza.
       - Charlie, no pode ser. Eu gostaria de dizer que sim e j vi coisas mais loucas do que isso. Mas  muito improvvel que voc seja o pai. Alguns pacientes 
j me surpreenderam antes, mas, Charlie, acredite em mim... no acho possvel. Eu gostaria de poder dizer o contrrio.
       De alguma maneira, ele j sabia. Suspeitava h muito tempo. Todas as noites em que ela chegava depois que ele j dormira. Todas as "amigas", "as noites com 
as amigas", as visitas a "Judi", os testes misteriosos e as "oficinas de teatro" que nunca levavam a coisa alguma. H meses Barbara no conseguia um papel. E Charlie 
sabia, por mais que desejasse o contrrio, que aquele filho no era seu.
       Charlie voltou para casa dirigindo devagar e quase lamentou encontr-la em casa. Barbara estava falando ao telefone e desligou rapidamente quando ele entrou.
       - Quem era? - perguntou ele sem grande interesse, como se ela fosse realmente dizer.
       - Judi. Eu estava contando a ela que estou grvida.
       - Oh. - Charlie virou o rosto para o lado. No queria contar a ela, mas precisava. Lentamente, muito lentamente, voltou-se para ela, desejando que o mundo 
acabasse antes que ela comeasse a falar. - Precisamos conversar - disse em voz baixa e sentou-se de frente para ela. Barbara estava incrivelmente sexy.
       - Alguma coisa errada? - perguntou Barbara,nervosa. Descruzou as pernas, acendeu outro cigarro e esperou.
       - Sim.
       - Voc foi despedido? - Parecia assustada e deu um suspiro de alvio quando ele balanou a cabea negativamente. O que mais poderia ser? Charlie no andava 
com outras mulheres, disso tinha certeza. Era bom demais para fazer isso.
       - No, nada to simples - disse Charlie. - Logo depois do Dia de Ao de Graas fui consultar um mdico.
       - Que tipo de mdico? - Barbara foi ficando nervosa.
       - Um endocrinologista especializado em reproduo, em fertilidade. H muito tempo voc disse que no entendia como ainda no tinha engravidado, considerando 
todas as vezes em que no tomamos nenhuma precauo. Isso me deixou preocupado e resolvi verificar...
       - Ento? - Barbara tentou fingir que no estava preocupada, mas, adivinhando a resposta, seu corao disparou.
       - Eu sou estril.
       - Esse mdico no sabe o que est dizendo. - Barbara levantou-se e comeou a andar pela sala. - Talvez ele queira me examinar para ter certeza de que estou 
grvida.
       - Voc est? - perguntou ele. Havia uma possibilidade de ela estar mentindo e Charlie queria desesperadamente que fosse esse o caso.
       -  claro que estou. Posso fazer um teste para voc, se quiser a prova. Estou grvida de dois meses. - Charlie imaginou o que ela fizera em outubro passado. 
- O cara est louco.
       - No - disse Charlie, incisivo. - Mas acho que eu estou. O que est acontecendo, Barb? De quem  essa criana?
       - Sua. - Barbara abaixou a cabea e comeou a chorar. Depois, olhou para ele. - Tudo bem, no importa de quem ...  uma crueldade fazer isso com voc. 
       - Charlie. Desculpe.
       Mas se ele no soubesse, se no tivesse dito nada, ela continuaria com a mentira. Charlie sabia.
       - Pensei que voc no quisesse filhos. Por que esse?
       - Por que... eu no sei... - Ento ela compreendeu que era tarde demais para mentir. Charlie sabia a verdade. Podia saber o resto da histria. Talvez porque 
eu j fiz muitos abortos, talvez porque eu sabia o quanto voc queria um filho... Talvez eu esteja ficando velha... ou sentimental... ou burra, ou qualquer coisa... 
Eu pensei...
       - De quem ? - A pergunta partia seu corao e no servia para nada, a no ser como instrumento de tortura.
       - Um cara que encontrei em Las Vegas. Eu o conhecia h muito tempo e ele se mudou para c em outubro. Disse que podia me arrumar um emprego. Tinha muitos 
conhecimentos em Las Vegas. Estivemos juntos algumas vezes. Eu pensei... - Mas no pde prosseguir. Estava chorando.
       - Voc o ama ou fez isso por um emprego, ou s para se divertir? O que esse cara significa para voc?
       - Nada. - Mas no podia olhar para ele.
       E Charlie imaginou que o outro homem deveria ter toda a vivacidade que ele no tinha. Pensando nisso, perguntou a si mesmo se alguma vez Barbara o amou realmente. 
Talvez tudo no passasse de uma piada de mau gosto, desde o comeo. E tudo que ele queria era uma mulher e filhos, uma famlia de verdade. Mas talvez no tivesse 
direito a isso. Como poderia dar um lar a uma criana algum que jamais teve um? O que ele sabia sobre famlia?
       - Por que voc fez isso? - Charlie estava chorando como um garotinho magoado.
       Ela olhou nos olhos dele.
       - Porque voc me assusta. Voc quer tudo, voc quer todas as coisas das quais estou fugindo. Sempre que estou perto de voc fico com medo. Voc quer filhos, 
uma famlia, toda essa besteira que no significa droga nenhuma para mim. No quero me prender a ningum. No posso fazer isso.
       Barbara estava destruindo todos seus sonhos e Charlie a ouvia com as lgrimas descendo pelo rosto.
       - Quer saber por que me sinto assim, Charlie? , acho que deve saber. Eu tinha uma famlia, irmos, irms, me e pai... e quer saber o que aconteceu? Meu 
irmo transou comigo durante sete anos. Comeou quando eu tinha sete e quer saber mais? Minha me sabia e permitia. Ele era um garoto "to difcil", ela dizia. Tinha 
medo que ele viesse a ter problemas com a polcia se no "descarregasse", e eu era a vlvula de escape. Graas a ele, fiz meu primeiro aborto aos treze anos e mais 
dois, um ano depois. Ento meu pai tentou entrar na brincadeira... Bela famlia, no acha, Charlie? Isso no d vontade de voc sair correndo e ter um monte de filhos? 
Certo, eu tambm. Ento eu sa de casa, fui para Las Vegas e consegui um emprego como corista. E fiz mais alguns abortos. E depois outro aqui, quando engravidei 
de um agente. No, eu no quero este filho, Charlie, mas achei que voc ia querer.
       Sim, ele queria um filho, mas no de outro homem. Charlie olhava para ela, sofrendo como que ela acabava de contar.
       - Eu no sei o que dizer, Barb. Sinto muito por tudo, pelo passado, por ns. Acho que no tivemos sorte.
       -  isso. - Barbara assoou o nariz e acendeu outro cigarro. - Eu no devia ter casado com voc, que queria toda aquela besteira de famlia certinha. Eu devia 
ter dito que isso tudo  uma baboseira, mas tambm queria acreditar que podia fazer isso por voc. Mas quer saber de uma coisa? Eu no posso, simplesmente no posso 
ser o que voc gostaria que eu fosse, a mulherzinha amorosa e caseira. No est em mim. Acho que eu ficaria doida sentada neste apartamento falando sobre filhos, 
vendo voc passar o aspirador e fazer o jantar. Que se dane o jantar, Charlie, eu quero me divertir!
       Charlie fechou os olhos. No podia acreditar no que estava ouvindo. Mas era verdade e ele sabia. Abriu os olhos, imaginando se algum dia chegara a conhec-la.
       - Ento, o que voc quer fazer agora?
       - Eu no sei. Acho que vou morar com Judi.
       - E a criana?
       - No  problema. Eu sei o que fazer. - Deu de ombros, como se fosse uma coisa sem importncia, e Charlie se obrigou a no lembrar a doura com que Barbara 
lhe anunciara que estava grvida.
       - E o cara? Ele no quer o filho?
       - Ele no sabe. Ele tem mulher e trs filhos em Las Vegas. Tenho certeza que daria pulos de alegria ao saber.
       - Eu no sei o que dizer. - Era como se toda sua vida tivesse sido virada do avesso, e tinha mesmo. Ele mal conseguia pensar, quanto mais tomar uma deciso 
importante. 
       - Por que no me d alguns dias?
       - Para qu? - Barbara perguntou, intrigada.
       - Para pensar nisso tudo. No sei mais o que penso nem o que sinto. No sei o que dizer a voc.
       - No precisa me dizer nada - retrucou ela, suavemente, arrependida pela primeira vez na vida. - Eu compreendo.
       Charlie estava chorando e sentindo-se tremendamente idiota. Barbara era to experiente, to vivida, to calejada, to ousada e ele estava chorando como chorava 
quando as famlias com quem ele morava um ano diziam que no podiam ficar com um menino que sofria de asma.
       - Eu sinto muito...
       Charlie no parava de chorar e Barbara o abraou e embalou. Depois foi at o quarto e ps algumas roupas na mala. Ento chamou um txi e foi para a casa de 
Judi.
       Charlie passou o resto do dia sentado, chorando. No podia acreditar no que estava acontecendo. No tinha coragem nem mesmo de telefonar para Mark, porque 
sabia o que ele iria dizer: que ela significava encrenca, que ele estava melhor sem ela. Mas se era verdade, por que no estava se sentindo melhor? Nunca se sentira 
to mal em toda a vida. Ele era estril e a mulher que amava o tinha abandonado.


CAPTULO  - 11 -
       
       
 B
rad e Pilar passaram a vspera do Ano Novo com amigos e todos ficaram atnitos quando ela contou que ia ter um filho. Sem dvida Pilar tinha mudado radicalmente 
naquele ltimo ano. De solteira inveterada para uma mulher casada e, agora, para me. Era o oposto do que achava da vida duas dcadas atrs, mas agora sua evoluo 
lhe parecia perfeitamente natural.
       Depois da ceia, danaram ao som de antigas melodias e Brad e Pilar chegaram em casa mais ou menos  uma e meia da manh. Ela estava mais cansada do que de 
hbito. Sempre gostara de ficar acordada at tarde, mas fora exaustivo explicar todas as novidades da sua vida para todo mundo. Alm disso, desde o comeo da gravidez, 
ela estava sempre com sono.
       - As pessoas so engraadas, no so? - comentou Pilar. - Eu adoro ver as caras delas quando digo que estou grvida. Primeiro, pensam que estou brincando 
e ficam sem saber o que dizer, depois fazem um escarcu. Eu adoro.
       - Voc  uma mulher interessante. - Brad sorriu e ento notou a expresso de dor no rosto de Pilar quando a ajudou a descer do carro. - Voc est bem?
       - Sim... tive uma dor estranha, nada mais.
       - Onde?
       - No sei, em algum lugar da barriga - disse ela, vagamente.
       Alguns dias antes Pilar sentira clicas e telefonara para a Dra. Ward. A mdica disse que aquilo era normal, que as dores provavelmente se deviam  distenso 
das paredes do tero. Por isso no se preocupou quando teve outra clica no momento em que estava pondo a roupa no cabide. S que essa foi mais forte. E logo em 
seguida veio outra, e mais outra... Ela sentiu alguma coisa escorrer pelas pernas... Olhou para baixo e viu que era sangue.
       - Oh, meu Deus... - murmurou Pilar, com a voz embargada. Depois chamou Brade ficou imvel, sangrando no meio do quarto. Estava assustada demais para se mover. 
No sabia o que estava acontecendo, mas tinha certeza de que no era nada de bom e assim que Brad entrou no quarto levou-a imediatamente para o banheiro e a fez 
deitar sobre toalhas,
       tentando elevar a  parte inferior do seu corpo, mas a hemorragia era muito intensa agora e Pilar estava apavorada.
       - Eu estou perdendo a criana?
       - No sei. No se mexa, meu bem. Vou chamar o mdico.
       Los Angeles ficava muito longe dali para lev-la at a Dr. Ward, e ento Brad telefonou para o antigo ginecologista de Pilar, que mandou lev-la imediatamente 
para o hospital, dizendo que os encontraria l dentro de dez minutos. Disse a Brad que j vira mulheres com hemorragias intensas que no perderam o filho. O Dr. 
Parker era um homem antiquado, com setenta e poucos anos e Brad gostava dele.
       Ele a envolveu em toalhas, ps um casaco nos ombros dela, mas mesmo assim deixaram uma trilha de sangue pela casa. Pilar deitou-se no banco traseiro do carro, 
enrolada num cobertor e vrias toalhas e Brad a levou velozmente para o hospital. Quando chegaram, Pilar estava plida e chorando de dor e de medo de perder a criana. 
Disse que era a pior coisa que j havia sentido na vida e, quando o mdico tentou examin-la, ela gritou. O Dr. Parker olhou para Brad, balanou a cabea e explicou 
que ela no estava perdendo apenas sangue, mas tecido tambm. O mdico tentou explicar a ela o que estava acontecendo e Pilar olhou apavorada para Brad.
       - O beb? Est morrendo?
       - Provavelmente ele j no existe mais - disse o mdico, segurando uma das mos dela, enquanto Brad segurava a outra - s vezes no se pode evitar que isso 
acontea.
       Helen Ward j havia informado que as mulheres com mais de quarenta anos tm mais probabilidades de abortar.
       Pilar soluava, de mgoa e de dor, sem poder acreditar que o filho que eles tanto desejavam estava morto. No era justo. Porque tinha de acontecer isso?
       - Vamos lev-la para cima e fazer uma curetagem para limpar tudo e estancar a hemorragia. Mas quero esperar mais um pouco porque Brad me disse que voc comeu 
bastante no jantar. Acho que dentro de uma hora a interveno pode ser feita. Enquanto isso, a enfermeira vai lhe dar alguma coisa para a dor.
       Mas a "alguma coisa" que a enfermeira deu no diminuiu a dor e Pilar ficou deitada durante duas horas apertando os dentes para no gritar. Parecia incrvel 
que se pudesse sentir tanta dor. Ela estava completamente histrica quando a levaram para a sala de cirurgia e disse a Brad que, se o beb estivesse vivo e eles 
fizessem a curetagem, seria o mesmo que fazer um aborto. Brad tentou convenc-la de que o beb no existia mais e que precisavam retirar o tecido necrosado do seu 
tero.
       - No  tecido necrosado - gritou ela, descontrolada. -  o nosso filho!
       - Eu sei, querida, eu sei. - Ele a acompanhou at a porta da sala de cirurgia e o mdico permitiu que esperasse por ela na sala de recuperao.
       Assim que acordou da anestesia, Pilar comeou a chorar. No disse uma palavra e soluou a noite toda. Brad no podia fazer nada.
       - Vai ser duro para ela - o mdico disse a Brad. - O aborto natural  um dos grandes sofrimentos dos nossos dias.  uma morte, no se pode negar. Costumvamos 
consider-lo "uma dessas coisas da vida", da qual a mulher se recuperava emocionalmente em alguns dias. Mas isso no acontece. Leva meses... s vezes anos... s 
vezes jamais se recuperam... e na idade de Pilar ela no pode nem ter certeza de outra gravidez.
       - Continuaremos a tentar - disse Brad, mais para si mesmo do que para o mdico. - Vamos tentar. Conseguimos este.
       - Diga isso para Pilar. Ela vai se sentir pssima durante algum tempo. Uma parte do mal-estar  real, a outra parte  hormonal.
       Brad sabia que o que ele estava sentindo era real e, quando voltou ao quarto, chorou por ela, pelo filho que tinham perdido e pela dor que estavam sofrendo. 
Ele a levou para casa naquela tarde. Queria que Pilar ficasse de repouso por alguns dias e naquela noite Nancy telefonou para falar de um bero maravilhoso que tinha 
visto para o beb.
       - Eu... no posso falar agora... - chorando, Pilar entregou o fone para Brad. Ele foi para o outro quarto e contou. Nancy ficou chocada e sentida por eles, 
pensando que talvez Pilar fosse velha demais para tentar.
       Passaram o primeiro dia do ano sozinhos, pensando no filho que tinham perdido, nos sonhos que haviam partilhado, juntos e silenciosos. 
       
* * *
       
       No Dia de Ano Novo, Charlie acordou as seis e quinze, depois de passar mais de metade da noite acordado. Mas ultimamente ele no conseguia mesmo dormir e 
por fim decidira o que queria fazerem relao a Barbie. No achava certo o que ela fizera e a faria prometer que aquilo no aconteceria outra vez, mas no podia 
deix-la agora. Barbara precisava dele e ele a amava. Como podia abandon-la agora? E talvez essa criana fosse exatamente o que precisavam para salvar seu casamento.
       Era muito cedo para ir at l. Depois de tomar banho e se barbear, Charlie leu o jornal, andou pela sala e, finalmente, s nove horas, saiu para a casa de 
Judi. H trs dias no falava com Barb, e, quando ela o deixou, estava chocado demais para dizer alguma coisa. De certo modo, Charlie se arrependia de ter consultado 
o Dr. Pattengill. Se no tivesse feito isso, nunca saberia que era estril e teria acreditado que o filho era seu. Mas as coisas no eram mais to simples. Ou seriam?
       Tocou a campainha e um minuto depois apertaram o boto para abrir a porta do prdio. Judi abriu a porta do apartamento e ficou surpresa quando o viu. Fez 
meno de dizer alguma coisa, mas resolveu o contrrio. Estava com um namorado com quem vinha saindo esporadicamente desde junho e com sua nova companheira de apartamento, 
que substitura Barbie. Judi de repente sentiu-se constrangida e Charlie tambm. Os dois sabiam o que estava acontecendo e Charlie sabia tambm que Judi havia acobertado 
as escapadas de Barbara com o sujeito de Las Vegas. Desse modo, Judi trara Charlie, mas ela devia lealdade unicamente a Barbara. Agora, ela lamentava que as coisas 
tivessem acabado assim. Barbie havia contado a ela assim que soube que estava grvida e Judi a aconselhara a fazer um aborto e no dizer nada. Afinal, o pai da criana 
era casado. Barbie a princpio concordou, mas depois comeou a falar do quanto Charlie queria um filho. Tinha certeza de que podia convenc-lo de que o beb era 
dele e assim no precisaria fazer outro aborto.
       - Oi, Charlie - cumprimentou-o Judi. - Vou chamar Barbie. Mas Barbie j estava no hall, parecendo plida, cansada e muito infeliz.
       - Oi - disse Charlie, sentindo-se como um garoto no seu primeiro encontro, quando Judi e os outros os deixaram sozinhos. - Desculpe por no ter telefonado. 
Eu precisava de tempo para pensar.
       - Eu tambm. - Estava com os olhos cheios de lgrimas e com um soluo preso na garganta. Ver Charlie tornava as coisas mais difceis. Barbara compreendia 
agora o que tinha feito para ele, especialmente a mentira sobre o beb.
       - Podemos sentar em algum lugar? - De repente, Charlie parecia mais velho e mais amadurecido. Na verdade, sentia-se muito mais velho desde que soube que era 
estril.
       Barbara agora dormia no sof da sala. Para evitar que os outros, na cozinha, ouvissem a conversa, levou-o ao quarto de Judi. Ela sentou-se na cama ainda desarrumada 
e Charlie na ponta da nica cadeira, olhando para a mulher com quem tinha se casado. Em menos de dois anos tinham percorrido um longo caminho e a maior parte da 
viagem fora bastante agradvel. No tinha sido um casamento de verdade, mas Charlie esperava que passasse a ser de agora em diante. E uma criana seria mais um motivo 
para mant-los unidos.
       - Eu quero essa criana, Barb. Pensei muito e acho que vamos conseguir. Que diabo! Se algum tivesse me adotado eu no seria filho de verdade deles. E esta 
criana jamais precisa saber que no sou seu pai. A certido de nascimento vai dizer que sou e isso basta para mim. - Charlie sorriu carinhosamente para ela.
       Barbara chorou sentidamente quando ele disse que estava disposto a perdoar tudo que ela havia feito e, durante algum tempo, no conseguiu dizer nada, apenas 
balanava a cabea. Era um momento difcil para os dois. Charlie segurou a mo dela, mas Barbara a retirou imediatamente. Ele tentou dizer que tudo iria dar certo. 
Mas ela no queria ouvir.
       - Eu fiz o aborto ontem - conseguiu dizer afinal e foi como se Charlie tivesse levado um murro. Nunca imaginara que ela pudesse fazer uma coisa daquelas em 
to pouco tempo.
       - Est brincando? - Mas quem brincaria com aquilo? Charlie no sabia o que dizer naquele silncio ensurdecedor. - Porqu? - Tudo que ela estava dizendo parecia 
loucura. Mas Charlie sabia que estava descontrolado emocionalmente.
       - Charlie, eu no podia ter aquele filho. No seria justo para voc, para mim, nem para o beb. Enquanto ele vivesse voc iria lembrar que eu o enganei, a 
cada minuto, a cada segundo. E eu... - Ergueu para ele os olhos cheios de dor. - A verdade  que, por mais que eu me sinta culpada, por mais que me arrependa do 
que eu fiz, por mais que tenha detestado fazer outro aborto... eu no quero um filho. Nem seu, nem de qualquer outro homem.
       - Por qu? Seria a melhor coisa que poderia acontecer. E agora teremos de adotar um - disse ele, tristemente. Aquele beb poderia ter sido a soluo perfeita 
e agora no era mais possvel. Uma parte de Charlie sentia alvio, a outra parte estava arrasada.
       - Charlie - a voz de Barbara era quase inaudvel -, no vou voltar para voc. - Abaixou a cabea, sem coragem de olhar para ele.
       - O qu? - Charlie empalideceu sob as sardas. - O que est dizendo?
       Com esforo, Barbara olhou para ele.
       - Charlie, eu o amo... voc  tudo que uma mulher pode desejar num marido. Mas eu... simplesmente no quero ser uma mulher casada. Eu no sabia disso antes. 
Eu tinha a impresso de estar morta, ali sentada em casa, com voc, noite aps noite. Eu pensei que poderia, mas no posso. Acho que foi por isso que tudo aconteceu. 
No comeo do nosso casamento, eu me senti aliviada por ter algum para tomar conta de mim. - As lgrimas desciam pelo seu rosto. - Para mim parecia um sonho. Mas, 
depois de algum tempo, se transformou em pesadelo. Eu no quero ter de dar satisfaes a ningum. No quero ficar enfiada em casa o tempo todo. No quero viver com 
um nico cara e, de uma coisa tenho certeza, no quero um filho, seu, ou de qualquer outro homem. E definitivamente no quero adotar nenhuma criana. Conversei com 
o mdico ontem e vou ligar as trompas dentro de algumas semanas. No quero mais fazer abortos.
       - Por que no falou comigo antes? - perguntou ele, pensando na criana outra vez. Como se, tratando desse assunto ele fizesse desaparecer tudo mais que ela 
dissera. Barbara afirmara que no voltaria para ele, mas no podia estar falando srio. Ela estava nervosa, no sabia o que estava dizendo.
       - Charlie, no era seu filho. E eu no o queria.
       - No foi justo - disse ele, chorando tambm. Nada era justo. Nada do que tinha acontecido era justo, mas a verdade  que nada nunca foi, desde o comeo da 
sua vida, quando os pais o abandonaram. E agora Barbara o abandonava tambm. Ela era igual a todas aquelas pessoas que ficavam com ele por algum tempo e depois resolviam 
que ele era um bom menino, mas que no o amavam. O que havia com ele, perguntava-se Charlie, chorando como uma criana, por que ningum o amava? - Eu sinto muito... 
- Tentou se desculpar por tudo que sentia e por estar chorando, mas Barbie apenas balanou a cabea. No era agradvel para ela, mas agora estava certa do que queria. 
Deveria ter feito isso h meses, antes de ter o caso com o sujeito de Las Vegas. 
       - Por que voc no volta para casa por uns tempos e podemos tentar outra vez? Podemos ter um casamento aberto, ou qualquer coisa assim, voc pode fazer o 
que quiser. Nenhuma pergunta, nenhuma explicao. - Mas, ouvindo as prprias palavras, Charlie se perguntava como poderia estar dizendo aquilo. Sabia que uma coisa 
dessas o levaria  loucura. E Barbara tambm sabia. Ela estava resolvida e nada do que ele dissesse a faria mudar de opinio.
       - No posso fazer isso, Charlie. No seria justo para nenhum de ns.
       - O que voc vai fazer? - Charlie estava preocupado. Barbara precisava de algum que tomasse conta dela. No era to forte quanto pensava.
       - Judi vai deixar o emprego e vamos voltar para Las Vegas.
       - Para qu? Outros cinco anos como corista e depois o qu? O que vai fazer quando estiver velha demais para ser modelo de mais e para mostrar os seios?
       - Eu fao uma plstica e continuo mostrando, eu acho. Eu no sei, Charlie. Mas sei que no posso ser o que voc quer e o que voc merece. Prefiro morrer em 
Las Vegas como uma corista.
       - Eu no acredito. - Charlie levantou-se da cadeira e foi at a janela. A rua, a vista l de cima, parecia triste, como tudo na sua vida agora.
       - Ento, no vai mesmo voltar para casa comigo? - Olhou para ela e Barbara balanou a cabea com convico.
       J no choravam mais, mas Charlie sentia-se como se um gigante tivesse dado um soco no seu plexo solar.
       - Voc merece mais do que eu jamais poderei dar - disse ela, com tristeza. - Uma boa moa que possa apreciar tudo que voc tem para dar, que queira ficar 
em casa e cozinhar para voc. Podero adotar umas duas crianas e sero muito felizes.
       - Muito obrigado por planejar tudo para mim - replicou ele. Tinha certeza de que nunca mais tentaria. No podia obrig-la a voltar para ele, mas sabia que 
jamais tornaria a se casar.
       - Charlie, eu sinto muito... - disse ela, quando saram do quarto. Barbara o ouviu sair do apartamento e descer as escadas. Ele no olhou para trs. No podia. 
Iria lembrar-se de todas aquelas vezes em que os pais adotivos o levavam de volta ao orfanato.











CAPTULO  - 12 -
       
       
 D
urante todo o resto do ms de janeiro, Charlie viveu como se estivesse andando debaixo d'gua. Continuou trabalhando, empacotou as coisas de Barbara e as deixou 
na casa de Judi, mudou-se para um apartamento do tipo estdio, em Palms, e passava as noites em claro, pensando. Queria compreender por que nada tinha dado certo, 
mas nunca chegava a ter certeza. Ser que ele queria demais, seria sua vontade de ter filhos que a levara ao desespero? No podia acreditar que Barbara simplesmente 
no quisesse estar casada. Mas ela j havia pedido o divrcio e, alguns dias depois, telefonou dizendo que estava indo para Las Vegas. Disse que o informaria o seu 
novo endereo para dar prosseguimento  ao de divrcio. Barbara parecia muito eficiente e controlada, ao contrrio de Charlie. Ele chorou durante uma hora depois 
do telefonema e nem Mark conseguiu consol-lo. Mark no se cansava de dizer que havia outros peixes no mar, que ela no era a nica mulher no mundo e que ele seria 
mais feliz com uma garota mais parecida com ele. No queria lembrar que fora contra o casamento, desde o comeo. De que adiantava agora?
       Repetia tambm que tinha passado pela mesma coisa quando a mulher o deixara por outro homem e fora morar na Califrnia.
       - E eu tinha as minhas filhas! - disse ele, para enfatizar o quanto tinha sido pior, mas isso s serviu para lembrar a Charlie como sua vida era triste e 
seu futuro vazio.
       Charlie no queria sair com ningum e, por mais que tentasse, Mark no conseguia convenc-lo do contrrio. Nem jogava mais boliche. Ainda era cedo demais; 
ele precisava repensar sua vida. Charlie estava quase convencido de que era muito melhor no ter filhos, que sua esterilidade era uma bno. Afinal, o que ele sabia 
sobre filhos? No teve uma infncia normal. Como poderia ser um bom pai? Mas para Mark essa era uma idia louca. Mark no se conformava em v-lo naquele estado e 
chegou a sugerir um psiquiatra que conhecia, no Valley, mas Charlie recusou isso tambm.
       - Escute, garoto - Mark tentou explicar, certa noite, quando saam do trabalho -, voc no est pensando direito. Provavelmente pode ser o melhor pai do mundo 
porque sabe o que uma criana precisa, tudo que voc nunca teve. Voc simplesmente escolheu a mulher errada. Barbara  uma boa menina, mas ela s quer as luzes brilhantes 
e muito divertimento. Voc quer cozinhar e ficar em casa e construir uma famlia. Assim... com o tempo vai encontrar a mulher certa, vai arrumar sua vida e ser 
feliz para sempre. Pare de pensar que sua vida acabou, Charlie, porque no acabou. Seja paciente. As feridas so recentes, voc ainda est sangrando. - Sim, ele 
estava, Mark tinha razo, mas Charlie no queria ouvir aquilo.
       - No quero encontrar outra mulher. E no quero casar. Que diabo, ainda nem me divorciei.
       - Oh... ento  por isso que no quer mais jogar boliche... nem tomar uma cerveja e comer uma pizza. O que est pensando? Que o estou convidando para um encontro 
amoroso? Escute, voc  bonitinho, mas no  o meu tipo, e a pequena Gina pode ficar muito aborrecida, voc sabe... - Charlie comeou a rir e Mark bateu amigavelmente 
nas costas dele. - No seja duro demais com voc mesmo, est bem?
       - Sim, sim, vou tentar - disse Charlie, sorrindo pela primeira vez em muito tempo.
       Alguns dias depois ele saiu para jantar com Mark e na semana seguinte foi jogar boliche. Aquele era um processo longo e lento, mas Charlie comeava a ficar 
curado. Doa ainda quando pensava nela, e no podia acreditar que o casamento tinha acabado, mas aos poucos Charlie comeou a sair da concha. E comeou a jogar beisebol 
nos fins de semana com um grupo de rfos de doze anos. 
* * *
       
       Pilar passou um ms, depois do aborto, extremamente deprimida. Tirou uma licena do trabalho, recusava-se a falar com qualquer pessoa e passava os dias em 
casa, de camisola, mergulhada na sua tristeza. Brad tentou fazer com que ela recebesse os amigos, mas a prpria Marina s conseguiu falar com ela depois de vrias 
tentativas. Ela chegou com uma poro de livros sobre aborto natural, sobre a dor de qualquer perda. Marina achava que a informao era o melhor instrumento para 
qualquer ocasio, mas Pilar no queria ouvir nada disso.
       - No quero saber o quanto estou sofrendo, nem quanto devo sofrer - disse ela, olhando zangada para a amiga, rejeitando-a e aos livros.
       - Mas talvez queira saber como se sentir melhor e quando pode esperar que sua vida volte ao normal - insistiu Marina, com pacincia.
       - Como poder voltar ao normal? Sou uma mulher de meia-idade que tomou uma poro de decises idiotas e, como resultado, jamais ter filhos.
       - Ora, ora, estamos cheias de autocompaixo, no estamos? - disse Marina, com um sorriso.
       - Eu tenho esse direito.
       - Sim, tem, mas no como um estilo de vida. Pense em Brad, no quanto est sendo difcil para ele.
       Brad havia pedido a Marina para falar com Pilar, que a princpio recusou-se a atender os telefonemas da amiga.
       - Ele tem filhos. No sabe nada do que estou passando.
       Mas outras pessoas sabem. Muitas pessoas. Outras mulheres tm abortos naturais. Voc no  a nica Pilar, embora pense que sim.  o que lhe parece agora, 
mas no . Outras mulheres abortam, seus bebs nascem mortos, outras perdem os filhos que conhecem e amam h anos. Este deve ser o maior sofrimento de todos - disse 
Marina, e Pilar comeou a chorar outra vez.
       - Sim, eu sei - admitiu ela. - E eu me sinto uma perfeita idiota. Sei que deve parecer ridculo, mas sinto como se tivesse perdido um filho que eu conhecia... 
uma criaturinha que eu j amava... e agora est morto e jamais o conhecerei.
       - No, mas pode ter outro filho. No vai mudar o que est sentindo agora, mas pode ajudar.
       - Acho que  a nica coisa que poder servir de consolo - disse Pilar, com sinceridade. - Eu quero engravidar outra vez. Assoou o nariz com um amontoado de 
lenos de papel e Marina sorriu.
       - Talvez voc consiga. - Marina no gostava de dar falsas esperanas e no sabia se aquilo seria possvel.
       - Certo. E talvez no consiga. O que acontecer ento?
       - Ento voc vai em frente. Tem de ir. Sua vida era tima antes, ser outra vez. Filhos no so tudo, voc sabe. - Mas naquele momento Marina lembrou-se de 
um incidente de alguns anos atrs. - Voc sabe, eu quase tinha esquecido. Minha me perdeu seu nono filho com dois meses de gravidez, ou talvez um pouco mais. Para 
quem tinha oito filhos, no devia ser uma coisa to trgica. Mas, quer saber? Parecia que ela tinha perdido o filho mais velho. Ela praticamente desmoronou e era 
como se tivesse ficado de luto por um longo tempo. Meu pai no sabia o que fazer. Ela no saa da cama e s chorava e os outros sete filhos ficaram completamente 
abandonados, a no ser quando eu estava por perto para impor um pouco de ordem e disciplina. Ela ficou deprimida durante meses at,  claro, engravidar outra vez. 
Teve mais dois filhos depois disso, mas at sua morte jamais deixou de lembrar aquele que perdeu, sempre com tristeza, dizendo o quanto sentia falta dele. Algumas 
amigas de minha me tinham perdido filhos, mas acho que o sofrimento dela foi maior e ela sempre falava sobre o beb que perdeu como se o tivesse conhecido.
       -  assim que eu me sinto - disse Pilar, encontrando finalmente algum que a compreendia. Sentiu uma intensa afinidade com a me de Marina e com o que ela 
sentira pelo beb perdido.
       - Deve ser um desses mistrios da vida, que ningum compreende, a no ser quem j passou por isso.
       - Talvez - murmurou Pilar, tristemente. -  a pior coisa que me aconteceu. - E era. Seu corao parecia se partir cada vez que pensava no beb e ela pensava 
nele a cada momento do dia.
       - Pense s na minha me. Como eu disse, ela teve mais dois depois daquele. Acho que deveria ter uns quarenta e sete anos quando teve o aborto.
       - Isso me d esperanas. - Marina era a primeira pessoa que trazia uma palavra encorajadora, uma ddiva do cu, como sempre, ao contrrio da me de Pilar 
a quem ela nem chegara a falar sobre o beb. Se ela soubesse, sem dvida iria lembrar a filha do seu aviso, que ela era velha demais. E agora era exatamente assim 
que Pilar estava se sentindo.
       Para desespero de Brad, Pilar ainda lamentou a perda do filho durante vrias semanas. Alice e Bruce estavam conduzindo os casos dela no escritrio, mudando 
datas de julgamentos e dizendo aos clientes que ela estava doente. Todos estavam preocupados.
       Nancy lhe fez uma visita, com inteno de anim-la, mas levou o pequeno Adam, o que piorou as coisas. Quando Brad chegou em casa, Pilar estava quase histrica 
e disse que nunca mais queria ver um beb, que no queria Adam na sua casa enquanto ele no crescesse mais um pouco.
       - Pilar, voc tem de parar - disse Brad, sofrendo por ela. - No pode fazer isso a voc mesma.
       - Porque no? - Ela no comia, no dormia. Perdera cinco quilos e parecia cinco anos mais velha.
       - No  saudvel. E no prximo ms vamos tentar outra vez. Vamos, meu amor. Precisa reagir. - Mas a verdade era que Pilar no podia. Desde o momento em que 
se levantava de manh, at a hora em que ia para a cama,  noite, era como se estivesse carregando um peso imenso no corao. Em certos momentos, nem queria continuar 
a viver.
       - Por favor... minha querida, por favor.
       Finalmente Brad a levou para um fim de semana em So Francisco, mas a sorte no foi generosa, pois Pilar ficou menstruada. A nica coisa que ele podia fazer 
para anim-la era lembrar que dentro de duas semanas voltariam ao consultrio da Dra. Ward com o injetor de temperos e os filmes pornogrficos.
       - Oh, meu Deus! - Pilar fez uma careta e riu, - No me faa lembrar disso.
       - Ento trate de aproveitar agora. - Durante toda a viagem ele a provocou, dizendo que iria lev-la  Broadway para comprar alguns "recursos conjugais" para 
a coleo da Dra. Ward.
       - Voc  um tarado, Bradford Coleman. Se soubessem como sua mente  suja, voc, um juiz, eles o expulsariam da ordem dos advogados. - Pilar sorriu, parecendo 
outra vez ela mesma, depois de vrias semanas.
       - timo. Assim posso ficar em casa e fazer amor com voc o dia inteiro.
       Mas nem isso parecia atra-la ultimamente. Pilar tentara explicar esse fato ao analista e a Brad. Para ela, o aborto foi a prova do seu fracasso como mulher.
       - Eu perdi o beb... Como se o tivesse deixado num nibus, em algum lugar, ou esquecido no parque... ou como se eu o tivesse devorado... Eu perdi o beb - 
dizia ela, com as lgrimas descendo pelo rosto, o que fazia dela um completo fracasso como me.
       Era difcil argumentar com ela. O que Pilar sentia no vinha da mente, mas do corao. Sua mente sabia que teria outra chance e Brad no se cansava de repetir 
que continuariam tentando. Mas o corao sabia apenas o que tinha perdido. O beb que ela queria tanto. E, cada vez que pensava nisso, a dor era imensa. 
       
* * *
       
       Diana procurou ser muito cautelosa quando voltou das frias com Andy. No queria forar a sorte. Tudo fora maravilhoso no Hava e eles voltaram renovados, 
no como eram antes, mas de certo modo at melhores. Porm, lembrando o caminho difcil que ainda trilhavam, no queria submeter-se a mais presso. Resolveu no 
ver a famlia por algum tempo para no ter de responder s suas perguntas. H quase dois meses no via Sam e no falava com ela, pois no podia enfrentar a realidade 
do beb que iria nascer. Para Diana, era doloroso demais. Para ambos, o principal agora era evitar mais sofrimento e Diana faria qualquer coisa para conseguir isso. 
Foi convidada, no trabalho, para dois chs-de-beb e declinou os convites. Combinou com Andy que, pelo menos por enquanto, no falariam sobre solues alternativas. 
Os dois estavam fazendo anlise, separadamente, o que ajudava muito.
       Seu trabalho ia bem e ela sentia prazer com ele outra vez. Gostava de conversar com Eloise, uma vez ou outra, mas a amizade tinha esfriado um pouco. Eloise 
estava pensando em mudar-se e Diana continuava completamente dedicada  tarefa de se salvar e ao seu casamento. Na primeira semana depois da viagem, o que ela mais 
gostava era voltar para casa  noite, ansiosa para ver Andy e estar com ele. Andy telefonava trs ou quatro vezes, do escritrio, s para dizer al e saber como 
Diana estava. Ela sentia-se mais perto dele do que de qualquer outra pessoa e levavam uma vida muito calma. Ainda no estava preparada para rever os amigos e Andy 
no insistia. Os amigos tambm no. H meses Bill e Denise no telefonavam nem apareciam. Finalmente Andy explicou para Bill que era muito doloroso para Diana estar 
com eles porque Denise estava grvida. Eles ainda jogavam tnis sempre que podiam, o que no era com muita freqncia. Ambos tinham outras responsabilidades agora.
       Diana nem verificava mais os recados deixados na secretria eletrnica quando chegava em casa. Ningum mais telefonava, a no ser sua me, de tempos em tempos, 
ou os irmos de Andy. Contudo, em meados de janeiro, quando chegou em casa mais cedo certo dia, ligou a secretria e ouviu os recados enquanto ligava o forno e comeava 
a preparar o jantar. 
       Sua me telefonara, e Diana ouviu o recado com um sorriso; depois havia uma mulher, vendedora de revistas, e trs recados para Andy - um de Bill sobre um 
campeonato de tnis no clube, um do irmo de Andy, Nick, e o ltimo de uma mulher. Com uma voz sensual ela dizia que o recado era para Andy e que ele saberia quem 
era. Terminava, com voz rouca e provocante: "...diga a ele para me telefonar". Deixou o nmero do telefone e o nome, Wanda Wililams. Diana ergueu uma sobrancelha 
e riu. Nem nos piores momentos daquele ano, ela suspeitara que Andy a estivesse enganando. Sabia que alguns homens, sob esse tipo de tenso, enganavam as mulheres, 
mas no Andy, certamente. Alm disso, ele no seria to idiota aponto de permitir que uma namorada deixasse recado no seu telefone. Diana no ficou preocupada, apenas 
achou graa e, durante o jantar, comentou com ele, de bom humor. Devia ser a atriz de algum show de cuja parte legal ele havia tratado.
       - Ento, quem  a mulher com voz sexy que telefonou para voc hoje?
       - O qu? - Andy franziu a testa e apanhou uma fatia de po, aparentemente distrado.
       - Voc ouviu. Quem  ela? - sorriu Diana. Gostava de provoc-lo e geralmente Andy aceitava bem a brincadeira, mas dessa vez no gostou.
       - O que quer dizer com isso?  amiga do meu irmo. Est passando uns dias na cidade e queria que eu a ajudasse a comprar um carro ou qualquer coisa assim.
       - Um carro? - Diana riu. - Essa  a maior bobagem que j ouvi.
       Deixe disso, Andrew... Quem  ela? Quem  Wanda Williams? - Ela imitou a voz da mulher, mas Andy no achou graa.
       - Eu no sei quem , est bem?  s um nome. Eu no a conheo.
       - Parece uma daquelas vozes desses servios do tipo Disque-Um-Encontro - disse Diana, imitando outra vez a voz sensual. - Telefone para mim...
       - Tudo bem, tudo bem, j ouvi. - A essa altura Andy j tinha devorado trs fatias de po e parecia nervoso, o que assustou Diana.
       - Ento, no vai telefonar para ela... para falar sobre o carro, quero dizer. - Diana o estava provocando e Andy comeava a ficar zangado.
       - Talvez. No sei.
       - Voc no vai telefonar. - Agora era Diana que no estava gostando. Havia alguma coisa que Andy no queria contar. - Andy, do que se trata?
       - Escute,  um assunto meu, certo? No tenho direito a um pouco de privacidade?
       - Tem. - Diana hesitou. - Talvez. Mas no com mulheres.
       - Eu no estou transando com ningum, est certo? Eu juro.
       - Ento, o que est fazendo? - perguntou ela, suavemente. No compreendia por que tanto segredo sobre aquela mulher. O que Andy estava escondendo?
       - Ela  amiga de um amigo meu. Conhece um dos advogados com quem trabalho e ele quer que eu converse com ela sobre um projeto. - No queria dizer que era 
uma antiga namorada de Bill Bennington.
       - Ento, por que mentiu dizendo que era amiga do seu irmo?
       - Escute, Diana, no faa isso, est bem? No me pressione.
       - Por qu, pelo amor de Deus? - Diana comeava a ficar desconfiada. Ser que Andy andava transando e ela no sabia? - O que voc est fazendo?
       - Escute, que diabo... - Andy tinha feito tudo para no contar, mas agora no tinha outro jeito. - Eu no queria falar disso agora. Queria conversar com ela 
primeiro e ver como ela .
       - Formidvel... o que  isto? Vocs tm um encontro romntico?
       - Ela teve um filho para um casal, no ano passado.  me de aluguel. E quer fazer isso outra vez. Eu pensei em verificar primeiro, falar com ela e depois 
perguntar o que voc pensa a respeito - disse ele, em voz baixa, preparando-se para a exploso de Diana.
       - O qu? Voc ia verificar uma Senhorita Barriga de Aluguel sem me dizer nada? O que vai fazer? Dormir com ela, se for preciso? Pelo amor de Deus, Andy, como 
foi capaz de pensar nisso?
       - Que diabo, eu ia s falar com ela! Se ns resolvssemos fazer alguma coisa, seria por inseminao artificial e voc sabe disso.
       - Por qu? Porque est fazendo isso? Pensei que tnhamos concordado em no falar no assunto por alguns meses.
       - Eu sei, mas apareceu essa oportunidade na semana passada e no  fcil encontrar uma mulher disposta a fazer isso. E quando voc estiver pronta para conversar, 
ela pode j estar tendo o filho de outra pessoa.
       - Quem  ela?
       - Uma atriz. Ela  contra o aborto, engravida com muita facilidade e acha que est fazendo um bem para as pessoas, oferecendo sua barriga.
       - Quanta bondade! E quanto ela cobra?
       - Vinte e cinco mil dlares.
       - E se ela ficar com a criana?
       - No poder. Fazemos um contrato muito rgido. E ela no criou nenhum problema para o outro casal, no ano passado. Eu falei pessoalmente com eles e esto 
felicssimos. O beb  uma menina e eles so loucos por ela. Meu amor, por favor... pelo menos deixe que eu fale com ela.
       - No. E se ela for viciada em drogas, se tiver alguma doena? Se no quiser entregara criana? Se ela... oh, meu Deus... no me pea para fazer isso... - 
Diana abaixou a cabea sobre a mesa e comeou a soluar. Queria gritar. Por que Andy a fazia passar por tudo aquilo outra vez? Acabavam de dar o primeiro passo de 
volta ao seu casamento e ela no estava preparada ainda para coisa alguma.
       - Benzinho, foi voc quem disse que queria um filho meu. Achei que isto seria melhor do que a adoo, pelo menos o beb ser metade nosso. Voc no quis nem 
ouvir falar num transplante de vulo quando o mdico mencionou esse processo e esta parece uma alternativa vivel.
       - Do que estamos falando, pelo amor de Deus? De uma experincia cientfica? - Diana olhou para ele com dio. - Eu te odeio, Andrew Douglas. Como se atreve 
a me fazer passar por isso?
       - Eu tambm tenho o direito de ter um filho. Ns dois temos. E sei o quanto voc quer.
       - No desse modo. J imaginou como vou viver at tudo terminar? E no quero seu esperma em outra mulher. E se ela se apaixonar por voc e pelo beb?
       - Di, ela  casada.
       - Ora, tenha a santa pacincia. Vocs esto todos loucos. Voc, ela e o marido dela.
       - E voc  a nica s, no ? - perguntou ele, zangado.
       - Talvez.
       - Pois fique sabendo, menina, que no parece. - Diana estava descontrolada, prestes a explodir. - Escute, vou falar com ela nesta semana. S isso. Quero saber 
quais os termos do contrato, como ela , o que aconteceria se fizssemos o acordo. Quero saber quais as nossas opes, se quisermos fazer isso agora, ou em qualquer 
outra ocasio. E Diana, quero que voc v comigo.
       - No quero ter nada a ver com isso, no posso. Vai me acabar levando  loucura. - Ela estava apenas comeando a se recuperar. No queria correr o risco de 
mergulhar outra vez na depresso.
       - Acho que voc  mais forte do que pensa - disse ele, calmamente.
       Andy queria fazer aquilo. Tinha pensado muito no assunto nos ltimos meses. E queria um filho. Queria Diana, mas uma famlia tambm, e se pudesse ter um filho 
que fosse seu, melhor ainda.
       - Pois eu acho que voc  um filho da puta! - gritou Diana e foi se trancar no banheiro.
       Quando ela saiu, Andy j havia telefonado para Wanda Williams e marcado um encontro para o dia seguinte, no Ivy. Parecia um lugar estranho, mas foi o que 
Wanda escolheu.
       - Voc vai comigo? - perguntou Andy, na manh seguinte. Diana abanou a cabea.
       Antes de sair, ele voltou a insistir e Diana ficou calada. No escritrio, Bill perguntou como tudo havia transcorrido e Andy, muito tenso, disse que Diana 
tinha ficado furiosa e ele no sabia se ela iria encontrar Wanda Williams. Bill, saindo para uma reunio importante, desejou boa sorte para os dois.
       No escritrio, na hora do almoo, Diana, pensativa, tentava imaginar como seria aquela mulher. Finalmente, chamou um txi e foi para o Ivy. Chegou com meia 
hora de atraso, mas Andy, Wanda Williams e o marido ainda estavam conversando numa mesa no canto. Surpreso ao v-la entrar, Andy apresentou-a aos Williams, John 
e Wanda. Pareciam pessoas sensatas e estavam discretamente vestidos. Wanda era bonitinha, falava muito em fazer alguma coisa "significativa" para outras pessoas 
e John parecia no 
       dar muita importncia a coisa alguma. Nas palavras dele, "dinheiro  dinheiro". Eles pagariam a assistncia mdica, algumas peas de roupa e cobririam dois 
meses do salrio de Wanda, visto que ela no poderia trabalhar naquele perodo. E seus "honorrios", segundo as palavras dela, seriam de 25 mil dlares. Assinaria 
um contrato concordando em no fazer uso de lcool ou drogas, no correr riscos desnecessrios durante a gravidez e entregar o beb a eles no hospital, logo depois 
do parto, sem nenhum problema.
       - E se voc resolver ficar com ele? - perguntou Diana, secamente. Ela havia pedido apenas uma xcara de caf.
       - Isso no vai acontecer - garantiu Wanda, acrescentando alguma coisa sobre no violar o prprio carma. O marido explicou que ela era muito ligada a religies 
orientais.
       - Ela no se interessa muito por crianas. Nunca pensou em ficar com o outro beb.
       - E voc? - quis saber Diana. - O que sente sabendo que sua mulher est grvida de outro homem?
       - Acho que ele no faria isso se no precisasse. - Olhou para ela e Diana sentiu o golpe direto no corao, mas continuou impassvel. - Eu no sei, acho que 
 assunto dela.  o que ela quer fazer. - Diana teve uma vaga impresso de que os dois eram loucos, mas sem nenhum sinal visvel. O caso era que todo o projeto parecia 
horrvel.
       Nada ficou resolvido e Andy disse que telefonaria dentro de alguns dias, depois de discutir o assunto com Diana.
       - Tenho outro candidato em vista - explicou Wanda. - Vou me encontrar com ele amanh.
       - Ela s faz isso para pessoas de quem gosta - acrescentou John e lanou um olhar acusador para Diana. Evidentemente ela no estava sendo muito "agradvel" 
e podia estar pondo em perigo todo o projeto.
       S de pensar que estava sendo "entrevistada" por aqueles dois malucos, Diana sentiu vontade de gritar. Os Williams saram do restaurante antes dos Douglas.
       - Como pde fazer isto conosco? - Diana perguntou.
       - Por que voc foi to agressiva, perguntando o que ele sentiria sabendo que a mulher estava grvida de outro homem? Eles podem nos rejeitar por causa disso, 
Diana.
       - Oh! - Diana recostou-se na cadeira e revirou os olhos, furiosa.
       - Eu no acredito. Ela ali sentada falando sobre seu carma e voc querendo que tenha um filho seu. Acho isso tudo absurdo. E o marido tambm.
       - Vou telefonar para o Dr. Johnston e perguntar como a coisa  feita.
       - Quem que fique bem claro que no pretendo tomar parte em nada disso - avisou Diana.
       - Problema seu. No estou pedindo nem um centavo a voc.
       Diana sabia que Andy precisaria pedir dinheiro emprestado aos pais e imaginou como ele iria explicar aquilo tudo.
       - Acho que voc est doente. E acho que  pattico o que pessoas como ns chegam a fazer para ter um filho.
       Mas havia outra soluo muito mais simples e Diana compreendeu que devia ter pensado nisso antes. Levantou-se, olhou para ele, balanou a cabea, saiu do 
restaurante e tomou um txi. Quando Andy saiu, depois de pagar a conta, Diana j havia partido. E quando chegou em casa  noite, tudo que pertencia a ela tinha desaparecido. 
E ela tambm. Para sempre. Encontrou um bilhete na mesa da cozinha.
       "Querido Andy... Eu devia ter feito isto meses atrs. Tudo parece to idiota agora. Voc no precisa dessa me de aluguel. Precisa de uma esposa... de verdade... 
que possa ter filhos. Boa sorte. Eu te amo. Meu advogado vai telefonar para voc. Amor, Diana." 
       Andy ficou imvel, apavorado, olhando para o papel azul, sem acreditar  que Diana tivesse feito aquilo. Mais tarde, telefonou para a casa dos pais dela e 
depois de uma conversa casual ficou convencido de que Diana no estava com eles. A me de Diana imediatamente desconfiou de que alguma coisa estava errada, mas no 
fez nenhuma pergunta. No viam Diana desde o incidente do Dia de Ao de Graas, embora telefonassem regularmente para ela e no ltimo fim de semana ela havia conversado 
longamente com o pai.
       Diana fora para um hotel e, no fim de semana, alugou uma casa. No adiantava continuar se enganando. Era loucura. O almoo no Ivy revelou tudo que precisava 
saber, o quanto estavam desesperados, como tudo era irracional, idiota. Era ridculo para Andy pensar em contratar aquela me de aluguel. Que diabo ele estava fazendo?
       Andy telefonava todos os dias para o escritrio de Diana, mas ela no atendia e, quando ele foi at l, ela no quis v-lo. Era o fim do sonho e do pesadelo. 
Para Diana e Andy, estava tudo acabado.




CAPTULO  - 13 -


 T
udo bem disse Pilar, com um sorriso hesitante - l vamos ns outra vez. - Ligou o vdeo e duas mulheres comearam a lamber os genitais uma da outra. Brad olhou para 
ela com um sorriso embaraado, sentindo-se um perfeito idiota.
       - Acho que voc no escolheu muito bem os filmes.
       - Ora, cale a boca - riu ela.
       Pilar estava se esforando para manter o esprito esportivo, mas a Dra. Ward havia dito que s vezes a gravidez s era conseguida depois de dez ou doze tentativas 
e, mesmo assim, existia a possibilidade de outro aborto natural. Dessa vez iriam usar supositrios de progesterona durante trs meses, se ela ficasse grvida. Mas 
sem nenhuma garantia. E a cada minuto de cada dia, Pilar ficava mais velha.
       Lentamente ela tirou toda a roupa de Brad, enquanto ele assistia ao filme, depois se despiu, acariciando gentilmente o membro ereto do marido e em pouco tempo 
conseguiram o smen desejado. A enfermeira levou o frasco e Pilar disse, sorrindo:
       - Acho que vou comprar esse filme para vermos em casa. Parece que voc gostou.
       No haviam escolhido o caminho mais fcil. A inseminao artificial foi feita outra vez sem incidentes e a Dra. Ward novamente avisou que talvez no "pegasse" 
na primeira tentativa. Pilar voltou a tomar clomifeno, o que a deixava extremamente nervosa e deprimida. Eram tempos difceis e Pilar perguntava-se se algum dia 
se recobraria do golpe do aborto. Era s no que pensava e, quando a dor comeava a diminuir, alguma coisa inesperada a trazia de volta - uma mulher com o filho nos 
braos ou grvida,roupas de criana numa vitrine, amigos que no sabiam do aborto e a congratulavam pela gravidez. Agora Pilar compreendia que fora tolice anunciar 
to cedo sua gravidez. Levaria meses para dizer a todos que no estava mais grvida. E, quando contava, uns diziam que sentiam muito, outros faziam perguntas incrivelmente 
dolorosas, como se ela chegara a saber se era menino ou menina, ou que tamanho tinha a criana quando a perdeu.
       Naquele dia Brad a levou para fazer compras e ficaram no Beverly Wilshire Hotel. Era bom estar com ele e Brad procurou fazer do passeio uma ocasio festiva. 
Era vspera do Dia dos Namorados e quando chegaram ao hotel Pilar encontrou duas dzias de rosas vermelhas, encomendadas pelo marido. "Para meu amor, sempre, Brad", 
dizia o carto e Pilar chorou, comovida. Ela comeava a pensar se no era tolice querer mais do que tinha; talvez fosse errado, talvez fosse querer demais. Provavelmente 
sua antiga atitude era a coisa certa. Ter um filho no era to importante. Era difcil desistir do sonho agora, mas Pilar estava quase convencida de ter cometido 
um erro. Talvez fosse uma coisa que no tinha de ser e ela devesse desistir da idia. Naquela noite disse a Brad que estava explorando os prprios pensamentos sobre 
o assunto.
       - Por que no esperamos um tempo para ver o que acontece? Se achar que isso a est fazendo infeliz, paramos. Voc resolve.
       - Voc  to bom para mim - disse Pilar abraando-o, ainda sofrendo, mas grata com a presena dele.
       Alugaram um filme ertico, ao qual assistiram entre risadas, comendo os bombons fornecidos pelo hotel.
       - Sabe de uma coisa? Isso pode vir a se tornar um hbito - disse Brad, sorrindo.
       - Os chocolates? - perguntou Pilar, com inocncia fingida.
       - No, os filmes! - respondeu ele, com uma risada.
       Fizeram amor quando o filme terminou e dormiram abraados, ainda sem as respostas. 
       
* * *
       
       No Dia dos Namorados, Charlie comprou flores para uma mulher do escritrio que o ajudava a fazer os relatrios. Ela era enorme e tinha um grande corao. 
Charlie comprou cravos cor-de-rosa e vermelhos e ela o abraou chorando, comovida. Charlie era to bom e, pobrezinho, ela sabia que ele estava se divorciando e s 
vezes parecia to solitrio.
       Na hora do almoo Charlie comprou um sanduche e foi para o Palms Park, perto de Westwood Village, onde podia ver as pessoas que passavam, os namorados se 
beijando e as crianas brincando. Gostava de ir ao parque s para ver as crianas.
       Notou uma menina com longas tranas louras, grandes olhos azuis e um belo sorriso, brincando com a me. Elas brincaram de pique, trs-marias, amarelinha e 
de pular corda. A me era quase to bonita quanto a filha, magra e pequenina, com cabelos louros longos e lisos, olhos grandes e azuis; parecia ela mesma uma menina.
       Comearam a brincar de apanhar a bola com luva de beisebol e nenhuma das duas sabia atirar ou apanhar a bola. Muito depois de terminar o sanduche, Charlie 
estava ainda observando as duas e rindo. De repente, a bola mal atirada o atingiu. Ele a devolveu e me e filha agradeceram, a menina com um largo sorriso, sem nenhum 
dente na frente.
       - Meu Deus, quem arrancou todos os seus dentes? - Charlie perguntou.
       - A fada dos dentes. E me deu um dlar por cada um. Ganhei oito dlares - disse ela, sempre sorrindo.
       -  um bocado de dinheiro. - Charlie parecia realmente impressionado e a me da menina sorriu para ele. Charlie disse que, a no ser pelos dentes, as duas 
eram iguaiszinhas e ela riu.
       - Sim, acho que tive sorte de a fada dos dentes no arrancar os meus tambm. Teria custado muito mais.
       Na verdade, ela teve sorte de o marido no ter feito isso antes de abandon-la. Mas no disse nada a Charlie.
       - Vou comprar um presente para minha me com o dinheiro - informou a menina e depois perguntou se ele no queria brincar com elas.
       Charlie hesitou, mas s por um momento. No queria impor sua presena.
       - Tudo bem. Mas eu tambm no sou muito bom para jogar a bola. A propsito, meu nome  Charlie.
       - Eu sou Annabelle - disse a menina -, mas todos me chamam de Annie.
       - Eu sou Beth - disse a me, olhando atentamente para Charlie. Parecia cautelosa, mas amigvel.
       Jogaram por algum tempo, depois brincaram de amarelinha e Charlie voltou com relutncia ao escritrio para vender tecidos.
       - A gente se v qualquer dia - disse ele, sabendo que provavelmente isso no aconteceria, no pediu o nmero do telefone, nem o sobrenome das duas. Gostou 
delas, mas no pretendia andar atrs de uma mulher desconhecida. Desde que Barbie o deixou no tinha sado com mulher alguma e, alm disso, aquela provavelmente 
era casada. Mas era muito interessante.
       - At logo, Charlie. - Annie acenou, quando ele saiu do parque.
       - Feliz Dia dos Namorados!
       - Obrigado - gritou ele e afastou-se, sentindo-se bem. Alguma coisa nas duas iluminou todo o seu dia. 
       
* * *
       
       S depois de um ms Andy descobriu onde ela estava morando. E a princpio no sabia o que fazer com essa informao. O advogado de Diana disse claramente 
que para a Sra. Douglas era o fim do casamento. Foram dezoito meses e muitas lgrimas e ela no queria nem ver Andy. Desejava o melhor para ele, mas deixou bem claro 
que tudo estava acabado. Depois disso, Andy telefonou para o escritrio vrias vezes, mas Diana no atendeu. E ele no conseguia esquecer aquele almoo idiota com 
a me de aluguel e o marido. Foi quando tudo terminou. Que fim pattico para um casamento. O casal era ridculo... os "caadores de esperma"... procurando bebs 
desesperadamente. Andy no queria mais saber de ter filhos. Tudo que desejava na vida era Diana. E ento, por acaso, encontrou Seamus e Sam e eles disseram onde 
ela estava morando. Tinha alugado uma pequena casa antiga em Malibu, com fundos para a praia. Fora um dos primeiros lugares onde procuraram uma casa, antes do casamento. 
Andy sabia o quanto Diana amava o mar. Conseguiu o endereo com Seamus e Sam com a desculpa de que queria entregar algumas coisas de Diana. E eles disseram o quanto 
sentiam o que acontecera.
       - Foi muita idiotice e falta de sorte - Andy explicou, tristemente. - Ela teve a falta de sorte e eu fui o idiota.
       - Talvez Diana pense melhor - disse Sam. Parecia que ela teria o filho a qualquer minuto. Na verdade, estavam a caminho do mdico para um exame geral. 
       Por um momento Andy os invejou, mas depois lembrou que essa no era uma opo. Andy pensou durante dois dias sobre o que poderia fazer com a informao conseguida. 
Se aparecesse de surpresa, Diana no o deixaria entrar. Ele poderia ficar na praia esperando que ela sasse para tomar ar, mas e se no sasse? Ento, no Dia dos 
Namorados decidiu-se. Comprou uma dzia de rosas vermelhas e foi para Malibu, rezando para que Diana estivesse em casa, mas ela no estava. Deixou as rosas nos degraus 
da entrada, com um carto que dizia apenas: "Eu te amo. Dy." Quando ia voltando para o carro, Diana chegou. Mas no saiu do carro quando o viu. Andy foi falar com 
ela e, com relutncia, Diana abaixou o vidro. Ela estava mais magra e mais bonita do que nunca, muito elegante e muito sexy com um vestido negro. Saiu do carro e 
ficou parada, como se precisasse de proteo.
       - Por que voc veio? - Viu as flores no degrau, mas no sabia se eram dele. Se eram de Andy, ela no queria. Estava farta de se torturar e esperava que ele 
tambm estivesse. Precisavam desistir agora.
       - Eu queria ver voc - disse ele, tristemente, fazendo lembrar o homem com quem Diana tinha casado, mas muito melhor. Andy era bonito, jovem, louro, tinha 
34 anos e ainda a amava.
       - Meu advogado no disse o que eu resolvi?
       - Disse. Mas eu nunca dou ouvidos a advogados - respondeu Andy com um largo sorriso e Diana tambm sorriu contra a vontade. - Na verdade, eu nunca dou ouvidos 
a ningum. Acho que voc sabe disso.
       - Talvez deva dar, uma vez ou outra. Pode ser muito bom para voc. Evita muita dor de cabea.
       -  mesmo? Como? - disse Andy, com fingida inocncia, feliz demais por estar ao lado dela. Queria que ela continuasse a falar. Mesmo com a brisa do mar, sentia 
o perfume de Diana, Calche, de Herms, de que ele tanto gostava.
       - Podia impedir que voc continuasse batendo com a cabea nas paredes, para comear. - Diana dizia a si mesma que a presena de Andy no a afetava de modo 
algum. Esse era o teste, estar perto dele e no sentir nada.
       - Gosto de bater com a cabea na parede - disse Andy.
       - Pois no devia. No adianta mais, Andy.
       - Eu trouxe flores. - Andy no sabia mais o que dizer e no queria ir embora.
       - Tambm no devia ter feito isso. Tem de parar agora, Andy. Dentro de cinco meses estar livre, com toda uma vida  sua frente.
       - No quero nada disso.
       - Ns dois queremos.
       - No me diga o que eu quero - replicou ele, irritado. - Que diabo, eu quero voc!  isso que eu quero. No quero nenhuma droga de me de aluguel idiota. 
Eu nem acredito quando penso em toda essa besteira... Eu nem mesmo quero um filho. Nunca mais quero ouvir essa palavra. Tudo que quero  voc... Di... Por favor, 
d-nos outra chance... por favor... eu a amo tanto... - Queria dizer que no podia viver sem ela, mas as lgrimas na sua garganta o impediram.
       - Eu tambm no quero um filho. - Diana estava mentindo, os dois sabiam. Se algum com uma varinha de condo pudesse fazer com que ela engravidasse naquele 
momento, ela agarraria a oportunidade com unhas e dentes. Mas no podia mais pensar nisso. - No quero ser casada. No tenho esse direito - disse ela, tentando ser 
convincente. Estava quase acreditando nisso.
       - Por qu? Porque no pode ter filhos? E da? No seja tola. Pensa que s as pessoas frteis podem casar?  a maior besteira que j ouvi.
       - Devem casar com pessoas iguais a elas, assim ningum sofre.
       - Uma grande idia! Por que no pensei nisso? Ora, pelo amor de Deus, Diana, trate de crescer. Tivemos pouca sorte, mas no  o fim do mundo. Podemos ainda 
salvar nosso casamento.
       - Ns no tivemos pouca sorte - corrigiu ela. - Eu tive.
       -  e eu sa por a, entrevistando atrizes budistas malucas para me de aluguel. Tudo bem, ns dois ficamos um pouco loucos. E da? Foi duro. Na verdade, 
foi brutal espero nunca mais passar por uma coisa to difcil. Mas isso tudo j acabou. Agora temos o resto da vida para viver. No pode desistir s porque perdemos 
a razo por alguns momentos.
       - No quero mais esse tipo de loucura - disse ela, com sinceridade. - H uma poro de coisas que no quero mais fazer para mim mesma, coisas que eu pensava 
que "tinha de fazer". No vou mais a chs-de-beb, batismos, nem visito crianas recm-nascidas. Sam teve o beb ontem e eu telefonei dizendo que no iria visit-la. 
E quer saber de uma coisa? Est tudo bem. Esse  o segredo da minha sobrevivncia hoje. Talvez um dia eu possa voltara fazer essas coisas; se no puder, vai ser 
duro, mas  como vai ser. No quero mais me sentir pouco  vontade, nem sofrer, nem estar casada com algum que devia estar tendo filhos e no tem porque sou sua 
mulher e sou estril. E no vou me meter com mes de aluguel nem com doadores de vulos. Que se dane toda essa droga, Andy. No vou fazer nada disso. Vou apenas 
viver a minha vida. Tenho o meu trabalho. Existem outras coisas na vida alm de casamento e filhos.
       Andy olhou pensativamente para ela. Uma parte do que ela acabava de dizer fazia sentido, outra no. E o trabalho no era um substituto adequado para filhos 
e marido.
       - Voc no merece ficar sozinha pelo resto da vida. No precisa ser punida, Di. Voc no "fez" nada. Isso aconteceu com voc. J  bastante duro. No piore 
as coisas condenando-se  solido. - Os olhos de Andy encheram-se de lgrimas.
       - Por que pensa que me condenei  solido? - perguntou ela, irritada.
       - Porque est roendo as unhas. Nunca faz isso quando est feliz.
       - Ora, v para o inferno! - Diana sorriu, apesar de tudo. - Tenho muitas preocupaes no trabalho.
       Conversavam h uma hora e ele ainda estava de p ao lado do carro dela. No iria fazer mal se o convidasse para entrar. Tinham estado casados por dezoito 
meses, viveram juntos durante muito tempo antes disso. Sem dvida podia convidar Andy por alguns minutos. Andy ficou surpreso com o convite e aceitou. Diana agradeceu 
as rosas e as ps num vaso.
       - Quer beber alguma coisa?
       - No, obrigado. Sabe o que eu queria de verdade?
       Quase com medo da resposta, Diana perguntou: - O qu?
       - Andar na praia com voc. O que acha?
       Diana concordou, trocou de sapato, vestiu uma jaqueta mais quente e emprestou a Andy um velho suter dele, que ela levara.
       - Eu estava imaginando onde isso tinha ido parar - sorriu Andy. O suter era um velho amigo. - Voc me deu quando estvamos namorando. Eu era muito mais esperto 
do que sou agora.
       - Talvez ns dois fssemos - admitiu ela.
       Desceram os degraus da varanda para a qual se abria a sala de estar e encaminharam-se para a praia que os dois amavam. Andy perguntou a si mesmo por que no 
tinham insistido mais em procurar uma casa em Malibu. A praia era to bonita e repousante. Era to simples e to perto da natureza.
       Caminharam em silncio por um longo tempo, olhando para o mar e sentindo o vento no rosto. Ento, Andy segurou a mo dela e continuaram a andar. Depois de 
um tempo, Diana olhou para ele, como tentando lembrar quem ele era. Mas era fcil lembrar agora, caminhando ao lado dele. Era o homem que ela havia amado tanto... 
que a fizera to feliz... antes de tudo desmoronar.
       - Foi duro, no foi? - disse Andy, quando sentaram-se encostados numa duna, longe da casa.
       - Sim, foi. E voc tinha razo... Estou muito s... mas estou descobrindo coisas a meu respeito que jamais imaginei. Sempre fui to obcecada por ter filhos 
que nunca parei para pensar quem eu era e o que eu queria.
       - E o que voc quer, Di?
       - Quero uma vida completa, um casamento de verdade, com uma pessoa completa, que no dependa de filhos para manter o casamento feliz. Eu ainda desejo ter 
filhos, mas no estou to certa de que no poderei sobreviver sem eles. Talvez essa seja a lio que eu precisava aprender com tudo isso, eu no sei. No cheguei 
a uma concluso definitiva. 
       - Mas tinha percorrido um longo caminho depois que o deixara. - Eu sempre tive uma idia muito confusa sobre minhas irms, minha me e eu mesma. Nunca soube 
dizer se eu era diferente ou no. Elas sempre dizem que sou diferente de todos, mas no tenho certeza. Sempre tive os mesmos interesses: famlia e filhos. Mas tenho 
outras motivaes tambm e  nisso que sou diferente. Sempre trabalhei mais do que elas, eu precisava ser "a melhor". Talvez seja exatamente essa parte que me faz 
sofrer tanto. Eu fracassei. No venci. No consegui o que queria. - Era uma avaliao franca e Andy admirou a sinceridade dela.
       - Voc  uma pessoa muito especial - disse ele. - Voc no fracassou. Fez o melhor possvel e  isso que importa.
       Diana concordou com um gesto, tentando acreditar que era verdade. E s com muito esforo Andy no a tomou nos braos. A despeito de todas as promessas de 
se comportar, ele se inclinou e a beijou. Diana no o repeliu e seus olhos se encheram de lgrimas.
       - Quer saber, eu ainda o amo - ela murmurou no vento. - Isso jamais vai mudar. S achei que no era bom para ns continuarmos juntos. - Ento de repente ela 
riu, lembrando-se de Wanda. - Wanda era uma piada, no era? Mas, naquela altura, meu senso de humor j no existia. S depois de alguns dias comecei a pensar como 
foi tudo to engraado, to ridculo. Tive vontade de telefonar para voc.
       - Gostaria que tivesse feito isso. - No seu desespero, Andy teria ficado feliz. -  claro que voc estragou tudo. Wanda escolheu o outro cara. O marido disse 
que ela no se sentiu bem com o seu carma.
       - Que timo! Espero que ela tenha qudruplos. Por que as pessoas fazem coisas como essa? - perguntou Diana, olhando para o mar. Havia uma nvoa cinzenta no 
horizonte e o sol estava se pondo lentamente.
       - Voc se refere a procurar mes de aluguel? Porque ficam desesperadas, exatamente como ns. E no caso de Wanda, acho que ela se v como a prpria Madre Teresa.
       - Acho que o dinheiro tem um papel importante. Mas  uma coisa doentia, porque os compradores esto desesperados e os vendedores sabem disso.
       - Acho que essa  a histria da vida. Ainda bem que seu carma estava em baixa naquele almoo. Teria sido um desastre.
       - Creio que eu estava meio louca, ou talvez completamente. - Mas parecia muito s agora e muito calma e Andy nunca a amou tanto quanto naquele momento.
       Voltaram para a casa e conversaram durante horas, finalmente sobre outros assuntos que no infertilidade e filhos. Tinha de haver outras coisas em suas vidas. 
Mas a experincia fora extenuante. Durante todo o tempo em que estiveram casados. Nem pensaram em jantar e, quando Andy se levantou para sair, viram com surpresa 
que j era meia-noite.
       - Gostaria de sair amanh  noite? - perguntou ele, morrendo de medo que ela ficasse zangada, mas Diana fez um gesto afirmativo.
       - Sim, eu gostaria.
       - Que tal o Chianti? - Tratava-se de um restaurante italiano muito simples, em Melrose, com comida excelente, que os dois gostavam muito. - E talvez um cinema.
       - Sim, seria bom.
       Andy a beijou outra vez e ao se despedirem os dois sentiram-se muito jovens. Diana acenou quando o carro dele partiu, depois foi para a varanda e ficou olhando 
o mar por um longo tempo.




CAPTULO  - 14 -
       

 C
harlie voltou vrias vezes ao Palms Park, esperando encontrar Annabelle e Beth, e as encontrou. Conversavam e jogavam bola, mas ele nunca teve coragem de pedir o 
telefone a Beth. No sabia se ela era casada; apesar de no usar aliana, ela nunca disse que era divorciada. Charlie gostava de ver as duas e Annie era adorvel, 
sem dentes na frente e com tanta vivacidade. E era sempre agradvel conversar com Beth. Era bom ver as duas, como uma famlia, felizes juntas. Na terceira vez em 
que se encontraram, em maro, pareciam velhos amigos e foi quando Beth comeou a falar mais abertamente com ele. Contou que Annabelle estava no jardim de infncia 
e que ela trabalhava no Centro Mdico da Universidade de Los Angeles como assistente de enfermagem. Ela queria ser enfermeira, mas no pudera terminar o curso. Conheciam-se 
h poucas semanas, mas Charlie sentia-se perfeitamente  vontade ao lado dela, sentados no banco, vendo Annabelle brincar de amarelinha. Quando chegou no parque, 
Charlie comprou um pirulito para o caso de encontrar as duas. Agora, ele levava seu almoo para comer no parque quase todos os dias.
       - Eu estou resfriada - anunciou Annie, aproximando-se do banco, mas parecia muito bem-disposta. Logo foi para o balano, deixando-os sozinhos.
       - Ela  maravilhosa. - disse Charlie.
       - Eu sei.  uma boa menina. - Voltou-se para ele com um sorriso tmido. - Obrigada por ser to bom para ela... as balas, os chicletes, os pirulitos. Voc 
deve gostar de crianas.
       - Gosto sim.
       - Tem filhos?
       - Eu... no... ainda no... - E ento Charlie percebeu o que acabava de dizer e corrigiu-se. - No, no tenho. E provavelmente jamais terei, mas isso  uma 
longa histria.
       Beth pensou que talvez a mulher dele no pudesse ter filhos, ou talvez ele nem fosse casado, mas no teve coragem de perguntar e Charlie tambm no explicou.
       - Algum dia, vou adotar algumas crianas. Fui rfo e sei o que significa precisar de uma famlia e no ter. - No falou dos vrios lares adotivos em que 
tinha estado, nem de quantos o rejeitaram por causa das alergias e da asma. A melhor famlia que conheceu tinha um gato e ele no podia morar com eles. Disseram 
que iriam sentir muito se tivessem de se desfazer do animal. Ento, desfizeram-se de Charlie. -  duro para uma criana... Eu gostaria de mudar isso para algum, 
antes que seja tarde demais - disse Charlie, com um sorriso.
       Ultimamente andava at pensando em adotar uma criana como pai solteiro. Sabia que isso era relativamente comum e, quando tivesse economizado mais um pouco 
de dinheiro, iria verificar as condies. Enquanto isso, tinha os garotos da Liga Infantil de beisebol com quem jogava todos os fins de semana.
       - Isso  uma coisa muito boa - sorriu Beth. - Eu tambm fui rf. Meus pais morreram quando eu tinha doze anos. Fui criada por uma tia e aos dezesseis anos 
fugi para me casar. Foi a maior tolice que eu pude fazer. Casei com um homem que bebia, me enganava, mentia e me espancava. No sei por que fiquei com ele, mas quando 
resolvi deix-lo estava grvida. Tive Annie com dezoito anos. 
       Isso queria dizer que Beth tinha 24 anos, mas parecia muito mais amadurecida do que as outras jovens da sua idade e sem dvida era uma boa me.
       - O que aconteceu? Como se livrou dele? - A idia de que algum pudesse bater numa mulher o horrorizava, especialmente numa mulher to doce quanto Beth.
       - Ele me abandonou e nunca mais apareceu. Acho que tinha outra mulher e seis meses mais tarde morreu numa briga de bar. Annie estava com um ano e voltei para 
c. Trabalho  noite no hospital, assim posso passar o dia com ela. Uma vizinha toma conta dela  noite, para que eu no precise pagar uma baby-sitter.
       - Parece um bom arranjo.
       - Funciona bem para ns. Pretendo voltar a estudar enfermagem.
       Charlie teve vontade de fazer qualquer coisa para ajud-la.
       - Onde voc mora? - De repente ele queria saber mais.
       - A alguns quarteires daqui, em Montana. - Deu o endereo e Charlie fez um gesto afirmativo. Era um bairro pobre de Santa Monica, mas respeitvel e provavelmente 
seguro.
       - Gostaria de jantar um dia destes? - perguntou ele, depois de observar Annie no balano por alguns minutos. - Pode levar Annabelle. Ela gosta de pizza?
       - Adora.
       - Que tal amanh  noite?
       - timo. S preciso estar no hospital s onze. Saio de casa mais ou menos s dez horas e volto s sete e meia da manh, com tempo para preparar o caf e mand-la 
para a escola. Durmo algumas horas e depois a apanho no jardim de infncia. Funciona muito bem.
       Tinham criado uma rotina que, como ela dizia, funcionava, mas Charlie tinha pena de Beth, com tanta responsabilidade e ningum para ajud-la.
       - Parece que no sobra muito tempo para voc dormir - observou ele.
       - No preciso. Estou acostumada. Mais ou menos trs horas de manh, enquanto Annie est na escola, e um cochilo quando ela vai para a cama,  noite, antes 
de eu sair para o trabalho.
       - Tambm no sobra muito tempo para o lazer - comentou Charlie.
       Annie correu para ele. Parecia estar melhor. Beth lhe disse que estavam convidadas para comer pizza.
       - Com Charlie? - perguntou ela, surpresa e feliz, e a me fez um gesto afirmativo, satisfeita tambm.
       Beth era jovem e bonita e h muito tempo no tinha espao para um homem em sua vida. Mas os encontros com Charlie a fazia sentir-se diferente.
       - Uau! Podemos tomar sorvete tambm? - perguntou Annie e Charlie riu.
       -  claro. - Charlie ficava feliz s de estar com elas. Annabelle voltou para o balano. Olhando para ela, voltou a sentir vontade de ter um filho seu, mas 
de certa forma compreendeu que no precisava ser assim. Outras crianas no mundo cruzariam seu caminho e aqueceriam seu corao, como Annabelle, por exemplo. E ultimamente 
ele comeava a sentir o prazer da liberdade. Mark dissera que isso iria acontecer e Charlie via agora que o amigo estava com a razo. Olhou para Annabelle e depois 
ele e Beth trocaram um sorriso, ambos pensando no futuro. 
       
* * *

       Dessa vez Pilar no teve coragem de fazer o teste de gravidez no primeiro momento em que a menstruao atrasou. Tinha medo que fosse negativo. Provavelmente 
seu corpo ainda no estava preparado, depois do aborto. A mdica avisara que as probabilidades de engravidar na primeira tentativa eram muito pequenas. Por isso 
ela esperou. E esperou. E, depois de uma semana, Brad ameaou fazer o teste se ela mesma no fizesse.
       - Eu no quero saber - disse Pilar.
       - Pois eu quero.
       - Tenho certeza de que no estou grvida.
       Mas Brad no tinha. Ela estava sempre cansada e com os seios maiores e mais sensveis. E havia algo diferente nela.
       - Faa o teste! - insistiu ele.
       Mas Pilar disse que no queria passar por tudo aquilo outra vez e queria parar como clomifeno. No o tomava desde a ltima menstruao e no queria recomear 
se no estivesse grvida. Comeava a achar que a tenso provocada pelo remdio era extremamente destrutiva.
       Finalmente, Brad telefonou para o Dr. Parker e os dois concordaram que ela estava com medo. O mdico pediu a Brad para lev-la ao consultrio. Assim que a 
examinou, ele teve quase certeza de que Pilar estava grvida, O teste de urina foi positivo. Pilar definitivamente estava esperando outro beb.
       Ela ficou atordoada de alegria e Brad, encantado. Depois do que ela havia passado, ele queria realmente que Pilar tivesse um filho. O Dr. Parker receitou-lhe 
supositrio de progesterona, para manter bem alto o nvel desse hormnio e sustentar a gravidez; o resto ficava nas mos da natureza. O mdico avisou que ela poderia 
ter outro aborto e era possvel que nunca conseguisse levar uma gravidez a termo. Ningum sabia ao certo o que iria acontecer.
       - Vou ficar trs meses na cama - anunciou ela, completamente apavorada, mas o Dr. Parker disse que no era necessrio.
       Pilar estava morrendo de medo de perder a criana outra vez e resolveram no contar a ningum antes de doze semanas, quando estaria livre do perigo de aborto. 
Mas havia ainda um milho de coisas que poderiam sair erradas, disse ela a Brad naquela noite. Ela poderia ter um aborto tardio ou at um natimorto. O beb poderia 
morrer no tero, estrangulado pelo cordo ou por vrias outras razes. Ou poderia nascer com a sndrome de Down, por causa da sua idade, ou com espinha bfida. Os 
desastres possveis no saam da sua cabea.
       - Deixe de falar nessas coisas e procure relaxar - disse Brad. - Que tal ps chatos, baixo QI ou o mal de Alzheimer quando o beb ficar velho? Por que no 
descansa, meu bem? Do contrrio vai estar histrica na hora de ter o beb.
       Mas quando foi feita a ultra-sonografia, ao fim de nove semanas, os dois ficaram histricos, bem como o Dr. Parker. Pilar iria ter gmeos fraternos. Havia 
dois sacos amniticos e Pilar chorou de alegria ao ver os coraezinhos batendo na tela.
       - Oh, meu Deus, o que faremos agora? - perguntou ela,incrdula. - Precisamos de tudo em dobro.
       - O que temos de fazer agora - explicou o mdico com firmeza -,  ajudar a futura mame a manter a calma durante oito meses. Espero que os dois concordem 
com isso, porque do contrrio teremos problemas. No queremos perder esses dois a.
       - Meu Deus, no - disse Pilar, fechando os olhos, certa de que no suportaria se aquilo viesse a acontecer.


CAPTULO  - 15 -
       

 E
m maro Andy comeou a passar mais tempo na praia com Diana. S um ms depois de ele a ter encontrado Diana permitiu que o marido passasse a noite com ela.
       - No quero voltar para casa - disse Diana e ele compreendeu. No ainda. Ela precisava de tempo e os dois estavam felizes em Malibu, na pequena casa na praia.
       Andy saa do trabalho e ia direto para Malibu todos os dias, sempre com pequenos presentes e flores. Uma vez ou outra Diana fazia o jantar, mas quase sempre 
iam aos seus lugares favoritos. Era um perodo especial de recuperao para os dois e tambm de redescoberta de quem eram e do quanto significavam um para o outro.
       No comeo de abril, Diana voltou  casa deles e ficou surpresa ao ver o quanto havia sentido falta dali.
       -  uma bela casa, no ? - disse ela, olhando em volta e sentindo-se como uma estranha, depois de trs meses de ausncia.
       - Acho que foi essa nossa opinio quando a compramos - disse ele, cautelosamente, e passaram ali aquele fim de semana. Mas no fim da semana seguinte, sentiram 
saudades de Malibu e voltaram para a casa na praia. Estavam satisfeitos, sentindo-se jovens e livres. Era uma vida perfeita e certa noite, em abril, Diana o surpreendeu 
dizendo que na verdade estava gostando de no ter filhos.
       - Fala srio? - perguntou Andy. H um ms vinham passando todas as noites juntos e ele estava mais feliz do que nunca. Diana parecia calma e satisfeita. Era 
uma outra pessoa.
       - Sim... acho que sim - respondeu ela, devagar. - Somos to livres. Fazemos o que queremos, vamos aonde temos vontade, quando queremos. No precisamos pensar 
em mais ningum, s em ns dois. Posso ir ao cabeleireiro sem pressa de voltar para casa por causa da hora da baby-sitter, podemos jantar s dez horas, podemos resolver 
uma viagem de fim de semana de um momento para o outro. No sei, talvez para a vida toda fosse um tanto egosta, mas por enquanto estou gostando.
       - Aleluia! - exclamou Andy.
       O telefone tocou, Andy atendeu e, quando desligou, olhou estranhamente para Diana.
       - Quem era?
       - Um velho amigo. - Mas Andy estava plido e Diana ficou preocupada.
       - Algum problema?
       - No sei - disse ele com sinceridade e Diana ficou intrigada.
       - Por um momento pensei que fosse a bela Wanda. - Diana sorriu e Andy ficou embaraado.
       - No se enganou muito - disse ele, andando pela sala com a testa franzida.
       - O que quer dizer com isso? - Diana estava assustada. - Outra me de aluguel? Oh, Andy, no... no podemos passar por isso outra vez. Pensei que havamos 
concordado que uma parte da nossa vida acabou, pelo menos por agora, e talvez para sempre.
       No tinham tomado nenhuma deciso definitiva, mas em certos momentos Diana sentia que talvez pudesse viver muito bem sem filhos.
       - Acho que este caso  diferente - Andy sentou-se e olhou para ela. - Em setembro, quando soubemos... quando o Dr. Johnston...
       - Disse que eu sou estril - completou ela, perfeitamente calma.
       - Falei com um velho amigo da faculdade. Ele trata de adoes particulares em So Francisco. Eu disse que no queria nada ilegal, mas que, se aparecesse uma 
criana de me honesta e saudvel, estaramos interessados. Foi ele quem telefonou. Eu j tinha esquecido.
       Andy olhava atentamente para Diana. No queria obrig-la a nada, mas teriam de resolver rapidamente. Era grande o nmero de pessoas que esperava uma criana 
para adotar e o amigo estava oferecendo primeiro para ele, desde que tivesse uma resposta na manh seguinte. Estavam numa sexta-feira e o beb deveria nascer a qualquer 
minuto. A me acabara de tomar a deciso de dar o filho para adoo.
       - O que ele disse? - Diana estava imvel, atenta.
       A me tinha 22 anos, era seu primeiro filho e ela havia esperado demais para fazer um aborto. Estava no ltimo ano da universidade em Stanford e os pais dela 
no sabiam da criana. O pai do beb era um estudante de medicina na Universidade de So Francisco e nenhum dos dois poderiam manter a criana. Estavam dispostos 
a dar para adoo, mas s para as pessoas certas. E Eric Jones, o amigo de Andy, sabia que ele e Diana eram perfeitos. Os pais da criana hesitaram durante muito 
tempo e tinham resolvido somente naquela manh.
       - E se eles mudarem de opinio? - perguntou Diana, apavorada.
       - Tm o direito de fazer isso at assinarem os papis - disse Andy.
       - E isso significa quanto tempo?
       - Geralmente cerca de seis meses, mas eles podem assinar antes, se quiserem.
       Diana ouviu com ateno e depois disse:
       - Eu no suportaria. Imagine se eles o levarem depois de seis meses... Andy, eu no posso... - Seus olhos encheram-se de lgrimas e Andy compreendeu. No 
iria pression-la.
       - Tudo bem, querida. Eu s queria contar a voc. No seria justo se no contasse.
       - Eu sei. Voc vai me odiar se eu no quiser? Francamente, acho que no posso. O risco  muito grande.
       - Eu jamais poderia odi-la. Acho que, se quisermos adotar, esta  uma tima oportunidade, mas nada nos obriga a fazer isso. Nem agora, nem mais tarde. Depende 
unicamente de voc.
       - Eu me sinto como se acabasse de pr os ps no cho outra vez... e comeamos agora a recuperar nosso casamento. No quero pr tudo isso em perigo, no quero 
me arriscar a um terrvel desapontamento.
       - Eu compreendo - E ele compreendia de fato. Passaram a noite abraados e, quando Andy acordou, na manh seguinte, Diana no estava na cama. Ele a encontrou 
sentada na cozinha, extremamente abatida.
       - Voc est bem?
       Ela estava muito plida e Andy se perguntou h quanto tempo ela estaria acordada.
       - No, no estou - disse ela.
       - Est doente?
       Diana balanou a cabea.
       - No tenho muita certeza ainda. Acho que s estou morrendo de medo. - Andy compreendeu e sorriu para ela. - Andy, eu resolvi que quero fazer isso.
       - Voc quer o beb? - Andy conteve a respirao por um segundo e esperou. Ele tambm queria, mas sem querer influenci-la. Agora que ela estava mais calma 
e que voltara a levar uma vida normal, um beb seria maravilhoso para o seu casamento.
       - Sim. Telefone para eles. - Diana quase no podia falar, de to nervosa.
       Andy ligou para Eric Jones, em So Francisco. Ele atendeu no segundo toque, com voz sonolenta. Eram oito horas da manh.
       - Ns queremos o beb - disse Andy, esperando estar fazendo a coisa certa, esperando que o beb nascesse saudvel e rezando para que os pais no mudassem 
de opinio antes dos seis meses. Sabia que isso destruiria Diana e talvez seu casamento.
       - Acho bom virem depressa - disse Eric, satisfeito. - Ela entrou em trabalho de parto h uma hora. Podem tomar um avio agora?
       - Claro - disse Andy, procurando falar com calma, mas sentindo-se como um luntico. Desligou o telefone e beijou Diana. - Ela est em trabalho de parto, temos 
de voar para So Francisco.
       - Agora? - Diana parecia atordoada.
       - Agora! - respondeu Andy, ligando para a companhia de aviao. Com o fone no ouvido, disse para Diana fazer as malas e cinco minutos depois estava no quarto, 
tirando roupas do closet com uma das mos e tendo na outra o barbeador eltrico.
       - O que estamos fazendo? - Diana comeou a rir. - Ontem  noite eu estava dizendo como me sinto feliz por no termos filhos e agora estamos correndo de um 
lado para o outro como baratas tontas, voando para So Francisco para apanhar um beb. - E, de repente, ela ficou assustada outra vez. - E se ns os odiarmos?... 
Se eles nos odiarem? O que acontece?
       - Voltamos para casa e eu a fao lembrar o que voc disse a noite passada sobre como  bom no termos filhos.
       - Cristo, por que nos metemos em coisas como esta? - gemeu Diana, vestindo uma cala esporte cinza e calando sapatilhas pretas. Sua vida era outra vez uma 
montanha-russa e ela no sabia se gostava disso ou no. Mas sabia que queria o beb. E sentiu reabrirem-se lentamente as portas do seu corao, o que era apavorante 
e doloroso. No podia se proteger do sofrimento. Para amar essa criana, precisava estar com o corao e a alma completamente abertos.
       - Veja a coisa deste modo - disse Andy, guardando o barbeador na mala e beijando Diana. -  mil vezes melhor do que almoar com Wanda.
       - Eu te amo, sabia? - disse Diana, sorrindo.
       - timo. Ento feche o zper da cala e vista uma blusa.
       - No me apresse, estou prestes a ter um beb. - Vestiu uma blusa de seda e apanhou o blazer azul-escuro.
       Aquele era um doce momento em suas vidas que nenhum dos dois queria esquecer. Chegaram ao aeroporto em tempo recorde, embarcaram em cima da hora e s onze 
e meia da manh estavam em So Francisco. Eric havia explicado como chegar  maternidade, na Rua Califrnia, e estava esperando-os no saguo, como prometera.
       - Est tudo indo bem - informou, conduzindo os dois para a sala de espera da sala de parto, e os deixou. Andy comeou a andar de um lado para o outro e Diana 
ficou sentada, olhando para a porta. Alguns minutos depois Eric voltou acompanhado de um homem jovem e bonito, apresentando-o simplesmente como Edward, o pai da 
criana. 
       O engraado  que ele era incrivelmente parecido com Andy. Edward era louro, forte, com traos regulares, educado e inteligente. Disse que Eric os havia informado 
sobre Andy e Diana e ele e Jane estavam animados com a idia de entregar o filho aos dois.
       - Tem certeza de que no querem ficar com ele? - perguntou Diana. - No quero levar o beb e depois sofrer uma decepo.
       - No faremos isso, Sra. Douglas... Diana... Eu juro. Jane sabe que no pode ficar com a criana. Durante algum tempo ela pensou em ficar com o beb, mas 
decididamente no pode. Quer se formar na universidade e eu estou estudando medicina. Nossas famlias nos sustentam e no apoiariam essa deciso. Nem permiti que 
ela consultasse os pais. A verdade  que no queremos um filho. No temos nada para dar a ele agora, material ou emocionalmente. No  o momento certo para ns e 
teremos muitos filhos mais tarde. - No deixava de ser uma afirmao arrogante, pensou Diana, uma confiana absoluta no futuro. Como ele podia saber que tudo daria 
certo para eles mais tarde? Como podiam dar o filho, supondo que poderiam fazer outro, alguns anos depois? Bastava ver o que tinha acontecido com ela. - Temos certeza 
- garantiu ele outra vez e os Douglas tiveram a impresso de que estava dizendo a verdade.
       - Espero que sim - disse Andy.
       Fizeram algumas perguntas sobre a sade dos dois, se usavam drogas, sobre suas famlias. E Edward perguntou sobre seu modo de vida, suas crenas, a vida em 
famlia, suas idias sobre como criar filhos. At onde podia ver, Eric estava certo. Aquele era o casal perfeito. Ento Edward surpreendeu-os, dizendo:
       - Acho que Jane gostaria de conhec-los.
       - Ns tambm gostaramos - disse Andy, esperando v-la depois do parto, mas Edward chamou-os com um gesto para a porta onde se lia: SALA DE PARTO, NO ENTRE.
       - Quer dizer agora? - perguntou Diana. Seria como ter um estranho presente a alguns dos testes que fizera. Embora a ocasio fosse mais agradvel, no deixava 
de ser uma invaso da privacidade.
       - Acho que ela no vai se importar.
       Jane estava em trabalho de parto h seis horas, disse Edward, mas agora as coisas tinham desacelerado um pouco e estavam pensando em usar Pitocin para apressar 
o trabalho novamente.
       Com a confiana de um estudante de medicina ele os conduziu at a sala de parto. Eric ficou no corredor. Uma jovem bonita, com cabelos escuros estava recostada 
nos travesseiros, assistida por uma enfermeira no meio de uma contrao violenta. Quando passou, ela olhou para Andy e Diana. Sabia quem eram eles e tinha pedido 
para conhec-los.
       - Oi - disse ela, timidamente. Edward os apresentou e Diana notou que ele a tratava com muito carinho. Jane parecia mais jovem do que era, com uma expresso 
suave e quase infantil no rosto bonito. Tinha o mesmo tipo fsico de Diana e a semelhana entre os olhos das duas surpreendeu Andy.
       As contraes recomearam e Diana pensou em sair do quarto, mas com um gesto Jane pediu para ficarem. A princpio Andy sentiu-se constrangido, mas a naturalidade 
do jovem casal logo o deixou  vontade.
       - Esta foi violenta - disse Jane, olhando para Edward que verificou o monitor fetal e fez um gesto afirmativo.
       - As contraes esto voltando, espero que no precise do Pitocin.
       - Eu tambm espero - disse ela sorrindo para Diana.
       Quando comeou a outra contrao, ela procurou a mo de Diana. O trabalho de parto continuou at mais ou menos quatro horas da tarde e Diana e Andy ficaram 
no quarto com ela. Jane parecia cansada. A dor a estava vencendo e parecia no levar a nenhum resultado.
       - Parece que nunca mais vai acabar - queixou-se Jane e Diana, sentindo-se como se fosse me dela, acariciava a testa da jovem e oferecia lascas de gelo, sem 
tempo para pensar que at a noite passada nem sabia da existncia daquela me que agora lhe entregaria seu filho. 
       Edward conversou por alguns minutos com Jane em particular e depois disse a Eric que estavam resolvidos. Queriam que os Douglas ficassem com o beb. No que 
dependia deles, era negcio fechado. Eric consultou Diana e Andy e ambos concordaram. Agora s precisavam do beb.
       s cinco horas o mdico examinou Jane e Andy saiu para o corredor com Edward. Jane pediu para Diana ficar com ela. Diana agora sentia por ela um carinho maternal 
e extremamente protetor.
       - Continue - disse Diana carinhosamente. - Continue, Jane... Logo tudo estar acabado. - Ela imaginou por que no davam alguma coisa para aliviar a dor e, 
quando perguntou, a enfermeira disse que as contraes ainda no estavam produzindo resultado. Depois de dez horas de trabalho de parto, a dilatao era de apenas 
cinco centmetros.
       - Vai cuidar bem do meu beb, no vai? - perguntou Jane, nervosa, quando comeou outra contrao.
       O mdico dissera que ainda iria demorar.
       - Prometo. Vou am-lo como se fosse meu.
       Diana queria dizer que Jane poderia visitar o filho quando quisesse, que era cruel tir-lo dela depois de todo aquele sofrimento, mas sabia que Andy e ela 
prpria no iriam querer isso.
       - Eu amo voc, Jane - murmurou, com sinceridade, quando chegou a outra contrao. - Amo seu beb.
       Jane fez um gesto afirmativo e depois comeou a gritar. A dor era brutal.
       s seis horas rompeu a bolsa d'gua e depois disso as dores se intensificaram. Jane perdeu completamente o controle e Diana duvidava que ela soubesse quem 
estava ao seu lado. Fora uma tarde extenuante, mas quando tentou se afastar por alguns momentos, Jane se agarrou a ela, como se precisasse da sua presena.
       - No v... no v... murmurou ela, ofegante, tendo Edward e Diana ao seu lado.
       Finalmente a enfermeira disse que ela podia comear a empurrar, o mdico apareceu e fizeram Edward, Andy e Diana vestir calas e batas verdes.
       - Para que isso? - perguntou Andy, em voz baixa,  enfermeira.
       - Jane quer que vocs dois assistam ao parto - explicou Edward.
       Eles se vestiram no pequeno banheiro e seguiram a maca de Jane at a sala de parto, onde ela foi rapidamente transferida para a mesa, as pernas apoiadas nos 
suportes e cobertas com papel azul. De repente comeou o movimento. Jane gritava, mdicos e enfermeiras entraram e Diana, apavorada, pensou que alguma coisa estava 
errada, mas todos pareciam calmos, todos muito ocupados. Enquanto Edward amparava os ombros de Jane, Diana mandava que ela fizesse fora para baixo a cada sinal 
do mdico.
       Jane comeou a empurrar e ento Diana viu trazerem para a sala um bero de vime. Quando ergueu os olhos para o relgio na parede, viu, com surpresa, que era 
quase meia-noite.
       - Estamos quase l, Jane - disse o mdico. - Vamos, continue, s mais alguns empurres fortes... - dizendo isso, chamou Diana para o seu lado e ela viu a 
cabea pequenina de cabelos negros abrindo caminho... empurrando... empurrando... enquanto Jane continuava o trabalho. E ento, de repente, ouviram um grito e a 
menininha estava livre, lanada no mundo, olhando para Diana.
       Diana gritou de alegria e Andy estava ao seu lado com os olhos cheios de lgrimas.
       O mdico enrolou cuidadosamente o beb num lenol esterilizado e o entregou a Diana, ainda ligado a Jane pelo cordo umbilical. Chorando copiosamente, Diana 
olhou para a criana e depois para Andy. Juntos olharam para o pequeno milagre e, assim que o cordo foi cortado, Diana a entregou a Jane. Depois de todo aquele 
trabalho, ela tinha o direito de segurar a filha. Jane a encostou ao seio, beijou-a e a deu para Edward. Ela chorava tambm e parecia completamente exausta. Edward 
olhou para a filha por um longo tempo sem demonstrar emoo e a passou para a enfermeira. O beb foi pesado e examinado. Tudo estava perfeito. Pesava trs quilos 
e meio, tinha 49 centmetros de comprimento e finalmente, depois de quase dois anos de agonia, Diana tinha seu beb. Olhou para ela, deitada no pequeno bero de 
vime. A menina tinha olhos grandes e olhava espantada para os novos pais. E eles, de mos dadas, olhavam para ela, maravilhados com o milagre da vida e extremamente 
gratos a Jane e Edward.




CAPTULO  - 16 -
       
       
 N
o dia seguinte, Andy e Diana correram de um lado para outro como lunticos, comprando fraldas, camisetinhas e camisolas, meias e sapatinhos, toucas e cobertores, 
uma lista interminvel de coisas de que o beb iria precisar quando o apanhassem na segunda-feira. Naquela tarde encontraram-se outra vez com Jane e Edward e assinaram 
os papis preliminares.
       Jane estava com uma aparncia melhor, mas ainda encontrava-se abalada e ficou muito emocionada quando viu Diana. Tentou agradecer por tudo que ela havia feito 
e por amar sua filha, mas no fim apenas chorou abraada com o namorado.
       - Eu sinto tanto - disse Diana, chorando tambm, sentindo-se como se estivesse roubando o beb dos dois e, por um breve momento, pensou em desistir. Prometo 
que vamos cuidar muito bem dela... e ela vai ser muito feliz.
       Diana abraou Jane e, quando saiu do quarto com Andy, todos estavam chorando. Passaram no berrio para ver o beb e convenceram-se de que tinham feito a 
coisa certa. A criana era to bonita, to pequenina e dormia calmamente. Falaram com o pediatra e ele deu a receita da mamadeira, os horrios a serem seguidos, 
como cuidar do cordo umbilical e sugeriu que a levassem ao pediatra na semana seguinte. Diana olhou para Andy interrogativamente, mas ento lembrou-se das irms.
       - Vou telefonar para Sam - sorriu ela. H semanas no falava com a irm, especialmente porque no queria falar sobre o novo filho de Sam.
       - Nossa! Ela vai ter uma surpresa! - Diana riu.
       Desceram no elevador e caminharam at a Rua Sacramento para comer alguma coisa. Aqueles foram dois dias exaustivos, mas maravilhosos, e na manh seguinte 
iriam apanhar o beb. Jane sairia do hospital nesse dia e tinha resolvido no ver mais a filha, pois isso s dificultaria mais as coisas para ela.
       - Voc no acha que eles vo mudar de idia, acha? - Diana perguntou a Andy, nervosa, naquela noite, e ele pensou um minuto antes de responder.
       - No, no acho. Mas  uma possibilidade que teremos de aceitar durante alguns meses, at assinarem os papis definitivos. Podem mudar de idia, no fim, mas 
agora me parecem bastante seguros. Pelo menos Edward. E ela tambm, acontece que  uma fase de muita emoo, uma coisa brutal.
       Diana no podia imaginar como seria dar um filho para algum e deu graas a Deus por jamais ter de tomar essa deciso, pois tinha certeza de que no seria 
capaz. Ento, eles falaram sobre outras coisas, como o nome da criana. No estava resolvido ainda, mas Hilary parecia ser o favorito dos dois. No dia seguinte telefonaram 
para os respectivos escritrios dizendo que estavam "doentes". Andy queria ficar em casa pelo menos por mais um dia e Diana tiraria uma longa licena, talvez at 
mesmo deixaria o emprego, mas isso no era certo ainda.
       Eric Jones encontrou-se com eles no hospital com mais papis para serem assinados. Disse que Jane e Edward j haviam partido, o que foi um alvio para todos. 
Andy e Diana queriam deixar para trs aquela parte da adoo. Agora tudo que desejavam era o beb. Tomaram o elevador, Diana ansiosa, carregando um cesto de vime 
forrado com renda branca. Tinham comprado uma cadeirinha para a limusine alugada que os levaria ao aeroporto. Era uma grande ocasio. Finalmente estavam levando 
seu beb para casa. E a menina j tinha nome. Hilary Diana Douglas.
       Hilary dormia profundamente quando a enfermeira a tirou do bero. Deixaram Andy e Diana entrar no berrio com aventais esterilizados. A enfermeira ensinou 
Diana a trocar a fralda e a vestir o beb, informando tambm sobre o horrio das mamadeiras e da gua com glicose. O hospital forneceu doze mamadeiras para leite 
e doze para gua. A enfermeira explicou que, se Hilary fosse filha de Diana, ela ainda no teria leite e por isso no deviam aliment-la demais pelo menos por mais 
um dia. Hilary tinha menos de dois dias de vida, um beb muito novinho.
       Quando Diana a pegou nos braos, Hilary bocejou e abriu os olhos cheios de sono. Olhou para os dois e adormeceu outra vez enquanto Diana a vestia. E, nesse 
momento, Diana sentiu algo que jamais sentira antes por pessoa alguma, nem mesmo por Andy. Era uma intensidade extrema de amor e de felicidade que quase a atordoou. 
As lgrimas encheram seus olhos enquanto vestia no beb uma camisolinha cor-de-rosa, o casaquinho e os sapatinhos de tric. A touca tinha pequenas rosas e Hilary 
estava um amor quando Diana a pegou no colo. Para Andy, Diana nunca pareceu mais bela do que naquele momento.
       - Vamos, mame - disse ele, com voz suave.
       No corredor, encontraram Eric, que disse que o hospital j dera alta para o beb. Hilary era deles agora. Andy e Diana o abraaram, agradecendo comovidos, 
e Eric os acompanhou at a limusine. No porta-malas levavam trs malas cheias de roupas de beb e um enorme urso de pelcia, comprado por Andy.
       - Muito obrigada por tudo - Diana disse para Eric, enquanto a limusine se afastava,e ele acenou para os dois, com um largo sorriso. Tudo tinha sido maravilhoso.
       Diana, sentada ao lado do beb, olhou para Andy. Era difcil acreditar em tudo que lhes havia acontecido em menos de 48 horas.
       - D para acreditar? - perguntou ela, com um largo sorriso, ainda com medo de que tudo no passasse de um sonho. Mas os dedinhos enroscados nos dela eram 
reais. Olhou para Hilary e tudo lhe pareceu perfeito.
       - No, eu ainda no acredito - admitiu Andy, em voz baixa, para no acordar o beb. Olhou para Diana. - O que voc vai fazer com seu emprego? - Agora que 
ela comeava a se interessar outra vez por sua carreira, tudo se complicava.
       - Acho que vou tirar a licena-maternidade. Ainda no resolvi.
       - Eles vo adorar. - disse Andy, rindo. Mas estava planejando tirar pelo menos uma semana para ajudar Diana e para conhecer sua filha... a filha dos dois... 
As palavras soavam estranhas ainda. E cada vez que Diana pensava em tudo que tinha acontecido, sentia a perda de Jane, que havia sido uma ddiva para os dois. Parecia 
um modo doloroso de ter um filho, provocando tanta dor. Mas fora uma opo de Jane.
       Hilary acordou um pouco antes de embarcarem no avio; Diana trocou a fralda, deu a ela um pouco de gua com glicose e ela voltou a dormir. No avio, Diana 
a pegou no colo, sentindo o calor aconchegante do beb contra seu peito. Uma sensao completamente nova para ela, de amor e paz.
       - No sei quem parece mais feliz, se voc ou a senhorita Hilary - disse Andy, com um sorriso, tomando um drinque realmente merecido.
       Chegaram em casa na hora do jantar e Diana olhou em volta, como se tivesse se ausentado por muito tempo. Tantas coisas haviam acontecido, tantas coisas haviam 
mudado desde o telefonema de Eric na noite de sexta-feira. Teriam sido apenas trs dias? Era difcil acreditar.
       - Em que quarto ela vai ficar? - murmurou Andy.
       - No nosso, eu acho. No quero que fique longe de ns. Alm disso, tenho de levantar  noite para dar a mamadeira.
       - Sim, sim, eu sei - sorriu ele. - Voc no quer ficar nem um minuto longe dela.
       Mas no podia culp-la. Ele tambm queria ficar perto das duas. E, enquanto a deitava cuidadosamente no bero, Andy pensava se seria difcil adotar outra 
criana.
       Naquela noite Diana telefonou para Sam, pedindo o nome do pediatra  dos seus filhos para uma "amiga" e Sam no podia ver o largo sorriso da irm. Sam deu 
o nome do mdico e ento Diana perguntou pelo beb e convidou-a a visit-la no dia seguinte.
       Mas Sam, que havia finalmente compreendido a sensibilidade da irm, respondeu com muita cautela.
       - No tenho com quem deixar o beb, Di. Seamus est trabalhando num novo quadro. Eu poderia ir quando os outros dois estivessem na escola, mas teria de levar 
o beb comigo. - Sabia que Diana no queria isso. Ela s o vira logo depois do nascimento e mesmo assim de uma distncia considervel.
       - Tudo bem, eu no me importo - disse ela, calmamente, e Sam franziu a testa, desconfiada. 
       - Tem certeza?
       - Absoluta - respondeu Diana, com firmeza.
       - Voc est se sentindo melhor? - perguntou Sam, discretamente. Embora chocada com a exploso da irm no Dia de Ao de Graas, nos meses seguintes ela chegou 
a compreender o que Diana devia estar sentindo e ficou revoltada com a sua falta de sensibilidade e de todos os outros, que no sabiam do problema.
       - Estou muito melhor, Sam. Conversamos sobre isso amanh.
       Diana telefonou para a me. Ficou desapontada quando soube que o pai estava fora da cidade. Mas convidou a me para um cafezinho na mesma hora que Sam deveria 
chegar.
       Depois, foi a vez de Gayle. As trs disseram que iriam e Diana no explicou o motivo do convite. Mas, ao desligar, estava sorrindo, feliz. Era uma delas finalmente. 
Tinha conseguido. Pertencia  sociedade secreta. Ela tinha um beb.
       - Fico satisfeito por ver voc to feliz, querida - disse-lhe Andy ainda naquela noite. Ele nunca a vira assim e s ento compreendeu realmente o quanto Diana 
queria um filho. Surpreendeu-se percebendo que o fato de a criana no pertencer biologicamente a nenhum dos dois no fazia a menor diferena para ele. Era um beb 
maravilhoso. E quando Hilary acordou pela primeira vez naquela noite, os dois saltaram da cama e apanharam a mamadeira. Depois disso, revezaram-se e, de manh, Andy 
levantou-se cansado mas feliz.
       - Voc esqueceu de telefonar para uma pessoa - disse ele, sonolento, voltando para a cama. Acabava de ligar para o escritrio a fim de avisar que novamente 
no iria trabalhar nesse dia e nem no dia seguinte. Disse que estava doente e que explicaria o resto depois.
       - Quem? - perguntou Diana, depois de pensar por um momento. Tinha telefonado para as irms e para a me. Convidaria o pai assim que ele voltasse da viagem. 
- No estou lembrando de mais ningum. - Talvez Eloise, mas agora no eram mais amigas to ntimas.
       - Estou falando de Wanda... Voc sabe... Wanda Williams.
       - Ora, seu bobo. - Diana riu e Hilary comeou a chorar. Ento Diana a alimentou, banhou e vestiu com uma das roupas que haviam comprado, para esperar as visitas.
       Mas de repente, olhando para ela, Diana compreendeu que o importante no era sua famlia, nem como iriam reagir, nem o que pensariam dela agora que tinha 
uma filha, o importante era a criana, aquela pessoa pequenina, a mulher que ela seria e tudo que significaria e que j significava para Andy e Diana. Hilary era 
algum por quem os dois haviam esperado uma vida inteira. Tinham rezado por ela, brigado por ela e quase se destrudo quando pensaram que jamais a encontrariam. 
Ela significava mais para eles do que jamais poderiam expressar, e o que os outros pensavam realmente no tinha importncia. Diana esperava que as irms e a me 
amassem Hilary e estava certa de que a amariam. Como poderiam deixar de am-la? Mas se isso no acontecesse... no importava. Diana compreendeu que no tinha fracassado. 
Apenas fizera as coisas de modo diferente. Enfrentara um problema insolvel, uma tempestade em sua vida, e sobrevivera. Problema resolvido. A vida prosseguia. No 
havia vitrias nem derrotas. Havia a vida com todos os seus tesouros, com toda sua alegria e desespero, seus dons infinitamente preciosos. Hilary era um deles, talvez 
o maior que ela jamais receberia. Mas sabia que a entrada de Hilary em sua vida no era uma vitria, e sim uma bno.
       A campainha tocou e Diana foi atender. Era sua me.
       - Como vai, minha filha? - perguntou a me, preocupada, e Diana percebeu que ela estava assustada.
       - Estou tima.
       - Por que no est trabalhando? - Ela sentou-se no sof, com os joelhos muito juntos, no seu tailleur azul-marinho, o cabelo bem penteado, segurando a bolsa 
com as duas mos.
       - No fique preocupada, mame. Est tudo bem. Estou de frias.
       - Est? No me disse que ia tirar frias agora. Vocs vo viajar? - Sabia que estiveram separados por algum tempo, mas Diana telefonara para ela assim que 
voltaram. 
       Ela sempre tomava esse tipo de cuidado para no preocupar os pais sem motivo. S o amargo sofrimento de saber que no podia ter filhos ficara em segredo. 
Mas a me jamais falava do assunto com ela. No queria interferir e nem fazer perguntas embaraosas, mas Sam contara a ela que no havia esperana para Diana e Jack 
confirmara.
       Diana ia dizer que ela e Andy no pretendiam viajar quando a campainha tocou outra vez. Era Sam com o beb. O menino estava com dois meses e era muito lindo. 
Diana olhou para ele, dormindo placidamente na cadeirinha, e percebeu que, dois dias atrs, isso teria sido um sofrimento incrvel para ela. Agora era apenas um 
beb bonito e fofinho.
       - Alguma coisa errada? - perguntou Sam assim que entrou.
       Diana riu, ajudando-a a acomodar o beb, e Sam olhou para ela, preocupada. Alguma coisa tinha acontecido com Diana. Ela parecia mais calma, mais segura, nem 
um pouco perturbada por seu beb. Sam chegou a pensar que ela estava grvida, mas jamais teria coragem de perguntar.
       - Nada errado. Mame fez a mesma pergunta. Pensou que fui despedida porque estou em casa a esta hora. - Com surpresa, Sam viu a me na sala. - Estou de folga 
esta semana e achei que seria agradvel uma pequena reunio.  bom ver voc, Sam. - Sorriu e o olhar que elas trocaram aqueceu o corao da me.
       Gayle chegou dez minutos depois, reclamando do trfego, do carro e da falta de vaga para estacionar.
       - Ento, o que estamos comemorando? - Olhou em volta, desconfiada, quando viu a irm e a me. - Parece um conselho de famlia.
       - Pois no  - sorriu Diana. - Quero que vocs conheam uma pessoa. Sente-se, Gayle. - Sam estava sentada ao lado da me, amamentando o beb.
       Diana saiu da sala, tirou Hilary do bero sem acord-la e, beijando a cabecinha macia, levou-a para a sala. Parou na porta. Sam ergueu os olhos e sorriu. 
A me comeou a chorar e Gayle ficou boquiaberta.
       - Oh, meu Deus... Voc ganhou um beb.
       - Sim, ganhamos. Hilary. - Sentou-se ao lado de Sam com Hilary no colo. Era uma menina linda, com pele perfeita, dedinhos longos e graciosos.
       - Ela  linda! - exclamou a me, beijando Diana. - Querida, estou to feliz por voc.
       - Eu tambm estou, mame - disse ela, retribuindo o beijo.
       Sam abraou-a carinhosamente, as duas rindo, e Gayle inclinou-se para examinar o beb.
       -  uma beleza - elogiou ela. Olhou para Diana: - Voc tem sorte, escolheu o caminho mais fcil, nada de trabalho de parto, nada de quinze quilos para perder 
depois do nascimento, nada de seios cados. S uma criana maravilhosa e seu corpo elegante. Se no estivesse to feliz por voc, eu a odiaria. Quem sabe agora podemos 
ser amigas outra vez. No tem sido fcil para ningum, voc sabe... - Gayle falava por todos, mas como sempre acontecia a tenso maior era sempre entre ela e Diana. 
Sam no tomava parte nas brigas. Ela era a caulinha.
       - Eu sinto muito - desculpou-se Diana, olhando para Hilary - Foi muito difcil, mas agora acabou.
       - De onde ela veio? - perguntou Sam, curiosa, olhando fascinada para o rostinho perfeito.
       - So Francisco. Nasceu no domingo  meia-noite e meia.
       - Ela  perfeita-disse a av, ansiosa para contar ao marido. Nem podia imaginar o que ele iria dizer, mas tinha certeza de que ficaria feliz e aliviado, sabendo 
o que Diana tinha passado naqueles ltimos meses.
       Depois de duas horas, elas saram, beijando Diana e Hilary. Andy chegou em casa no momento em que Sam se despedia. Fora ao escritrio para apanhar alguns 
papis e explicar por que precisava ficar em casa o resto da semana. Ficaram surpresos com a notcia e concederam os dias de folga sem maiores problemas, dizendo 
que ele poderia ficar em casa na semana seguinte tambm se precisasse. Andy procurou tambm Bill Bennington para contar a novidade.
       - Isso quer dizer que podemos jogar tnis outra vez? - brincou Bill. Ele e Denise compreendiam o problema de Diana. Na verdade, Denise estava agora de repouso 
na cama. Sua gravidez no estava sendo fcil. Temiam que o beb fosse prematuro, ou at mesmo que ela o perdesse. Mas agora estava quase no fim, o beb deveria nascer 
dentro de oito semanas e, portanto, dentro de mais um ms ela poderia se levantar, pois j no haveria problemas se o beb nascesse. - Quando podemos v-la? - perguntou 
Bill. Ele e Denise teriam tambm uma menina e j imaginava os dois passeando com as filhas. - Dentro de alguns anos talvez possamos fazer um jogo de duplas - sugeriu 
ele.
       Andy riu e depois prometeu que iriam visitar Denise.
       - Telefonaremos - prometeu Andy e voltou para Diana e Hilary
       Diana dera a ele uma longa lista de compras e Andy precisava tambm de algumas coisas. Quando chegou em casa viu que Diana tinha passado algumas horas agradveis 
com a me e as irms.
       - Misso bem-sucedida? - perguntou ele e Diana riu - Como se comportou a princesa? - Hilary estava dormindo.
       - Impecvel e elas a adoraram.
       - Como no iriam adorar? - Andy olhou para ela, fascinado com cada movimento, com tudo que era dela, adorando-a. Ento lembrou-se de algo. - Telefonou para 
o seu escritrio?
       - Tentei, mas no encontrei quem eu queria. Acho que seria bom ir l pessoalmente. - Devia uma explicao de como tudo aquilo tinha acontecido de um dia para 
o outro.
       Foi ao escritrio no fim da tarde e todos foram extremamente compreensivos. Ofereceram licena-maternidade completa de cinco meses, a comear daquele momento. 
No fim desse tempo, o emprego estaria  sua espera. Diana estava certa de que voltaria, embora sempre perguntasse a si mesma, desde que se casara, o que faria quando 
tivesse um filho. No comeo, pensou que deixaria de trabalhar; mais tarde, achou que voltaria, talvez em meio perodo. No poderia continuar como editora sem trabalhar 
em horrio integral, mas poderia fazer muitas outras coisas. E ainda no havia decidido. Tinha cinco meses para ficar com Hilary e pensar no assunto. No fim desse 
tempo teria resolvido.
       Agradeceu a generosidade da editora-chefe e foi retirar suas coisas do escritrio. Precisariam dele para quem a substitusse durante aquele tempo. No levou 
mais de uma hora para pr tudo nas caixas e mandar levar para seu carro. Antes de sair foi  sala de Eloise que estava tirando um sufl do forno.
       - Nossa, isso parece bom. - O aroma enchia a sala e Eloise sorriu.
       - Voc tambm parece tima. H sculos eu no a vejo. Tem tempo para uma xcara de caf?
       - Rapidamente.
       - Certo.
       Diana sentou-se na frente do balco e logo Eloise serviu uma xcara de caf escaldante e um pedao do sufl num prato
       - No estou muito certa desta receita. Prove e diga o que acha.
       Diana provou e fechou os olhos, extasiada.
       -  pecaminoso.
       - timo - disse Eloise, satisfeita. - Ento, quais so as novidades?
       Eloise sabia o que Diana tinha passado naquele ltimo ano. A amiga vivia triste e afastara-se de todos. Ela e Eloise quase no se viam mais.
       - Voc est com tima aparncia - elogiou Eloise.
       Diana tinha melhorado desde que voltara para Andy. Comeava a reconstruir sua vida e parecia que sua felicidade j no dependia de ter um filho. Mas estava 
tambm mais sria. As cicatrizes eram inevitveis.
       - Obrigada - disse Diana, tomando o caf, com um sorriso nos olhos. - Tivemos um beb neste fim de semana. - Riu quando Eloise ficou boquiaberta.
       - Vocs tiveram o qu? Ser que ouvi direito?
       - Ouviu, sim - confirmou Diana com um sorriso feliz. - Uma menininha chamada Hilary. Nasceu no domingo e ns vamos adot-la.
       - Ora, que maravilha! - exclamou Eloise. Era a maior ddiva e ela sabia o quanto eles iriam amar aquela criana.
       - Acabaram de me dar cinco meses de licena-maternidade. Mas vou voltar. Pode me visitar em casa e eu estarei de volta no fim do ano. Mas no pare de cozinhar.
       - No vou parar - garantiu Eloise, com uma certa tristeza. - Mas no estarei cozinhando aqui. Acabo de aceitar um emprego em Nova York. Avisei a revista esta 
manh. Devo partir dentro de duas semanas. Eu ia contar assim que a visse.
       - Vou sentir sua falta - disse Diana. Tinha um grande respeito por Eloise e sentia pena de no ter tido tempo para conhec-la melhor. Mas tanta coisa havia 
acontecido em sua vida nesse ano. No sobrara muito tempo para amizades e Eloise compreendia.
       - Eu tambm vou sentir saudades de voc. Ter de me visitar em Nova York. Mas antes de ir quero conhecer o beb. Telefono esta semana.
       - timo.
       Diana terminou de tomar o caf, despediram-se com um abrao e Eloise prometeu visit-la no fim de semana. No caminho, Diana pensou no quanto iria sentir falta 
do seu trabalho na revista. Mas, quando entrou em casa, s pensava em Hilary e era como se a revista, que antes consumia cada momento do seu tempo, estivesse em 
outro planeta.
       
* * *

       Em maio, fazia trs meses que Charlie e Beth se conheciam. Para ele era como se tivessem se conhecido durante toda a vida. Podiam conversar sobre qualquer 
coisa e ele passava uma grande parte do tempo contando a sua infncia e como esta o influenciara no sentido de desejar tanto uma famlia e um lar. Contou sobre o 
seu casamento com Barbara e o quanto ficara abalado quando ela o deixou. Mas agora compreendia melhor. Depois de pensar muito, chegou  concluso de que o casamento 
fora um erro para os dois. Mas uma coisa ainda no tinha contado e achava que jamais teria coragem para contar. Tudo que sabia era que no tinha o direito de se 
casar outra vez, mas contanto que no chegassem a esse ponto, no teria de dizer nada. Beth no precisava saber que ele era estril. Charlie gostava demais dela 
para contar a verdade. Tinha medo de perd-la. J perdera tanto na vida, tantas pessoas de quem gostava, para arriscar perder tambm Beth e Annie.
       No Dia das Mes ele as levou para o Marina Del Rey. Antes, saiu com Annie e compraram flores que ela deu para a me com um belo carto feito na escola. Naquela 
tarde foram  praia e, enquanto Annie brincava com outras crianas, Beth fez, casualmente, a to temida pergunta.
       - Como  que voc nunca teve filhos, Charlie? - Estava deitada com a cabea no peito dele, na areia, e sentiu o corpo de Charlie ficar rgido.
       - No sei. Falta de tempo. Falta de dinheiro.
       Isso no combinava com Charlie e ele j dissera que um dos motivos de discusso com sua primeira mulher fora o fato de ela no querer filhos. Contou tambm 
que ela ficara grvida de outro homem, o que acabara com o casamento. Charlie no entrou em detalhes. No contou que, quando disse a ela que estava disposto a aceitar 
a criana, Barbara j havia feito o aborto, que no vou me casar nunca mais - disse ele, pensativo. - Na verdade, sei que no vou.
       Beth olhou para ele com um sorriso tmido. No estava tentando provocar um pedido de casamento, mas apenas sentia-se curiosa sobre o passado dele e interessada 
em tudo que dizia respeito  sua vida.
       - Eu no perguntei isso. No fique to tenso. No estou lhe propondo casamento. S perguntei por que nunca teve filhos.
       Beth estava como se tinha dito alguma coisa inconveniente e ento sentou-se e olhou para ele. Era tolice tentar engan-la. Charlie gostava muito dela. E seria 
errado dar falsas esperanas e depois desaparecer, como pretendia. Resolveu que era melhor contar de uma vez. Beth tinha o direito de saber com quem estava perdendo 
seu tempo.
       - Eu no posso ter filhos, Beth. Fiquei sabendo h seis meses, um pouco antes do Natal. Fizeram uma poro de testes e, para encurtar a histria, descobriram 
que sou estril. Foi um choque enorme - disse Charlie, triste, com medo do que Beth iria fazer agora. Mas contar a ela era a coisa certa.
       - Oh, Charlie... - disse ela, arrependida de ter perguntado. Estendeu a mo para a dele, mas Charlie no a segurou e de repente pareceu estar muito distante.
       - Acho que eu devia ter contado antes, mas no  exatamente o tipo de coisa que a gente gosta de contar num primeiro encontro. Nem nunca.
       - No. - Com um sorriso, Beth disse: - Podia ter contado antes. Teria evitado o trabalho que tivemos com precaues. - Estavam usando camisinha, o que era 
quase de praxe em novos relacionamentos nos dias atuais, mas Beth usava tambm o diafragma e Charlie nunca lhe dissera para no usar, o que agora parecia divertido 
para ela, mas no para Charlie.
       - No tem importncia - disse Beth suavemente e depois franziu a testa. - E que negcio  esse de nunca mais se casar? Por que isso?
       - Eu acho que no tenho esse direito, Beth. Olhe para voc: tem uma bela filha e deveria ter mais filhos.
       - Quem disse que  isso que eu quero? Ou que posso? - Olhou para ele muito sria.
       - No quer? No pode? - Charlie ficou surpreso. Beth amava tanto Annie, que parecia impossvel no querer outros filhos.
       - Sim, eu posso - disse ela com franqueza. - Mas acho que ia depender da pessoa com quem eu me casasse. Para dizer a verdade, acho que no quero mais. Annie 
 bastante para mim. Nunca pensei em ter mais filhos. Fui filha nica e no me fez nenhum mal. E, decerto modo,  muito mais simples. Eu no poderia sustentar outro 
agora. s vezes o dinheiro mal d para ns duas.
       Charlie sabia disso e procurava ajudar com pequenos presentes de mantimentos e as levava para comer fora sempre que era possvel.
       - Mas, se casasse outra vez, iria querer mais filhos. Como qualquer outra pessoa... como eu iria querer... - disse ele, com tristeza. - Algum dia vou adotar 
um menino. Estou guardando dinheiro para isso. Agora pais solteiros podem adotar e quero encontrar um garoto exatamente como eu era, jogado em alguma instituio 
horrvel, sem ningum para am-lo. Quero mudar sua vida e talvez de outras crianas tambm, se puder.
       - Quantos pretende adotar? - perguntou Beth, nervosa.
       - Dois.  s um sonho. Eu j tinha essa idia, mesmo quando pensava que podia ter filhos meus.
       - Tem certeza de que no pode? - perguntou ela, sria.
       - Absoluta. Consultei um cara importante em Beverly Hills e ele diz que  impossvel. Eu acredito nele. J me arrisquei muitas vezes, especialmente quando 
era mais jovem, e nada aconteceu.
       - No  nenhum bicho-de-sete-cabeas, sabia? - disse ela. Lamentava por ele, mas no era o fim do mundo. E certamente no mudava sua opinio sobre a masculinidade 
de Charlie, que era impressionante.
       - Foi um choque enorme para mim durante algum tempo - confessou ele. - Eu sempre quis ter filhos e estava tentando engravidar Barb para salvar o nosso casamento. 
- Ento ele riu da ironia. - No fim o outro ganhou a corrida.
       Na verdade, isso j no o perturbava. Sentia pena de no ter dado certo com Barbara, mas, especialmente depois que conhecera Beth e Annie, comeou a encarar 
tudo filosoficamente. A nica coisa que o entristecia era saber que seu amor por Beth no os levaria a nada. Acreditava ainda que no tinha o direito de se casar 
com ela, impedindo-a de ter mais filhos. Beth era jovem agora, e podia querer outros filhos mais tarde.
       - Se eu fosse voc, no me importaria muito - disse Beth com sinceridade. - Uma mulher que o ame de verdade no vai dar a mnima para isso.
       - Voc acha, mesmo? - perguntou Charlie, surpreso, deitaram-se outra vez na areia, ela com a cabea no ombro dele. - No tenho tanta certeza disso - concluiu 
ele, depois de um tempo.
       - Mas eu tenho. Eu no me importaria.
       - Mas devia - disse Charlie, paternalmente. - No limite o seu futuro. Voc  muito jovem para fazer isso.
       Beth sentou-se outra vez e olhou para ele, zangada.
       - No me diga o que devo fazer, Charlie Winwood. Eu posso fazer o que bem entender e quero dizer agora mesmo que no daria a mnima para o fato de voc ser 
estril - declarou, em voz alta e clara, e Charlie olhou em volta preocupado. Mas ningum estava ouvindo e Annie brincava com as outras crianas.
       - Por que no espalhamos cartazes pela cidade?
       - Desculpe - disse ela, deitando-se outra vez ao lado dele. - Mas eu disse a verdade.
       Charlie deitou-se de bruos na areia e segurou o rosto dela com as duas mos.
       - Fala srio, Beth?
       - Sim, falo srio.
       Isso mudava muita coisa e Charlie pensou seriamente no futuro dos dois, mas ainda parecia errado casar com uma moa to jovem e no poder lhe dar filhos. 
Sabia da existncia de doadores de esperma. Pattengill havia sugerido essa alternativa, para ele e Barb, mas Charlie tinha certeza de que jamais faria isso. Porm, 
se Beth falara com sinceridade, talvez Annie bastasse para os dois... ou poderiam adotar algumas crianas. Charlie sorriu e, sem uma palavra, a beijou.














CAPTULO  - 17 -
       
       
 A
ndy e Diana passaram em casa o segundo aniversrio de casamento, porque no queriam deixar Hilary com ningum e Diana no tinha vontade de ficar longe dela.
       - Tem certeza? - Andy sentia-se culpado por no lev-la para jantar fora, mas na verdade tambm preferia ficar em casa.
       Diana estava aproveitando bem sua licena. Passava o tempo todo com Hilary e pensava no que seria melhor fazer quando terminasse a licena. Gostava de ficar 
em casa, mas achava que, depois de algum tempo, iria querer voltar ao trabalho, nem que fosse em meio perodo. Pensava at mesmo em procurar outro emprego, com um 
horrio mais flexvel. Mas ainda tinha trs meses para se resolver. Andy estava mais ocupado do que nunca no escritrio, com novas sries, novas estrelas, novos 
contratos. Bill Bennington tirara uma longa licena. Denise tivera o beb antes do tempo, no fim de maio, e houvera complicaes. Agora, porm, j estavam em casa, 
muito felizes.
       Diana a visitou e tentou ajudar. Sentia-se uma veterana, depois de dois meses com Hilary. Gayle e Sam a ajudavam muito com conselhos e o pediatra que lhe 
indicaram era excelente. Na maioria das vezes, ela seguia o instinto. A maior parte dos cuidados com uma criana dependia do bom senso, como dissera seu pai quando 
a visitou para conhecer Hilary. Ele chorou, comovido, na ocasio. Significava muito para seu corao saber que a filha estava finalmente em paz com o mundo. Abraou 
Diana demoradamente com os olhos cheios de lgrimas e depois olhou para o beb.
       - Voc fez um bom trabalho - disse e Diana de repente imaginou se ele pensava que o beb era dela. Isso a deixou preocupada. Seria o primeiro sinal de que 
a mente do pai comeava a falhar.
       - Papai, eu no tive o beb - lembrou ela, cautelosamente, e ele riu.
       - Eu sei disso, bobinha. Mas vocs a encontraram e a trouxeram para casa.  uma beno para ns todos, no s para voc e Andy - disse o pai, beijando-a com 
carinho. Ao sair, disse que Hilary era a criana mais bonita que ele j tinha visto.
       Batizaram Hilary no comeo de junho e a festa foi na casa dos pais de Diana, em Pasadena. Nesses dias, tudo parecia girarem torno do beb e Andy notou que 
Diana parecia exausta. Em parte era falta de sono porque ela se levantava trs ou quatro vezes durante a noite e, no primeiro ms, Hilary tivera muitas clicas. 
Agora, o beb estava bem, mas Diana no. Na noite do aniversrio de casamento, Andy percebeu que ela nem se deu ao trabalho de usar maquiagem. Vendo-a to abatida, 
ele quase se arrependeu de ter desistido da casa da praia. Gostavam dela, mas agora, com Hilary, a despesa era muito grande.
       - Voc est se sentindo bem? - perguntou Andy, preocupado. Mas, apesar de tudo, ela parecia feliz.
       - Muito bem, s cansada. Na noite passada Hilary acordou de duas em duas horas.
       - Talvez seja bom arranjar algum para ajudar, voc sabe, uma bab.
       - Nem pense nisso. - Diana no ia deixar ningum tomar conta do seu beb. Tinha esperado muito por ela. A nica pessoa que podia ajud-la era Andy.
       - Eu dou as mamadeiras esta noite e voc dorme mais um pouco. Est precisando. Andy fez o jantar e Diana levou Hilary para a cama. Depois conversaram durante 
um longo tempo sobre o quanto suas vidas tinham mudado e o longo caminho que haviam percorrido em dois anos. Era at difcil lembrar o tempo em que Hilary no estava 
com eles.
       Foram cedo para a cama e Andy queria fazer amor, mas Diana adormeceu antes que ele sasse do banheiro. Andy olhou carinhosamente para ela, depois ps o bero 
no seu lado da cama para que Diana no acordasse durante a noite. Mas na manh seguinte, depois de uma boa noite de sono, Diana parecia pior, quase esverdeada, quando 
serviu o caf.
       - Acho que apanhei uma gripe - comentou, temendo passar o resfriado para Hilary. - Acho melhor usar uma mscara disse ela e Andy riu.
       - Escute, ela  mais resistente do que isso. E se voc est com gripe, ela j foi exposta, de qualquer modo.
       Era sbado e Andy se ofereceu para cuidar da criana o dia todo. Diana dormiu a tarde inteira e  noite, fazendo o jantar, parecia sonolenta e ele percebeu 
que ela no comera nada. Estava sem fome. Na segunda-feira nada mudara. Diana no tinha febre, mas estava abatida demais. Antes de sair para o trabalho, Andy disse 
que era melhor ela chamar o mdico.
       - No conte com isso - replicou Diana, exausta. Andy no a vira comer coisa alguma durante todo o fim de semana. No quero ver nenhum mdico pelo resto da 
minha vida.
       - No estou falando de um ginecologista. Eu disse para chamar um mdico.
       Mas Diana recusou-se a atender seu pedido. Havia dias em que ela parecia bem, mas em outros, muito pior. s vezes dependia do quanto dormia, outras vezes 
no. Andy estava quase louco de preocupao e Diana recusava-se terminantemente a ouvir seus conselhos.
       - Escute sua boba - disse ele, na vspera do piquenique do Quatro de Julho, em Pasadena. - Hilary e eu precisamos de voc. H um ms voc no est bem, agora 
precisa tomar alguma providncia. Provavelmente est anmica por falta de sono e por no se alimentar direito.
       - Como  que as mes normais conseguem? Elas parecem se sair muito bem. Sam no anda se arrastando pela casa.
       Era desagradvel sentir-se assim, pssima a maior parte do tempo. No piquenique da famlia, no dia seguinte, Andy falou com Jack e pediu a ele que insistisse 
com Diana para procurar um mdico. Jack conseguiu alguns minutos a ss com ela, depois do almoo, quando Diana estava dando a mamadeira de Hilary.
       - Andy est preocupado com voc - disse ele, sem rodeios.
       - Pois no devia estar. Eu estou bem. - Tentou livrar-se dele, mas no era fcil. Andy lhe pedira para ser insistente.
       - Pois no parece, considerando-se que voc  jovem, bonita e tem um beb maravilhoso - brincou ele. Jack estava feliz por eles e sentia-se aliviado, depois 
de tudo que os dois tinham enfrentado naquele ano.
       - Por que no faz um hemograma? - tentou ele outra vez, porque tinha prometido a Andy, mas era evidente que Diana no estava disposta a seguir seu conselho.
       - E o que o hemograma vai me dizer, Jack? Que estou cansada? Isso eu j sei. Fiz exames suficientes para uma vida inteira.
       - No  a mesma coisa, Diana, e voc sabe disso. Estou falando de um check-up. No  nada demais.
       - Pode no ser para voc, mas  demais para mim.
       - Ento, por que no vai ao meu consultrio? Posso fazer um simples exame de sangue para verificar se no  uma infeco branda que a est consumindo, ou 
se est anmica. Posso receitar-lhe umas vitaminas. Nada demais.
       - Pode ser - disse ela, com alguma hesitao, e antes de ir embora Jack voltou a insistir com ela.
       - Quero v-la no consultrio amanh.
       Diana achou que era bobagem, mas na manh seguinte, depois que Andy foi para o escritrio, ela vomitou durante quase uma hora e depois ficou quase desacordada, 
no cho do banheiro, enquanto Hilary berrava de fome no quarto.
       - Est bem - murmurou Diana, sentindo-se como se estivesse  beira da morte. - J vou... j vou. - Uma hora depois, ela e Hilary estavam no consultrio de 
Jack. Contou a ele o que tinha acontecido e Jack fez algumas perguntas sobre a cor do vmito, se parecia p de caf, se chegou a vomitar sangue alguma vez. Diana 
respondeu negativamente.
       - Porque essas perguntas? - indagou Diana, ansiosa, olhando para Hilary adormecida no cesto de viagem.
       - S quero descartar a possibilidade de uma lcera, certificando-me de que no est vomitando sangue semi-coagulado ou no.
       Jack era ginecologista, mas  claro que estava a par de outros exames.
       - Se houvesse suspeita de lcera voc teria de fazer um exame gastrointestinal. Mas no vamos pensar nisso ainda.
       Jack retirou uma amostra de sangue, fez algumas anotaes, auscultou o trax, depois apalpou o estmago e o baixo-ventre. Ento, olhou para ela por cima dos 
culos.
       - O que  isto? - perguntou, encontrando uma pequena massa na parte inferior do abdome. - Sempre teve isso?
       - Eu no sei. - Assustada, Diana estendeu a mo para sentir tambm. Sabia que estava ali h algum tempo, mas no lembrava quanto, semanas, meses, dias. Estava 
to cansada que quase no podia pensar - No h muito tempo. Talvez desde que trouxemos o beb.
       Franzindo atesta, Jack examinou-a novamente e depois sentou-se na frente de Diana com uma expresso estranha.
       - Quando teve a ltima menstruao?
       Diana tentou lembrar. J fazia algum tempo, mas isso no tinha mais importncia.
       - No sei. Acho que desde que Hilary chegou. Uns dois meses talvez. Por qu? Alguma coisa grave? - Talvez agora, alm de todas as coisas erradas com seu sistema 
reprodutor, tivesse um tumor. - Acha que  um tumor? - Cristo! Era s o que faltava. Talvez fosse cncer. O que iria dizer para Andy? Meu querido... Eu sinto muito, 
de verdade... mas vou morrer e deixar voc com este beb. Seus olhos encheram-se de lgrimas e Jack deu umas pancadinhas tranqilizadoras na mo dela.
       - Acho que pode ser isso, mas creio que  outra coisa. Quais so as chances de voc estar grvida?
       - Ora, deixe disso. - Diana riu e sentou-se na mesa. - No brinque assim comigo, Jack. 
       - Besteira. O que foi que o mdico disse? 
       - Que eu tinha uma chance em dez mil de engravidar. Ou ser que ele disse dez milhes? No me lembro.
       - Acho que  uma possibilidade. Se voc no fosse minha cunhada, eu faria o exame. Que tal se eu pedir a um dos meu colegas para examinar voc? E podemos 
fazer um teste de urina bem rpido. Assim descartamos essa possibilidade. No quero aborrec-la com essa sugesto, mas pode explicar todos os seus sintomas.
       - , eu sei - disse Diana, zangada. - Um cncer tambm.
       - Um pensamento otimista.
       Jack bateu de leve no joelho dela e saiu da sala. Diana estava furiosa com ele por trazer de volta aquele fantasma. J havia sofrido muito e no queria mais 
pensar naquilo. Grvida... que besteira! Jack voltou com uma mulher bonita e jovem. Ele a apresentou a Diana, que se esforou para no ser grosseira.
       - S queremos descartar a possibilidade de gravidez - explicou ele. - Ela foi diagnosticada como estril e disseram que no pode engravidar. Mas encontrei 
alguns sintomas um tanto confusos.
       - J fez o teste de gravidez? - perguntou a mdica e Jack balanou a cabea negativamente e pediu para Diana deitar-se outra vez. Mostrou  colega o que havia 
encontrado e, quando ele apertou sua barriga, Diana sentiu uma espcie de clica.
       - Isso di? - perguntou ele.
       - Di - disse Diana, olhando para a parede. No tinham o direito de fazer aquilo com ela. Era como ressuscitar um morto e no era justo. Ela no queria ouvir 
nada daquilo.
       - Verifique para mim, est bem, Louise?
       - Certo.
       Jack agradeceu e saiu da sala. A mdica ajudou Diana a pr os ps nos suportes. S o fato de estar naquela posio a fez estremecer. A mdica fingiu no ter 
percebido, calou as luvas e comeou o exame.
       - Que mdico voc consultou? - perguntou, enquanto fazia o exame.
       - Alexander Johnston.
       - Ele  o melhor. E o que foi que ele disse?
       - Basicamente, que sou estril.
       - Ele disse por qu?
       - Por causa de um DIU que usei quando estava na universidade, pelo menos foi o que ele achou. Eu nunca tive nenhum sintoma, mas minhas trompas esto bloqueadas 
e tenho aderncias nos dois ovrios.
       O exame continuou e Diana se perguntou quanto tempo demoraria.
       - Acho que isso descartou a possibilidade de fertilizao 'in vitro' - disse Louise e Diana balanou a cabea afirmativamente. 
       - Ele sugeriu um doador de vulos? - Diana fez uma careta e abanou a cabea, tanto para a pergunta quanto para o que a mdica estava fazendo. Nada daquilo 
lhe trazia lembranas agradveis.
       - Sim, sugeriu. E eu no me interessei. Adotamos uma menina em abril. -Louise olhou para Hilary e sorriu.
       - Estou vendo. Ela  uma beleza.
       O exame terminou. Louise sorriu para Diana e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jack entrou na sala.
       - E ento? - Louise olhou para Jack, muito sria.
       - No gosto de contradizer meus colegas - disse, cautelosa, enquanto Diana esperava o veredicto de cncer, mas eu diria que o Dr. Johnston se enganou. Isto 
me parece um tero de dez semanas. Se no tivessem falado que havia problemas, eu no teria a menor dvida. Pode ser at mais tempo. Quando foi o seu ltimo perodo? 
- Diana detestava ouvir falar disso. Fechou os olhos, um pouco tonta.
       - Fim de maro, comeo de abril. - Ela no lembrava.
       - Isso significa mais ou menos trs meses de gravidez.
       - O qu? - Diana olhou para os dois, atnita. - Esto brincando? Jack, no faa isso comigo.
       - No estou brincando, Diana, juro. Falo srio.
       Louise os deixou e Jack pediu a Diana para ir ao banheiro e colher urina para o teste de gravidez, o teste confirmou o diagnstico. Diana estava grvida.
       - No estou... no posso estar... - repetia ela, mas estava e saiu do consultrio atordoada, fazendo Jack prometer que no contaria para ningum.
       Diana foi direto para o escritrio de Andy. Ele estava em reunio e ela de jeans, carregando Hilary adormecida no cestinho de viagem.
       - Eu preciso falar com ele - explicou para a secretria. - Agora! Alguma coisa nos olhos dela disse  mulher que o assunto era srio.
       A mulher desapareceu apressada pela porta e dois minutos depois Andy chegou correndo.
       - O que aconteceu? Hilary est bem? - Andy estava assustado e Diana muito plida e calma.
       - Ela est tima. Preciso falar com voc em particular.
       - Venha ao meu escritrio. Andy carregou Hilary e foram para uma sala com paredes de vidro e lambris com uma bela vista. Voltou-se ento para Diana, preocupado. 
- O que h, Di? - Alguma coisa terrvel tinha acontecido e Andy no queria nem imaginar o que poderia ser. Mas Diana foi diretamente ao assunto.
       - Estou grvida - disse, um tanto confusa ainda.
       - Fala srio? - Andy olhou para ela e depois riu. - Est brincando? - Com um largo sorriso, ele balanava a cabea, ainda em estado de choque.
       - Trs meses, d para acreditar?
       - No, mas, meu bem, estou to feliz por voc... e por mim... e por Hillie... Meu Deus, trs meses, deve ter acontecido quando a trouxemos de So Francisco. 
Espantoso. Mas Andy j tinha ouvido falar de mulheres que engravidam logo depois de adotar uma criana.
       Diana sentou-se, feliz, mas um tanto desconcertada.
       - Eu estava to cansada que nem me lembro de ter feito amor com voc naquele dia.
       - Bem, espero que tenha sido comigo - brincou ele. - Quem sabe? Pode ser uma concepo imaculada.
       - Pouco provvel.
       - Meu Deus. No posso acreditar. Quando vai nascer?
       - No sei. Janeiro, mais ou menos. Eu estava atordoada demais para ouvir o que Jack disse. Dez de janeiro, ou coisa assim.
       - No acredito. Precisamos contar para o Johnston.
       - Para o diabo com Johnston - disse Diana, levantando-se para beijar o marido.
       Ento Andy a ergueu do cho e rodopiaram pela sala.
       - Um viva para ns... um viva para voc! Para a nossa gravidez! - E ento, mais srio: - Como voc est? Cristo, no admira que venha se sentindo to mal.
       - E o mais engraado  que Jack disse que o pior j passou e que devo comear a me sentir melhor dentro de uma ou duas semanas.
       - timo, vamos jantar fora hoje, para comemorar. L'Orangerie. Deixamos Hilary junto com os casacos, se for preciso.
       Andy a beijou e voltou para a reunio e Diana ficou olhando a vista durante um longo tempo, pensando, perplexa, no que estava acontecendo. 
       
* * *

       Naquele vero Pilar procurou levar uma vida mais calma. Fez a amniocentese em junho, morrendo de medo, mas tudo correu bem. Extraram fluido dos dois sacos 
amniticos,com duas agulhas enormes. Agora tinham os resultados. Era um casal de gmeos e ambos estavam bem. Pilar ento achou que estava na hora de contar para 
a me. Telefonou no sbado,  tarde, quase com esperana de que Elizabeth tivesse viajado. Mas ela atendeu o telefone no primeiro toque. Estava de sobreaviso, em 
casa, por causa de duas crianas gravemente doentes.
       - Oh,  voc! - disse ela, surpresa. - Pensei que era do hospital. Como vai?
       Pilar de repente lembrou-se de quando era pequena e se sentia como uma intrusa em assuntos muito mais importantes na vida da me. Mas agora tinha uma coisa 
muito importante para contar.
       - Muito bem. E voc?
       - Bem, muito ocupada. E Brad?
       - Est bem - disse Pilar, nervosa. - Mame, quero contar uma coisa.
       - Voc est doente?
       Pilar notou a preocupao na voz da me e ficou comovida.
       - No, estou bem... Eu... mame, estou grvida. - Sorriu feliz, convencida de repente de que a me ficaria to maravilhada quanto ela. Depois de um longo 
silncio, Elizabeth Graham disse com voz fria.
       - Que bobagem. Eu avisei quando se casou com Brad. Os dois esto velhos demais para pensar em ter filhos.
       - No foi o que os mdicos disseram. Conversamos muito com eles, antes de resolver.
       - Ento foi planejado? - Elizabeth estava chocada.
       - Sim, foi.
       - Que burrice incrvel! - Elizabeth estava com 69 anos e algumas de suas idias no eram muito modernas.
       Para Pilar, aquela reao foi como uma bofetada; porm, nada havia de novo na conversa das duas. Era sempre a mesma coisa, com Pilar esperando absurdamente 
que a me fosse outra pessoa que no era, que jamais fora, que nunca seria.
       - Tem mais. - Comeava a achar divertido escandalizar a me. - So gmeos. 
       - Oh, meu Deus. Voc tomou algum remdio com base hormonal?
       - Tomei - disse Pilar com um sorriso travesso.
       Brad entrou na sala, ouviu por um momento e sacudiu um dedo em riste para Pilar. Ela estava torturando a me e adorando cada minuto da tortura, como uma criana 
levada saboreando ao mximo sua diabrura.
       - Pelo amor de Deus, Pilar, quem foi o doido que a aconselhou a fazer isso?
       - Mame, era o que ns queramos. Mas consultei uma especialista em Los Angeles.  uma das melhores e foi muito bem recomendada.
       - Quem ? No  que eu esteja muito informada sobre esse campo da medicina, mas posso investigar.
       - Helen Ward. Mas no precisa investigar coisa alguma. Ns fizemos isso e s ouvimos elogios.
       - No pode ser muito brilhante se est encorajando mulheres de 44 anos a engravidar. Eu fao de tudo para dissuadi-las disso. Vejo os resultados desses erros 
e, acredite, so desastrosos.
       - Nem todos os seus pacientes so filhos de mulheres com mais de quarenta anos, so? Alguns devem ter mes muito jovens.
       -  verdade. Mas no se deve forar a mo da natureza, Pilar. Sempre pagamos um preo muito alto.
       - Bem, at agora, tudo est timo. A amniocentese foi normal e os dois bebs esto bem, pelo menos geneticamente.
       - Avisaram sobre o risco de infeco nesse teste, ou que voc pode simplesmente perder os bebs? - A voz do julgamento final, vinda da distante Nova York. 
Nem uma palavra de congratulao. Mas, a essa altura, Pilar no esperava nada mais dela. Tinha informado a me da sua gravidez. O que ela iria fazer com a informao 
era assunto dela.
       - Sim, fomos avisados de tudo isso, mas o perigo j passou. Est tudo tranqilo.
       - Alegro-me com isso. - Outro silncio e ento Elizabeth Graham suspirou. - Eu realmente no sei o que dizer, Pilar. Gostaria que voc no tivesse feito isso. 
Suponho que seja tarde demais, mas sem dvida vocs foram mal aconselhados. O que fizeram  arriscado e insensato. Imagine o que vai sentir se perder esses dois 
bebs. Por que se arriscar a isso?
       Pilar fechou os olhos, lembrando o aborto. O consolo abenoado da nova gravidez no apagou o cantinho do seu corao que jamais esquecera aquela perda.
       - Por favor, no diga isso - pediu Pilar. - Tudo vai dar certo.
       - Espero que sim. - E veio ento o golpe de misericrdia: - Brad deve estar ficando senil.
       Pilar riu e, depois de desligar o telefone, comunicou ao marido o diagnstico da me. E Brad riu com ela.
       - Eu esperava que voc no tivesse notado.
       - Muito bem, minha me descobriu seu segredo, senhor! No se pode enganar a boa Dra. Graham!
       - Escute, voc a torturou bastante e saboreou cada minuto. A pobre mulher pensou que estava livre e desimpedida e de repente voc a surpreende, no com um 
neto, mas com dois.  demais para ela.
       - Ora, pelo amor de Deus, no arranje desculpas para minha me. Ela  desumana.
       - No, no  - defendeu-a Brad. - Tenho certeza de que  uma tima mdica. Apenas no corresponde  idia que ns fazemos de uma me. No  seu forte. Mas, 
em outras reas da sua vida, ela deve ser um ser humano de muito valor.
       - Voc fala como meu analista - disse Pilar, beijando-o.
       Mas pelo menos dera a notcia para a me. Agora podia se concentrar em Brad e nos bebs.
       Adam completou um ano em junho. Pilar estava de cinco meses e parecia estar de oito. Tudo estava bem, embora ela fosse obrigada a fazer muito repouso. Tratando-se 
de gmeos, no queriam arriscar um parto prematuro.
       - Como voc est? - perguntou Marina quando a visitou e Pilar riu, esforando-se para sentar-se na cama. Era como lutar com um rinoceronte.
       - Como um estdio de futebol e mais alguma coisa. A maior parte do tempo  uma Terceira Guerra Mundial aqui dentro. Acho que esses dois no vo ser muito 
amigos. Passam o tempo todo dando pontaps um na canela do outro e me deixando quase sem ar. - At atravessar o quarto era uma luta. Pilar no tinha ainda se acostumado 
com o tamanho da prpria barriga.
       - Voc nunca faz as coisas pela metade - comentou Brad com um sorriso, vendo-a entrar na banheira, certo dia.
       Pilar estava incrivelmente grande. E em certos momentos dava para perceber joelhos, braos, cotovelos e pezinhos chutando e se mexendo. No comeo ela achou 
maravilhoso, mas agora, em pleno vero, comeava a ficar desconfortvel. Em setembro sentia-se miservel. Tinha azia o tempo todo e a barriga parecia prestes a explodir, 
a pele estava esticada e rachada, a dor nas costas era tremenda, os tornozelos estavam inchados e, se tentava andar muito alm da varanda, sentia contraes. No 
podia ir a lugar algum e no ousava sair de casa. No tinha ordem se quer para sair do quarto para evitar "estmulo" do tero e um parto prematuro. Seus scios no 
escritrio levavam trabalho para ela fazer em casa, mas Pilar no se sentia muito til, o dia inteiro na cama. No fim do ms ela se perguntava at quando iria agentar. 
Faltavam ainda seis semanas que pareciam as seis semanas mais longas da sua vida, mas, mesmo quando reclamava, Pilar sabia que valia a pena.
       - Nunca mais assisto a filmes pornogrficos com voc - resmungou certa noite, quando o desconforto era extremo, e Brad riu, massageando os tornozelos inchados 
da mulher.
       -  isso que voc ganha por brincar com os maiorais.
       - Pare de se gabar.
       - No estou me gabando. - Brad sorriu e massageou delicadamente a barriga  dela. Sentiu imediatamente um pontap vigoroso e uma agitao. - Nossa, eles no 
param!
       - De jeito nenhum. S dormem quando eu estou em movimento, o que  raro ultimamente.
       Brad riu, observando encantado a movimentao dos bebs. Era tanto desconforto e ele no podia fazer nada. Embora procurasse no demonstrar, Brad estava preocupado 
com o parto. Conversou vrias vezes como Dr. Parker. No momento, o mdico no via necessidade de uma cesrea, mas optaria imediatamente por ela se um dos bebs mudasse 
de posio ou se durante o parto houvesse sofrimento fetal.
       Em outubro contrataram uma instrutora de Lamaze. Olhando para Pilar, Brad se perguntava se ela iria conseguir. Estava com 34 semanas de gravidez e o Dr. Parker 
esperava que no entrasse em trabalho de parto antes de duas semanas.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       



CAPTULO  - 18 -
       
       
 O
utubro foi um ms terrvel para Andy e Diana. Ela estava grvida de quase seis meses e chegou o momento da assinatura dos papis definitivos da adoo. Eric havia 
falado com Jane e Edward recentemente e garantiu a Diana que no haveria qualquer problema. Eles iriam assinar. At a manh de tera-feira, quando Eric pediu para 
falar com Andy ao telefone. Andy ouviu em silncio, sem olhar para Diana, que sentiu imediatamente que alguma coisa horrvel acontecera. Apertou Hilary, agora com 
cinco meses, contra o peito e a menina, sentindo a sua tenso, comeou a chorar. Quando Andy desligou o telefone, Diana adivinhou o que ele iria dizer.
       - O que aconteceu? Eles no assinaram os papis, foi isso? - Com lgrimas nos olhos, Andy assentiu com a cabea.
       - Foi, no assinaram. Querem mais alguns dias para pensar. E talvez venham at aqui visitar Hilary. Andy no queria aborrecer Diana, especialmente agora, 
mas ela precisava saber. Jane no tinha mais certeza. No sabia se queria voltar a estudar, no sabia se tinha feito a coisa certa; dvidas razoveis, certamente, 
mas no para Diana e Andy. - Edward quer assinar, mas Jane pediu mais alguns dias. E disse a Eric que talvez queira ver a filha.
       - Ela no pode - disse Diana, levantando-se da cadeira com um gesto nervoso. - Eles desistiram... no podem tom-la de ns agora - objetou, chorando.
       - Meu bem - Andy procurou faz-la entender, com a maior calma possvel - eles podem fazer o que quiserem, at a assinatura dos papis.
       - Voc no vai deixar que faam isso. - Diana estava chorando e Andy tirou Hilary dos seus braos, cuidadosamente.
       - Procure se acalmar. - Andy no queria perder o filho que esperavam, por causa de Hilary, por mais que a amasse. - Temos de esperar e ver o que acontece.
       - Como pode dizer isso? - gritou Diana. Amava Hilary como se fosse sua e sabia que, por mais que amassem o filho dos dois, jamais o amariam mais do que a 
Hilary. Hilary era sua primeira filha, seu primeiro amor, e no ia devolv-la para ningum. - No quero que Jane a veja.
       Entretanto, Eric telefonou avisando que Jane e Edward estavam a caminho. Disse que Jane parecia confusa ao telefone e aconselhou Andy e Diana a ficarem calmos 
e permitirem que ela visse a filha.
       - Eu compreendo - disse Andy -, mas Diana no. Est praticamente histrica. - Contou a Eric que Diana estava grvida, o que era outro problema para Jane. 
Ela poderia achar que, com a chegada desse filho, Hilary seria prejudicada. - Oh, meu Deus! - exclamou Andy. - Por que a vida nunca  simples?
       - Porque se fosse no teria graa nenhuma - disse Eric e Andy suspirou.
       No seria fcil para Diana. No fim, Edward e Jane passaram dois dias em Los Angeles, num motel perto da casa dos Douglas, e os visitaram vrias vezes. Jane 
queria v-los e insistia em segurar Hilary, o que quase enlouquecia Diana. Tinha medo de que Jane fugisse com ela, mas isso no aconteceu. A maior parte das vezes 
ela ficava sentada, com o beb no colo, chorando, e Edward no dizia nada. O relacionamento dos dois parecia mais tenso do que quando Hilary nasceu e Jane parecia 
muito nervosa. Ento, no segundo dia, ela contou que acabara de fazer um aborto. No queria ter outro filho agora, mas isso havia alterado seu modo de pensar sobre 
a adoo. Comeara a se perguntar se tinha feito a coisa certa ao entregar o beb aos Douglas, cinco meses antes. E estava convencida de que a segunda gravidez foi 
devida unicamente ao sentimento de culpa e porque ela queria um filho.
       - Ento agora voc quer o meu - explodiu Diana. - Hilary  nossa agora. Ns cuidamos dela quando ficou doente, levantamos quatro vezes durante a noite, ns 
a pegamos no colo e a acariciamos, ns a amamos.
       - Mas eu a tive comigo durante nove meses - disse Jane, horrorizada.
       Os dois homens apenas observavam sem poder fazer nada.
       - Eu sei - replicou Diana, tentando se acalmar - E sempre serei grata a voc por entreg-la a ns. Mas no pode nos tirar o beb agora. No pode simplesmente 
dizer "Aqui est, amem esta criana para sempre" e, de repente: "No, eu sinto muito, mudei de idia porque fiz um aborto." E onde ela fica em tudo isso? Como fica 
sua vida? O que vocs podem oferecer? O que mudou nos ltimos cinco meses? O que a faz pensar que sero melhores do que ns para ela?
       - Talvez o fato de ser sua me - argumentou Jane, suavemente. Sentia-se culpada com o que estava fazendo, mas precisava saber se queria a filha. - No quero 
me arrepender disto pelo resto da minha vida - disse, com franqueza.
       Mas Diana foi franca tambm.
       - Vai se arrepender. Jane. Para sempre. Vai sempre pensar como poderia ter sido, como a vida seria diferente. Ns todos vamos pensar nisso. E dar um filho 
 um dos atos mais marcantes na vida de uma mulher. Mas cinco meses atrs, voc estava certa de que queria fazer isso.
       - Ns dois estvamos - disse Edward, calmo. - E eu ainda estou. Mas Jane agora est indecisa. - Ele teria preferido um aborto, mas, uma vez que no fora essa 
a opo de Jane, no precisavam ficar com o beb. Dissera isso a ela, mas Jane estava quase em pnico com a idia de dar a filha.
       - Eu simplesmente no sei - disse-lhes Jane, ao sarem naquele dia, e Diana teve vontade de gritar e pedir para no tortur-los mais. Ela no iria suportar. 
E passou o dia inteiro com contraes, o que deixou Andy preocupado.
       Naquela noite Edward quase os matou de medo quando telefonou do hotel, perguntando se poderiam falar com eles. Jane queria dizer uma coisa muito importante.
       - Agora? - perguntou Andy e Diana empalideceu.
       - Ela vai levar o beb, no vai? Ela vai... O que foi que ele disse?
       - Diana, pare com isso. Ele no disse nada. S que Jane quer nos dizer uma coisa.
       - Por que ela est fazendo isso conosco?
       - Porque  uma deciso importante para ela tambm.
       E os dois compreendiam que devia ser terrvel. Nem podiam imaginar ficar sem Hilary, mas esperavam que Jane resolvesse ficar sem ela para sempre. De certo 
modo, no era justo, mas sabiam tambm que a vida no era justa. E rezaram para que ela voltasse  primeira deciso. Depois de uma espera que pareceu interminvel, 
 meia-noite e meia eles chegaram, Jane estava tristonha e plida e era evidente que ela havia chorado. Edward parecia zangado com ela. Sua pacincia estava quase 
no fim e ele queria voltar logo para So Francisco. Diana os convidou a entrar, mas Jane ficou parada na porta e abanou a cabea, comeando a chorar.
       - Eu sinto tanto - murmurou ela e Diana preparou-se para o pior, pondo a mo na barriga, num gesto instintivo, como para pelo menos salvar aquele beb. - 
Eu sinto tanto - repetiu Jane. - Sei que foi difcil para vocs... - Um soluo embargou sua voz. - Mas eu precisava ter certeza. Sei que no poderia... no posso... 
acho que eu sempre soube que no poderia ficar com ela. - Diana pensou que desmaiaria e segurou o brao de Andy, que a abraou. - Vamos voltar para So Francisco 
agora. - Entregou um envelope para Diana. - Eu assinei os papis. - Diana comeou a chorar, mas Jane de repente parecia mais controlada do que nunca e olhou para 
Diana e Andy. - Posso v-la mais uma vez? Prometo que nunca mais a procurarei. Ela  sua agora.
       Ela parecia to pattica, ali parada na porta, que Diana no teve coragem de negar e as duas subiram a escada em silncio. Hilary dormia profundamente no 
bero novo, no canto do quarto de Diana e Andy. Tinha um quarto para ela no terceiro andar, mas preferiam que ficasse perto deles. No tinham ainda coragem de tir-la 
do seu quarto. Jane olhou para ela, como corao cheio de amor, os olhos rasos de lgrimas, e encostou a mo de leve no rosto da filha, com numa bno.
       - Durma bem, meu amor - murmurou para a criana adormecida e as duas mulheres comearam a chorar. - Eu sempre a amarei.
       Ento ela a beijou e Diana sentiu um aperto na garganta. Jane ficou parada ainda por mais algum tempo, olhando para o bero, depois desceu a escada sem uma 
palavra e sem o seu beb. Apertou a mo de Diana e foi para o carro, seguida por Edward. Diana fechou a porta e no conseguia parar de chorar. Sentia-se culpada 
e muito triste, com pena de Jane, e aliviada porque Hilary era deles agora. Sob aquela avalanche de sentimentos, ela procurou a proteo dos braos de Andy.
       - Vamos - disse ele, subindo a escada abraado com ela. Eram quase duas horas da manh e estavam esgotados pelas emoes dos dois ltimos dias.
       Andy pensou que s por milagre Diana no havia entrado em trabalho de parto. Ele a fez ficar na cama no dia seguinte e tomou conta de Hilary. Eric Jones voou 
de So Francisco para apanhar os papis. Tudo estava assinado. Tudo estava feito. Hilary Diana Douglas estava a salvo e era deles para sempre.
       - Nem acredito que acabou - disse Diana, quando Eric partiu.
       Ningum poderia levar Hilary agora, ningum poderia voltar nem mudar de opinio. Ningum poderia tir-la deles.














CAPTULO  - 19 -
       
       
 O
s gmeos de Pilar e Brad deveriam nascer no comeo de novembro e, naquele ltimo ms, ela s saa da cama para ir ao banheiro. Havia algumas semanas que seu colo 
uterino comeara a adelgaar e ela j apresentava alguma dilatao. Cada vez que ela se levantava, nem que fosse por pouco tempo, sentia contraes. Estava farta 
de ficar deitada, nervosa, com medo de que alguma coisa sasse errada, que um deles fosse estrangulado pelo cordo ou que um machucasse o outro.
       Treinou a respirao Lamaze com Brad e no ltimo dia de outubro os bebs estavam praticamente imveis. Quase no tinham espao e Pilar parecia ter engolido 
um prdio. s vezes ela se olhava no espelho e ria da figura ridcula. Era como se tivesse no ventre uma pilha de bebs.
       -  um feito e tanto - brincou Brad, certa noite, ajudando-a a sair da banheira. Pilar no podia fazer mais nada sozinha. No podia tomar banho sem a ajuda 
dele, nem calar os sapatos ou os chinelos, e na primeira semana de novembro no conseguia nem levantar-se do vaso sanitrio sem ajuda. Marina a visitava sempre 
que podia e Nancy ficava com ela freqentemente quando Brad estava trabalhando. Ela sempre elogiava Pilar por estar suportando tudo to bem, dizendo que no trocaria 
de lugar com ela nem por amor nem por dinheiro. Como disse para o marido certo dia, a vida de todo mundo prosseguia, as pessoas saam para jantar e se divertir, 
e a pobre Pilar enorme como um balo, prestes a explodir com dois bebs. Elizabeth telefonava regularmente, ao que parecia conformada com a idia de Pilar estar 
grvida. E vrias vezes se ofereceu para visit-la, mas Pilar no a queria por perto.
       Pilar queixava-se de que h seis meses no ia ao cabeleireiro, mas sempre que comeava a ficar deprimida, Brad lembrava que iria valer  pena. E ela sabia. 
Mas era incrivelmente cansativo ficar na cama o tempo todo,  espera do momento do parto. Os gmeos pareciam estar bem e, numa das suas visitas, o mdico disse que 
um era um pouco maior do que o outro, provavelmente o menino. Isso acontecia muitas vezes, mas nem sempre. Disse tambm que havia convocado uma equipe de mdicos 
para o parto. Devido  sua idade e ao fato de ser um parto mltiplo, ele queria outro obstetra ao seu lado e dois pediatras para as crianas.
       - Parece uma festa - disse Brad, aliviando a tenso. Notou que Pilar ficara preocupada quando o mdico falou em "equipe" e quando descreveu o que aconteceria 
se precisasse fazer uma cesariana. Ele ainda no via motivo para isso, mas queriam estar preparados para qualquer coisa. Brad notou que nas duas ltimas semanas 
Pilar estava muito nervosa.
       O Dr. Parker disse tambm que no deixaria que ela passasse da data marcada. Havia muita coisa em jogo, especialmente tratando-se de gmeos. No entanto, uma 
semana antes da data marcada, Pilar comeou a ter contraes de manh. O mdico recomendou que ela andasse pela casa por algum tempo, para ajudar. Pilar surpreendeu-se 
com a fraqueza que sentia, depois de ficar na cama durante tanto tempo. Estava com as pernas bambas e no conseguiu caminhar por muito tempo. No tinha foras e 
a barriga estava grande demais. No fim da tarde, as dores chegavam regularmente. Brad fez ch para ela e ento tudo parou outra vez. Era uma espera angustiante.
       - Meu Deus, eu queria que isto acabasse logo - disse Pilar.
       Mas naquela tarde no aconteceu mais nada, at o rompimento da bolsa d'gua, logo depois do jantar. As contraes, porm, no voltaram e o mdico aconselhou-a 
a ir para o hospital. Ele queria acompanhar de perto.
       - O que h para acompanhar? - reclamou ela, a caminho do Cottage Hospital. - No est acontecendo nada. Por que estamos indo para o hospital? Isto  idiotice.
       Brad olhou para a barriga dela e riu, aliviado por poder entreg-la aos mdicos. No queria ter sua primeira aula de obstetrcia fazendo o parto dos gmeos 
em casa. Para ele,bastava ter concordado em assistir ao parto. No gostava da idia, mas Pilar precisava dele.
       O Dr. Parker a examinou quando chegaram e logo depois Pilar sentiu algumas contraes fracas. Ficou satisfeita em saber que as contraes da manh haviam 
ajudado a dilatar o colo uterino. O mdico estava certo de que no iria demorar muito.
       - O trabalho de parto vai comear muito em breve . - Prometeu ele e foi para casa, dizendo que voltaria assim que o chamassem do hospital. Pilar e Brad viram 
um pouco de televiso e ela cochilou por algum tempo. Acordou de repente com uma sensao estranha, uma presso violenta.
       Chamou Brad, quase em pnico, e ele foi buscar a enfermeira.
       - Acho que o trabalho de parto comeou, Sra. Coleman - sorriu a enfermeira, saindo do quarto para chamar o mdico. Logo depois, um dos mdicos do hospital 
entrou para examin-la. Pilar no gostou da idia e, quando estava discutindo com ele, teve uma contrao violenta. Era como se a sua barriga enorme estivesse presa 
num torno e apertada at deix-la sem ar. Pilar segurou com fora a mo de Brad e tentou lembrar-se dos exerccios de respirao, e algum que ela no podia ver 
levantou uma das extremidades da cama.
       - Oh, Deus... foi horrvel - gemeu ela, quando a dor passou. Seu cabelo estava mido de suor e a boca seca, apenas com uma contrao. Mas o corpo sabia que 
tinha de trabalhar muito e, antes que o mdico assistente recomeasse a discusso, ela teve outra. A enfermeira saiu correndo do quarto para telefonar ao Dr. Parker 
e dizer que Pilar Coleman estava em trabalho de parto.
       Quando estava sendo examinada pelo segundo obstetra, as contraes ficaram mais fortes e Pilar tentou afast-lo dela. De repente, ela estava perdendo o controle. 
Mais dois mdicos entraram no quarto e duas enfermeiras fixaram o soro na sua mo. Outra prendeu o monitor na sua barriga a fim de verificar as batidas dos coraes 
dos fetos e a intensidade das contraes. Mas a presso do cinto do monitor aparentemente aumentava a dor. Era horrvel. Pilar sentia-se como um animal amarrado, 
puxado de todos os lados. Muita coisa estava acontecendo e tudo completamente fora do seu controle.
       - Brad... eu no posso... eu no posso... - Ela tentava escapar de toda aquela gente, mas a barriga enorme e as dores ferozes a impediam de se mover. - Brad, 
diga que parem com isso! - Queria que a deixassem sozinha, que tirassem o cinto e o soro, que parassem de machuc-la. Mas no podiam fazer isso, o bem-estar das 
crianas estava em jogo e Brad no podia ajudar.
       Ele procurou falar rapidamente com a enfermeira chefe e com o mdico, assim que ele chegou.
       - No se pode fazer nada para facilitar as coisas? - perguntou Brad. - O monitor  desconfortvel e acho que os exames pioram as contraes.
       - Eu sei disso, Brad - respondeu o Dr. Parker. - Mas ela tem dois bebs ali dentro, e se no vamos fazer uma cesrea, precisamos saber o que est acontecendo. 
E caso seja necessria a cesariana, temos de saber mais ainda. No podemos nos descuidar. - E o mdico voltou a ateno para a paciente.
       - Como vamos indo? - perguntou com um sorriso encorajador.
       - Horrvel - disse Pilar e de repente sentiu que ia vomitar. A nsia de vmito aumentava com cada dor e, no meio de todo aquele sofrimento, a presso aumentava 
e ela sentia cada vez mais a necessidade de fazer fora para baixo e para fora. Talvez j estivesse na fase de empurrar, pensou, esperanosa, talvez essa fosse a 
pior parte e j estivesse chegando ao fim, mas, quando perguntou  enfermeira, esta disse que ainda estava muito longe do estgio de empurrar o beb. Isso era s 
o comeo.
       - Analgsico - disse ela com a voz rouca, quando o mdico chegou perto da sua cabea outra vez. Mal podia falar. - Quero um analgsico.
       - Falaremos sobre isso daqui a pouco.
       Pilar recomeou a chorar e segurou a manga do mdico.
       - Eu quero agora - disse, tentando sentar-se, mas o monitor a impediu, bem como a contrao seguinte. - Oh, Deus... - gemeu ela, apertando a mo de Brad. 
- Escute o que estou dizendo... algum me escute...
       - Estou ouvindo, querida - disse Brad.
       Mas Pilar quase no podia v-lo. Havia tanta gente na sala, tanta coisa estava acontecendo. Como foi que tudo de repente fugiu ao seu controle e por que ningum 
escutava o que ela dizia? S podia ficar ali deitada, soluando entre uma contrao e outra, quando no estava gritando de dor.
       - Diga a eles para fazerem alguma coisa... por favor.., faa parar isto...
       - Eu sei, meu bem... eu sei... Mas ele no sabia. E comeava a se arrepender da coisa toda. Todos os hormnios e medicamentos, as visitas  Dra. Ward, e o 
resultado era aquilo. Para Brad era uma agonia ver Pilar sofrer tanto sem poder fazer nada. Nunca se sentira to intil.
       - Quer que a levem para a sala de parto - o segundo obstetra disse para o Dr. Parker. - Se precisarmos fazer uma cesrea, quero estar com tudo preparado.
       - De acordo - concordou o Dr. Parker.
       E, de repente, a agitao no quarto aumentou, surgiram mais pessoas, mais mquinas e, para Pilar, mais exames, mais contraes. Eles a levaram pelo corredor, 
Pilar pedindo para que fizessem aquilo nos intervalos das dores, mas todos queriam que ela chegasse o mais depressa possvel na sala de parto. Tinham de pensar na 
segurana das crianas e no no conforto da me. Era uma hora da manh e Brad tinha a impresso de que estavam no hospital h uma eternidade.
       Na sala de parto eles a passaram para a mesa, ergueram suas pernas, apoiando-as nos suportes de metal, cobriram-na com lenis esterilizados, prenderam seus 
braos e ajustaram o soro a um dos braos, enquanto Pilar reclamava do desconforto da posio, entre uma contrao e outra. Ela disse que iriam quebrar seu pescoo 
e suas costas, mas ningum a ouviu. Todos estavam ocupados com outras coisas. Agora havia trs pediatras na sala, vrios residentes, um batalho de enfermeiras e 
os dois mdicos.
       - Meu Deus - disse ela para Brad, a voz rouca, entre duas contraes-, o que estamos fazendo? Vendendo entradas?
       Com o monitor preso  barriga, tinha a impresso de que algum examinava sua vagina cada vez que respirava. Segundo a enfermeira, ela estava com dez centmetros 
de dilatao e j podia comear a fazer fora.
       - Muito bem - alegraram-se todos, mas Pilar no deu a mnima e a essa altura sabia que no lhe dariam nada para a dor.
       - Por que no podem me dar alguma coisa? - gemeu ela.
       - Porque no  bom para seus bebs - disse uma das enfermeiras com firmeza.
       Mas um minuto depois Pilar no podia mais pedir nada porque a dor era violenta demais e ela comeou a empurrar. Para Brad, aquilo parecia um pesadelo. Eles 
gritavam, ela fazia fora, depois gritava e assim que uma contrao terminava, outra comeava e eles gritavam, e ela gritava. Ele no entendia por que no davam 
alguma coisa para aliviar a dor, mas o mdico explicou que um anestsico anestesiaria tambm os bebs.
       Parecia que Pilar estava fazendo fora a horas e nada acontecia. Brad olhou para o relgio e viu que eram quase quatro horas da manh. Imaginou quanto tempo 
mais ela poderia resistir sem perder a razo. E, de repente, houve outro surto de animao. Apareceram duas pequenas bacias de metal e o crculo de mscaras se fechou 
em volta da extremidade da mesa. Pilar parecia no parar mais de gritar. Era quase um uivo, longo e contnuo, sem comeo, sem fim e ento todos estavam gritando, 
estimulando, encorajando, e Brad viu a cabea do primeiro beb, saindo para o mundo, com um grito lento e longo, igual ao da me.
       -  um menino! - disse o mdico e Brad ficou apavorado com a cor azul do beb, mas a enfermeira disse que era normal e um minuto depois o beb estava melhor. 
Eles o levaram para perto de Pilar, para que ela o visse, mas ela estava exausta demais para prestar ateno a qualquer coisa. As dores continuavam e o mdico precisou 
usar o frceps para corrigir a posio do outro beb. Brad no podia olhar para o que estavam fazendo com ela e, com a mo apertada pela de Pilar, rezava para que 
tudo corresse bem.
       - Mais um pouco, meu bem... est quase no fim... - Esperava no estar mentindo, mas no sabia ao certo.
       - Oh, Brad...  horrvel...
       - Eu sei... eu sei... est quase no fim...
       Mas aquele beb era muito mais teimoso do que o primeiro e, s cinco horas, Brad viu os dois mdicos confabulando.
       - Teremos de fazer uma cesariana se a menina no sair logo - explicaram para Brad.
       - Vai ser mais fcil para ela? - perguntou baixinho, esperando que Pilar no pudesse ouvir. Mas no meio de tanta dor, fazendo tanta fora, ela no ouvia nada 
e nem ningum.
       - Pode ser. Teremos de dar anestesia geral,  claro, no poderamos de modo algum fazer uma peridural agora, mas seria um trauma duplo para ela: um parto 
vaginal com episiotomia e uma inciso. Demoraria muito mais para se refazer. Tudo depende do que o beb fizer nos prximos minutos. - O primeiro j havia sido examinado 
e estava num bero de vime berrando a plenos pulmes.
       - No me importa o que vocs faam - replicou Brad. - Desde que seja o melhor e o mais fcil para ela.
       - Quero tentar primeiro o parto vaginal - disse o mdico, voltando a trabalhar com o frceps. Quando estavam quase desistindo, o beb se moveu e comeou a 
descer lentamente.
       Eram seis horas e Pilar estava quase inconsciente. E ento, de um momento para o outro, l estava a menina. Tinha a metade do tamanho do irmo e olhou ansiosa 
em volta, como  procura da me. Nesse momento, quase instintivamente, Pilar ergueu a cabea e a viu.
       - Oh, ela  linda - disse Pilar, exausta, deitando outra vez a cabea e sorrindo para Brad entre as lgrimas. Foi terrvel, mas valeu a pena, pensou ela. 
Tinha dois lindos bebs. Cortado o cordo, duas enfermeiras levaram a menina e deitaram-na no segundo bero para que fosse examinada pelo pediatra. Dessa vez, porm, 
no ouviram o choro do beb e o silncio desceu sobre a sala.
       - Ela est bem? - perguntou Pilar, mas de repente todo mundo estava muito ocupado.
       Brad olhou para o filho no bassinete, num canto, com duas enfermeiras observando-o, os bracinhos e perninhas agitando-se no ar. Mas para ver a filha afastou-se 
um pouco de Pilar. E ento ele a viu, no centro do crculo de mdicos e enfermeiras que tentavam desesperadamente faz-la respirar. Um mdico aplicava a respirao 
artificial, e comprimia o peito pequenino, mas o beb continuava imvel. Nada do que fizeram conseguiu traz-la de volta  vida. Brad olhou horrorizado para o mdico 
e Pilar, ao lado dele, queria saber o que estava acontecendo. Seu corao quase parou. O que iria dizer a ela?
       - Eles esto bem, Brad?... No estou ouvindo o choro deles...
       - Esto bem - disse Brad e a enfermeira aplicou uma injeo em Pilar. O efeito foi quase instantneo e Brad olhou para o mdico.
       - O que aconteceu? - perguntou, atordoado. Aquela era uma experincia trgica que nem o nascimento do filho podia amenizar.
       -  difcil dizer. Ela era muito pequena. Creio que perdeu muito sangue para o irmo.  o que chamamos transfuso entre gmeos. Isso a enfraqueceu e ela no 
tinha condies para respirar. Pulmes mal desenvolvidos, suponho, e pequena demais para sobreviver ao trauma. Talvez devssemos ter feito a cesrea - disse o mdico, 
abatido.
       Brad olhou para Pilar, que dormia profundamente agora, imaginando o que diria a ela. Tanta alegria transformada de repente em dor.
       Mas os pediatras concordaram com o mdico. Havia um problema de formao nos pulmes da menina, que ningum poderia ter detectado. O ritmo cardaco mantivera-se 
normal durante o parto, mas, tendo perdido sangue para o irmo, ela no fora capaz de sobreviver fora do ventre da me. Haviam feito todo o possvel para reanimar 
o beb.
       Brad sabia todos os fatos agora, mas no compreendia por que aquilo acontecera. Pilar foi levada para a sala de recuperao e ele ficou um longo tempo olhando 
para a filha, os olhos rasos de lgrimas. Ela era to pequenina, to bonita, to perfeita, que parecia dormir.
       O menino chorava, como se adivinhasse que alguma coisa estava errada. Ele estava to acostumado  companhia dela, a dar chutes nela e, de repente, ela no 
estava mais l, tampouco a me. Sem pensar, Brad estendeu a mo e tocou o corpo pequenino, morno ainda, com vontade de tom-la nos braos. O que iria dizer a Pilar? 
O que poderia dizer? Como contar a ela que um dos gmeos estava morto? Ela acordaria, esperando ver dois milagres, para saber que de um momento para o outro a tragdia 
havia levado sua filha. Era uma crueldade e Brad ficou um longo tempo olhando para o beb, que parecia dormir.
       - Sr. Coleman - disse uma enfermeira, suavemente. Precisavam levar o beb e combinar com ele o que deveria ser feito para o enterro. - Sua mulher est acordada, 
pode v-la agora, se quiser.
       - Muito obrigado - disse ele, muito plido. Tocou outra vez a mozinha da filha e a deixou, sentindo que deveria ficar ali, que ela precisava dele. - Como 
est minha mulher? - perguntou, seguindo a enfermeira para a sala de recuperao.
       - Melhor do que estava h pouco - sorriu a enfermeira.
       Mas no por muito tempo, pensou Brad, tentando analisar o que estava sentindo.
       - Onde esto eles? - perguntou Pilar, com voz fraca, assim que o viu. Havia perdido muito sangue e suportado durante muito tempo uma dor intensa. Brad olhou 
para ela com lgrimas nos olhos.
       - Eu a amo tanto e voc foi to corajosa - disse ele, tentando inutilmente conter as lgrimas, desejando que as coisas fossem diferentes, procurando no assust-la.
       - Onde esto os bebs? - Pilar perguntou outra vez.
       - Ainda na sala de parto. - Pela primeira vez em sua vida Brad mentiu para ela. Mas tinha de mentir. Pilar no precisava saber ainda, era cruel demais saber 
que a menina estava morta, especialmente depois de ter visto aquele rostinho perfeito. O menino parecia muito mais forte, muito mais preparado para a vida. - Logo 
iro traz-los. - Brad mentiu outra vez e Pilar voltou a dormir.
       Mas, na manh seguinte, no podiam mais esconder a verdade. Brad entrou no quarto com o mdico e por um momento pensou que ela no resistiria. Pilar, sentada 
na cama, empalideceu, fechou os olhos e Brad a abraou, impedindo que ela casse para o lado.
       - No... diga que no  verdade! - gritou ela. - Esto mentindo!
       O mdico tinha se encarregado de dar a notcia. Disse simplesmente que a menina morrera logo depois de nascer por ter perdido sangue para o irmo na transfuso 
entre gmeos e por ter os pulmes mal desenvolvidos. Disse que ela no poderia sobreviver de modo algum.
       - No  verdade! - gritou Pilar, histrica. - Vocs a mataram! Eu a vi! Ela estava viva... olhou para mim...
       - Sim, ela olhou para a senhora - disse ele, tristemente. - Mas nem por um momento conseguiu respirar adequadamente. Ela no respirou, no chorou e fizemos 
todo o possvel para reanim-la.
       - Eu quero v-la - soluou Pilar. Tentou sair da cama, mas estava fraca demais. - Quero v-la agora. Onde ela est? - Os dois homens entreolharam-se, mas 
o mdico no era contrrio  idia. J haviam feito isso antes e s vezes ver a criana e dizer adeus a ela ajudava a famlia a suportara perda. A menina estava 
no necrotrio do hospital, mas no havia nenhum motivo para que a me no a visse. - Quero que me levem at ela.
       - Daqui a pouco vamos lev-la para um quarto - disse o Dr. Parker. 
       Pilar soluava, encostada no marido, tentando compreender. Por pior que tivesse sido o sofrimento, ela estava feliz durante o parto e agora sua filha estava 
morta. No tinha chegado sequer a tom-la nos braos. 
       - Quer ver seu filho agora?
       Pilar comeou a abanar a cabea, mas olhou para Brad e fez um gesto afirmativo. Ele parecia to arrasado, to abatido, e ela no tinha o direito de piorar 
as coisas. Tudo que ela desejava, porm, era morrer para estar com a filha.
       - Vou mandar traz-lo - disse o mdico, saindo do quarto.
       Voltou logo depois com a criana. O menino pesava quatro quilos e meio, o que era demais para um gmeo. Mas a menina pesava menos de dois quilos. Ele tinha 
tudo de que precisava para sobreviver,  custa dela. Um caso clssico de sobrevivncia do mais apto.
       - Ele  lindo, no ? - disse Pilar tristemente, como se o menino no estivesse ali, e no estendeu os braos para segur-lo. Apenas olhou-o pensativa, imaginando 
por que ele estava vivo e a irm no. Brad tirou-o do colo da enfermeira e o ps cuidadosamente nos braos de Pilar e, chorando copiosamente, ela o beijou.
       Quando a enfermeira saiu do quarto com o beb, ela pediu outra vez para ver a filha. Eles a conduziram numa cadeira de rodas a um quarto vazio, frio, triste 
e estril. Logo a enfermeira entrou com o beb num bassinete, enrolada num cobertor, o rostinho to doce, parecendo ainda adormecida.
       - Quero segur-la um pouco. - Brad ps o beb carinhosamente nos braos da me, onde a menininha no tinha estado ainda, e Pilar tocou com os lbios os olhinhos, 
a boca, o rosto, as mozinhas, beijando cada dedinho, como para instilar nela o sopro da vida. Como se pudesse mudar o que acontecera por no poder aceitar.
       - Eu te amo - murmurou ela suavemente. - Sempre a amarei. Eu a amei antes de voc nascer e a amo agora, meu doce beb.
       Brad chorava incontrolavelmente.
       - Eu sinto tanto - disse ele - Eu sinto tanto...
       - Quero que o nome dela seja Grace - disse Pilar, tocando de leve a mo do marido. - Grace Elizabeth Coleman - Elizabeth pela me dela. De certo modo, agora 
isso parecia certo. Brad apenas fez um gesto afirmativo. Era insuportvel a idia de que, no meio de tanta alegria, tivessem agora de sepultar sua filha.
       Pilar ficou imvel por um longo tempo, com o beb nos braos, olhando para o rostinho que parecia adormecido, como para grav-lo para sempre na lembrana... 
Talvez para quando se encontrassem algum dia, no cu... Ento a enfermeira entrou no quarto. Iria levar o beb para a casa funerria contratada por Brad naquela 
manh.
       - Adeus, meu anjo - disse Pilar, beijando-a outra vez. Quando saram do quarto, foi como se uma parte da sua alma tivesse sido arrancada para ser sepultada 
com a filha.
       No quarto em que Pilar iria ficar, o outro beb dormia e a enfermeira que estava ao lado dele olhou tristemente para Pilar, sabendo de onde eles vinham. Ajudou-a 
a se deitar e estendeu para ela o beb adormecido.
       - Eu no o quero agora - disse Pilar, balanando a cabea e tentando afast-lo, mas a enfermeira o ps nos braos da me, olhando nos olhos de Pilar.
       - Ele precisa da senhora, Sra. Coleman... e a senhora precisa dele... - disse com firmeza e saiu do quarto, deixando o beb com os pais. Tinham lutado duramente 
por ele, que viera trazendo ao mesmo tempo uma tragdia e uma bno.
       Mas ele no era culpado pela morte da irm. Com o filho no colo, Pilar sentiu seu corao abrir-se. Ele era to doce, to gorducho, to diferente da pequena 
Grace. Era todo masculino... e Grace parecia um anjo pequenino, uma brisa.., um murmrio que voltara para Deus para sempre.
       Foi um dia estranho para os dois, um dia de alegria e de dor, de raiva e euforia, desapontamento e mgoa, um arco-ris de emoes que no conseguiam compreender. 
Mas pelo menos estavam juntos. Nancy chegou e soluou nos braos de Pilar, s as lgrimas dizendo o que estava sentindo. Tommy chorou tambm e disse o quanto sentia 
por eles. Todd telefonou, sem saber o que se passara, e Brad contou, chorando sentidamente. 
       Quando ficou sozinha por um momento, Pilar telefonou para a me. E, pela primeira vez em sua vida, Elizabeth realmente a surpreendeu. No era a grande Dra. 
Graham falando, mas a av de uma criana morta, a me de uma mulher que estava sofrendo terrivelmente, e as duas conversaram e choraram durante uma hora ao telefone. 
Pilar conteve a respirao quando Elizabeth falou do filho que perdera de morte sbita, antes de Pilar nascer.
       - Ele estava com cinco meses e, de certo modo, acho que nunca mais fomos os mesmos. Eu sempre achei que a culpa foi minha porque estava sempre muito ocupada 
depois que ele nasceu. Nunca passei muito tempo com ele. Ento fiquei grvida de voc e nunca ousei me aproximar de voc. Acho que tinha medo de que voc morresse 
tambm.
       Eu no queria jamais amar nenhum ser humano como o tinha amado. Pilar... minha querida... eu sinto tanto... - disse a me, entre soluos, e Pilar chorou incontrolavelmente.
       - Espero que saiba o quanto eu sempre a amei... - Ela mal podia falar e Pilar sentiu-se sufocar por tudo que sentira por mais de quarenta anos.
       - Oh, mame... eu a amo... Por que nunca me contou?
       - Seu pai e eu nunca tocvamos no assunto. Naquele tempo tudo era diferente. No se falava sobre coisas dolorosas. Era embaraoso. ramos todos to idiotas. 
Foi a pior coisa que me aconteceu na vida, eu no tinha com quem falar e acabei aprendendo a viver com o sofrimento. Isso me ajudou quando voc nasceu e dei graas 
a Deus por ser uma menina. Pelo menos era diferente... O nome dele era Andrew - disse, com voz suave. - Ns o chamvamos de Andy... - Sua voz era triste e jovem, 
e o corao de Pilar condoeu-se por ela. A me tinha vivido quase cinqenta anos com aquela dor e Pilar jamais soubera. Aquilo explicava uma poro de coisas e, 
mesmo sendo tarde demais para a menina que ela fora, significava muito para ela saber disso agora. - A dor no vai passar facilmente - continuou a me. - Levar 
muito tempo... mais do que voc pensa que pode suportar. E nunca desaparecer completamente. Voc vai viver com ela todos os dias, Pilar, ou talvez esquea por um 
ou dois dias, mas ento acontecer alguma coisa que far com que se lembre. Mas voc tem de continuar vivendo, dia aps dia, momento aps momento... por Brad, por 
voc.., por seu filho... Tem de continuar e finalmente a dor ir comear a perder a fora. Mas a cicatriz ficar para sempre no seu corao. - Choraram outra vez 
e, afinal, com relutncia, Pilar desligou, ciente de que pela primeira vez na vida conhecia a me. 
       Elizabeth ofereceu-se para assistir aos funerais, mas Pilar disse que no era preciso. Sabia agora como seria doloroso para a me. E pela primeira vez Elizabeth 
Graham no discutiu. - Mas se precisar de mim estarei a em seis horas. Lembre-se disso.  s telefonar. Eu a amo - dissera mais uma vez antes de desligar e Pilar 
sentiu-se como se acabasse de receber uma ddiva. Era uma pena que tivesse sido provocada por uma tragdia. E durante todo esse tempo, seu filho acordava e dormia 
e chorava querendo a me e, assim que Brad ou Pilar o pegavam no colo, ficava quieto. Era como se j os conhecesse.
       - Que nome lhe daremos? - perguntou Brad naquela noite. No tinham pensado ainda no nome para o irmo de Grace.
       - Eu gosto de Christian Andrew. O que voc acha? - perguntou ela, com tristeza. O segundo nome era pelo irmo do qual s tomara conhecimento naquele dia.
       - Eu gosto - disse ele, sorrindo entre as lgrimas. Tinham chorado durante todo o dia. O dia pelo qual haviam esperado tanto tempo fora um dia de luto.
       - A vida  uma bno ambgua, no ? - disse Pilar a Brad, sentado ao seu lado no quarto do hospital. Ele no queria deix-la e Pilar disse que ele deveria 
ir para casa. Brad parecia mais do que exausto. Mas o marido no queria ir e a enfermeira mandou levar outra cama para o quarto, achando que eles precisavam ficar 
juntos.
       -  tudo to estranho. Voc espera uma coisa e recebe outra. Pagamos um preo por tudo na vida, eu acho... tanto pelo que  bom, quanto pelo que no , pelos 
sonhos e pelos pesadelos... tudo vem numa nica embalagem. O pior  que s vezes  difcil distinguir um do outro.
       Christian lhes fora destinado para ser a alegria e Grace, o sofrimento, e os dois chegaram juntos. Ela queria tanto ter filhos e agora perdera um antes mesmo 
de chegar a senti-lo. Isso parecia tirar o brilho de tudo e, no entanto, ao olhar para Christian, que dormia tranqilo ao seu lado, a vida parecia infinitamente 
digna de ser vivida. E Brad, olhando para ela, perguntava a si mesmo como Pilar tinha suportado tudo aquilo. Fora a pior agonia que ele jamais vira e, no fim de 
tudo, haviam perdido um beb.
       - A vida  cheia de surpresas - filosofou Brad. - Quando Natalie morreu, pensei que jamais iria me refazer. - Referia-se  me de Nancy e Todd. - E ento, 
de repente, l estava voc, cinco anos depois... e tenho sido to feliz. A vida tem meios para nos abenoar depois de nos punir. Imagino que Christian vai ser a 
nossa bno. Sofremos um golpe tremendo... mas talvez ele venha a ser a maior alegria da nossa vida.
       - Espero que sim - disse Pilar, suavemente, olhando para o filho, tentando esquecer o rostinho que nunca mais veria... a filha que estaria sempre na sua lembrana.
       



CAPTULO  - 20 -
       
       
 N
o dia em que levaram Christian para casa, ele chorou com vontade. Pilar vestiu-o de azul, embrulhou-o cuidadosamente no cobertorzinho tambm azul e o segurou contra 
o peito, enquanto a enfermeira a levava para baixo na cadeira de rodas. Uma atendente a acompanhava com uma mesinha de rodas cheia de flores. Todos sabiam que ela 
teve gmeos, mas ningum sabia o que tinha acontecido. Por isso, todos os presentes chegaram aos pares, um azul, outro rosa, bonecas e ursinhos de pelcia, meninos 
e meninas de pano.
       Brad levou-os para casa e deitaram Christian no bero no quarto reservado para os bebs. O outro bero ele j havia levado para a garagem. No queria que 
Pilar o visse. Mas ela sabia que tinha estado ali e, quando abriu a gaveta para guardar a camisolinha de Christian, viu com um aperto no corao, as roupinhas cor-de-rosa. 
Era quase insuportvel. Tanta tristeza e tanta alegria ao mesmo tempo. Era impossvel esquecer que haviam sido dois bebs e que agora tinham s um. Como poderia 
esquecer Grace?
       Christian era uma criana calma e fcil de alimentar. Pilar tinha muito leite, como se nem seu corpo soubesse ainda que s havia um beb. E, sentada na cadeira 
de balano, ela o amamentou sob o olhar carinhoso de Brad.
       - Voc est bem? - perguntou Brad, preocupado com ela. Pilar no parecia a mesma desde o nascimento das crianas e a morte de Grace. E Brad quase se arrependia 
de haver concordado em terem filhos. Era doloroso demais.
       - No sei - disse ela, com franqueza. Olhou para o filho no colo, to perfeito, to pequeno, gorducho e saudvel. Ele era tudo que Grace no fora. Ela parecia 
perfeita tambm, mas infinitamente menor. - Fico tentando compreender por que aconteceu. Teria sido culpa minha? Alguma coisa que eu fiz? Alguma coisa que comi, 
ou ser que dormi sempre do mesmo lado... Por qu? - Olhou para o marido com os olhos cheios de lgrimas.
       - Precisamos ter cuidado para no culp-lo, para no fazer com que ele sinta mais tarde que de certa forma no foi suficiente para ns, que queramos mais. 
Suponho que era isto exatamente o que devamos ter - disse ele, inclinando-se para beijar Pilar e depois Christian. Ele era um belo beb e tinha direito a uma vida 
de alegrias, no ao peso de ter vindo ao mundo como uma bno ambgua.
       - Eu no o culpo - disse Pilar, chorando. - S queria que ela tambm estivesse aqui. - Mas talvez ela estivesse, como uma doce presena, um esprito de amor. 
Era to pouca coisa para acreditar. Depois de um sono agitado, Pilar acordou como se tivesse um peso de cinco mil quilos no peito, quando lembrou o que iriam fazer 
naquele dia. Depois do banho de chuveiro, amamentou Christian logo que ele acordou. Seus seios estavam enormes e o leite espirrava no rosto dele logo que comeava 
a mamar. Christian fazia umas caretas to engraadas que ela riu.
       - O que est acontecendo aqui? - perguntou Brad, entrando no quarto com um terno escuro. Era a primeira vez que Pilar ria nos ltimos dias e era um alvio 
para ele.
       Pilar apontou para o beb e Brad riu tambm.
       - Ele parece um daqueles antigos atores de comdias, quando a garrafa de soda espirrava no seu rosto... o Harpo Marx, por exemplo.
       - Para ser franco - disse Brad, sorrindo -, acho que parece mais o Zeppo.
       Brad estava surpreso com a intensidade do que sentia pelo filho, o quanto j o amava e o quanto sentia a perda da irm. Christian parecia to inocente, to 
dependente deles - Brad no se lembrava dos seus outros filhos terem parecido to pequenos, to desamparados, ou talvez o beb sentisse que alguma coisa terrvel 
acontecera. Onde estava ela? Christian tinha vivido nove meses ao lado da irm e agora ela no estava mais ali. Devia ser uma experincia traumtica para ele. Nem 
o beb estava isento da dor que sentiam.
       - Voc j vai se vestir? - perguntou Brad.
       Pilar fez um gesto afirmativo e ps o beb no bero. Teria sido perfeito se fosse s ele desde o comeo. Teria sido um momento de pura alegria, mas agora 
tudo era diferente, um misto de felicidade e tristeza, de agonia e beleza, tudo agridoce e to sensvel ao toque. Pilar ficou parada, olhando para o filho, pensando 
no quanto o amava. Mas tinha amado Grace tambm... Vira o rostinho dela assim que ela nasceu e essa imagem estaria gravada para sempre no seu corao, bem como o 
nome que lhe dera.
       Pilar escolheu um vestido preto de l, sem cintura, que tinha usado para trabalhar, no comeo da gravidez. Meias, sapatos e casaco pretos. J vestida, olhou 
para o marido.
       - Parece errado, no parece? Devamos estar comemorando e, em vez disso, estamos enlutados. - E teriam de contar a tanta gente, a todos que sabiam que teriam 
gmeos.
       Christian no acordou quando Brad o ps na cadeirinha no carro. Foram para All Saints by lhe Sea, a Igreja Episcopal, em Montecito, em completo silncio. 
Pilar no podia dizer nada que amenizasse a dor dos dois, nada que mudasse a realidade. Ele ps a mo carinhosamente sobre a dela quando estacionou o carro. Nancy, 
Tommy e Marina os esperavam. Tommy estava de terno escuro, como Brad, e Nancy, com o filho no colo, parecia arrasada. No conseguiu arranjar uma baby-sitter e teve 
de levar Adam, que gritou de alegria quando viu Brad e Pilar. Foi como um raio de luz na escurido daquele momento.
       O pastor os conduziu para dentro da igreja. Pilar no estava preparada para o que viu. O caixo pequenino rodeado por lrios-do-vale, esperando no altar. 
Era uma mentira, uma farsa, uma brincadeira cruel da natureza primeiro prometendo tanto e depois tirando a metade. Um soluo subiu aos seus lbios.
       - No vou agentar - murmurou para Brad, cobrindo o rosto com as mos e Nancy comeou a chorar baixinho. Tommy tirou Adam dos braos dela enquanto Christian 
dormia tranqilamente na cadeirinha.
       O pastor lembrou que eram esses os caminhos de Deus - dar e tirar, rir e chorar, combinar alegria com tristeza -, mas a dor foi quase insuportvel quando 
ele abenoou a menininha que fora deles apenas por um momento.
       Mais tarde, quando acompanharam o carro fnebre at o cemitrio, Pilar tinha a impresso de estar vivendo um sonho, um pesadelo. Quando pararam, imveis e 
silenciosos, perto do tmulo, sob a chuva, Pilar comeou a entrar em pnico.
       - No posso deix-la aqui... - disse com voz embargada, segurando com fora o brao de Brad. 
       Tommy e Marina estavam ao lado deles. Nancy ficara no carro com os meninos porque no podia suportar mais. Era horrvel demais, triste demais, aquele caixo 
pequenino e a expresso nos rostos de Brad e Pilar. Um momento terrvel para todos, especialmente para os pais de Grace. Brad parecia ter mil anos e, quando o pastor 
deu a bno final, ele pensou que Pilar desmaiaria.
       Pilar ps um pequeno buqu de rosas sobre o caixo e ficou imvel, soluando. Ento, Brad a levou para o carro, mas ela parecia nem saber para onde estava 
indo. A caminho de casa, ela continuou em silncio, olhando para a Brad e Marina, um de cada lado, seguravam suas mos, mas Pilar no tinha nada mais para dizer. 
Brad no sabia como consol-la, no sabia o que dizer ou o que fazer. Embora tivesse sentido a perda de Grace, a menina era uma estranha para ele. Mas Pilar abrigara 
os dois durante nove meses e conhecia-os intimamente.
       - Quero que voc v para a cama - disse ele, quando chegaram em casa, depois de terem deixado os outros. E Christian comeou a acordar quando o puseram no 
bero.
       Pilar foi para o quarto, deitou-se vestida como estava, toda de preto, em silncio, olhando para o teto, pensando por que no tinha morrido no lugar de Grace. 
Por que no temos escolha? Quem ela teria escolhido? O que teria feito? Imediatamente compreendeu que teria se sacrificado alegremente para poupar a vida dos dois. 
Tentou explicar isso para Brad e ele ficou furioso. Por mais que sentisse a perda da filha, no iria querer perder Pilar.
       - No compreende o quanto precisamos de voc?
       - No, voc no precisa - disse ela, com voz inexpressiva.
       - E o que me diz dele? - Indicou o quarto ao lado. - No acha que ele tem direito a ter me? - Pilar deu de ombros, sem saber a resposta.
       - No fale desse modo - pediu Brad.
       Mas Pilar passou o dia todo deprimida, no comeu, no bebeu, seu leite diminuiu e Christian ficou agitado. Era como se todos quisessem chorar e reclamar, 
mas no soubessem como, muito menos Pilar, que tinha vontade de gritar at perder o flego, mas estava ali parada, imvel, olhando para Christian.
       - Ele precisa de voc e eu tambm - lembrou Brad, outra vez. - Voc tem de se controlar.
       - Por qu? - Pilar sentou-se perto da janela e olhou para fora.
       Finalmente Brad a convenceu a tomar um ch e um pouco de sopa e o leite voltou ao normal. Pilar levantou-se vrias vezes durante a noite, sem acordar Brad. 
Fora um dia cansativo para ele tambm e Brad estava desesperadamente preocupado com Pilar. E, quando o dia clareou, ela sentou-se na cadeira de balano, segurando 
Christian e pensando nos seus dois filhos. Eram entidades separadas, pessoas diferentes, vidas separadas, cada um com seu destino e seu futuro. Christian tinha um 
caminho a seguir e a misso de Grace fora cumprida mais cedo. Talvez fosse simples assim, talvez seu destino fosse estar com eles apenas por um momento. E, de repente, 
Pilar compreendeu que precisava deixar que Grace partisse. Podia tocar sua lembrana uma vez ou outra, mas no podia ficar com ela. E Brad tinha razo, Christian 
precisava dela. Esperava que ele vivesse muitos e muitos anos e queria estar ao seu lado pelo menos uma parte desse tempo. Pela primeira vez em cinco dias Pilar 
encontrou a paz, ali sentada com o filho no colo. A beno era deles, no como tinham esperado ou pensado que seria, mas como tinha de ser e ela devia aceit-la.
       - J est de p? - perguntou Brad parado, sonolento, na porta do quarto. - Tudo bem?
       Pilar sorriu e fez um gesto afirmativo, muito calma, muito triste e muito bela.
       - Eu te amo - disse, em voz baixa, e Brad sentiu que alguma coisa tinha mudado nela, alguma coisa no fundo da sua alma tinha se partido, quase a destruindo, 
mas agora comeava lentamente a se recuperar.
       - Eu tambm te amo. - Brad queria dizer o quanto sentia, mas no tinha mais palavras, apenas sentimento.
       Ento Christian acordou. Bocejou, abriu os olhos e olhou intensamente para os dois.
       - Ele  um cara e tanto - disse Brad, com orgulho.
       - Voc tambm - disse Pilar e beijaram-se  primeira luz do sol.



CAPTULO  - 21 -
       
       
 N
aquele ano Todd passou o Dia de Ao de Graas com eles. Queria conhecer Christian, que estava com duas semanas e meia, e sabendo do que tinham passado queria estar 
um pouco com Brad e Pilar.
       Pilar estava bem melhor, embora precisasse ainda perder alguns quilos e no tivesse disposio para sair. Sentia-se fraca demais para enfrentar os amigos 
e explicar tudo que tinha acontecido. Era muito doloroso.
       A princpio, Todd no sabia o que dizer, mas depois disse que sentia muito a perda da menina.
       - Que provao terrvel - disse ele. Brad estava muito abalado quando lhe contara ao telefone sobre o nascimento de Christian e a morte de Grace, mas parecia 
estar sendo muito mais difcil para Pilar.
       - Foi horrvel - admitiu ela, em voz baixa.
       Mas aos poucos o ferimento estava cicatrizando. A dor era profunda ainda quando pensava em Grace, mas ela comeava a sentir prazer em cuidar de Christian. 
Falava com a me com mais freqncia e muita coisa do que ela dizia ajudava bastante Pilar. Era uma grande ajuda falar com algum que tinha passado pela mesma coisa, 
mas Pilar ainda no queria que Elizabeth a visitasse. No queria ver ningum, nem a me.
       - Nada  to simples quanto parece - disse para Todd, pensando na agonia da primeira gravidez e do aborto... e agora Grace. 
       - Voc pensa que tudo vai ser fcil, tudo como voc planejou, mas nem sempre  assim. Precisei viver 44 anos para aprender isso e, acredite, no foi fcil. 
- Ter um filho no fora a coisa mais fcil da sua vida. No teve dificuldades com a carreira nem com o casamento com Brad. Mas de certo modo ela sentia que tudo 
valera a pena. No trocaria Christian por coisa alguma no mundo. Pagaria at mesmo duas vezes aquele preo, embora esse pensamento a deixasse perplexa.
       - O que vocs dois esto fazendo? - perguntou Brad, sentando-se ao lado deles. - Resolvendo os problemas da vida?
       - Eu ia dizer a ele o quanto o amo. - Pilar sorriu para Todd e depois para o marido. - Todd  uma pessoa muito especial.
       - Uma boa mudana para quem foi um garoto terrvel.
       Todd era muito bonito, parecido com o pai.
       - Voc era legal - concedeu Brad, com um sorriso zombeteiro. - E no  de todo mal agora. Como vai Chicago?
       - Bem. Mas estou pensando em voltar para a costa oeste. Arranjar um emprego em Los Angeles ou So Francisco, talvez.
       - Meu Deus, isso  que eu chamo ter pouca sorte! - brincou Brad outra vez.
       - Vamos adorar ter voc mais perto sorriu Pilar.
       - Posso tomar conta de Christian nos fins de semana.
       - No conte com isso - disse Nancy para Pilar, aproximando-se deles. - Sempre que Todd fica em nossa casa, nunca acorda com os berros de Adam, deixa o sobrinho 
brincar com o telefone e d cerveja para ele, "para ficar mais manso".
       - Isso mesmo, e ele adora, certo? Quem  o tio favorito dele?
       - Ele no tem muita escolha - disse Nancy.
       Um pouco mais tarde, Christian acordou chorando, querendo a me. Pilar subiu para amament-lo e, quando voltou, Nancy, Tommy e Todd estavam de sada. Todd 
a abraou e a beijou carinhosamente.
       - Voc est tima e meu irmo  maravilhoso.
       - Voc tambm . Foi bom ter vindo.
       Todd olhou para ela e sorriu. Sim, eles tinham passado por momentos difceis e seu pai parecia envelhecido e extremamente preocupado com Pilar, mas certamente 
iria se recuperar. E Pilar estava muito triste, mas sem dvida reagindo bem.
       - Acha que eles vo repetir a dose? - Todd perguntou a Nancy quando voltavam para a casa dela.
       - Duvido - respondeu a irm, acrescentando confidencialmente: - Uma amiga foi consultar uma especialista em fertilidade, em Los Angeles, e viu Pilar e papai 
no consultrio. Eles no disseram nada, mas creio que no foi fcil para Pilar engravidar. Os dois fingiram que foi uma grande surpresa, mas no foi. Acho que foi 
trabalho pesado. E, agora, esse sofrimento todo com a morte do beb.
       Todd gostava de Pilar e sentia muito por ela.
       - Eu no sei - disse ele -, mas acho que os dois acham que valeu a pena. - Olhou o sobrinho que dormia ao seu lado, na cadeirinha. - Talvez valha... quem 
sabe?
       Nancy virou-se para trs, olhou o filho e fez um gesto afirmativo. 
       
* * *

       Em Santa Monica, Beth estava regando um peru enorme no forno, pela ltima vez, quando Charlie chegou com um peru de chocolate para Annie e flores para Beth 
pr no centro da mesa de Ao de Graas.
       - Nossa! O que  isto? - exclamou Beth, surpresa e comovida. Charlie era sempre to atencioso. Estavam saindo juntos h nove meses e Beth jamais conhecera 
algum igual. Ele cozinhava, dava presentes, comprava mantimentos para as duas, levava-as para passear e comer fora, ficava horas lendo para Annie. Era exatamente 
o tipo de pessoa com quem ela sonhara e que nunca havia encontrado. Era um sonho realizado e Annie o adorava.
       - Feliz Dia de Ao de Graas para vocs duas! - disse Charlie com um largo sorriso, entregando as flores. Annie comeou a desembrulhar o peru de chocolate.
       - Posso comer agora? - perguntou ela e a me disse que podia comer um pedacinho e deixar o resto para depois do jantar. Annie comeu a cabea da ave, enquanto 
Charlie beijava sua me.
       - Posso ajudar? - perguntou ele, mas Beth disse que estava tudo pronto.
       Dessa vez ela quis fazer o jantar para ele e h muitos anos no caprichava tanto. Geralmente ela e Annie comiam num restaurante, ou na casa de amigos. Beth 
ficava deprimida fazendo o jantar s para as duas no Dia de Ao de Graas. Mas nesse ano tinha muito que agradecer. Estavam to felizes desde que Charlie entrara 
em suas vidas! Era como se ele apagasse a lembrana dos tempos difceis, endireitando tudo outra vez. Beth sentia que algum se importava com ela e que no estava 
mais sozinha. No tinha mais o peso do mundo nos ombros.
       Quando Annie ficava doente, Charlie a ajudava a tratar dela e, quando teve problemas com o senhorio, pediu para Charlie resolver. Durante uma greve no hospital 
ele chegou a emprestar dinheiro para ela. Beth pagou logo que voltou a trabalhar. Charlie era uma pessoa incrvel. E naquele outono ele comeou a ajudar um orfanato 
e ainda jogava beisebol com os garotos nas manhs de sbado. E sempre falava sobre o que aqueles meninos significavam para ele e que ainda pensava em adotar um garoto 
quando tivesse dinheiro suficiente.
       Beth estava completamente apaixonada por ele, que era muito bom para ela, mas Charlie sequer insinuava planos para o futuro. Ele ainda achava que no tinha 
o direito de se casar. Beth dizia que o fato de ele no poder ter filhos no significava nada para ela e que, mesmo que Charlie no se casasse com ela, ele tinha 
o direito de saber que muitas mulheres se considerariam felizes em ter um marido como ele, com ou sem filhos.
       Na ltima vez em que falaram no assunto, Beth havia perguntado:
       - Qual  o problema? - Annie estava dormindo e os dois acabavam de fazer amor. Sua vida sexual era extraordinria e era difcil acreditar que ele no podia 
ter filhos. Mas Beth sabia que uma coisa no garantia a outra. - No sei por que voc faz disso um cavalo de batalha. Uma poro de gente no pode ter filhos. E 
da? E se eu fosse estril? Seus sentimentos mudariam em relao a mim?
       Pela primeira vez Charlie pensou nisso e teve de admitir que no.
       - Eu lamentaria, porque voc  to boa com as crianas e deveria ter filhos... mas a amaria do mesmo modo - disse ele e mudaram de assunto. Sempre tinham 
tanta coisa para conversar quando estavam juntos.
       No Dia de Ao de Graas, os trs conversaram sem parar durante todo o tempo. O peru estava delicioso, bem com o pur de batatas, as ervilhas e o recheio. 
Beth tinha feito o melhor possvel por ele e admitiu timidamente que Charlie cozinhava melhor.
       - De jeito nenhum - disse ele, sorrindo. - Estava fantstico. - E o melhor de tudo era que estavam juntos.
       Depois, saram para uma longa caminhada, com Annie correndo em torno deles e, quando chegaram em casa, ela estava exausta.
       Charlie e Beth levaram Annie para a cama s oito horas e depois assistiram  TV, comendo pipoca feita por Charlie. No meio do primeiro filme, Charlie quis 
fazer amor e deitaram-se no sof da sala, como dois garotos, at esquecerem completamente o que estavam vendo na televiso. Annie estava dormindo profundamente e 
eles foram para o quarto de Beth, nas pontas dos ps, um momento depois estavam nus na cama, abraados, ardendo de paixo.
       - Meu Deus... Charlie - disse Beth, ofegante ainda. - Como consegue fazer isso comigo?
       Nunca tinha sido assim para ela. E era maravilhoso para Charlie tambm, porque ele a amava muito e a desejava e dessa vez sabia que podia confiar, que ela 
no o faria sofrer. Trs anos antes Barbie o havia deslumbrado, mas agora sabia que ela no era a mulher certa para ele. Agora sabia uma poro de coisas e pensava 
de modo muito diferente. Beth mudara sua vida e at sua opinio sobre filhos. Ela o fez pensar em como reagiria se ela no pudesse ter filhos. E de repente compreendeu 
que no teria nenhuma importncia, que ele a amaria de qualquer forma e que Beth tinha direito a uma vida completa, tivessem filhos ou no. Charlie j no se sentia 
culpado e parou de pensar no que no poderia ter, no que no poderia oferecer a ela. Tinha tanto a dar a Beth e agora, mais do que nunca, era o que ele queria fazer.
       - Quero perguntar uma coisa a voc - disse ele naquela noite e, quando ela ergueu o rosto, ele pensou no quanto Annie se parecia com a me. - Primeiro, quero 
dizer que a amo muito.
       Beth estremeceu nos braos dele. Sabia que Charlie acreditava que no tinha o direito de se casar com ningum e talvez fosse dizer que estava indo embora, 
que tudo fora muito bom, mas estava acabado. Seus olhos encheram-se de lgrimas e Beth no queria ouvir.
       - Voc no precisa dizer nada. - Beth tinha esperana de desencoraj-lo. - Sabe que eu o amo. - Ficou calada, rezando para que ele no dissesse o que ela 
temia, mas Charlie continuou, muito srio.
       - Eu quero perguntar uma coisa a voc.
       - Por qu? - Os olhos azuis de Beth pareciam enormes.
       - Porque voc  importante para mim e eu no tenho o direito de prender sua vida como se me pertencesse.
       - No seja bobo... Eu... Ns nos damos muito bem... Eu prefiro estar com voc a estar em qualquer outro lugar... Charlie, no...
       - No o qu? - perguntou ele, espantado.
       - No v embora. - Ela o abraou e comeou a chorar como uma garotinha.
       Charlie olhou-a, atnito.
       - Acha que estou com jeito de quem vai a algum lugar? No se trata de ir, mas de ficar. - Sorriu, comovido com a reao dela.
       - Voc vai ficar? - Beth afastou-se um pouco para v-lo melhor, os olhos cheios de lgrimas.
       - Eu gostaria. Gostaria que voc ficasse tambm. Eu ia perguntar... - Hesitou por uma frao de segundo e continuou: - Beth, quer casar comigo?
       O sorriso de Beth ia de orelha a orelha e ela o beijou com tanto ardor que a cama tremeu.
       - Sim, quero - disse ela, quando parou para respirar, e os dois rolaram na cama, rindo felizes.
       - Nossa! Como eu te amo! Quando?... - Ento, Charlie ficou preocupado.
       - Tem certeza? Mesmo sabendo que no podemos ter filhos.
       - Queria saber ao certo. Beth tinha o direito de recusar.
       - Pensei que amos adotar - disse ela, calma.
       -  mesmo? Quando resolvemos isso?
       - Voc disse que gostaria de adotar um menino, talvez dois.
       - Mas isso era se eu ficasse solteiro. Agora tenho voc e Annie. Voc concordaria em adotar Beth?
       - Acho que eu gostaria sim. - Ficou pensativa por um momento e depois disse: - Daramos um lar a quem realmente precisa, em vez de pr mais uma criana no 
mundo... Sim, acho que eu gostaria muito...
       - Fale sobre o casamento primeiro. Quando?
       - Eu no sei - disse Beth, com um largo sorriso. - Amanh. Na prxima semana. Vou tirar uma semana de frias antes do Natal.
       - No Natal - sorriu Charlie, feliz. - E esquea as frias. Quero que voc deixe aquele emprego. No quero que trabalhe  noite depois de casada. Pode trabalhar 
meio perodo, enquanto Annie est na escola, ou estudar enfermagem, como voc quer. - Seria apenas um ano de estudo e ele poderia arcar com as despesas, pois estava 
se saindo bem com as comisses.  - Ento, ser no Natal. - Sorriu outra vez, abraou-a e num instante seu corpos confirmaram a deciso que acabavam de tomar.




CAPTULO  - 22 -
       

 C
harlie e Beth casaram-se no Dia de Natal na Igreja Metodista Unida, em Westwood, e Annie foi a nica testemunha. Deram uma pequena recepo para alguns amigos num 
restaurante local. Mark compareceu,  claro, com sua nova namorada e tudo correu exatamente como eles queriam. Nada de festa no Bel Air, nada de convidados animados. 
Charlie no queria se mostrar para ningum. Tinha uma mulher e uma vida de verdade e uma garotinha que agora era sua tambm. J tinham conversado a respeito e Annie 
queria ser adotada por ele, passando a se chamar Annie Winwood.
       Os trs foram a San Diego para a lua-de-mel. Foram ao zoolgico, visitaram a base naval, hospedaram-se num pequeno hotel que Charlie conhecia e davam longos 
passeios na praia. Exatamente o que Charlie sempre havia sonhado, sem nunca encontrar, at Beth mudar tudo para ele.
       Ela deixara o emprego no hospital e conseguira outro na secretaria da escola de Annie. Tudo correra s mil maravilhas. E, em setembro do ano seguinte, ela 
voltaria a estudar e faria o curso de enfermagem.
       - Voc est to feliz quanto eu? - perguntou ele, quando caminhavam descalos na areia, um dia depois do Natal. Fazia um dia glorioso e a areia, embora fria, 
tinha calor suficiente para Annie andar descala tambm. E ela estava se divertindo, correndo de um lado para o outro.
       - Acho que estou mais feliz. - Beth sorriu. - Eu nunca tive nada igual a isto. Meu primeiro casamento foi horrvel. Eu era muito jovem e muito ignorante e 
ele um perfeito canalha. Eu no consegui tirar nada decente de tudo aquilo.
       - Sim, conseguiu - disse Charlie, sorrindo. - Conseguiu Annie.
       -  verdade. Acho que h sempre uma beno em todas as coisas que nos acontecem. Mas s vezes demoramos muito para ver.
       Charlie ainda no sabia ao certo qual fora a bno no seu casamento com Barbie, que fora um desapontamento completo. Mas pelo menos estava acabado e ele 
tinha toda uma vida diante de si com Beth. Uma vida que oferecia tudo que ele sempre desejou: companheirismo, ternura, sinceridade, amor.
       - Eu espero fazer voc to feliz quanto voc me fez nestes dias - disse ele, abraando-a, e Beth sorriu, sentindo-se segura ao lado dele.
       - Voc j fez - murmurou ela, olhando para Annie que acenava para eles.
       - Venham! - A voz dela chegou envolta na brisa. - Esperem s para ver as conchas.
       Sorrindo, eles correram para ela, brincando de pegar e rindo, enquanto o sol no cu de inverno parecia sorrir tambm, abenoando-os. 
       
* * *

       O Natal na casa dos Goode era sempre catico e nesse ano foi muito mais. Gayle e Sara, os maridos e as crianas estavam presentes, e Andy e Diana tinham voltado 
ao rebanho com Hilary,  claro. Diana, com oito meses e meio de gravidez, praticamente se arrastava de um lado para o outro, atrs de Hilary que ficava de p segurando-se 
em qualquer coisa, pondo em perigo a prpria vida com tudo que estivesse ao seu alcance.
       - Ela d um bocado de trabalho, no ? - observou a me de Diana. Hilary era uma criana linda e feliz, uma fonte inesgotvel de felicidade para Diana e Andy. 
Todos lembravam-se de que no ano anterior eles no estavam presentes, que seu casamento estava quase desfeito e que tinham ido para o Hava para tentar recuper-lo. 
Foi depois disso, Diana havia lembrado alguns dias atrs, que Wanda, a me de aluguel, entrara e sara na vida dos dois com a mesma rapidez. Mas a separao que 
se seguiu foi boa para eles. E ento, de repente, surgira Hilary e agora o beb deles mesmos. Aquilo tudo era estonteante, mas Diana jamais se sentira to feliz. 
Tudo corria bem com a gravidez e ela sentia-se tima. Diana pedira uma extenso da licena-maternidade, naturalmente, e a revista a prorrogara at junho.
       - Como vo as coisas? - perguntou Jack, enquanto Diana e Gayle arrumavam a mesa e Sam tentava acalmar uma briga entre seus dois filhos mais velhos.
       - Muito bem - sorriu Diana, lembrando do dia em que Jack suspeitara da sua gravidez e ela pensara que ele estava louco.
       - Eu diria que  para qualquer momento.
       - Faltam ainda trs semanas - disse Diana, como quem sabe das coisas. Jack balanou a cabea e franziu a testa, olhando para a barriga dela e apalpando-a 
delicadamente.
       - Eu diria que est mais perto do que voc pensa, Di. A criana est praticamente entre os seus joelhos. H quanto tempo no vai ao mdico?
       - Ora, pelo amor de Deus, Jack - censurou-o Gayle. - Pare de bancar o Dr. Kildare. Hoje  Natal.
       - Estou s dizendo que est mais perto do que ela pensa. O beb j desceu e aposto o que quiserem que a cabea j est encaixada.
       - , foi o que voc me disse e eu s tive o beb dali a duas semanas e meia.
       - Tudo bem. - Jack deu de ombros, erguendo as mos no ar. - Eu sou humano. - Voltou-se para Diana outra vez: - Falo srio. Deve consultar o mdico. Francamente, 
eu acho que o beb j desceu. Nunca vi uma barriga to baixa numa mulher que no est em trabalho de parto.
       - Talvez eu esteja sem saber - riu Diana. Depois tranqilizou o cunhado, dizendo que iria ao mdico na segunda-feira.
       - Coisas mais estranhas j aconteceram - riu ele e foi tomar um drinque com o sogro. No estava de planto e podia se divertir.
       As trs ajudaram a me, como sempre, e quando o peru ficou pronto, os homens o destrincharam e os pratos foram para a mesa. Todos estavam satisfeitos nesse 
ano, as crianas animadas, mas bem-comportadas, no havia nenhuma briga de famlia e todos j tinham perdoado a Diana sua exploso do ano anterior no Dia de Ao 
de Graas. Quando souberam do seu problema, todos compreenderam. At Gayle estava mais carinhosa.
       - Voc no est comendo nada - disse Gayle, olhando para Diana.
       - No tem mais espao - sorriu ela, olhando depois para Andy, que conversava com Seamus. O irlands sempre tinha boas histrias para contar. Nem sempre eram 
verdadeiras, mas eram sempre divertidas.
       Quando a me foi at a cozinha para apanhar mais comida, Diana a acompanhou. Disse que estava com dor nas costas e precisava ficar de p. Andy notou que ela 
parecia preocupada. Ento viu que Jack a observava atentamente e quem ficou preocupado foi ele. Diana voltou massageando as costas e vrias vezes retornou  cozinha 
para ajudar a me.
       - Ela est muito inquieta - murmurou Sam no ouvido de Jack.
       Jack concordou com um gesto e voltou ao seu jantar. Alguns minutos depois, Diana sentou-se outra vez e parecia estar bem. Estava falando e rindo e, de repente, 
parou e olhou para o marido. Mas Andy no percebeu. Ela pediu licena, subiu a escada e, dentro de alguns minutos voltou, sem dizer nada.
       S depois da sobremesa Diana disse a Sam que no estava se sentindo bem e que iria se deitar um pouco. Pediu  irm que no dissesse nada a ningum, era s 
um pouco de m digesto.
       Uma hora depois, Andy procurou a mulher e no a encontrou.
       - Algum viu Di? - perguntou ele.
       - Ela est l em cima, vomitando - disse a sobrinha mais velha e Andy subiu correndo a escada.
       - Ser que no  melhor voc ir at l tambm? - perguntou Gayle ao marido.
       - Pensei que voc tinha dito para eu no me intrometer.
       - Talvez eu estivesse enganada.
       - Provavelmente ela comeu demais. Eles me chamaro se precisarem de mim. E mesmo que ela esteja em trabalho de parto,  seu primeiro filho. Pode ir a p para 
o hospital que ainda sobra tempo.
       - Muito engraado. Voc sabe como eu sou. - Gayle mal tivera tempo de chegar ao hospital com seus dois primeiros filhos e o ltimo nasceu na cozinha da sua 
casa.
       - Todo mundo  diferente - lembrou ele e Diana havia provado isso, tendo um diagnstico de esterilidade e engravidando dois anos depois.
       Mas Andy desceu alguns minutos depois, muito preocupado.
       - Ela diz que est enjoada - informou ele a Jack. - Vomitou algumas vezes e agora diz que est com clicas terrveis. Eu queria lev-la para casa, mas ela 
no quer fazer nenhum movimento. Disse que deve ter tido uma distenso nas costas ajudando a me a servir o jantar.
       Jack ouviu, subiu a escada de dois em dois degraus e Andy foi atrs dele.
       - Oi - disse Jack, alegre. - Ouvi dizer que voc foi atacada por um peru selvagem.
       - Estou me sentindo pssima. - Diana fez uma careta e levou a mo  barriga.
       - Pssima como? - perguntou Jack, mas j sabia, e ficou atnito quando apalpou a barriga dela. Estava dura como pedra e Diana estava no meio de uma violenta 
contrao.
       - Estou enjoada e com uma poro de clicas... e minhas costas...
       - Torceu o corpo e segurou na beirada da cama, com outra contrao. - Acho que estou com uma intoxicao alimentar... mas no diga isso a mame... - Olhou 
para ele, muito plida.
       - Pois eu acho que no. Acho que est em trabalho de parto.
       - Agora? - perguntou Diana, surpresa e um pouco amedrontada. - Mas no est na hora.
       - Para mim, parece que est.
       Enquanto ele falava, Diana teve outra contrao e Jack comeou a marcar o tempo. Esta foi longa e forte e ele tentou calcular os intervalos entre as dores. 
Teve a resposta dentro de dois minutos. Olhou para Andy, com a testa franzida.
       - H quanto tempo est tendo essas dores? - perguntou para Diana.
       - Eu no sei - respondeu ela, vagamente. - Tive uma espcie de clica o dia inteiro. Pensei que fosse alguma coisa que comi... - Sentia-se embaraada, compreendendo 
que nem sabia que estava em trabalho de parto.
       - Nenhum sinal da ruptura da bolsa? - O parto estava muito mais adiantado do que Jack imaginara e ele gostaria de examin-la, mas no sabia se Diana concordaria.
       - No - respondeu ela, com voz firme. - S um filetezinho desde ontem de manh, nada demais - explicou ela, ansiosa para provar que ele estava errado. Lembrava 
ainda o que Jane passara quando Hilary nasceu e sentiu medo.
       Jack olhou para Andy, depois para Diana e sorriu.
       - Doura, aquilo era a sua bolsa d'gua. No precisa ser um jorro. Acho melhor irmos para o hospital agora mesmo.
       Mas Diana segurou o brao dele e quase gritou.
       - No!... No! Isto no  nada... - A contrao foi to violenta dessa vez que a deixou quase sem ar, ofegante, e a seguinte chegou um minuto depois. Diana 
gritou: - Oh, Deus... o que  isto? Andy... Jack...
       Jack correu para o banheiro para lavar as mos e voltou com uma pilha de toalhas que ps imediatamente debaixo dela. Depois a examinou cuidadosamente e Diana 
nem percebeu, agarrada no brao de Andy e gritando. Estava lutando contra cada contrao e no podia controlar o que sentia. Ento, de repente, aquela terrvel sensao 
de um calor escaldante e uma presso para baixo como se um trem expresso tentasse sair do seu corpo.
       - Oh, Deus... est chegando... - Em pnico, olhou para o marido, depois para o cunhado, e Jack fez um gesto afirmativo para Andy.
       - Sim, est, Di. - Diana estava para ter o beb e Jack falou calmamente: - Andy, ligue para 911. Chame uma ambulncia, diga que uma mulher est tendo um filho 
aqui e que h um mdico presente. Ela est bem, tudo est correndo normalmente. O trabalho de parto deve ter comeado ontem e ela no sabia.
       - No me deixe - gritou Diana, quando Andy fez meno de se afastar, mas Jack, com um gesto, mandou que ele fosse telefonar. Assim que Andy saiu, Diana teve 
outra contrao e o trem expresso passou por dentro dela outra vez. Jack separou bem as pernas dela e j podia ver a cabea do beb.
       - Empurre, Di... vamos... Empurre esse beb para fora...
       - No posso... di demais... oh, Deus... no pra mais... no pra mais...
       Diana queria que a dor parasse, mas esta prosseguia e ento Andy estava outra vez ao seu lado e disse que a ambulncia estava a caminho. Ningum l embaixo 
sabia o que estava acontecendo. No havia tempo para ir lhes contar.
       - Faa fora, Di - ordenou Jack, quando chegou a outra contrao. O intervalo era de um minuto e ento, de repente, Diana gemeu surdamente, Jack segurou-lhe 
as pernas bem separadas e Andy os ombros, e o beb quase voou de dentro dela para as mos de Jack. Um menino grande, com cabelos louros, incrivelmente parecido com 
Hilary. Diana olhou para ele, atnita, o beb olhou para ela e Andy riu. Era a imagem mais bonita que ela j tinha visto.
       Diana deitou a cabea no travesseiro, sorriu para Andy e disse quanto o amava.
       - Ele  to bonito... e parecido com voc. - Olhou para Jack com um sorriso trmulo. - Acho que voc estava certo, afinal...
       Os trs riram e o beb chorou alto, seguro pelo tio. Nesse momento, ouviram a sirene da ambulncia.
       - Acho melhor voc descer e explicar tudo - disse Jack para Andy, que estava ainda em estado de choque. Tinham vindo para a ceia de Natal e voltariam para 
casa com um beb. Nada acontecia exatamente como eles planejavam.
       Andy correu para baixo e contou que acabava de ganhar um filho, no momento em que seu sogro abria a porta para os paramdicos.
       - Ela est l em cima - disse Andy e todos olharam atnitos para ele.
       - Diana est bem? - perguntou o pai, e as irms e a me subiram a escada correndo. Seamus bateu nas costas de Andy.
       - Voc no faz as coisas pela metade, certo, garoto?
       - Acho que no.
       Jack j fizera toda a limpeza necessria e cortou o cordo umbilical com os instrumentos levados pelos paramdicos. Um momento depois, Diana e o beb estavam 
agasalhados, sobre a maca, a caminho da porta e da ambulncia, com todo mundo correndo ao lado dela, desejando boa sorte. Andy agradeceu a Jack e Diana acenou para 
ele. De certo modo, fora pior e melhor do que ela imaginara. Pelo menos havia sido rpido, mas a dor fora to intensa que a surpreendera.
       Estavam na ambulncia e Sam prometeu levar Hilary para casa e ficar com ela at Diana voltar do hospital.
       - Vocs sem dvida sabem como animar uma festa - murmurou o pai de Diana, fechando a porta. Depois abriu uma garrafa de champanhe e serviu a todos, inclusive 
as crianas.
       - A Andrew, Diana e a seus filhos - brindou ele, solenemente.
       A me de Diana estava com os olhos cheios de lgrimas, lembrando como fora difcil para eles. Mas agora tinham dois belos filhos.
       Ele  a coisinha mais fofa que eu j vi - murmurou Diana para Andy, na ambulncia, segurando o beb contra o peito, enrolado em cobertores. Ele estava com 
os olhos arregalados, olhando para tudo, curioso e interessado. Era muito vivo e parecia calmo.
       - Espere at Hilary ver o beb - disse Andy e os dois sorriram.
       Tinham tido dois filhos em nove meses, passando do nada  riqueza, de uma hora para a outra.
       Diana e o beb passaram s aquela noite no hospital e no dia seguinte estavam em casa, com Hilary. Eles o chamaram de William, o nome do pai dela.
       - Willy e Hillie - brincou Diana, olhando para o filho que dormia no bero num canto do seu quarto.
       De repente, viam-se rodeados por crianas, como h tanto tempo desejavam, e parecia uma chuva de bnos.
       - Voc  maravilhosa - sussurrou Andy, beijando-a.
       - Voc tambm. - Ela o beijou, esquecidos a agonia, o vazio e a dor. No entanto, ela sabia que tudo aquilo fazia esse momento infinita mente mais precioso.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO  - 23 -
       

 A
ndy e Diana passaram o terceiro aniversrio de casamento no Hava, na praia de Waikiki, com os dois filhos. Hilary estava ento com quatorze meses, j andando e 
descobrindo as coisas. Ela amava a areia, o mar, os pais e o irmozinho William, um beb gorducho e saudvel, com cinco meses e meio, que ria, murmurava e balbuciava. 
E os dois tomavam todo o tempo dos pais. Exigiam a ateno de Diana dia e noite e, dentro de duas semanas, ela estaria voltando para a Today's Home, mas para trabalhar 
apenas meio perodo. Ainda no tinha certeza se queria deixar as crianas, mas queria ajudar Andy. Com dois filhos, assim de repente, precisavam do dinheiro. E Diana 
trabalhando apenas meio perodo significaria para eles a privao de muitas coisas, mas ela no queria ficar longe das crianas o tempo todo e Andy concordava com 
ela. Tinham esperado muito por aquilo para que agora no aproveitassem. Diana j temia as horas que teria de passar longe dos filhos e j havia providenciado uma 
pessoa para tomar conta deles quando estivesse trabalhando. Era uma moa alem, que parecia limpa e cuidadosa e falava bem o ingls. S ficaria com as crianas quando 
Diana estivesse no trabalho. O resto do tempo, Diana e Andy se encarregariam deles.
       Andy fora promovido naquele ano e estava sobrecarregado de trabalho, mas era um prazer voltar para casa e ver o contentamento nos olhos de Diana, sabendo 
que seus sonhos tinham se realizado, mesmo quando a mquina de lavar quebrava, havia fraldas por todos os lados e Hilary acabava de fazer um novo mural no quarto 
com o batom de Diana. A vida deles seria repleta dessas coisas por alguns anos, e eles sabiam o quanto esse tempo seria precioso e como passaria depressa.
       - Que belos filhos vocs tm - cumprimentou-os uma mulher de Ohio, certa tarde na praia, no Hava. - Que idade eles tm?
       - Cinco e quatorze meses. - Diana sorriu e a mulher olhou espantada para ela. Era muito menos do que os treze meses de diferena entre os seus prprios filhos, 
que tinham dado um trabalho insano.
       -  uma sorte ter filhos com tanta facilidade - disse a mulher. Vocs tm uma famlia maravilhosa. Deus os abenoe.
       - Muito obrigada - agradeceu Diana, sorrindo para o marido. 
       
* * *

       Em junho, Charlie levou Beth e Annie a Rosemead, seguindo de carro por uma rua tranqila na direo de um prdio tristonho, de tijolos. H muito que Charlie 
esperava por esse dia e estacionou o carro em silncio. Beth ps a mo sobre a dele, ela sabia, e Annie sentiu que aquele era um momento importante. Sabia o que 
estava acontecendo e por que estavam ali, mas no tinha certeza de compreender completamente.
       Entraram e sentaram-se. Tinham comeado a preparar os papis h seis meses e tudo parecia estar em ordem. Charlie e Beth j haviam estado naquele prdio algumas 
vezes para reunies e aconselhamento. A instituio era dirigida por freiras que usavam ainda o antigo hbito. 
       O simples fato de estar ali trazia lembranas dolorosas a Charlie. Estivera em muitas instituies iguais quela. Lembrava-se do rudo das contas do rosrio 
quando elas andavam e as noites frias e escuras na cama estreita, os pesadelos terrveis e o medo constante de morrer sufocado pela asma. Aquelas lembranas deixavam-no 
com falta de ar e instintivamente ele procurou a mo de Beth e a de Annie, enquanto esperavam.
       - Voc j esteve aqui? - perguntou Annie e Charlie fez um gesto afirmativo. - Eu no gosto deste lugar.
       - Ningum gosta, meu bem. Por isso estamos aqui.
       Eles iriam salvar uma alma solitria daquela priso. J conheciam o menino e Charlie gostou dele assim que o viu. Tinha quatro anos e era muito pequeno para 
a idade, disseram as freiras. Teve problemas respiratrios quando nasceu e sentiam muito ter de dizer ao Sr. Winwood que ele sofria de asma. Se ele no quisesse, 
tinham uma menina... mas, para espanto das freiras, Charlie disse que o menino estava timo para eles.
       Depois de investigarem Charlie e Beth e de conversarem com Annie, os assistentes sociais ficaram satisfeitos, certos de que o menino teria um bom lar. No 
se tratava de um beb, o que podia dificultar as coisas. Deveriam estar preparados para um perodo de adaptao.
       - Sabemos de tudo isso - disse Charlie, delicadamente.
       Sim, ele sabia, sabia como tinha tentado desesperadamente, cozinhando e arrumando a casa e implorando para que o amassem. E sempre o levavam de volta. E ele 
sabia o que era voltar para a cama de ferro, para o colcho cheio de calombos, para as correntes de ar frio dos dormitrios que ele tanto temia.
       Uma porta se abriu e duas freiras surgiram. Charlie ouviu o rudo das contas dos rosrios, viu os rostos bondosos e, atrs das saias negras, o menino, pequenino 
e plido, com cala de veludo, uma suter velha azul-marinho e tnis desbotados. O menino ruivo olhou para os trs, apavorado. Passara a manh toda escondido no 
quarto, temendo que eles no viessem. J sabia que as pessoas nunca cumpriam o que prometiam. As freiras disseram que os Winwood viriam naquele dia, mas ele no 
acreditou. Sabia que iriam lev-lo para algum lugar, mas no sabia para onde, nem por quanto tempo.
       - Os Winwood vieram buscar voc - disse a freira mais alta, em voz baixa, e Bernie fez que sim com a cabea. 
       Sim, estavam ali para lev-lo e ele ainda no podia acreditar. Olhou interrogativamente para os trs, como se no acreditasse no que estava vendo e Charlie 
caminhou at ele.
       - Oi, Bernie - disse Annie e ele respirou fundo, com um chiado. H alguns dias estava tendo acessos de asma e morria de medo de que eles mudassem de idia 
se soubessem.
       Charlie olhou para ele com lgrimas nos olhos e depois estendeu os braos e Bernie caminhou lentamente para ele.
       - Vamos lev-lo conosco, para nossa casa... para ficar para sempre e sempre. Quero ser seu pai... esta  a sua me agora... e Annie  sua irm.
       - Como uma famlia de verdade? Para sempre? - Bernie olhou desconfiado para ele. Foi o que lhe disseram, mas com quatro anos apenas, ele no entendia completamente 
e no conseguia acreditar. S esperava que eles voltassem e o levassem outra vez para passear. Era tudo que queria.
       - Isso mesmo - disse Charlie, com o corao disparado. Lembrava-se exatamente do que sentia em tais situaes, s que nunca tinham dito isso para ele. Diziam 
apenas que ficaria com eles por algum tempo e que depois o levariam de volta. Nunca se comprometiam.
       - Eu no tenho famlia. Sou rfo.
       - No  mais, Bernie.
       Estavam dispostos a um compromisso e as freiras garantiram que Bernie era um menino maravilhoso, muito inteligente, de bom gnio e muito amoroso. Fora dado 
pela me no nascimento e j havia estado em vrios lares adotivos provisrios, mas ningum o adotara por causa da asma. Dava muito trabalho.
       - Posso levar o meu urso? - perguntou Bernie, cautelosamente, olhando para Annie. Ela sorriu.
       - Claro. Pode trazer tudo que  seu - disse Charlie.
       - Ns temos muitos brinquedos bons em casa - garantiu Annie e o menininho ruivo deu um passo na direo de Charlie, como que atrado por ele, sentindo que 
tinham muita coisa em comum e que estaria a salvo com ele.
       - Eu gostaria de ir com voc - disse, olhando para o homem que queria tanto ser seu pai.
       - Muito obrigado - respondeu Charlie, tomando-o nos braos, querendo dizer que o amava. No disse nada, porm, ficou ali abraado com ele e Bernie, aninhado 
no seu peito, pronunciou a palavra que Charlie sempre desejara ouvir.
       - Papai - sussurrou encostando o rosto no peito de Charlie.
       Charlie fechou os olhos e sorriu por entre as lgrimas. Beth e Annie os observavam em silncio. 
       
* * *

       Pilar e Brad passaram o aniversrio de casamento em casa, naquele ano. Sabiam que tinham muito o que agradecer, e muito para pensar. Christian era uma criana 
maravilhosa. Estava com sete meses e era uma alegria completa para os dois. Brad e Pilar o adoravam.
       Pilar contratou uma baby-sitter e voltou a trabalhar depois de quatro meses, mas apenas pela manh. Ela gostava de aparecer no tribunal com Christian no carrinho. 
Brad o mostrava para todo mundo e ningum mais perguntava onde estava o outro beb.
       Fora uma poca longa e difcil, que exigira muito dos dois. Brad sempre dizia que estava satisfeito por tudo que fizeram, mas que no faria outra vez. E Pilar 
dizia brincando que ela sentia falta dos filmes pornogrficos da Dra. Ward. Quando os gmeos nasceram, eles escreveram  mdica, contando que a menina tinha morrido 
e ela respondera com uma carta muito bonita. Pilar lembrava-se do que a Dra. Ward dissera. Que no havia nenhuma garantia e que s vezes a fertilidade, tanto quanto 
a esterilidade, podia ser uma beno ambgua. Foi assim para eles, mas nos ltimos meses a balana comeava a pender para o lado bom. Christian era uma fonte de 
constante prazer e Pilar agradecia a cada momento sua deciso de ter uma famlia antes que no tivesse mais escolha.
       Elizabeth j havia visitado o neto e ficara louca por ele. Foi a primeira
       vez que as duas tiveram prazer em estarem juntas.
       Nancy estava grvida outra vez, esperando que fosse uma menina. Pilar finalmente contou a ela os tratamentos que fizera e Nancy mal podia acreditar que eles 
tivessem feito tudo aquilo. Exigia muita fora, coragem e perseverana.
       - E uma pitada de loucura. Acaba sendo uma espcie de obsesso, como ficar na mesa da roleta at perder tudo ou ganhar uma fortuna.
       - Para mim parece que voc ganhou - disse Nancy, mas as duas sabiam o que aquilo lhe custara e a dor com a perda de Grace. No comeo, ela no conseguia ver 
Christian sem pensar na menina. S agora, com a ddiva do tempo, comeava a se libertar.
       - s vezes eu sinto como se tivesse perdido os primeiros meses de Christian - disse Pilar a Brad certa vez. - Eu estava sofrendo tanto que
       nem me lembro de nada.
       As roupas e os brinquedos da menina estavam no sto, numa caixa marcada "Grace". Pilar no queria d-los a ningum, no queria esquecer, no estava preparada 
para tanto ainda. Mas, no aniversrio de casamento, ela estava bem outra vez e com tima aparncia.
       - Bem, no podemos dizer que foi um ano montono para ns - sorriu ela. No incio do ano anterior soubera que teria gmeos. 
       - Pelo menos este ano voc no est grvida - disse ele, mas mesmo assim ela no queria sair. Gostava de ficar em casa com ele e naquela semana havia preparado 
um caso difcil e trabalhoso e estava exausta. Quando admitiu que estava cansada, Brad disse que ela estava ficando menos resistente. - Eu me lembro das vezes em 
que voc fazia picadinho de mim no tribunal e depois queria ir danar.
       - O que posso dizer? - Pilar deu de ombros. - Tenho dois mil anos de idade.
       - E eu quantos anos tenho ento?
       Pilar riu. Ela estava com 45 e ele com 64, mas Brad parecia mais moo e continuava ativo como sempre. Pilar tinha a impresso de ter envelhecido muito naquele 
ano, mas Brad insistia em dizer a ela que no parecia. S ultimamente andava um pouco abatida, mas ele atribua ao fato de estar ainda amamentando Christian e trabalhando. 
       Pilar tinha esperado tanto tempo que queria aproveitar cada minuto com o filho. Entretanto, duas semanas depois do aniversrio de casamento, ela continuava 
cansada e estava trabalhando em mais trs casos. Um deles era um difcil caso de adoo, que a interessava muito. Os outros eram um processo contra um restaurante 
e uma disputa sobre uma propriedade em Montecito. Os trs eram interessantes e variados e as pessoas muito exigentes.
       Certa noite comentou os trs casos com Brad e ele ficou preocupado com ela. Pilar parecia esgotada e, no meio da conversa, subiu para amamentar o beb.
       Brad entrou no quarto de Christian e perguntou:
       - No acha que est se cansando demais? Talvez seja melhor parar de amamentar ou diminuir o trabalho. - Era raro Pilar parecer to cansada.
       - Estou usando a amamentao como controle de natalidade - disse ela, sorrindo, mas no era verdade. Ela gostava de amamentar Christian e ele estava indo 
muito bem. - Prefiro deixar o trabalho a deixar isto - concluiu, com franqueza. Brad ficava encantado com a unio que via entre a me e o filho.
       - Ento, talvez fosse melhor voc parar de trabalhar at ele crescer mais um pouco.
       Mas Pilar balanou a cabea.
       - No posso fazer isso, Brad. No seria justo para meus scios. Estou sentada sem fazer nada h mais de um ano e agora s trabalho de manh. - No entanto, 
ela levava trabalho para casa todos os dias.
       - Bem, voc parece que est fazendo horas extras. Talvez seja bom consultar um mdico.
       Finalmente, em junho, Pilar foi ao mdico e descreveu seus sintomas. Disse a idade de Christian e que estava ainda amamentando. Infelizmente no havia possibilidade 
de gravidez, porque ela e Brad tinham concordado em no fazer mais nenhum ato herico e a Dra. Ward dissera que, depois dos 45, era quase impossvel. No ficava 
menstruada desde o nascimento do filho, o que, segundo diziam, era devido ao fato de estar amamentando. s vezes ela imaginava se nesse meio tempo tinha entrado 
na menopausa, o que parecia um tanto estranho, mas coisas mais estranhas j tinham acontecido.
       O mdico fez alguns exames e telefonou para o escritrio informando que ela estava anmica, provavelmente ainda por causa do parto. Receitou ferro, que modificou 
o gosto do leite, e Christian reclamou. Pilar ento deixou de tomar o remdio e esqueceu. O mdico no tinha encontrado nada mais grave e depois de uma semana ela 
estava melhor, at o dia em que foram assistir a uma regata e, de p ao lado de Brad, Pilar olhou para ele de modo estranho e desmaiou.
       Brad ficou apavorado. Pilar voltou ao mdico, foram feitos novos exames e, dessa vez, quando recebeu os resultados, Pilar ficou muda de espanto. Nunca pensou 
que fosse possvel, nunca sequer ousou sonhar com outro filho, mas estava grvida. O mdico telefonou um pouco antes de ela sair do escritrio para amamentar Christian 
e disse que agora ela precisava parar de amamentar. Advertiu tambm sobre os riscos de um aborto na sua idade e sobre todos os outros perigos que ela j conhecia 
to bem. Sndrome de Down, defeitos congnitos, feto natimorto, o verdadeiro campo minado que teria de percorrer para produzir um beb saudvel. E, no fim, iria 
depender da sorte... do destino... ela estar ou no destinada a ter esse filho.
       Pilar entrou no tribunal e o viu bater o martelo anunciando o recesso para o almoo. Estavam julgando um crime e o acusado foi levado pelo meirinho. Brad 
ficou surpreso ao v-la de p, no fundo da sala.
       - Pode se aproximar - disse ele e sua voz ecoou na sala vazia. Pilar caminhou lentamente para ele, lembrando seus dias no tribunal h tanto tempo. Tinham 
se conhecido dezenove anos atrs e haviam percorrido um longo caminho juntos, partilhado tanta coisa, tragdias e prazeres intensos e momentos preciosos. - O que 
tem a dizer em sua defesa? - perguntou ele, severo, e Pilar sorriu para ele, sentindo-se de repente jovem outra vez e achando que a vida era muito engraada.
       - Voc fica uma graa com essa toga - disse ela e Brad sorriu.
       - Quer me visitar no meu escritrio? - disse ele, comum sorriso malicioso.
       - Talvez. Mas antes preciso contar uma coisa. - Brad no iria acreditar.
       - Do que se trata?  uma confisso? Ou um depoimento?
       - Possivelmente ambos... e uma espcie de piada... e talvez um choque... e, no fim, uma beno...
       - Oh, meu Deus! Voc bateu o carro e est tentando me dizer que ele estava mesmo muito velho e que precisamos de um novo.
       - No, mas isso  muito criativo. Vou lembrar na prxima vez que precisar.
       Brad viu o largo sorriso dela e nem por um momento suspeitou do que poderia ser.
       - O que voc fez? - perguntou ele, a voz firme, com vontade de sair de onde estava e beij-la. A sala estava vazia. Eles estavam sozinhos no seu tribunal.
       - No estou muito certa de que se trate do que eu fiz... acho que voc ajudou.
       Brad franziu a testa, sem entender.
       - Acho que voc andou assistindo a filmes pornogrficos outra vez e no me disse nada. - Ela sacudiu o dedo em riste na frente dele.
       Brad deu uma gargalhada e olhou para ela.
       - O que significa isso?
       - Significa, Meritssimo... que, sem recursos hericos, sem hormnios, sem ajuda de ningum, a no ser a sua... eu estou grvida.
       - Voc est o qu? - Brad ficou petrificado.
       - Voc ouviu.
       Brad levantou-se da cadeira e caminhou at ela, sorrindo, sem saber ao certo o que estava sentindo ou por que, sem saber se queria ou no passar por tudo 
aquilo outra vez. Mas, de um modo estranho, estava feliz.
       - Pensei que no amos mais fazer isso - disse, olhando carinhosamente para ela.
       - Eu tambm pensei. Parece que algum resolveu outra coisa.
       -  o que voc quer? - perguntou Brad suavemente. No queria que ela enfrentasse tudo aquilo outra vez contra a vontade.
       Pilar pensara bastante a caminho do tribunal e agora olhou para Brad e disse:
       - Acho que como tudo na vida, como disse a Dra. Ward...  uma espcie de beno ambgua... mas, sim... eu quero...
       Pilar fechou os olhos, Brad a beijou e ficaram abraados por um longo tempo, ele pensando que h muito tempo desejava fazer aquilo, beij-la no tribunal. 
Esperara dezenove anos, mas conseguira.
       







Esta obra  distribuda Gratuitamente pela Equipe Digital Source e Viciados em Livros para proporcionar o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la 
ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente condenvel 
em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.
Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure :
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em 
nosso grupo.




http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource





Impresso no Brasil pelo
Sistema Cameron da Diviso Grfica da
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - 20921-380 Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 585-2000
